
Duas histrias clnicas
(O "Pequeno Hans" e o "Homem dos ratos")















VOLUME X
(1909)




















ANLISE DE UMA FOBIA EM UM MENINO DE CINCO ANOS (1909)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ANALYSE DER PHOBIE EINES FNFJHRIGEN KNABEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1909 Jb. psychoanal. psychopath. Forsch., 1 (1), 1-109.
         1913 S.K.S.N., III, 1-122 (1921), 2 ed.).
         1924 G.S., 8, 129-263.
         1932 Vier Krankengeschichten, 142-281.
         1941 G. W., 7, 243-377.
         1922 'Nachschrift zur Analyse des kleinen Hans', Int. Z. Psychoanal., 8 (3), 321.
         1924 G. S., 8, 264-5.
         1932 Vier Krankengeschichten, 282-3.
         1940 G. W., 13, 431-2.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Analysis of a Phobia in a Fiver-Year-Old Boy'
         1925 C. P., 3, 149-287. - 'Postscrip (1922)', ibid., 288-9.
         (Trad. de Alix e James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  reimpresso, com algumas modificaes e notas adicionais, da verso inglesa publicada pela primeira vez em 1925.
         
         Alguns registros da primeira parte da vida do pequeno Hans j tinham sido publicados por Freud dois anos antes, em seu artigo sobre 'O Esclarecimento Sexual 
das Crianas' (1907c). Nas primeiras edies desse artigo, contudo, referia-se ao menino como 'pequeno Herbert'; mas o nome foi mudado para 'pequeno Hans' depois 
da publicao da presente obra. Este caso clnico tambm foi mencionado, em breve referncia, em outro dos artigos anteriores de Freud, 'Sobre as Teorias Sexuais 
das Crianas' (1908c), publicado pouco tempo antes do presente artigo.  digno de nota que em sua primeira publicao no Jahrbuch este artigo no foi descrito como 
sendo 'da autoria' de Freud, mas como 'comunicado por' ele. Em nota de rodap acrescentada ao oitavo volume dos Gesammelte Schriften (1924), o qual continha este 
caso clnico e os outros quatro longos casos, Freud observa que esse foi publicado com o consentimento expresso do pai do pequeno Hans. Essa nota de rodap encontra-se 
no final das 'Notas Preliminares' ao caso de 'Dora' (1905e, ver em [1], 1972). Muitas das mais importantes teorias debatidas no presente caso clnico j foram publicadas 
no artigo 'Sobre as Teorias Sexuais das Crianas'. Ver Nota do Editor Ingls a esse trabalho, ver em [2], 1976.
         A pequena tabela cronolgica que se segue, baseada em dados extrados do caso clnico, pode ajudar o leitor a acompanhar a histria:
         
         (1903)   (Abril) Nascimento de Hans.
         (1906)   (Aet. 3 - 3 3/4) Primeiros relatos.
         (Aet. 3 1/4 - 3 1/2) (Vero) Primeira visita a Gmunden.
         (Aet. 3 1/2) Ameaa de castrao.
         (Aet. 3 1/2) (Outubro) Nascimento de Hanna.
         (1907)   (Aet. 3 3/4) Primeiro sonho.
         (Aet. 4) Mudana para um novo apartamento.
         (Aet. 4 1/4 - 4 1/2) (Vero) Segunda visita a Gmunden.
         Episdio do cavalo que mordia.
         (1908)    (Aet. 4 3/4) (Janeiro) Episdio da queda do cavalo. Irrupo da fobia.
         (Aet. 5) (Maio) Fim da anlise.
         
         
         INTRODUO
         
         Nas pginas seguintes proponho descrever o curso da doena e o restabelecimento de um paciente bastante jovem. O caso clnico, estritamente falando, no 
provm de minha prpria observao.  verdade que assentei as linhas gerais do tratamento e que numa nica ocasio, na qual tive uma conversa com o menino, participei 
diretamente dele; no entanto, o prprio tratamento foi efetuado pelo pai da criana, sendo a ele que devo meus agradecimentos mais sinceros por me permitir publicar 
suas observaes acerca do caso. Todavia, sua ajuda ultrapassa esta contribuio. Ningum mais poderia, em minha opinio, ter persuadido a criana a fazer quaisquer 
declaraes como as dela; o conhecimento especial pelo qual ele foi capaz de interpretar as observaes feitas por seu filho de cinco anos era indispensvel; sem 
ele as dificuldades tcnicas no caminho da aplicao da psicanlise numa criana to jovem como essa teriam sido incontornveis. S porque a autoridade de um pai 
e a de um mdico se uniam numa s pessoa, e porque nela se combinava o carinho afetivo com o interesse cientfico,  que se pde, neste nico exemplo, aplicar o 
mtodo em uma utilizao para a qual ele prprio no se teria prestado, fossem as coisas diferentes.
         O valor peculiar desta observao, contudo, reside nas consideraes que se seguem. Quando um mdico trata de um neurtico adulto pela psicanlise, o processo 
que ele realiza de pr a descoberto as formaes psquicas, camada por camada, capacita-o, afinal, a construir determinadas hipteses quanto  sexualidade infantil 
do paciente; e  nos componentes dessa ltima que ele acredita haver descoberto as foras motivadoras de todos os sintomas neurticos da vida posterior. Estabeleci 
essas hipteses em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d) e estou ciente de que, a um leitor leigo, elas parecem to estranhas quanto parecem, para 
um psicanalista, no ser controvertidas. Mas at mesmo um psicanalista pode confessar seu desejo de ter uma prova mais direta, e menos vaga, desses teoremas fundamentais. 
Seguramente deve existir a possibilidade de se observar em crianas, em primeira mo e em todo o frescor da vida, os impulsos e desejos sexuais que to laboriosamente 
desenterramos nos adultos dentre seus prprios escombros - especialmente se tambm  crena nossa que eles constituem a propriedade comum de todos os homens, uma 
parte da constituio humana, e apenas exagerada ou distorcida no caso dos neurticos.
         Tendo em vista essa finalidade, venho por muitos anos encorajando meus alunos e meus amigos a reunir observaes da vida sexual das crianas - cuja existncia, 
via de regra, tem sido argutamente desprezada ou deliberadamente negada. Entre os materiais que me chegaram s mos como resultado desses pedidos, os relatos que 
recebi em intervalos regulares sobre o pequeno Hans logo comearam a assumir uma posio proeminente. Seus pais estavam ambos entre meus mais chegados adeptos e 
haviam concordado em que, ao educar seu primeiro filho, no usariam de mais coero do que a que fosse absolutamente necessria para manter um bom comportamento. 
E,  medida que a criana se tornava um menininho alegre, bom e vivaz, a experincia de deix-lo crescer e expressar-se sem intimidaes prosseguiu satisfatoriamente. 
Agora passarei a reproduzir os apontamentos sobre o pequeno Hans feitos por seu pai, tais quais o recebi; tambm me absterei evidentemente de fazer qualquer tentativa 
de desvirtuar a navet e a franqueza da criana, como tal, com a realizao de emendas convencionais.
         Os primeiros relatrios a respeito de Hans datam de um perodo em que ele estava para completar trs anos de idade. Naquela poca, por intermdio de vrias 
observaes e perguntas, ele demonstrava um interesse particularmente vivo por aquela parte do seu corpo que ele costumava chamar de seu 'pipi'. Tanto que certa 
vez perguntou a sua me:
         Hans: 'Mame, voc tambm tem um pipi?'
         Me: 'Claro. Por qu?'
         Hans: 'Nada, eu s estava pensando.'
         Como a mesma idade, certa vez entrou num estbulo e viu ordenharem uma vaca. 'Oh, olha!, e est saindo leite do pipi dela!'
         Essas primeiras observaes j comeam a despertar a expectativa de que muita coisa, se no a maior parte, de tudo que o pequeno Hans nos revela, terminar 
por tornar-se tpica do desenvolvimento sexual das crianas em geral. Certa vez expus o ponto de vista de que no havia necessidade de se ficar to horrorizado por 
encontrar numa mulher a idia de chupar o rgo masculino. Argumentei que esse impulso repelente tem uma origem das mais inocentes, de vez que derivava do ato de 
sugar o seio materno; e, prosseguindo, nessa conexo o bere da vaca desempenha papel de importncia como imagem intermediria, sendo em sua natureza uma mamma e, 
em sua forma e posio, um pnis. A descoberta do pequeno Hans confirma a ltima parte da minha assero.
         Entretanto, seu interesse pelos pipis de modo algum era um interesse puramente terico; como era de esperar, tambm o impelia a tocar em seu membro. Aos 
trs anos e meio, sua me o viu tocar com a mo no pnis. Ameaou-o com as palavras: 'Se fizer isso de novo, vou chamar o Dr. A. para cortar fora seu pipi. A, com 
o que voc vai fazer pipi?'
         Hans: 'Com meu traseiro.'
         Ele deu essa resposta sem ainda possuir qualquer sentimento de culpa. Contudo, foi essa a ocasio da aquisio do 'complexo de castrao', cuja presena 
vemo-nos com tanta freqncia obrigados a inferir na anlise de neurticos, ainda que todos eles relutem violentamente em admiti-la. H muita coisa importante a 
dizer sobre a significao desse elemento na vida de uma criana. O 'complexo de castrao' tem deixado atrs de si vestgios acentuados em mitos (e no somente 
nos mitos gregos); em uma passagem da minha Interpretao de Sonhos [1900a], e em outros trabalhos, abordei o assunto do papel que ele desempenha.
         
         Aproximadamente com a mesma idade (trs anos e meio), o pequeno Hans, de p em frente  jaula dos lees, em Schnbrunn, gritou com voz alegre e animada: 
'Eu vi o pipi do leo.'
         Boa parcela da importncia dos animais nos mitos e contos de fadas se deve ao fato de mostrarem abertamente suas partes genitais e funes sexuais s crianas 
pequenas e indagadoras. No pode haver dvida quanto  curiosidade sexual de Hans; esta, contudo, tambm despertou nele o esprito de indagao e favoreceu que ele 
chegasse a um autntico conhecimento abstrato.
         Certa vez, estando na estao ferroviria (tinha trs anos e nove meses), viu gua saindo de uma locomotiva. 'Olha', disse ele, 'A locomotiva est fazendo 
pipi. Mas onde est o pipi dela?'
         Depois de pequena pausa, acrescentou com alguma reflexo: 'Um cachorro e um cavalo tm pipi; a mesa e a cadeira, no.' Assim tomou conscincia de uma caracterstica 
essencial de diferenciao entre objetos animados e inanimados.
         A nsia por conhecimento parece ser inseparvel da curiosidade sexual. A curiosidade de Hans orientava-se em particular para seus pais.
         Hans (trs anos e nove meses): 'Papai, voc tambm tem um pipi?'
         Pai: 'Sim, claro.'
         Hans: 'Mas nunca vi, quando voc tirava a roupa.'
         
         Noutra ocasio, ele estava olhando insistentemente sua me despida, antes de ir para a cama. 'Para que voc est olhando para mim desse modo?', ela perguntou.
         Hans: 'Eu s estava olhando para ver se voc tambm tem um pipi.'
         Me: 'Claro. Voc no sabia?'
         Hans: 'No. Pensei que voc era to grande que tinha um pipi igual ao de um cavalo.'
         Essa expectativa do pequeno Hans merece ser lembrada; ela ter importncia mais tarde.
         Mas o grande evento na vida de Hans foi o nascimento de sua irmzinha Hanna, quando ele tinha exatamente trs anos e meio. Seu comportamento naquela ocasio 
foi anotado pelo pai, no ato: 's cinco da manh', escreve, 'comeou o trabalho de parto e a cama de Hans foi transferida para o quarto ao lado. Ele acordou s sete 
horas e, ao ouvir sua me gemer, perguntou: "Por que  que a mame est tossindo?" E aps um intervalo: "A cegonha vai vir hoje, com certeza."
         'Naturalmente lhe disseram, muitas vezes, nos ltimos dias, que a cegonha ia trazer uma menina ou um menino; e ele, corretamente, fez a conexo dos sons 
inabituais dos gemidos com a chegada da cegonha.
         'Mais tarde ele foi levado para a cozinha. Vendo a maleta do mdico no saguo, perguntou: "O que  isto?" "Uma maleta", foi a resposta. Ao que ele declarou 
com convico: "A cegonha chega hoje." Depois do nascimento do beb, a parteira entrou na cozinha e Hans a ouviu pedindo que fizessem ch. Hans, ouvindo, disse: 
"Eu sei! Mame tem que tomar ch porque ela est tossindo." Foi ento levado para o quarto da me. Contudo, no olhou para ela, mas sim para as bacias e outros recipientes, 
cheios de sangue e gua, que ainda estavam espalhados pelo quarto. Apontando para a comadre suja de sangue, observou, num tom de surpresa: "Mas no sai sangue do 
meu pipi."
         'Tudo que ele disse mostra que ele relaciona aquilo que  estranho na situao com a chegada da cegonha. Olha para tudo que v, com olhar de desconfiana 
e atento, e no se pode questionar o fato de que suas primeiras dvidas sobre a cegonha criaram razes.
         'Hans tem muitos cimes da recm-chegada e, sempre que algum a elogia, dizendo que  um beb lindo e assim por diante, ele logo diz, com desprezo: "Mas 
ela ainda no tem dentes." De fato, ao v-la pela primeira vez, estava muito surpreso por ser ela incapaz de falar e resolveu para si que isso era devido a sua falta 
de dentes. Nos primeiros dias ele foi, naturalmente, colocado visivelmente no segundo plano. Adoeceu subitamente com uma forte dor de garganta, e durante a sua febre 
ouviram-no dizer: "Mas eu no quero uma irmzinha!"
         'Uns seis meses mais tarde ele havia superado seu cime, e sua afeio fraternal pelo beb era igualada apenas pelo seu sentimento de superioridade quanto 
a ela.
         'Um pouco mais tarde, Hans observava sua irm de sete dias, em quem davam banho. "Mas o pipi dela ainda  bem pequenininho", observou; e acrescentou,  
guisa de consolo: "Quando ela crescer, ele vai ficar bem maior."
         
         'Com a mesma idade (trs anos e nove meses) Hans fez seu primeiro relato de um sonho: "Hoje, quando eu estava dormindo, pensei que estava em Gmunden com 
Mariedl."
         'Mariedl era a filha de treze anos de nosso senhorio e costumava brincar freqentemente com ele.'
         Quando o pai de Hans contava o sonho a sua me, na presena dele, ele o corrigiu dizendo: 'No foi com Mariedl, mas sim bem a ss com Mariedl.'
         Nessa conexo sabemos o seguinte: 'no vero de 1906, Hans estava em Gmunden e costumava andar pelas cercanias, o dia inteiro, com os filhos do senhorio. 
Ao deixarmos Gmunden, pensamos que ele estaria bastante aborrecido por ter de se afastar e transferir-se de volta  cidade. Para surpresa nossa, no foi o que aconteceu. 
Ele parecia estar contente com a mudana, e durante vrias semanas dizia bem poucas coisas sobre Gmunden. Somente depois de algumas semanas  que comearam a surgir 
reminiscncias - muitas vezes coloridas com vvidos traos - do tempo que passara em Gmunden. Nas quatro ltimas semanas, mais ou menos, estivera elaborando em fantasias 
essas reminiscncias. Ele imagina que est brincando com as outras crianas, com Berta, Olga e Fritzl; fala com eles como se realmente estivessem com ele, e  capaz 
de se entreter dessa maneira, horas a fio, de uma s vez. Agora que ganhou uma irm e est obviamente ocupado com o problema da origem das crianas, ele sempre chama 
Berta e Olga de "suas filhas"; certa vez acrescentou: "minhas filhas Berta e Olga tambm foram trazidas pela cegonha." O sonho, ocorrendo ento, depois de uma ausncia 
de seis meses de Gmunden, evidentemente deve ser entendido como expresso do anseio de retornar para l.'
         At aqui tenho citado seu pai. Anteciparei o assunto que vem a seguir, acrescentando que Hans, quando fez sua ltima observao sobre serem as crianas 
trazidas pela cegonha, estava contradizendo alto uma dvida que se insinuava, oculta, dentro de si.
         
         Seu pai fez, por acaso, uma anotao de muitas coisas que mais tarde redundaram em algo de valor inesperado. [Ver a partir de [1]] 'Desenhei uma girafa 
para Hans, que mais tarde esteve em Shnbrunn diversas vezes. Ele me disse: "Desenhe tambm o pipi dela." "Desenhe voc mesmo", respondi; ao que ele acrescentou 
essa linha  minha figura (ver Fig. 1).
         
         
         
         Fig. 1
         
         
          Ele comeou desenhando um trao pequeno, e ento acrescentou mais um pedacinho, observando: "O pipi dela  mais comprido."
         'Hans e eu passamos detrs de um cavalo que estava urinando, e ele disse: "O cavalo tem o pipi embaixo, como eu."
         'Olhando a irmzinha de trs meses, no banho, disse com voz de compaixo: "Ela ganhou um pipi bem pequenininho."
         'Deram-lhe uma boneca para brincar e ele a despiu. Examinou-a com cuidado e disse: "O pipi dela  to pequenininho."'
         Como j sabemos, essa frmula possibilitou-lhe continuar acreditando em sua descoberta [da distino entre objetos animados e inanimados] (ver em [1] e 
[2]).
         
         Todo investigador corre o risco de incorrer em um erro ocasional. Para ele  alguma consolao se, como o pequeno Hans no exemplo a seguir, no se enganar 
sozinho, mas puder citar um uso lingstico comum em seu favor. Isso porque Hans viu, certa vez, um macaco em seu livro de ilustraes, e apontando para o seu rabo 
enrolado, disse: 'Papai, olha o pipi dele!' [Cf. em [1].]
         Seu interesse por pipis levou-o a inventar um jogo especial todo prprio. 'Dando para o saguo de entrada existe um lavatrio e tambm um depsito escuro 
para guardar madeira. J faz algum tempo que Hans, entrando nesse armrio de madeira, vem dizendo: "Vou para o meu banheiro." Certa vez olhei ali dentro para ver 
o que ele estava fazendo no depsito escuro. Ele me mostrou seu membro e disse: "Estou fazendo pipi." Isso quer dizer que ele tem "brincado" no banheiro. O fato 
de isso ter a natureza de uma brincadeira revela-se no apenas por ele s estar pretendendo fazer pipi, mas tambm porque ele no vai ao banheiro, o que, em ltima 
anlise, seria muitssimo mais simples, preferindo, contudo, o armrio, que ele chama de "seu banheiro".'
         Estaramos fazendo uma injustia a Hans se tivssemos de delinear apenas os aspectos auto-erticos de sua vida sexual. Seu pai possui informaes detalhadas 
a nos fornecer acerca do tema de suas relaes amorosas com outras crianas. Destas podemos discernir a existncia de uma 'escolha de objeto', como no caso de um 
adulto; e tambm, temos de confessar, um notvel grau de inconstncia e uma disposio  poligamia.
         'No inverno (com trs anos e nove meses de idade) levei Hans ao rinque de patinao e o apresentei s duas filhinhas de meu amigo N., as quais tinham cerca 
de dez anos de idade. Hans sentou-se ao lado delas, ao passo que elas, na conscincia de sua idade mais madura, olhavam de cima para aquele garotinho, com desprezo; 
ele as contemplava com admirao, embora esse procedimento no lhes causasse maior impresso. Apesar disso, Hans, mais tarde, sempre falava delas como "as minhas 
meninas". "Onde esto as minhas meninas? Quando vo vir as minhas meninas?" E por algumas semanas ficou atormentando-me com a pergunta: "Quando  que vou voltar 
ao rinque para ver as minhas meninas?"'
         'Um primo, de cinco anos, veio visitar Hans, que nessa poca chegara  idade de quatro anos. Hans constantemente punha os braos ao redor dele, e um dia, 
quando lhe dava um daqueles ternos abraos, disse: "Eu gosto tanto de voc."'
         Esse  o primeiro trao de homossexualidade com que nele deparamos, mas no ser o ltimo. O pequeno Hans parecer ser um modelo positivo de todos os vcios.
         
         'Tendo Hans quatro anos, mudamos para um novo apartamento. Uma porta dava da cozinha para um balco, de onde se podia olhar para um apartamento no outro 
lado do ptio. Nesse apartamento Hans descobriu uma menina de sete ou oito anos de idade. Ele ia sentar-se no degrau que dava para o ptio, de modo a admir-la e 
l ficava horas a fio. s quatro horas da tarde, particularmente, quando a menina chegava da escola, no se podia ret-lo na sala, e nada era capaz de induzi-lo 
a abandonar seu posto de observao. Certa vez, quando a menina deixou de aparecer  janela na hora habitual, Hans ficou bastante inquieto, e molestava os empregados 
com perguntas - "Quando a menina vai vir? Onde est a menina?", e assim por diante. Enfim, quando ela de fato aparecia, ele ficava felicssimo e jamais retirava 
os olhos do apartamento do lado oposto ao nosso. A violncia com que esse "amor  longa distncia" o afetou deve-se explicar pelo fato de ele no ter companheiros 
de folguedos de qualquer dos dois sexos. Passar boa parte do tempo com outras crianas constitui, claramente, parte do desenvolvimento normal de uma criana.
         'Hans conseguiu alguma companhia desse tipo quando, pouco mais tarde (tinha perto de quatro anos e meio), mudamo-nos para Gmunden, para passarmos as frias 
de vero. Em nossa casa l, seus companheiros eram os filhos do nosso senhorio: Franzl (cerca de doze anos), Fritzl (oito), Olga (sete) e Berta (cinco). Alm deles, 
havia as filhas do vizinho, Anna (dez) e mais duas outras meninas, de nove e sete anos, cujos nomes esqueci. O favorito de Hans era Fritzl, que ele sempre estava 
abraando, e a quem fazia declaraes do seu amor. Certa vez, quando lhe perguntaram: "Das meninas, de quem voc gosta mais?", ele respondeu: "Fritzl!" Ao mesmo 
tempo tratava as meninas de forma muitssimo agressiva, masculina e arrogante, abraando-as e beijando-as com sinceridade - um procedimento ao qual Berta em particular 
no fazia objeo. Certa noite, quando Berta saa da sala, ele lhe ps os braos ao redor do pescoo e lhe disse com voz muito apaixonada: "Berta, voc  um amor!" 
A propsito, isso no o impedia de beijar tambm os outros e de confessar a eles seu amor. Gostava tambm de Mariedl, de quatorze anos, outra filha do senhorio que 
costumava brincar com ele. Uma noite disse, quando lhe punham na cama: "Quero que Mariedl venha dormir comigo." Quando lhe foi dito que isso no podia ser, ele falou: 
"Ento ela vai dormir com a mame ou com o papai." Disseram-lhe que tambm isso seria impossvel, mas que Mariedl tinha que dormir com o pai e a me dela. Seguiu-se 
ento o seguinte dilogo:
         'Hans: "Ah, ento vou descer e dormir com Mariedl."
         'Me: "Voc quer mesmo sair de junto da mame e dormir l embaixo?"
         'Hans: "Mas subo de novo amanh de manh para tomar caf e fazer coc."
         'Me: "Est bem, se voc quer mesmo deixar o papai e a mame, v ento pegar seu casaco e suas calas e... adeus!"
         'Hans, com efeito, pegou suas roupas e se dirigiu para a escada, para ir dormir com Mariedl; mas,  suprfluo dizer, foi buscado de volta.
         '(Por trs desse seu desejo, "Quero que Mariedl durma conosco", evidentemente residia um outro desejo: "Eu quero que Mariedl" (com quem ele gostava tanto 
de estar) "faa parte de nossa famlia." O pai e a me de Hans, todavia, tinham o hbito de lev-lo para a cama deles, embora apenas ocasionalmente; e no h dvida 
de que estar ao lado deles haja despertado nele sentimentos erticos; assim  que tambm seu desejo de dormir com Mariedl tinha um sentido ertico. Deitar na cama 
com seu pai e sua me era, para Hans, uma fonte de sentimentos erticos, do mesmo modo que para qualquer outra criana.)'
         Apesar de seus arroubos de homossexualidade, o pequeno Hans, face ao desafio de sua me, portou-se como um homem de verdade.
         'Tambm no prximo exemplo Hans disse a sua me: "Sabe, eu gostaria tanto de dormir com a menina." Esse episdio nos divertiu bastante, pois Hans de fato 
se comportava como um adulto apaixonado. Assim, nesses ltimos dias, uma linda menina, com cerca de oito anos, tem vindo ao restaurante onde fazemos refeies. Naturalmente 
Hans se apaixonou por ela na mesma hora. Ele fica constantemente se virando na sua cadeira, para lanar a ela olhares furtivos; acabando de comer, vai postar-se 
nas vizinhanas dela, de modo a flertar com ela; contudo, se acha que est sendo observado, ruboriza-se. Se seus olhares so correspondidos pela menina, ele logo 
olha para outra direo, com expresso de vergonha. Seu comportamento , naturalmente, um prazer enorme para qualquer pessoa que esteja comendo no restaurante. Todo 
dia, quando  levado l, diz: "Vocs acham que a menina vai l hoje?" E quando finalmente ela aparece, ele fica bem vermelho, exatamente como uma pessoa adulta ficaria 
num caso assim. Certo dia, aproximou-se de mim com a face resplandescente e murmurou no meu ouvido: "Papai, eu sei onde a menina mora. Eu a vi subindo as escadas 
em tal e tal lugar." Enquanto trata as meninas em casa com agressividade, nesse outro seu caso ele surge no papel de um admirador platnico e lnguido. Isso talvez 
seja devido ao fato de as outras meninas de casa serem crianas de aldeia, ao passo que a outra  uma jovem dama com refinamento. Conforme j mencionei, certa vez 
me disse que gostaria de dormir com ela.
         'No desejando deixar Hans naquele estado extenuado ao qual fora levado por sua paixo pela menina, providenciei que se conhecessem e convidei a menina 
para vir v-lo no jardim depois que ele tivesse terminado sua sesta,  tarde. Hans estava to excitado com a expectativa da vinda da menina, que pela primeira vez 
no conseguiu dormir de tarde e ficou se revirando na cama, inquieto. Quando sua me perguntou "Por que voc no est dormindo? Voc est pensando na menina?", ele 
disse "Sim", como uma expresso de felicidade. E quando chegou em casa, vindo do restaurante, disse para todo o mundo de casa: "Sabe, a minha menina vem ver-me hoje." 
Mariedl, de quatorze anos, relatou que ele ficava repetidamente perguntando a ela: "Olha, voc acha que ela vai ser boa para mim? Voc acha que ela vai beijar-me, 
se eu beij-la?", e assim por diante.
         'Mas choveu  tarde, de modo que no se deu a visita, e Hans consolou-se com Berta e Olga.'
         Outras observaes, feitas tambm na poca das frias de vero, sugerem que todas as espcies de novos processos evolutivos estavam ocorrendo no menino.
         'Hans, quatro anos e trs meses. Nessa manh a me de Hans lhe deu seu banho dirio, como de hbito, secando-o e aplicando-lhe talco. Quando a me lhe passava 
talco em volta do seu pnis, tomando cuidado para no toc-lo, Hans lhe disse: "Por que  que voc no pe seu dedo a?"
         'Me: "Porque seria porcaria."
         'Hans: "Que  isso? Porcaria? Por qu?"
         'Me: "Porque no  correto."
         'Hans: (rindo) "Mas  muito divertido."
         
         Na mesma poca, mais ou menos, Hans teve um sonho, que contrastava admiravelmente com a audcia que mostrara perante sua me. Foi seu primeiro sonho que 
se tornou irreconhecvel devido  distoro. A interveno de seu pai, contudo, conseguiu elucid-lo.
         'Hans, quatro anos e trs meses, Sonho. Nessa manh, Hans acordou e disse: "Sabe, ontem  noite pensei assim: Algum disse: 'Quem quer vir at mim?' Ento 
algum disse: 'Eu quero.' Ento ele teve que obrigar ele a fazer pipi."
         'Novas perguntas vieram esclarecer que no existia qualquer contedo visual nesse sonho, que era do tipo puramente auditivo. Nesses ltimos dias Hans tem 
brincado com jogos de salo e de "cobrar prendas" com os filhos do nosso senhorio, e entre eles esto suas amigas Olga (sete anos) e Berta (cinco anos). (O jogo 
de cobrar prenda  feito da seguinte maneira: A: "De quem  a prenda que tenho na minha mo?" B: " minha." Ento se decide o que  que B tem de fazer.) O sonho 
tomou esse jogo como modelo; mas o que Hans queria era que a pessoa a quem pertencia a prenda fosse obrigada, no a dar um beijo, ou receber um tapa no rosto, como 
de costume, mas sim a fazer pipi, ou melhor, a ser compelida por outro a fazer pipi.
         'Consegui que ele me contasse de novo seu sonho. Repetiu-o com as mesmas palavras, s que em vez de "ento algum disse", dessa vez falou "ento ela disse". 
Esse "ela" era evidentemente Berta, ou Olga, uma das meninas com quem ele havia brincado. Traduzindo-o, o sonho era o seguinte: "Eu estava brincando de cobrar prendas 
com as meninas. Perguntei: 'Quem  que quer vir comigo.' Ela (Berta, ou Olga) respondeu: 'Eu quero.' Ento ela tem que me obrigar a fazer pipi." (Isto , ela tinha 
que ajud-lo a urinar, o que  evidentemente agradvel para Hans.)
         Claro que ter de fazer pipi, tendo algum que lhe desabotoe a cala e exponha seu pnis,  para Hans um processo prazeroso. Quando esto passeando, na maior 
parte das vezes quem ajuda Hans  seu pai; isso d  criana uma oportunidade para a fixao de inclinaes homossexuais na figura paterna. 
         
         'H dois dias, como j relatei, enquanto sua me o lavava e polvilhava de talco suas partes genitais, ele lhe perguntou: "Por que  que voc no pe seu 
dedo a?" Ontem, quando ajudava Hans a urinar, ele pela primeira vez me pediu que o levasse para trs da casa, de modo que ningum pudesse v-lo. E acrescentou: 
"No ano passado, quando eu fazia pipi, Berta e Olga estavam me olhando." Creio que isso queria dizer que no ano passado ele sentia prazer em ser observado pelas 
meninas, mas que agora j no  mais a mesma coisa. Seu exibicionismo sucumbiu  represso. O fato de o desejo de que Berta e Olga pudessem v-lo fazer pipi (ou 
o obrigassem a fazer) agora se encontrar reprimido na vida real explica seu aparecimento no sonho, disfarado nitidamente no jogo de cobrar prendas. Desde ento 
tenho observado repetidamente que Hans no gosta de ser visto fazendo pipi.'
         Acrescentarei apenas que esse sonho obedece  regra que formulei em A Interpretao de Sonhos [1900a, Captulo VI, Seo F (ver em [1], 1972)], segundo 
a qual as falas ocorrentes em sonhos so derivadas de falas ouvidas ou expressas pelo sonhador nos dias que precederam ao sonho.
         O pai de Hans anotou uma outra observao, datada do perodo imediato ao seu regresso para Viena: "Hans (quatro anos e meio) estava novamente vendo darem 
banho em sua irmzinha, e ento comeou a rir. Ao lhe perguntarem por que ria, respondeu: "Estou rindo do pipi de Hanna." "Por qu?" "Porque seu pipi  to bonito."
         'Naturalmente sua resposta no era sincera. Na realidade, o pipi dela lhe parecia engraado. Ademais, foi essa a primeira vez em que Hans reconheceu a diferena 
entre os genitais masculinos e femininos, em vez de negar sua existncia.'
         
         CASO CLNICO E ANLISE
         
         'Meu caro Professor: estou-lhe enviando mais alguma notcia a respeito de Hans, s que desta vez, lamento diz-lo, se trata de material para um caso clnico. 
Como o senhor ver, nesses ltimos dias ele vem apresentando um distrbio nervoso que nos tem preocupado muito, a mim e minha esposa, pois no temos sido capazes 
de encontrar meio algum de corrigi-lo. Tomarei a liberdade de ir v-lo amanh... mas por enquanto... junto os apontamentos que fiz sobre o material de que dispunha.
         'Sem dvida, o terreno foi preparado por uma superexcitao sexual devida  ternura da me de Hans; mas no sou capaz de especificar a causa real da excitao. 
Ele receia que um cavalo v mord-lo na rua, e esse medo parece estar de alguma forma relacionado com o fato de ele vir-se assustando com um grande pnis. Conforme 
o senhor soube, por um relato anterior, j em uma idade deveras precoce ele havia notado como so grandes os pnis dos cavalos, e nessa poca deduziu que sua me, 
por ser to grande, deveria ter um pipi como o do cavalo. [Cf. em [1].]
         'No posso saber o que fazer desse aspecto. Ser que ele viu um exibicionista em alguma parte? Ou tudo isso est simplesmente relacionado com sua me? No 
acharamos muito agradvel que ele, to cedo, comeasse a nos apresentar dificuldades. Com exceo do fato de estar receoso de sair  rua e de ficar com desnimo 
 noite, ele de resto  o mesmo Hans, to alegre e animado como sempre foi.'
         No iremos acompanhar o pai de Hans, nem em suas ansiedades, facilmente compreensveis, nem em suas primeiras tentativas de encontrar uma explicao; comearemos 
por examinar os elementos de que dispomos. Em ltima anlise, no  nosso dever 'compreender' um caso logo  primeira vista: isso s  possvel num estdio posterior, 
quando tivermos recebido bastantes impresses sobre ele. Por enquanto, deixaremos em suspenso nosso julgamento e daremos nossa ateno imparcial a tudo quanto houver 
para observar.
         Os primeiros relatos, que datam dos primeiros dias de janeiro deste ano (1908), so os seguintes:
         'Hans (quatro anos e nove meses) despertou em lgrimas certa manh. Quando lhe perguntaram por que estava chorando, ele disse a sua me: "Quando eu estava 
dormindo, pensei que voc tinha ido embora e eu ficava sem a Mame para mimarmos juntos."'Portanto, tratava-se de um sonho de ansiedade.
         'Eu j havia observado algo semelhante em Gmunden, no vero.  noite, deitado na cama, ele ficava habitualmente muito sentimental. Certa vez, fez uma observao, 
algo como "imagine se eu no tivesse uma mame" ou "imagine se voc fosse embora"; no posso lembrar-me com preciso das palavras. Infelizmente, sempre que ele mergulhava 
em um sentimentalismo desses, sua me costumava lev-lo para a cama com ela.
         'Pelo dia 5 de janeiro, ele veio para a cama de sua me pela manh e disse: "Voc sabe o que tia M. falou? Ela disse assim: "Que amor de coisinha que ele 
tem.'" (Tia M. passou alguns dias conosco, h quatro semanas atrs. Certa vez, observando minha esposa dar banho no menino, ela realmente lhe dissera aquelas palavras, 
em voz baixa. Hans as ouvira por casualidade e agora estava tentando utiliz-las para seus prprios fins.)
         'Em 7 de janeiro, ele foi passear no Stadtpark com a bab, como de hbito. Na rua comeou a chorar e pediu que o levasse para casa, dizendo que queria "mimar" 
junto com sua me. Em casa, perguntaram-lhe por que no tinha querido continuar o passeio e havia chorado, mas ele no respondeu. At de noite esteve alegre, como 
sempre. Contudo,  noite ficou visivelmente assustado: chorava e no podia separar-se da me, desejando continuar "mimando" com ela. Ficou, ento novamente alegre, 
e dormiu bem.
         'Em 8 de janeiro minha esposa decidiu lev-lo para passear, ela prpria, a fim de observar o que  que o atormentava. Iam at o Schnbrunn, aonde ele sempre 
gostava de ir. De novo ele comeou a chorar, no queria sair e estava assustado. Afinal, resolveu ir; na rua, contudo, estava visivelmente assustado. De volta de 
Schnbrunn, disse a sua me, depois de intensa luta interior: "Eu estava com medo de que um cavalo me mordesse." (Com efeito, em Schnbrunn ficara inquieto quando 
viu um cavalo.)  noite, pareceu que tinha tido uma nova crise semelhante quela da noite passada, e que tinha desejado ser "mimado". Sendo acalmado, disse chorando: 
"Eu sei que vou ter de passear amanh de novo." E depois: "O cavalo vai entrar no quarto."
         
         'Naquele mesmo dia, sua me perguntou: "Voc pe a mo no seu pipi?", e ele respondeu: "Ponho, de noite, quando estou na cama." No dia seguinte, 9 de janeiro, 
antes de fazer a sesta  tarde, foi advertido para que no pusesse a mo no pipi. Quando acordou, indagaram-lhe a esse respeito, ele disse que sim, que apesar da 
advertncia pusera a mo l por um momentinho.'
         Assim, temos aqui o comeo da ansiedade de Hans, bem como o incio de sua fobia. Vemos, pois, que existe uma boa razo para manter as duas separadas uma 
da outra. Ademais, o material parece ser amplamente suficiente para fornecer-nos os suportes de que necessitamos; e nenhum momento  to favorvel para a compreenso 
de um caso quanto seu estdio inicial, tal qual deparamos aqui, embora infelizmente esse estdio via de regra seja ignorado, ou desprezado em silncio. O distrbio 
teve incio com pensamentos ao mesmo tempo apreensivos e ternos, seguindo-se ento um sonho de ansiedade cujo contedo era a perda de sua me e, com isso, no poder 
mais 'mimar' junto com ela. Por conseguinte, sua afeio pela me deve ter-se tornado fortemente intensa. Na sua condio era este o fenmeno fundamental. Em apoio 
a essa teoria, podemos recordar suas duas tentativas de seduzir sua me, datando a primeira delas do vero [ver em [1]], ao passo que a segunda (um simples elogio 
feito ao seu prprio pnis) ocorreu no momento imediato que precedeu a irrupo de sua ansiedade na rua. Foi esse aumento de afeio por sua me que subitamente 
se transformou em ansiedade, a qual, diga-se de passagem, sucumbiu  represso. Ainda no sabemos de onde pode haver-se originado o mpeto para a represso. Talvez 
fosse apenas conseqncia da intensidade das emoes da criana, que ficara acima da sua capacidade de controle; ou talvez tambm estivessem em ao outras foras 
que ainda no tenhamos identificado. Isso iremos saber  medida que avanarmos. A ansiedade de Hans, que assim correspondia a uma nsia ertica reprimida, como toda 
ansiedade infantil, no tinha um objeto com que dar sada: ainda era ansiedade, e no medo. A criana no pode dizer [no princpio] de que ela tem medo; e quando 
Hans, no primeiro passeio com a bab, no ia dizer de que tinha medo, isso foi simplesmente porque ele mesmo ainda no sabia. Ele disse tudo que sabia, que na rua 
sentia falta de sua me com quem queria 'mimar', e que no queria estar longe dela. Dizendo essas coisas, confessou abertamente o significado primrio de sua averso 
s ruas.
         Alm disso, havia aqueles estados em que ele se sentiu por duas noites seguidas, antes de ir dormir, os quais se caracterizavam por uma ansiedade mesclada 
com ntidos traos de ternura. Esses estados mostram que no incio de sua doena no havia, at ento, fobia alguma, quer com relao s ruas ou a passear, quer 
com relao a cavalos. Caso existisse, os estados que Hans assumia  noite seriam inexplicveis; quem est para dormir se incomoda com ruas e passeios? Por outro 
lado, torna-se claro o motivo por que ele ficava to assustado  noite, supondo-se que  hora de dormir certa intensificao de sua libido apossava-se dele: pois 
o objeto desta era sua me, e seu objetivo talvez tenha sido dormir com ela. Ademais, ele aprendeu, por sua experincia, que em Gmunden sua me poderia ser persuadida 
a lev-lo para a cama dela toda vez que ele apresentava tais disposies, e aqui em Viena ele queria obter os mesmos fins. Tambm no devemos esquecer que por algum 
tempo, em Gmunden, ele estivera sozinho com sua me, de vez que seu pai no pudera passar l as frias inteiras; alm disso, que no campo as suas afeies estiveram 
divididas entre alguns companheiros de folguedos e amigos de ambos os sexos, ao passo que em Viena ele no tinha nenhum, de modo que sua libido estava em condies 
de voltar-se para sua me, sem dividir-se.
         Assim, sua ansiedade correspondia a um forte anseio reprimido: tambm a represso deve ser levada em conta. O anseio pode transformar-se completamente em 
satisfao, se o objeto ansiado lhe for concedido. Uma terapia dessa natureza j no  mais eficaz quando se lida com a ansiedade. Esta permanece at mesmo quando 
o anseio pode ser satisfeito. J no  mais capaz de se retransformar inteiramente na libido; existe alguma coisa a reter a libido sob represso. Esse fato, no caso 
de Hans, evidenciou-se por ocasio do passeio que fez a seguir, quando sua me o acompanhou. Estava com ela e, no obstante, ainda sofria de ansiedade, digamos, 
de um anseio insatisfeito com relao a ela. Realmente, a ansiedade era pouca, pois foi ele mesmo que se permitiu ser induzido a ir passear, ao passo que obrigara 
a bab a lev-lo de volta a casa. Alm disso, a rua no  bem o lugar correto para 'mimar', ou o que quer que esse jovem apaixonado pudesse ter desejado fazer. A 
sua ansiedade, todavia, resistiu ao teste, e para ela a primeira coisa a fazer era encontrar um objeto. Foi nesse passeio que ele, pela primeira vez, expressou medo 
de que um cavalo o mordesse. De onde tero provindo os elementos para essa fobia?  provvel que dos complexos - at aqui desconhecidos por ns - que contriburam 
para a represso e mantinham sob represso os sentimentos libidinais de Hans para com sua me. Trata-se de um problema ainda no resolvido; e agora teremos de acompanhar 
o desenvolvimento do caso, a fim de chegar  sua soluo. O pai de Hans j nos deu algumas pistas, provavelmente merecedoras de confiana, como aqueles indcios 
de que Hans sempre observara com interesse os cavalos face ao grande tamanho dos seus pipis, de que presumira que sua me deveria ter um pipi como o do cavalo, e 
outros. Por conseguinte, seramos levados a pensar que o cavalo fosse puramente um substituto de sua me. Mas, se assim fosse, qual seria o significado do fato de 
ele ficar com medo,  noite, de que um cavalo entrasse no quarto? So tolos receios de um menininho, diriam. Uma neurose, contudo, jamais expressa tolices, nem mesmo 
um sonho o faria menos. Quando no somos capazes de entender alguma coisa, procuramos desvaloriz-las com crticas. Um meio ideal de facilitar nossa tarefa.
         Existe um outro ponto em relao ao qual  preciso que evitemos recuar diante dessa tentao. Hans admitia que ele, toda noite antes de ir dormir, se divertia 
brincando com seu pnis. 'Ah! ento est explicado': o mdico da famlia estar propenso a dizer. 'A criana se masturbava, da sua ansiedade patolgica.' Mas, vamos 
devagar. O fato de o menino extrair de si mesmo prazer, masturbando-se, no explica em absoluto sua ansiedade; pelo contrrio, o ato torna a situao mais problemtica 
do que antes. Os estados de ansiedade no so formados pela masturbao ou pela obteno de satisfao, qualquer que seja. Alm disso, podemos supor que Hans, ento 
com quatro anos e nove meses, se havia dado a esse prazer, toda noite, pelo menos por um perodo de um ano (ver em [1]). E vamos saber [ver em [2] e [3]] que, nessas 
ocasies, ele de fato estava lutando para livrar-se do hbito - um estado de coisas que melhor se ajusta  represso e  gerao de ansiedade.
         Devemos dizer tambm uma palavra em favor da admirvel e devotada me de Hans. Seu pai a acusa, com certa aparncia de justia, de ser responsvel pela 
manifestao da neurose da criana, em face de suas excessivas demonstraes de afeto para com Hans, e tambm da freqncia e facilidade com que o levava para sua 
cama. Poderamos igualmente incrimin-la por haver precipitado o processo de represso pela enrgica rejeio das tentativas dele ('seria porcaria' ,ver em [1]). 
Entretanto, ela tinha um papel predestinado a desempenhar, e a posio em que se encontrava era bem difcil.
         Combinei com o pai de Hans que ele diria ao menino que tudo aquilo relacionado com cavalos no passava de uma bobagem. Seu pai iria dizer que a verdade 
 que ele gostava muito de sua me e que queria que ela o levasse para sua cama. A razo por que ele tinha ento medo de cavalos se explicava por ele se haver interessado 
muito pelos seus pipis. Ele prprio observara no ser correto ficar to preocupado assim com os pipis, mesmo com o dele; e tinha razo ao pensar dessa forma. A seguir 
sugeri a seu pai que comeasse a dar a Hans alguns esclarecimentos dentro do tema do conhecimento sexual. O comportamento anterior da criana constitua para ns 
justificativa para admitirmos estar sua libido relacionada com um desejo de ver o pipi de sua me. Propus ento a seu pai que afastasse de Hans esse objetivo, informando-o 
de que sua me e todos os outros seres femininos (como podia constatar com Hanna) no tinham pipi nenhum. Esse ltimo esclarecimento lhe seria dado numa ocasio 
favorvel, quando o assunto fosse motivado por alguma pergunta ou alguma observao casual de Hans.
         As notcias que se seguem com respeito a Hans abrangem o perodo entre 1 e 17 de maro. O intervalo de mais de um ms ser relatado diretamente.
         'Aps Hans ter sido esclarecido, seguiu-se um perodo de relativa tranqilidade, durante o qual podiam, sem maiores dificuldades, lev-lo para seu passeio 
dirio no Stadtpark. [Ver em [1].] Seu medo de cavalos foi-se transmudando gradativamente em uma compulso para olh-los. Ele dizia: "Tenho que olhar para os cavalos, 
e a fico com medo."
         'Depois de uma gripe muito forte, que o prendeu na cama por duas semanas, sua fobia aumentou novamente, a tal ponto que no se conseguia lev-lo para sair, 
ou de qualquer forma no mais do que at a varanda. Todo domingo ele ia comigo at Lainz, pois  um dia em que no h muito trfego nas ruas, e o caminho at a estao 
 bem curto. Certa vez, em Lainz, ele se recusou a passear fora do jardim, porque havia uma carruagem estacionada em frente. Uma semana depois, a qual ele passou 
em casa em conseqncia de uma operao das amgdalas, sua fobia aumentou de novo, agravando-se muito mais. Ele vai at a varanda,  verdade, mas no sai para passear. 
Quando chega at a porta da rua, vira-se rapidamente e volta.
         'No domingo, 1 de maro, houve a seguinte conversa no caminho at a estao. Eu estava tentando explicar-lhe de novo que os cavalos no mordem. Ele: "Mas 
os cavalos brancos mordem. Em Gmunden h um cavalo branco que morde. Se voc apontar o dedo para ele, ele morde." (Chamou-me a ateno ele dizer "dedo", em vez de 
"mo".) Ento me contou a seguinte histria, que repito aqui de forma mais objetiva: "Quando Lizzi tinha de ir embora, havia uma carroa com um cavalo branco em 
frente da casa dela, para levar a bagagem para a estao." (Ele me contou que Lizzi era uma menina que morava numa casa vizinha.) "O pai dela estava parado perto 
do cavalo, e o cavalo virou a cabea (para toc-lo), e ele disse para Lizzi: 'No estenda seu dedo para o cavalo branco seno ele te morde.'" Nisso falei: "Sabe, 
parece-me que voc no quer dizer um cavalo, mas um pipi, onde ningum deve pr a mo."
         'Ele: "Mas um pipi no morde."
         'Eu: "Mas pode ser que morda." Ento ele procurou animadamente provar-me que era de fato um cavalo branco.
         'Em 2 de maro, quando ele mostrou de novo sinais de estar com medo, eu lhe disse: "Sabe de uma coisa? Essa bobagem sua" ( como ele fala da sua fobia) 
"... seria melhor se voc passeasse mais vezes. Agora  muito ruim, porque voc no tem podido sair pois estava doente."
         'Ele: "No  isso,  ruim porque eu ainda continuo pondo a mo no meu pipi de noite."'
         Mdico e paciente, pai e filho, eram unnimes, por conseguinte, ao atriburem a principal participao na patognese da atual condio de Hans ao seu hbito 
de masturbar-se. No faltavam, contudo, indicaes da existncia de outros fatores significativos.
         'Em 3 de maro admitimos uma nova empregada, que agradou muito a ele. Ela o deixa brincar de cavalo nas suas costas enquanto limpa o assoalho, e ele, por 
isso, a chama de "meu cavalo", segurando a saia dela e gritando "Vamos". Pelo dia 10 de maro, ele disse  nova bab: "Se voc fizer tal e tal coisa, voc ter que 
se despir toda, e tirar at a camisa." (Para ele isso era um castigo, mas  fcil identificar, por trs disso, o desejo.)
         'Ela: "E que mal teria? Eu me diria que no tenho dinheiro para gastar com roupas."
         'Ele: "Mas seria uma vergonha. As pessoas veriam o seu pipi."'
         Temos aqui novamente a mesma curiosidade, orientada, todavia, para um novo objeto e (coerentemente com um perodo de represso) ocultada sob um propsito 
moralizador.
         
         'Em 13 de maro, pela manh, eu disse a Hans: "Voc sabe que, se no puser mais a mo no seu pipi, voc logo vai ficar bom dessa sua bobagem."
         'Hans: "Mas eu no ponho mais a mo no meu pipi."
         'Eu: "Mas voc ainda quer pr."
         'Hans: "Quero sim. Mas querer no  fazer, e fazer no  querer."(!!)
         'Eu: "Est bem, mas, para no deixar voc querer, nesta noite voc vai dormir num saco de dormir."
         'A seguir, samos para a frente da casa. Hans ainda estava com medo, mas animou-se visivelmente com a expectativa de seus esforos o aliviarem; e disse: 
"Que bom, se eu tiver um saco para dormir a minha bobagem amanh vai desaparecer." De fato, ele estava com muito menos medo de cavalos, e ficava relativamente calmo 
quando os veculos passavam.
         'Hans prometeu ir comigo a Lainz no domingo seguinte, dia 15 de maro. A princpio mostrou resistncia, mas enfim foi comigo, apesar de tudo. Naturalmente 
sentiu-se  vontade na rua, pois no havia muito trfego, e disse: "Que coisa! Deus ento retirou os cavalos." Caminhando, expliquei-lhe que sua irm no ganhara 
um pipi como ele. Eu disse que as meninas e as mulheres no tm pipi: a mame no tem. Anna no tem, e assim por diante.
         'Hans: "Voc tem um pipi?"
         'Eu: "Claro. Por que, o que voc acha?"
         'Hans (aps uma pausa): "Mas ento como  que as meninas fazem pipi, se elas no tm pipi?"
         'Eu: "Elas no tm pipi como o seu. Voc j viu, quando Hanna tomava banho?"
         'Durante todo o dia ele esteve muito animado, andou de tobog etc. S ao chegar a noite  que se tornou abatido novamente, e parecia estar com medo de cavalos.
         'Naquela noite sua crise de nervos e a necessidade de ser mimado eram menos intensas do que nos dias anteriores. No dia seguinte, sua me o levou  cidade, 
e ele ficou muito assustado nas ruas. No outro dia, ficou em casa e estava muito bem disposto. Na manh seguinte, despertou assustado, por volta das seis horas. 
Quando lhe perguntaram o que havia, ele disse: "Pus o dedo no meu pipi, s um pouquinho, vi a mame despida, de camisa, e ela me deixou ver o seu pipi. Mostrei a 
Grete, a minha Grete, o que a mame estava fazendo, e mostrei meu pipi para ela. Ento tirei depressa a mo do meu pipi." Quando objetei que ele s podia querer 
dizer "de camisa" ou "despida", Hans disse: "Ela estava de camisa, mas a camisa era to pequena que eu vi o seu pipi."
         Isso no foi um sonho, absolutamente, mas uma fantasia masturbatria, que era, contudo, equivalente a um sonho. O que ele fez a me fazer foi com a inteno 
evidente de autojustificar-se: 'Se mame mostra o seu pipi, eu tambm posso.'
         A partir de sua fantasia, podemos reunir duas coisas: em primeiro lugar, a reprimenda de sua me produziu nele um resultado intenso, no momento em que foi 
feita; e, em segundo, o esclarecimento feito quanto ao fato de as mulheres no possurem pipi no foi, a princpio, aceito por ele. Desagradou-lhe que assim fosse, 
e em sua fantasia ateve-se  sua convico anterior. Talvez tambm tivesse razes para recusar-se a acreditar em seu pai naquele momento.
         Relato Semanal do Pai de Hans: 'Estimado Professor, junto a este a continuao da histria de Hans - e um captulo bem interessante. Talvez tome a liberdade 
de ir v-lo durante as suas horas de consulta, na segunda-feira e, se possvel, de levar Hans comigo, na suposio de que ele v. Hoje eu lhe disse: "Voc ir comigo, 
segunda-feira, para ver o Professor, que  quem pode acabar com a sua bobagem, para seu bem?"
         'Ele: "No."
         'Eu: "Mas ele tem uma filhinha muito bonita." - Ao que ele, de boa vontade e contente, consentiu.
         'Domingo, 22 de maro. Tendo em vista prolongar o programa de domingo, propus a Hans que fssemos antes a Schnbrunn, e que somente ao meio-dia continussemos 
o passeio de l para Lainz. Portanto, ele tinha de caminhar no s de casa at a estao de Hauptzollamt na Stadtbahn, mas tambm da estao de Hietzing at Schnbrunn, 
e da at a estao de bondes a vapor de Hietzing. E conseguiu fazer tudo isso, afastando rapidamente o olhar quando algum cavalo passava, de vez que era evidente 
que estava nervoso. Afastando o olhar, estava seguindo um conselho que lhe dera sua me.
         'Em Schnbrunn mostrou sinais de medo de animais que em outras ocasies ele olhava sem se alarmar. Assim recusou-se peremptoriamente a entrar no recinto 
onde fica a girafa, nem visitaria o elefante, que anteriormente costumava diverti-lo bastante. Estava com medo de todos os animais de grande porte, ao passo que 
ficava muito entretido com os pequenos. Entre os pssaros, dessa vez ficou assustado com o pelicano (o que antes jamais ocorrera), evidentemente devido tambm ao 
seu tamanho.
         'Ento lhe perguntei: "Voc sabe por que est com medo dos animais grandes? Os animais grandes tm pipis grandes, e na verdade voc tem medo de pipis grandes."
         'Hans: "Mas eu ainda no vi at agora os pipis dos animais grandes."
         'Eu: "Mas voc viu o do cavalo, e o cavalo  um animal grande."
         'Hans: "Do cavalo, sim, muitas vezes. Uma vez em Gmunden, quando a carroa estava parada  porta, e uma vez em frente  Agncia Central da Alfndega."
         'Eu: "Quando voc era pequeno,  muito provvel que tenha entrado num estbulo, em Gmunden..."
         'Hans (interrompendo): "Sim, eu entrava todo dia no estbulo em Gmunden, quando os cavalos vinham recolher-se."
         'Eu: "... e  bem provvel que voc tenha ficado assustado ao ver, certa vez, o grande pipi do cavalo. Os animais grandes tm pipis grandes e os animais 
pequenos tm pipis pequenos."
         'Hans: "E todo mudo tem um pipi. E o meu pipi vai ficar maior quando eu crescer; ele est preso no mesmo lugar,  claro."
         'Aqui, a conversa terminou. Nos dias que se seguiram parecia que seus medos aumentaram um pouco. Dificilmente se arriscava a ir at a porta de entrada, 
aonde o levavam depois do almoo.'
         As ltimas palavras de Hans, de certa forma confortadoras, esclarecem a situao e nos permitem efetuar algumas correes nas asseres de seu pai.  fato 
que ele tinha medo de animais grandes, porque se via obrigado a pensar nos seus grandes pipis; contudo, no se pode, na verdade, dizer que ele estava com medo dos 
prprios pipis deles. Antes a idia que tinha deles lhe fora decididamente agradvel, e ele costumava esforar-se de todo jeito para dar uma olhada neles. Desde 
ento esse prazer ficou prejudicado para ele, devido  inverso global do prazer em desprazer que havia tomado conta de todas as suas pesquisas sexuais, de um modo 
ainda inexplicvel, e tambm devido a alguma coisa que se torna mais clara para ns, ou seja, a determinadas experincias e reflexes que levaram a concluses aflitivas. 
De suas palavras autoconsoladoras ('meu pipi vai ficar maior quando eu crescer') podemos deduzir que, durante suas observaes, ele constantemente vinha fazendo 
comparaes, e ficara extremamente insatisfeito com o tamanho do seu pipi. Os animais grandes lembravam-no desse seu defeito, e por isso lhe eram desagradveis. 
Entretanto, de vez que toda a corrente de pensamentos era provavelmente incapaz de se tornar nitidamente consciente, tambm esse sentimento aflitivo foi transformado 
em ansiedade, de modo que sua ansiedade atual se estabeleceu tanto em seu prazer anterior quanto em seu atual desprazer. Uma vez que um estado de ansiedade se estabelece, 
a ansiedade absorve todos os outros sentimentos; com o progresso da represso, e com a passagem ao inconsciente de boa parte das outras idias que so carregadas 
de afeto e que foram conscientes, todos os afetos podem ser transformados em ansiedade.
         A curiosa observao de Hans 'ele est preso no mesmo lugar,  claro' possibilita adivinhar muitos elementos em conexo com a sua fala consoladora, que 
ele no podia expressar com palavras e que no expressou no transcorrer da anlise. Preencherei essas lacunas, at certo ponto, usando de minhas experincias nas 
anlises de pessoas adultas; contudo, espero que a interveno no seja considerada arbitrria ou caprichosa. 'Ele est preso no mesmo lugar,  claro': se o pensamento 
foi motivado pelo consolo e desafio, lembremo-nos da velha ameaa de sua me, de que ele lhe cortaria fora o pipi se ele continuasse brincando com ele. [Ver pg. 
17.] Na poca em que foi feita, quando ele tinha trs anos e meio, a ameaa no teve conseqncia alguma. Ele tranqilamente respondeu que ento faria pipi com seu 
traseiro. Constituiria um dos processos mais tpicos se a ameaa de castrao produzisse um efeito adiado, e se agora, um ano e trs meses depois, ele fosse oprimido 
pelo medo de ter de perder essa preciosa parte do seu ego. Em outros casos de doena podemos observar uma semelhante operao adiada de ordens e ameaas feitas na 
infncia, casos nos quais o intervalo chega a cobrir vrias dcadas, ou at mais. Conheo at casos nos quais uma 'obedincia adiada' sob influncia da represso 
desempenhou um papel preponderante na determinao dos sintomas da doena.
         
         A parcela de esclarecimento dado a Hans, pouco tempo antes, quanto ao fato de que as mulheres na verdade no possuem pipi, estava fadada a ter apenas um 
efeito destruidor sobre sua autoconfiana e a ter originado seu complexo de castrao. Por essa razo  que ele ofereceu resistncia  informao, e pela mesma razo 
ela no produziu efeitos teraputicos. Seria possvel haver seres vivos que no tivessem pipis? Se assim fosse, no mais se poderia duvidar de que eles pudessem 
fazer desaparecer seu prprio pipi e, se assim fosse, transform-lo em mulher!
         'Na noite do dia 27 para 28, Hans nos surpreendeu saindo da cama, quando ainda estava bem escuro, e vindo para a nossa cama. O seu quarto est separado 
do nosso dormitrio por um outro pequeno quarto. Ns lhe perguntamos por que tinha vindo - talvez estivesse com medo. "No", disse ele; "amanh eu conto a vocs." 
Fomos para a cama dormir e ele foi levado, ento, de volta para sua cama.
         'No dia seguinte interroguei-o com mais detalhes, a fim de descobrir por que entrara em nosso quarto, para estar conosco, durante a noite; aps alguma relutncia, 
houve o seguinte dilogo, que eu imediatamente registrei em taquigrafia:
         'Ele: "De noite havia uma girafa grande no quarto, e uma outra, toda amarrotada; e a grande gritou porque eu levei a amarrotada para longe dela. A, ela 
parou de gritar; ento eu me sentei em cima da amarrotada."
         'Eu: (perplexo): "O qu? Uma girafa amarrotada? Como foi isso?"
         'Ele: " sim." (Rapidamente foi buscar um pedao de papel, amarrotou-o e disse:) "Estava amarrotada assim."
         'Eu: "E voc se sentou em cima da girafa amarrotada? Como foi?"
         
         'Ele repetiu, sentando-se no cho.
         'Eu: "Por que voc veio para o nosso quarto?"
         'Ele: "Eu mesmo no sei."
         'Eu: "Voc estava com medo?"
         'Ele: "No.  claro que no!"
         'Eu: "Voc sonhou com a girafa?"
         'Ele: "No, eu no sonhei. Eu pensei. Pensei em tudo. Eu tinha acordado antes."
         'Eu: "O que uma girafa amarrotada pode significar? Voc sabe que  impossvel amassar uma girafa como voc amassa um pedao de papel?"
         'Ele: "Claro que sei. Eu s pensei que estava amassando.  claro que no foi de verdade. A girafa amarrotada estava estendida no cho e eu a tirei dali... 
eu a peguei com as mos."
         'Eu: "Como? Voc pode pegar com as mos uma girafa grande assim?"
         'Ele: "Peguei a amarrotada na mo."
         'Eu: "E enquanto isso, onde estava a grande?"
         'Ele: "A grande j estava bem longe."
         'Eu: "O que foi que voc fez com a amarrotada?"
         'Ele: "Eu peguei na minha mo, por um momentinho, at que a grande parasse de gritar. E quando ela parou de gritar, eu sentei em cima da amarrotada."
         'Eu: "Por que foi que a grande gritou?"
         'Ele: "Porque eu levei para longe dela a pequena." (Ele notou que eu estava escrevendo tudo que dizamos, e perguntou:) "Por que voc est escrevendo isso 
a?"
         'Eu: "Porque vou mandar isso para um professor, aquele que pode acabar com a sua 'bobagem'."
         'Ele: "Ah, ento voc escreveu tambm que a mame tirou a camisa, e vai dar tambm para o Professor!"
         'Eu: "Sim, mas ele no vai entender como voc pode pensar que  possvel amarrotar uma girafa."
         'Ele: "Pois conte a ele que eu mesmo no sei, e assim ele no vai perguntar. Mas se ele perguntar o que  a girafa amarrotada, ento ele pode escrever para 
ns, e ns podemos responder, ou ento vamos logo escrever que eu mesmo no sei."
         'Eu: "Mas por que voc entrou no nosso quarto, de noite?"
         
         'Ele: "Eu no sei."
         'Eu: "Pois me conte depressa o que  que voc est pensando."
         'Ele: (brincando): "Gelia de framboesa."
         'Eu: "Que mais?"
         Seus desejos.
         'Ele: "Um revlver para matar as pessoas com um tiro."
         'Eu: "Voc assegura que no sonhou com isso?"
         'Ele: "Asseguro... no, no estou bem certo."
         'Ele continuou dizendo: "A mame ficou me perguntando por que foi que eu entrei no seu quarto de noite. Mas eu no queria dizer, pois no comeo me senti 
envergonhado com a mame."
         'Eu: "Por qu?"
         'Ele: "No sei."
         'De fato, minha esposa o havia questionado a manh inteira, at que ele lhe contou a histria da girafa.'
         Nesse mesmo dia, seu pai descobriu a soluo da fantasia da girafa.
         'A girafa grande sou eu mesmo, ou melhor, o meu pnis grande (o pescoo comprido), e a girafa amarrotada  minha esposa, ou melhor, seu rgo genital. Trata-se, 
por conseguinte, do resultado do esclarecimento que lhe fora dado [ver em [1]].
         'Girafa: ver a descrio do passeio a Schnbrunn. [Cf. em [1] e [2].] Ademais, ele tem a figura de uma girafa e um elefante pendurada acima de sua cama.
         'Tudo isso  a reproduo de uma cena que se desenrolara durante quase todos esses ltimos dias, pela manh. Hans sempre entra em nosso quarto, bem cedinho, 
e minha mulher no pode resistir, levando-o com ela para a cama por alguns minutos. Em resposta a esse procedimento, invariavelmente passo a admoest-la para no 
lev-lo consigo para a cama ("a girafa grande gritava por que eu tirei a amarrotada de perto dela"); e ela responde, s vezes sem dvida com certa irritao, que 
tudo  uma bobagem, que afinal um minuto no conta, e assim por diante. Desse modo, Hans fica com ela por um instante. ("A a girafa grande parou de gritar; e ento 
eu sentei em cima da amarrotada.")
         
         'Esta, portanto,  a soluo dessa cena matrimonial, transportada para a vida da girafa;  noite, ele fora arrebatado por uma nsia de ter sua me, suas 
carcias, seu rgo genital, e por essa razo veio para nosso quarto. Tudo isso  continuao de seu medo de cavalos.'
          apenas isso o que tenho a acrescentar  penetrante interpretao do pai de Hans. O 'sentar-se em cima de' era provavelmente a imagem que Hans tinha de 
tomar posse. Todavia, isso tudo constitui uma fantasia de desafio relacionada com a sua satisfao pelo triunfo alcanado sobre a resistncia de seu pai. 'Grite 
quanto quiser! No adianta, porque a mame me leva para a cama, e a mame  minha!' Portanto, conforme seu pai suspeitava, justifica-se o fato de adivinhar por trs 
da fantasia um medo de que sua me no gostasse dele, de uma vez que seu pipi no se comparava com o de seu pai!
         Na manh seguinte, seu pai pde obter a confirmao de sua interpretao.
         'Domingo, 29 de maro, fui a Lainz com Hans.  porta, despedi-me de minha esposa com uma brincadeira, dizendo: "At logo, girafa grande!" "Por que girafa?", 
perguntou Hans. "A mame  a girafa grande", respondi, ao que Hans replicou: "Ah,  isso mesmo!, e Hanna  a girafa amarrotada, no ?"
         'No trem expliquei-lhe a fantasia da girafa, ao que ele disse: " isso, sim." E quando eu lhe disse que eu era a girafa grande e que o pescoo comprido 
dela o fazia pensar num pipi, ele disse: "A mame tem um pescoo como uma girafa tambm. Eu vi quando ela estava lavando o seu pescoo branco."
         'Na segunda-feira, 30 de maro, pela manh Hans veio dizer-me: "Sabe de uma coisa? Pensei, hoje de manh, em duas coisas!" "Voc pensou o que primeiro?" 
"Pensei que estava com voc em Schnbrunn, onde as ovelhas esto; e a comeamos a rastejar por baixo das cordas, ento fomos contar ao policial, no fundo do jardim, 
e ele nos agarrou." Ele se havia esquecido da segunda coisa.
         'Posso acrescentar o seguinte comentrio a esse respeito. Quando quisemos ver as ovelhas, no domingo, observamos que havia um espao nos jardins cercado 
com uma corda; assim no nos era possvel chegar at elas. Hans ficou muito admirado com o espao cercado somente por uma corda, pois seria bem fcil resvalar por 
debaixo dela. Eu lhe falei que as pessoas educadas no rastejavam por baixo da corda. Ele disse que seria relativamente fcil, ao que respondi que o policial podia 
chegar e afastar a gente. Na entrada de Schnbrunn sempre fica um soldado de servio; e certa vez contei a Hans que ele prendia as crianas desobedientes.
         'Ao voltarmos de nossa consulta com o senhor, naquele mesmo dia, Hans confessou seu desejo de praticar mais alguma coisa proibida: "Sabe, hoje de manh 
pensei de novo numa coisa." "O que foi?" "Pensei que ia de trem, com voc, e que ns quebramos uma janela e o policial nos levou embora com ele."'
         Esta  a mais adequada continuao da fantasia da girafa. Ele suspeitava que tomar posse de sua me era um ato proibido e se defrontara com a barreira contra 
o incesto. Ele, contudo, encarava esse aspecto como proibido em si mesmo. Seu pai estava com ele sempre que ele realizava, em sua imaginao, essas faanhas proibidas, 
e com ele se trancava. Ele pensava que seu pai tambm fazia aquela coisa proibida e enigmtica com a sua me, que ele substitua por um ato de violncia tal como 
quebrar uma vidraa ou forar a entrada num espao fechado.
         Naquela tarde, pai e filho me visitaram nas horas de consulta. Eu j conhecia o singular menino, o qual, apesar de toda sua auto-segurana, era to agradvel 
que eu sempre ficava contente de v-lo. No sei se ele lembra de mim, mas se comportava de modo exemplar, como qualquer elemento perfeitamente razovel da sociedade 
humana. A consulta foi breve. O pai de Hans comeou por observar que, a despeito de todos os esclarecimentos que dera a Hans, seu medo de cavalos ainda no havia 
diminudo. ramos tambm forados a confessar que as conexes entre os cavalos de que tinha medo e os sentimentos de afeio por sua me, antes revelados, no eram 
em absoluto abundantes. Determinados detalhes que acabo de saber - no tocante ao fato de que ele se incomodava, em particular, com aquilo que os cavalos usam  frente 
dos olhos, e com o preto em torno de suas bocas - certamente no se explicariam a partir daquilo que sabamos. No entanto, ao ver os dois sentados  minha frente, 
e ao mesmo tempo ouvir a descrio que Hans fazia da ansiedade que lhe causavam os cavalos, vislumbrei um novo elemento para a soluo, e um elemento que eu podia 
compreender que provavelmente escapasse a seu pai. Perguntei a Hans,  guisa de brincadeira, se os cavalos que ele via usavam culos, ao que ele, contra toda evidncia 
em contrrio, repetiu que no. Finalmente lhe perguntei se para ele o 'preto em torno da boca' significava um bigode; revelei-lhe ento que ele tinha medo de seu 
pai, exatamente porque gostava muito de sua me. Disse-lhe da possibilidade de ele achar que seu pai estava aborrecido com ele por esse motivo; contudo, isso no 
era verdade, seu pai gostava dele apesar de tudo, e ele podia falar abertamente com ele, sobre qualquer coisa, sem sentir medo. Continuei, dizendo que bem antes 
de ele nascer eu j sabia que ia chegar um pequeno Hans que iria gostar tanto de sua me que, por causa disso, no deixaria de sentir medo de seu pai; e tambm contei 
isso ao seu pai. 'Mas por que voc acha que estou aborrecido com voc?', nesse momento seu pai me interrompeu; 'Alguma vez eu ralhei, ou bati em voc?' Hans o corrigiu: 
'Ah, sim! Voc j me bateu.' 'No  verdade. Ento quando foi que aconteceu?' 'Hoje de manh', respondeu o menino; a seu pai recordou que Hans, inesperadamente, 
dera uma cabeada em seu estmago, e que ele, num reflexo instintivo, o afastara com um tapa da mo. Era surpreendente que ele no tivesse correlacionado esse detalhe 
com a neurose; mas agora acabava de reconhecer esse fato como sendo uma expresso da hostilidade do menino para com ele e, talvez, tambm como manifestao da necessidade 
de ser punido por causa disso.
         No caminho de casa, Hans perguntou ao pai: 'O Professor conversa com Deus? Parece que j sabe de tudo, de antemo!' Eu ficaria extraordinariamente orgulhoso, 
vendo minhas dedues confirmadas pela boca de uma criana, se eu prprio no o tivesse provocado com minha ostentao,  guisa de brincadeira. A partir dessa consulta, 
passei a receber quase que diariamente relatos das alteraes verificadas na condio desse pequeno paciente. No era de se esperar que ele ficasse livre de sua 
ansiedade, de um s golpe, com a informao que lhe dei; mas tornou-se aparente que acabara de se lhe oferecer a possibilidade de trazer  tona os produtos de seu 
inconsciente, e de identificar a sua fobia. Dali por diante ele passou a executar um programa, o qual pude de antemo comunicar a seu pai.
         
         '2 de abril. Pde-se notar, pela primeira vez, uma melhora real. Antes era impossvel induzi-lo a sair  rua por um tempo mais longo, e ele sempre corria 
de volta para casa, com todos os sinais de medo a cada vez que passava um cavalo; agora ficava  porta da rua durante uma hora, mesmo com as carroas passando por 
ele, o que acontece em nossa rua com relativa freqncia. De vez em quando corria para dentro de casa ao ver aproximar-se ao longe uma carroa, mas logo se voltava, 
como se estivesse mudando de idia. Em todo caso, resta apenas um trao de ansiedade, e  indiscutvel o seu progresso, desde que ele foi esclarecido.
         'De noite Hans disse: "J chegamos at a porta da rua, ento podemos ir ao Stadtpark tambm."
         'Na manh de 3 de abril, ele veio para a minha cama, o que no havia feito durante alguns dias, parecendo estar at mesmo orgulhoso disso. "Ento por que 
hoje voc veio?", perguntei.
         'Hans: "Quando no tiver mais medo no virei mais."
         'Eu: "Ento voc vem para junto de mim porque est assustado?"
         'Hans: "Quando no estou com voc eu fico assustado; quando no estou na cama junto com voc, ento fico assustado. Quando eu no estiver mais assustado 
eu no venho mais."
         'Eu: "Ento voc gosta de mim e se sente aflito quando est na sua cama, de manh? e por isso  que voc vem para junto de mim?"
         'Hans: "Sim. Por que  que voc me disse que eu gosto da mame e por isso  que fico com medo, quando eu gosto  de voc?"'
         Aqui o menino demonstrava um grau de clareza incomum. Ele chamava ateno para o fato de que seu amor por seu pai entrava em conflito com sua hostilidade 
para com ele, considerando-o como um rival junto de sua me; e censurava seu pai por no haver ainda chamado sua ateno para esse jogo de foras, fadado a culminar 
em ansiedade. Seu pai at ento no o entendia por completo, de vez que, durante esse dilogo, conseguiu convencer-se apenas da hostilidade que o menino lhe tinha, 
cuja presena eu afirmara durante a nossa consulta. O dilogo que se segue, que repito aqui sem alterao, tem de fato mais importncia com relao ao progresso 
do esclarecimento do pai do que com relao ao pequeno paciente.
         'Infelizmente no pude apreender de imediato o significado dessa censura. Por gostar de sua me,  evidente que deseja afastar-me, e assim ficaria no lugar 
de seu pai. Esse seu desejo hostil suprimido transformou-se em ansiedade por seu pai, e ele vem ter comigo de manh para ver se fui embora. Lastimo no ter compreendido 
isso no momento; disse-lhe: '"Quando voc est sozinho, voc fica ansioso a meu respeito e vem ter comigo."
         'Hans: "Quando voc est longe, fico com medo de voc no vir para casa."
         'Eu: "E alguma vez eu o ameacei de no voltar para casa?"
         'Hans: "Voc no, mas mame disse; mame me disse que ela no ia voltar." (Provavelmente ele fizera alguma travessura, e ela ameaara ir embora.)
         'Eu: "Ela disse isso porque voc fez alguma travessura."
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "Logo, voc tem medo de que eu v embora porque voc foi travesso; por isso  que voc vem para junto de mim."
         'Quando levantei da mesa depois do caf, Hans disse: "Papai, no se afaste de mim nesse trote!" Fiquei abalado por dizer "trote" em lugar de "corrida", 
e respondi: "Ah! Ento voc fica com medo do cavalo que se afasta de voc, num trote." Diante disso ele riu.'
         Sabemos que essa parte da ansiedade de Hans possui dois componentes: havia medo de seu pai e medo por seu pai. O primeiro derivava de sua hostilidade para 
com seu pai, e o outro derivava do conflito entre sua afeio, exagerada a esse ponto por um mecanismo de compensao, e sua hostilidade.
         Seu pai continua: 'Sem dvida este  o comeo de uma importante fase. O motivo pelo qual ele mal se arriscava a sair de casa, no querendo deix-la e retornando 
ao advir o primeiro ataque de ansiedade, no meio do caminho, se deve a seu medo de no encontrar seus pais em casa porque eles foram embora. Ele se prende  casa 
por amor de sua me, e fica com medo de eu ir embora, em virtude dos desejos hostis que ele nutre contra mim - pois assim ele seria o pai.
         'No vero, eu costumava deixar Gmunden freqentemente, para ir a Viena a negcios, e ento ele era o pai. O senhor se lembra de que o seu medo de cavalos 
est relacionado com o episdio em Gmunden, quando um cavalo devia levar a bagagem de Lizzi at a estao [ver em [1]]. O desejo reprimido de que eu fosse  estao, 
pois assim ele estaria a ss com sua me (o desejo de que "o cavalo fosse embora"), se transforma em medo de que o cavalo parta; e, com efeito, nada lhe provoca 
maior alarme do que ver uma carroa sair do ptio da Agncia Central da Alfndega (que fica bem em frente ao nosso apartamento) e os cavalos comearem a marchar. 
         
         'Essa nova fase (sentimentos hostis para com seu pai) s poderia manifestar-se depois que ele soubesse que eu no estava aborrecido porque ele gostava tanto 
assim de sua me. 
         ' tarde sa novamente com ele para a porta da rua; e de novo ele saiu at a frente de casa, l ficando ainda que passassem carroas por ele. Apenas com 
algumas carroas  que teve medo, e entrava correndo para o saguo de entrada. Tambm me disse, a ttulo de explicao: "Nem todos os cavalos brancos mordem." Isto 
quer dizer que, em virtude da anlise, alguns cavalos brancos j foram reconhecidos como sendo o "papai", e estes j no mordem; mas ainda existem outros que de 
fato mordem.
         'A posio da porta da rua de nossa casa  a seguinte: do lado oposto fica o armazm do Escritrio de Impostos sobre Comestveis, com uma rampa de carregamento 
pela qual, durante o dia inteiro, passam as carroas para apanhar caixas, caixotes etc. Esse ptio est separado da rua por meio de grades; e os portes de entrada 
para o ptio so frontais  nossa casa (Fig. 2). 
         
         
         
         Fig. 2
         
         
         Durante alguns dias notei que Hans fica muito assustado quando as carroas entram ou saem do ptio, pois so obrigadas a fazer uma curva. Numa dessas ocasies, 
perguntei-lhe por que estava com tanto medo, e ele me respondeu: "Tenho medo de que os cavalos caiam quando a carroa vira" (a). Ele igualmente fica assustado quando 
as carroas estacionadas na rampa de carregamento comeam a mover-se para partir (b). Ademais (c), fica mais assustado com os grandes cavalos de trao do que com 
os cavalos pequenos, e mais com os rudes cavalos de fazenda do que com os cavalos elegantes (como os que puxam carruagem). Tambm fica mais assustado quando um veculo 
passa rapidamente (d) do que quando os cavalos trotam a passo lento. Essas diferenciaes naturalmente s se evidenciaram claramente nestes ltimos dias.'
         Eu me inclinaria a dizer que, em conseqncia da anlise, no s o paciente como tambm a sua fobia haviam tomado coragem e agora se arriscavam a manifestar-se. 
[Cf. em [1].]
         'No dia 5 de abril Hans veio de novo para nosso quarto, mas foi mandado de volta para sua cama. Eu lhe disse: "Enquanto voc entrar em nosso quarto, de 
manh, seu medo de cavalos no vai melhorar." Sua atitude, contudo, era de desafio, e ele replicou: "No importa, eu vou entrar, mesmo se eu estiver com medo." Quer 
dizer, ele no permitiria que o proibissem de visitar sua me.
         'Depois do caf deveramos descer. Hans ficou muito contente e resolveu, em vez de ficar parado  porta da rua, como de hbito, atravessar a rua e entrar 
no ptio, onde freqentemente via crianas da rua brincando. Disse-lhe que eu ficaria contente se ele atravessasse, e aproveitei a oportunidade para lhe perguntar 
por que ficava com tanto medo quando as carroas carregadas na rampa comeavam a movimentar-se (b).
         'Hans: "Tenho medo de ficar ao lado da carroa e ela partir rpido, e de ficar de p nela e querer passar para o galpo (a rampa de carregamento), e ento 
a carroa me levar quando sair."
         'Eu: "E se a carroa fica parada? Ento voc no tem medo? Por que no?"
         'Hans: "Se a carroa fica parada eu posso subir rpido na carroa e dela passar para o galpo." [Fig. 3.]
         
         
         
         Fig. 3
         
         
         'Ento Hans est planejando subir em cima de uma carroa e da passar para a rampa de carregamento, e tem medo de a carroa partir quando ele estiver em 
cima dela.
         'Eu: "Talvez voc tenha medo de no mais voltar para casa se voc partir com a carroa, no?"
         'Hans: "Oh, no! Posso sempre voltar para mame, na carroa ou num carro. Posso dar a ele o nmero da nossa casa."
         'Eu: "Ento por que voc fica com medo?"
         'Hans: "No sei. Mas o Professor deve saber. Voc no acha que ele vai saber?"
         'Eu: "E por que voc quer subir at o galpo?"
         'Hans: "Porque nunca estive l, e gostaria muito de estar l; e voc sabe por que eu gostaria de ir l? Porque eu gostaria de carregar e descarregar as 
caixas, e gostaria de ficar trepando e brincando pelas caixas que ficam l. Eu gostaria tanto de ficar por l brincando assim. Voc sabe com quem aprendi a ficar 
subindo pelas caixas? Eu vi alguns meninos subindo em cima das caixas e quero fazer isso tambm."
         'Seu desejo no foi satisfeito. Porque quando Hans se arriscou a ir  frente da porta de entrada, os poucos passos para atravessar a rua e entrar no ptio 
despertaram nele enormes resistncias, porque constantemente as carroas entravam no ptio.
         O Professor sabe apenas que o brinquedo que Hans pretendia com as carroas carregadas deve ter permanecido na relao de um substituto simblico para algum 
outro desejo, quanto ao qual ele at ento no havia pronunciado uma s palavra. Contudo, se no parecer ousado demais, esse desejo, mesmo nesse estdio, j poderia 
estar estruturado.
         ' tarde samos novamente para a frente da porta e, quando voltei, perguntei a Hans:
         '"De que cavalos voc realmente tem mais medo?"
         'Hans: "De todos."
         'Eu: "Isso no  verdade."
         'Hans: "Tenho mais medo dos cavalos que tm uma coisa na boca."
         'Eu: "O que voc quer dizer? O pedao de ferro que eles tm na boca?"
         'Hans: "No. Eles tm uma coisa preta na boca." (E cobriu a boca com a mo.)
         'Eu: "O qu? Talvez um bigode?"
         'Hans: (rindo): "Oh no!"
         'Eu: "Eles todos tm essa coisa?"
         'Hans: "No, s alguns deles."
         'Eu: "O que  que eles tm na boca?"
         'Hans: "Uma coisa preta." (Na realidade, acho que deve ser aquela parte grossa do arreio que os cavalos de trao usam por sobre o nariz.) [Fig. 4.]
         
         
         
         Fig. 4
         
         
          '"Tambm fico com muito medo das carroas de mudanas."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Eu acho que, quando os cavalos esto puxando uma carroa de mudanas muito pesada, eles podem cair."
         'Eu: "Ento voc no tem medo de carroa pequena?"
         'Hans: "No. No tenho medo nem de carroa pequena nem de um carro dos correios. Tambm fico mais com medo quando passa um nibus."
         'Eu: "Por qu?  porque  to grande, no?"
         'Hans: "No.  porque uma vez um cavalo do nibus caiu."
         'Eu: "Quando?"
         'Hans: "Uma vez que sa com mame, mesmo com a minha 'bobagem', foi quando comprei o colete." (Isso foi, depois, confirmado por sua me.)
         'Eu: "O que voc pensou, quando o cavalo caiu?"
         'Hans: "Agora vai ser sempre assim. Todos os cavalos dos nibus vo cair."
         'Eu: "De todos os nibus?"
         'Hans: ". E tambm das carroas de mudanas. Mas estes devem cair menos vezes."
         'Eu: "Naquela ocasio voc j tinha a sua bobagem?"
         'Hans: "No, s a  que tive. Quando o cavalo do nibus caiu, levei um susto de verdade! Foi ento que eu fiquei com a bobagem."
         
         'Eu: "Mas a bobagem foi que voc pensava que um cavalo ia mord-lo. E agora voc me diz que tinha medo de um cavalo cair."
         'Hans: "Cair ou morder."
         'Eu: "Por que voc levou o susto?"
         'Hans: "Porque o cavalo fez assim com as patas." (Ele se deitou no cho e me mostrou como o cavalo agitava as patas pelos lados.) "Levei um susto porque 
ele fez um barulho com as patas."
         'Eu: "Aonde voc foi com a mame nesse dia?"
         'Hans: "Primeiro fomos ao rinque de patinao, depois a um caf, e a fomos comprar o colete, depois fomos  confeitaria e voltamos de noite para casa; 
voltamos pelo Stadtpark." (Tudo isso foi confirmado por minha esposa, como tambm o fato de que imediatamente aps irrompeu a ansiedade.)
         'Eu: "O cavalo estava morto quando caiu?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "E como voc sabia disso?"
         'Hans: "Porque eu vi." (Riu.) "No, no estava nada morto."
         'Eu: "Talvez voc achasse que estivesse morto..."
         'Hans: "No, de jeito nenhum. Eu s disse isso de brincadeira." (Sua expresso no momento, porm, tinha sido de seriedade.)
         'Quando se cansou, deixei-o ir brincar. Alm disso ele me contou apenas que, a princpio, tivera medo de cavalos dos nibus, depois de todos e, somente 
no final, que tinha medo de cavalos das carroas de mudanas.
         'Na volta de Lainz, fiz-lhe mais algumas perguntas:
         'Eu: "Quando o cavalo do nibus caiu, que cor ele tinha? Branco, ruo, castanho, cinza?"
         'Hans: "Preto. Os dois cavalos eram pretos."
         'Eu: "Era grande ou pequeno?"
         'Hans: "Grande".
         'Eu: "Gordo ou magro?"
         'Hans: "Gordo. Muito grande e gordo."
         'Eu: "Quando o cavalo caiu voc pensou no seu papai?"
         'Hans: "Pode ser. Sim,  possvel."
         Pode ser que as investigaes do pai de Hans no lograssem xito em alguns aspectos; contudo, no  prejudicial travar conhecimento, na intimidade, com 
uma fobia dessa espcie - a qual podemos sentir-nos inclinados a denominar a partir de seus objetos. [Cf. em [1].] Isso porque, dessa forma, conseguimos ver a que 
ponto ela  realmente difusa. Ela se estende at cavalos e carroas, ao fato de cavalos carem e morderem, at cavalos de caractersticas especiais, a carroas carregadas 
com muito peso. Revelarei, de imediato, que todas essas caractersticas derivavam da circunstncia de que a ansiedade, originalmente, no encerrava referncia alguma 
a todos os cavalos, mas para eles se transpunha de modo secundrio, e acabara por ficar fixada naqueles elementos do complexo relativo a cavalos, que se revelaram 
bem adaptados a determinadas transferncias. Devemos reconhecer especialmente um resultado muito importante do exame ao qual o menino foi submetido por seu pai. 
Aprendemos qual foi a causa imediata que precipitou a irrupo da fobia. Ocorreu quando o menino viu cair um cavalo grande e pesado; e pelo menos uma das interpretaes 
dessa impresso parece ser aquela  qual seu pai deu nfase, ou seja, que Hans naquele momento percebeu um desejo de que seu pai casse daquele mesmo modo... e morresse. 
A expresso de seriedade que assumiu ao contar o episdio referia-se, sem dvida, a esse significado inconsciente. Ser que existiria ainda outro significado oculto 
atrs disso tudo? Alm disso, qual pode ter sido a significao de o cavalo fazer um grande barulho com as pernas?
         'Durante algum tempo, Hans tem brincado de cavalo, no quarto; ele trota, deixa-se cair, esperneia com os ps e relincha. Certa vez prendeu no rosto um saquinho, 
parecido com a sacola de focinheira dos cavalos. Repetidamente, vem correndo at mim e me morde.'
         Desse modo, ele aceitava as ltimas interpretaes com mais determinao do que lhe era possvel fazer com palavras, mas naturalmente mediante uma troca 
de papis, de vez que o jogo se desenrolava em obedincia a uma fantasia plena de desejo. Por conseguinte, ele era o cavalo, e mordia seu pai; assim, ele se identificava 
com seu pai.
         'Nesses dois ltimos dias notei que Hans me tem desafiado de uma maneira bem decidida, no com maus modos, mas com muita animao. Ser porque j no tem 
mais medo de mim - o cavalo?
         
         '6 de abril. Fui com Hans at a frente de casa,  tarde. Ao passar algum cavalo eu lhe perguntava se ele via o "preto na boca do animal"; ele sempre dizia 
que "no". Perguntei-lhe com que se parecia de fato esse preto e ele respondeu que parecia com um ferro preto. Portanto, no se confirmou a minha primeira idia, 
de que de fato era a correia de couro que faz parte dos arreios nos cavalos de trao. Indaguei-lhe se "a coisa preta" lhe lembrava um bigode, e ele disse: "S pela 
cor." De modo que ainda no sei o que realmente vem a ser.
         'Seu medo diminuiu; dessa vez arriscou-se a ir at a casa vizinha, mas voltou imediatamente quando ouviu trotes de cavalos ao longe. Quando uma carroa 
veio parar em frente  nossa porta, ele ficou assustado e correu para dentro de casa, pois o cavalo comeou a mexer as patas. Perguntei-lhe por que estava com medo 
e tambm se, talvez, ficara nervoso porque o cavalo tinha feito assim (e bati com o p no cho). Ele disse: "No faa tanto barulho assim com o p!" Compare com 
a observao que ele fez a respeito do cavalo do nibus, que caiu.
         'Ele ficou especialmente apavorado ao passar por perto uma carroa de mudanas; e correu depressa para dentro de casa. Perguntei-lhe, despreocupado: "Uma 
carroa de mudanas como essa parece realmente com um nibus?" Ele nada disse. Repeti a pergunta, e ento ele respondeu: "Pois  claro! Seno, eu no teria tanto 
medo de uma carroa de mudanas."
         '7 de abril. Hoje novamente lhe perguntei com que se parecia a "coisa preta na boca dos cavalos". Hans disse: "Com um focinho." Curioso  que nesses ltimos 
trs dias no passou um s cavalo no qual ele indicasse esse tal "focinho". Eu mesmo no tenho visto, nos meus passeios, um cavalo desses, embora Hans afirme que 
tais cavalos existem de verdade. Desconfio que, nos cavalos, algum tipo de brido - a pea pesada dos arreios em torno da boca, talvez - realmente lhe lembrasse 
um bigode, e que, depois que aludi a isso, esse medo tambm desapareceu.
         'Sua melhoria tem sido constante. O raio de seu crculo de atividades, tendo a porta da rua como seu centro, torna-se cada vez maior. Chegou at a levar 
a cabo a faanha, que at agora lhe tem sido impossvel, de atravessar correndo at a calada em frente, do outro lado. Todo o medo que ainda permanece relaciona-se 
com a cena do nibus, cujo significado ainda no est claro para mim.
         '9 de abril. Nesta manh, Hans veio ver-me, enquanto eu me lavava e estava nu at a cintura.
         'Hans: "Papai, voc  lindo! Voc  to branco."
         
         'Eu: "Sim. Como um cavalo branco."
         'Hans: "A nica coisa preta  o seu bigode." (continuando:) "Ou talvez seja um focinho preto?"
         'Ento, falei para ele que na vspera,  noite, eu tinha ido visitar o Professor; e disse a Hans: "H uma coisa que ele quer saber." "Estou muito curioso", 
comentou Hans.
         'Eu lhe disse que sabia em que momentos ele fazia um barulho com os ps. "Ah, sim", interrompeu-me, " quando estou zangado, ou quando tenho de fazer 'lumf' 
quando o que quero  brincar." ( verdade que ele tem o hbito de fazer barulho com os ps, isto , bater com eles quando est zangado. - "Fazer 'lumf'" significa 
evacuar os intestinos. Hans, quando pequeno, ao levantar-se certo dia do urinol, disse: "Olha para o 'lumf' [em alemo: 'Lumpf']." Ele queria dizer "meia" [em alemo: 
"Strumpf"], por causa da sua forma e da cor. Essa denominao persiste at hoje. - Ainda bem novinho, quando tinha de ser posto no urinol, e se recusava a deixar 
seu brinquedo, costumava bater com os ps no cho, de raiva, e dava pontaps a esmo, s vezes tambm atirando-se no cho.)
         '"E voc tambm fica dando pontaps quando tem de fazer pipi e no quer ir porque prefere continuar brincando."
         'Ele: "Ah, preciso ir fazer pipi." E saiu da sala - sem dvida para confirmar o que acabara de dizer.'
         Durante a visita que me fez, o pai de Hans me perguntou que recordao poderia ter sido trazida  sua mente pelo cavalo cado agitando as patas. Sugeri-lhe 
que poderia ter sido a sua prpria reao ao reter a urina. Hans ento confirmou isso, com o ressurgimento, durante a conversa, de um desejo de urinar, acrescentando 
mais outros significados ao ato de fazer barulho com os ps.
         'Em seguida, samos para a calada em frente  porta da rua. Ao passar uma carroa carregada de carvo, ele me disse: "Papai, eu tambm tenho medo das carroas 
de carvo."
         'Eu: "Talvez porque elas sejam grandes como os nibus."
         'Hans: "Sim, e porque a carga  muito pesada e os cavalos tm de arrastar tanta coisa, e seria fcil eles carem. Se a carroa est vazia eu no tenho medo." 
Conforme j observei,  um fato que apenas os veculos pesados o pem num estado de ansiedade.'
         
         A situao, todavia, continuava francamente obscura. A anlise fazia poucos progressos; e receio que o leitor comece a achar tediosa a descrio que fao 
dela. No entanto, toda anlise tem perodos obscuros dessa natureza. Mas Hans tinha chegado, ento, ao ponto de conduzir-nos para uma rea inesperada.
         'Tinha voltado para casa e estava conversando com minha esposa, que me mostrava as compras que fizera. Entre elas, havia um par de calcinhas amarelas para 
senhoras. Hans exclamou "hum" duas ou trs vezes, jogou-se no cho e cuspiu. Minha esposa disse que ele j fizera isso, umas duas ou trs vezes, quando via as calcinhas.
         '"Por que  que voc diz 'hum'?", perguntei.
         'Hans: "Por causa das calcinhas."
         'Eu: "Por qu? Por causa da cor delas? Porque so amarelas e fazem voc se lembrar de 'lumf' ou pipi?"
         'Hans: "'Lumf' no  amarelo.  branco ou preto" - E logo a seguir: "Sabe,  verdade que  fcil fazer 'lumf' se a gente comer queijo?" (Uma vez eu lhe 
disse isso quando me perguntou por que eu comia queijo.)
         'Eu: "Sim."
         'Hans: " por isso que voc toda manh vai logo fazer 'lumf'? Eu gostaria tanto de comer queijo com meu po com manteiga."
         'Ontem mesmo, quando brincava de pular na rua, me perguntara: " verdade, no , que  fcil a gente fazer 'lumf' quando a gente pula muito?" - Tem havido 
problemas com sua evacuaes desde tenra idade; e o emprego de laxantes e enemas era freqentemente necessrio. Em certa poca, sua constipao era to grande que 
minha esposa chamou o Dr. L. Sua opinio foi que Hans era superalimentado, o que, com efeito era o caso, e recomendou uma dieta mais moderada - e a situao logo 
se resolveu. Recentemente a constipao voltou a aparecer com certa freqncia.
         'Depois do almoo, eu disse a Hans: "Vamos escrever de novo ao Professor", e ele me ditou o seguinte: "Quando eu vi as calcinhas amarelas eu disse 'hum! 
isso me faz cuspir!', e joguei-me no cho, e fechei os olhos e no olhei."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Porque vi as calcinhas amarelas, e fiz tambm a mesma coisa quando vi as calcinhas pretas. As pretas so do mesmo tipo das calcinhas, s que eram 
pretas." (Interrompendo-se, disse:) "Estou to contente, sabe? Fico sempre contente quando posso escrever para o Professor."
         'Eu: "Por que voc disse 'hum'? Voc sentiu nojo?"
         'Hans: "Sim, porque eu vi aquilo. Pensei que teria que fazer 'lumf'."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "No sei."
         'Eu: "Quando foi que voc viu as calcinhas pretas?"
         'Hans: "Foi um dia em que Anna (nossa empregada) ficou aqui muito tempo, com a mame, e ela as trouxe para casa logo depois que as comprou." (Essa assero 
foi confirmada por minha esposa.)
         'Eu: "Voc ficou com nojo dessa vez tambm?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "Voc j viu a mame vestida numa cala daquelas?"
         'Hans: "No."
         'Eu: "Nem enquanto ela se vestia?"
         'Hans: "Quando ela comprou as amarelas eu j as tinha visto uma vez." (Isso foi desmentido. Ele viu as amarelas pela primeira vez quando sua me as comprou.) 
"Mame est usando as pretas hoje" (correto), "porque eu vi quando ela as tirou, hoje de manh."
         'Eu: "O qu? Ela tirou as calas pretas, de manh?"
         'Hans: "Hoje de manh, quando ela saiu, ela tirou as calas pretas, e quando voltou ela vestiu as pretas de novo."
         'Perguntei a minha esposa sobre isso, pois me parecia absurdo. Ela disse que isso no tinha fundamento algum.  claro que no havia trocado de calas ao 
sair.
         'Fui logo perguntar a Hans sobre o fato: "Voc me disse que mame tinha vestido calas pretas e que ao sair ela as tirou, e as vestiu de novo quando voltou. 
Mas mame disse que no  verdade."
         'Hans: "Acho que talvez eu tenha esquecido que ela no tirou as calas." (E com impacincia:) "Por favor, me deixe em paz."'
         Devo fazer alguns comentrios, a essa altura, com respeito  histria das calas. Logicamente foi mera hipocrisia da parte de Hans fingir que estava to 
feliz com a oportunidade de falar nelas. No final, ps a mscara de lado e foi rude com seu pai. Tratava-se de algo que j lhe havia proporcionado um prazer enorme, 
mas que agora, instalada a represso, muito o envergonhava, provocando nele expresses de nojo. Resolveu, assim, mentir para disfarar as cicunstncias nas quais 
vira sua me trocar de calas. Na realidade, vestir e tirar as calas eram parte do contexto do 'lumf'. Seu pai estava inteiramente ciente de tudo, e tambm daquilo 
que Hans tentava ocultar. 
         
         'Perguntei a minha esposa se Hans a acompanhava com freqncia quando ela ia ao banheiro. "Sim, muitas vezes", disse ela. "Ele insiste e me amola at que 
eu o permita. Todas as crianas so assim."'
         Deve-se, contudo, prestar cuidadosa ateno ao desejo, que Hans j havia reprimido, de ver sua me fazer 'lumf'.
         'Samos, ento, at a calada da nossa casa. Ele estava muito animado e brincava de trotar como um cavalo, quase sem parar. Disse-lhe: "E agora, quem  
o cavalo do nibus? Eu, voc ou mame?"
         'Hans: (respondendo logo): "Sou eu; eu sou um cavalinho novo."
         'No perodo em que sua ansiedade atingira seu ponto mais agudo e Hans ficava assustado ao ver cavalos brincando, perguntou-me por que faziam isso; eu, para 
acalm-lo, disse: "So cavalos novos, sabe, e eles ficam brincando, como os meninos. Voc tambm brinca, corre para l e para c, e voc  um menino." Desde ento 
me dizia, sempre que via cavalos brincando: " isso mesmo, eles so cavalos novos!"
         'Enquanto subamos as escadas, perguntei-lhe, quase sem pensar: "Voc brincava de cavalos com as crianas l de Gmunden?"
         'Ele: "Sim." (E pensativo) "Acho que foi a que fiquei com a 'bobagem'."
         'Eu: "Quem era o cavalo?"
         'Ele: "Era eu, e Berta era o cocheiro."
         'Eu: "Alguma vez voc caiu, quando voc era um cavalo?"
         'Hans: "No. Quando Berta dizia 'anda!', eu corria depressa, depressa, at disparava."
         'Eu: "Vocs nunca brincavam de nibus?"
         'Hans: "No, s de carroas, e de cavalos sem carroas. Quando um cavalo tem uma carroa ele pode muito bem andar sem ela, e a carroa pode ficar em casa."
         'Eu: "Vocs brincavam muito de cavalos?"
         'Hans: "Muitas vezes. Fritzl uma vez foi o cavalo e Franzl era o cocheiro; e Fritzl correu to depressa e, de repente, bateu com o p numa pedra e o p 
sangrou."
         'Eu: "Quem sabe no caiu?"
         'Hans: "No. Ele ps o p dentro d'gua e depois amarrou um pano nele."
         
         'Eu: "Voc muitas vezes foi o cavalo?"
         'Hans: "Sim, muitas."
         'Eu: " E como foi que voc ficou com a 'bobagem'?"
         'Hans: "Foi porque eles ficavam dizendo 'por causa do cavalo', 'por causa do cavalo'" (ele acentuou com nfase o 'por causa'); "ento, talvez, fiquei com 
a 'bobagem' porque eles falavam daquele jeito, 'por causa do cavalo'."
         Por algum tempo o pai de Hans continuou seu inqurito, atravs de outros caminhos, sem resultado.
         'Eu: "Eles lhe contaram alguma coisa sobre cavalos?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "O qu?"
         'Hans: "Esqueci."
         'Eu: "Talvez eles lhe tenham falado sobre os seus pipis?"
         'Hans: "Oh, no."
         'Eu: "Voc j tinha medo de cavalos, nessa poca?"
         'Hans: "No. Eu no tinha medo nenhum."
         'Eu: "Talvez Berta lhe tenha falado que os cavalos..."
         'Hans (interrompendo): "...fazem pipi? No."
         'No dia 10 de abril retomei nossa conversa do dia anterior, e tentei descobrir o que significava o seu "por causa do cavalo". Hans no conseguia lembrar-se; 
ele s sabia que, certa manh, algumas crianas tinham ficado do lado de fora da porta da frente, e disseram: "por causa do cavalo, por causa do cavalo!" Ele mesmo 
estava l. Quando o pressionei mais, ele declarou que elas no disseram "por causa do cavalo" nada, mas que ele se tinha lembrado errado.
         'Eu: "Mas voc e os outros estavam constantemente nos estbulos. Vocs devem ter conversado sobre cavalos l." - "Ns no conversamos." - "Sobre que  que 
vocs falavam?" - "Sobre nada." - "Tantas crianas, e nada para conversar?" - "Ns falvamos sobre alguma coisa, mas no sobre cavalos." - "Bom, o que era?" - "No 
me lembro mais."
         'Deixei de lado o assunto, j que as resistncias eram evidentemente grandes demais, e passei para a seguinte pergunta: "Voc gostava de brincar com Berta?"
         'Ele: "Gostava muito, mas no com Olga. Voc sabe o que Olga fez? Uma vez eu ganhei uma bola de papel de Grete, l em Gmunden, e Olga rasgou-a toda em pedaos. 
Berta nunca teria rasgado a minha bola. Eu gostava muito de brincar com Berta."
         'Eu: "Voc viu como era o pipi de Berta?"
         'Ele: "No, mas eu vi o dos cavalos; porque eu estava sempre nos estbulos, ento vi os pipis dos cavalos."
         'Eu: "Ento voc estava curioso e queria saber como eram os pipis de Berta e de mame?
         'Ele: "Sim."
         'Eu lhe lembrei como ele uma vez se queixou a mim de que as menininhas sempre queriam ficar olhando quando ele estava fazendo pipi [ver em [1]].
         'Ele: "Berta sempre me olhava tambm" (ele falou com muita satisfao, e nem um pouco ressentido); "ela fazia isso freqentemente. Eu costumava fazer pipi 
no jardinzinho onde havia rabanetes, e ela ficava do lado de fora da porta da frente e me olhava."
         'Eu: "E quando ela fazia pipi, voc ficava olhando?"
         'Ele: "Ela costumava ir ao banheiro."
         'Eu: "E voc ficava curioso?"
         'Ele: "Eu ficava dentro do banheiro quando ela estava l dentro."
         '(Isto era um fato. As empregadas nos falaram sobre o assunto, uma vez, e eu me lembro que proibimos Hans de faz-lo.)
         'Eu "Voc lhe disse que queria entrar?"
         
         'Ele: "Eu entrei sozinho, e porque Berta me deixou entrar. No h nada de vergonhoso nisso."
         'Eu: "E voc teria gostado de ver o pipi dela?"
         'Ele: "Sim, mas eu no vi."
         'Eu ento lhe lembrei o sonho de cobrar prendas que ele tinha tido em Gmunden [ver em [1]], e disse: "Quando voc estava em Gmunden, voc queria que Berta 
o fizesse fazer pipi?"
         'Ele: "Eu nunca disse isso a ela."
         'Eu: "Por que voc nunca lhe disse isso?"
         'Ele: "Porque eu no pensei nisso." (Interrompendo-se) "Se eu escrever tudo para o Professor, minha bobagem vai acabar logo, no vai?"
         'Eu: "Por que  que voc queria que Berta o fizesse fazer pipi?"
         'Ele: "No sei. Porque ela me ficava olhando."
         'Eu: "Voc pensou para voc mesmo que ela podia pr a mo no seu pipi?"
         'Ele: "Sim." (Mudando de assunto) "Era to divertido em Gmunden. No jardinzinho onde havia rabanetes, havia um montinho de areia; eu costumava brincar l 
com a minha p."
         '(Esse era o jardim onde ele costumava fazer pipi sempre.)
         'Eu: "Voc punha a mo no seu pipi em Gmunden, quando estava na cama?"
         'Ele: "No. Naquela poca no; eu dormia to bem em Gmunden que nunca nem pensei nisso. As nicas vezes que eu fiz isso foi na Rua - e agora."
         'Eu: "Mas Berta nunca ps a mo no seu pipi?"
         'Ele: "Ela nunca ps, no; porque eu nunca lhe disse para pr."
         'Eu: "Bom, e quando foi que voc quis que ela pusesse?"
         'Ele: "Ah, uma vez em Gmunden."
         'Eu: "Uma vez s?"
         'Ele: "Bom, de vez em quando."
         'Eu: "Ela costumava ficar olhando sempre para voc quando voc fazia pipi; talvez ela estivesse curiosa para saber como  que voc fazia pipi?"
         'Ele: "Talvez ela estivesse curiosa para saber como era o meu pipi."
         'Eu: "Mas voc tambm estava curioso. S sobre a Berta?"
         'Ele: "Sobre a Berta, e sobre a Olga."
         'Eu: ''Sobre quem mais?"
         
         'Ele: "Sobre ningum mais."
         'Eu: "Voc sabe que isso no  verdade. Sobre mame tambm."
         'Ele: "Ah, sim, sobre mame."
         'Eu: "Mas agora voc no est mais curioso. Voc sabe como  o pipi da Hanna, no sabe?"
         'Ele: "Mas o pipi de Hanna vai crescer, no vai?"
         'Eu: " claro que vai. Mas quando crescer no vai ser igual ao seu."
         'Ele: "Eu sei disso. Vai ser a mesma coisa" (isto , como  agora), "s que maior."
         'Eu: "Quando ns estvamos em Gmunden, voc ficava curioso quando sua mame se despia?"
         'Ele: "Sim. E quando Hanna estava no banho, eu vi o pipi dela."
         'Eu: "E o de mame tambm?"
         'Ele: "No."
         'Eu: "Voc teve nojo quando viu as calas de mame?"
         'Ele: "S quando eu vi as pretas - quando ela as comprou -, ento eu cuspi. Mas eu no cuspo quando ela pe suas calas ou as tira. Eu cuspo porque as calas 
pretas so pretas como um 'lumf' e as amarelas so como pipi, e ento eu acho que tenho que fazer pipi. Quando mame est usando suas calas, eu no as vejo; ela 
usa suas roupas por cima delas."
         'Eu: "E quando ela tira as roupas dela?"
         'Ele: "Eu no cuspo nessa hora, tambm no. Mas quando as calas esto novas, elas parecem um 'lumf'. Quando elas esto velhas, a cor vai embora, e elas 
ficam sujas. Quando voc as compra, elas esto bem limpas, mas em casa elas se tornam sujas. Quando elas so compradas, elas so novas, e quando elas no so compradas, 
elas so velhas."
         'Eu: "Ento voc no tem nojo das velhas?"
         'Ele: "Quando elas esto velhas, ficam muito mais pretas que um 'lumf', no ficam? Elas ficam s um pouco mais pretas."
         'Eu: "Voc esteve muitas vezes no banheiro com a mame?"
         'Ele: "Muitas vezes."
         'Eu: "E voc teve nojo?"
         
         'Ele: "Sim... No."
         'Eu: "Voc gosta de ficar l quando a mame faz pipi ou 'lumf'?"
         'Ele: "Gosto muito."
         'Eu: "Por que  que voc gosta tanto disso?"
         'Ele: "No sei."
         'Eu: "Porque voc acha que vai ver o pipi da mame."
         'Ele: ", eu acho que  por isso."
         'Eu: "Mas por que  que voc nunca vai ao banheiro em Lainz?"
         '(Em Lainz ele sempre me pede para no lev-lo ao banheiro; ele ficou assustado certa vez com o barulho da descarga.)
         'Ele: "Talvez porque faz um barulho quando voc puxa a vlvula."
         'Eu: "E ento voc fica com medo."
         'Ele: "Sim."
         'Eu: "E no banheiro daqui?"
         'Ele: "Aqui eu no tenho medo. Em Lainz me d medo quando voc puxa a vlvula. E quando eu estou l dentro e a gua corre para baixo, me d medo tambm."
         'E, "s para me mostrar que ele no tinha medo no nosso apartamento", me fez ir at o banheiro e ps a vlvula em funcionamento. Ento ele me explicou:
         '"Primeiro h um barulho alto, depois um barulho solto." (Este  quando a gua escorre.) "Quando h o barulho alto eu prefiro ficar dentro; quando h o 
barulho suave, eu prefiro sair."
         'Eu: "Por que voc tem medo?"
         'Ele: "Porque quando h o barulho alto eu gosto tanto de v-lo" - (corrigindo-se) "de ouvi-lo; de modo que eu prefiro ficar dentro e ouvi-lo direito."
         'Eu: "O que  que o barulho alto lhe lembra?"
         'Ele: "Que eu tenho que fazer 'lumf' no banheiro. (A mesma coisa que as calas pretas lhes lembravam.)
         'Eu: "Por qu?"
         'Ele: "No sei. Um barulho alto soa como se voc estivesse fazendo 'lumf'. Um barulho me lembra 'lumf', e um barulhinho, pipi." (Cf. as calas pretas e 
amarelas.)
         'Eu: "Escute, o cavalo do nibus no era da mesma cor que um "'lumf'?" (De acordo com o seu relato ele era preto [ver em [1]].)
         'Ele (muito impressionado): "Era."
         Nesse ponto devo acrescentar algumas palavras. O pai de Hans estava fazendo perguntas demais, e estava pressionando o inqurito atravs de suas prprias 
linhas, em vez de permitir ao garotinho que expressasse seus pensamentos. Por essa razo a anlise comeou a ficar obscura e incerta. Hans tomou seu prprio caminho 
e no produziria nada se fossem feitas tentativas para tir-lo deste. No momento seu interesse estava, evidentemente, centralizado em 'lumf' e pipi, mas no podemos 
dizer por qu. O caso do barulho foi to mal enfocado quanto o das calas amarelas e pretas. Suspeito que os argutos ouvidos do menino tenham detectado claramente 
a diferena entre os sons feitos por um homem urinando e por uma mulher. A anlise conseguiu forar o material, de forma um tanto artificial, para uma expresso 
da distino entre os dois diferentes apelos da natureza. S posso aconselhar queles dos meus leitores que at agora ainda no tenham conduzido uma anlise, que 
no tentem compreender tudo de uma vez, mas que dem um tipo de ateno no tendenciosa para todo ponto que surgir e aguardem desenvolvimentos posteriores.
         '11 de abril. Nesta manh Hans veio, de novo, para nosso quarto, e foi mandado embora, como tem sido sempre nos ltimos dias.
         'Mais tarde ele comeou: "Papai, eu pensei uma coisa: eu estava no banho, e ento veio o bombeiro e desaparafusou a banheira. Depois ele pegou uma grande 
broca e bateu no meu estmago."'
         O pai de Hans traduziu essa fantasia como se segue: '"Eu estava na cama com mame. Depois papai veio e me tirou de l. Com o seu grande pnis ele me empurrou 
do meu lugar, ao lado de mame."'
         Vamos manter em suspenso o nosso julgamento por agora.
         'Ele prosseguiu relatando uma segunda idia que tinha tido: "Estvamos viajando no trem para Gmunden. Na estao pusemos nossas roupas, mas no conseguimos 
acabar a tempo, e o trem nos levou."
         'Mais tarde, perguntei: "Voc j viu alguma vez um cavalo fazendo 'lumf'?"
         'Hans: "Vi muitas vezes."
         'Eu: "Faz muito barulho quando o cavalo faz 'lumf?"
         'Hans: "Faz."
         'Eu: "O que  que o barulho lhe lembra?"
         'Hans: "Como quando o 'lumf' cai no urinol."
         
         'O cavalo do nibus que cai e faz um barulho com suas patas , sem dvida, um 'lumf, caindo e fazendo barulho. Seu medo da defecao e seu medo de carroas 
muito carregadas  equivalente ao medo do estmago muito cheio.'
         Por esse caminho indireto o pai de Hans estava comeando a obter um vislumbre do verdadeiro estado de coisas.
         '11 de abril. Na hora do almoo Hans disse: "Se ao menos ns tivssemos uma banheira em Gmunden, para que eu no precisasse ir aos banhos pblicos!"  verdade 
que em Gmunden ele tem sempre que ser levado aos banhos pblicos na vizinhana para que lhe seja dado um banho quente - um processo contra o qual ele costumava protestar 
com lgrimas apaixonadas. E em Viena tambm ele sempre grita, se o fazem sentar-se ou deitar-se na banheira grande. Ele precisa que seu banho seja dado com ele ajoelhado 
ou de p.'
         Hans estava, agora, comeando a trazer combustvel para a anlise, sob a forma de pronunciamentos espontneos seus. Essa sua observao estabeleceu a relao 
entre as suas duas ltimas fantasias - a do bombeiro que desaparafusou a banheira e a da jornada malsucedida a Gmunden. Seu pai inferiu corretamente da ltima que 
Hans tinha alguma averso a Gmunden. Isso, a propsito,  um outro bom lembrete do fato de que o que emerge do inconsciente deve ser compreendido  luz no do que 
vem antes, mas do que vem depois.
         'Perguntei-lhe se tinha medo e, se tinha, de qu.
         'Hans: "De cair l dentro."
         'Eu: "Mas por que voc nunca teve medo quando tomava seu banho na banheirinha?"
         'Hans: "Ora, porque eu sentava nela. No podia deitar nela. Era pequena demais."
         'Eu: "Quando voc foi de barco a Gmunden, no teve medo de cair na gua?"
         'Hans: "No, porque eu me segurava, ento no podia cair.  s na banheira grande que eu tenho medo de cair."
         'Eu: "Mas mame lhe d o seu banho na banheira grande. Voc tem medo de que a mame deixe voc cair na gua?"
         'Hans: "Eu tenho medo de que ela me largue e que a minha cabea mergulhe."
         'Eu: "Mas voc sabe que a mame gosta muito de voc e que no vai larg-lo."
         'Hans: "Eu s pensei nisso."
         
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Eu no sei mesmo."
         'Eu: "Talvez fosse porque voc estivesse levado, e ento pensou que ela no amasse mais voc?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "Quando voc estava olhando mame dar o banho de Hanna, talvez voc quisesse que ela largasse Hanna, para que ela casse na gua?"
         'Hans: "Sim.'"
         O pai de Hans, no podemos deixar de pensar, tinha feito uma tima conjectura.
         '12 de abril. Enquanto estvamos voltando de Lainz numa carruagem de segunda classe, Hans olhou para o couro preto do encosto dos bancos e disse: "hum! 
isso me faz cuspir! Calas pretas e cavalos pretos me fazem cuspir tambm, porque tenho que fazer 'lumf'."
         'Eu: "Talvez voc tenho visto alguma coisa da mame que era preto, e isso o assustou?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "Bom, e o que foi?"
         'Hans: "No sei. Uma blusa preta ou meias pretas."
         'Eu: "Talvez tenha sido cabelo preto perto do pipi dela, quando voc estava curioso e olhou."
         'Hans (defendendo-se): "Mas eu no vi o pipi dela."
         'De uma outra vez ele se assustou novamente com uma carroa saindo do porto do ptio em frente. "Os portes no parecem um traseiro?", perguntei.
         'Ele: "E os cavalos so os 'lumfs'!" Desde, ento, toda vez que ele v uma carroa saindo, ele diz: "Olha, l vem vindo um 'lumfy'!" Essa forma da palavra 
("lumfy")  bem nova para ele; soa como um termo de ternura. Minha cunhada sempre chama sua criana de "Wumfy".
         'No dia 13 de abril ele viu um pedao de fgado na sopa e exclamou: "hum! Um 'lumf'!" Croquetes de carne, tambm, ele os come com evidente relutncia, porque 
sua forma e cor lhe lembram 'lumf'.
         'De noite minha mulher me contou que Hans tinha ficado na varanda e tinha dito: "Eu pensei para mim mesmo que Hanna estava na varanda e tinha cado de l." 
Eu lhe tinha dito uma ou duas vezes para ter cuidado para que Hanna no chegasse muito perto da balaustrada, quando ele estivesse na varanda, pois a grade fora projetada 
da maneira menos prtica possvel (porum serralheiro do Movimento Secessionista) e tinha grandes intervalos, os quais eu teria que ter preenchido com uma rede de 
arame. O desejo reprimido de Hans estava bem transparente. Sua me lhe perguntou se ele tinha preferido que Hanna no estivesse l, ao que ele respondeu "Sim".
         '14 de abril. O tema de Hanna  o principal. Como vocs devem lembrar-se por registros anteriores, Hans sentiu uma forte averso pelo beb recm-nascido, 
que lhe roubou uma parte do amor de seus pais. Essa antipatia no desapareceu completamente e s foi supercompensada em parte por uma afeio exagerada. Ele j tinha 
expressado muitas vezes um desejo de que a cegonha no trouxesse mais bebs e que devamos pagar-lhe algum dinheiro para no trazer mais nenhum "de dentro da grande 
caixa", onde esto os bebs. (Comparar com o seu medo das carroas de mudanas. Um nibus no se parece com uma caixa grande?) Hanna grita tanto, diz ele, e isso 
 uma amolao para ele.
         'Certa vez ele disse de repente: "Voc se lembra de quando Hanna veio? Ela ficou ao lado de mame na cama, to bonitinha e boazinha." (Seu elogio soou suspeitamente 
vazio.)
         'E, depois, no que se refere ao andar de baixo, fora da casa, h um grande progresso a ser relatado. At mesmo os vages de carga pesada lhe causam menos 
susto. Uma vez ele exclamou, quase com alegria: "L vem um cavalo com uma coisa preta na boca!" E, por fim, pude estabelecer o fato de que era um cavalo com uma 
focinheira de couro. Mas Hans no estava com medo algum desse cavalo.
         'Uma vez ele bateu na calada com a sua vara e disse: "Escute, tem algum homem aqui embaixo? - algum enterrado? - ou isso  s no cemitrio?" Ento ele 
est ocupado no s com o enigma da vida, mas tambm com o enigma da morte.
         'Quando chegamos em casa de novo, vi uma caixa no hall de entrada, e Hans disse: "Hanna viajou conosco para Gmunden numa caixa como essa. Toda vez que viajvamos 
para Gmunden ela ia conosco na caixa. Voc no est acreditando em mim de novo?  verdade, papai. Acredite em mim. Ns tnhamos uma caixa grande, que estava cheia 
de bebs; eles se sentavam na banheira." (Uma pequena banheira tinha sido acondicionada dentro da caixa.) "Eu os pus l dentro. De verdade mesmo. Eu me lembro muito 
bem."
         'Eu: "O que voc pode lembrar?"
         'Hans: "Que Hanna viajou na caixa, porque eu no esqueci isso. Palavra de honra!"
         'Eu: "Mas no ano passado Hanna viajou conosco na carruagem."
         'Hans: "Mas antes disso ela sempre viajou conosco na caixa."
         'Eu: "Mame no tinha a caixa?"
         'Hans: "Sim, mame tinha."
         'Eu: "Onde?"
         'Hans: "Em casa, no sto."
         'Eu: "Talvez ela levasse a caixa com ela?"
         'Hans: "No. E quando viajarmos para Gmunden desta vez, Hanna vai viajar de novo na caixa."
         'Eu: "E como foi que ela saiu da caixa, ento?"
         'Hans: "Ela foi tirada."
         'Eu: "Por mame?"
         'Hans: "Por mame e por mim. Depois ns tomamos a carruagem e Hanna foi montada no cavalo, e o cocheiro disse: 'Vira para a direita.' O cocheiro sentou-se 
na frente. Voc tambm estava l? Mame sabe tudo sobre isso. Mame no sabe; ela j se esqueceu disso, mas no lhe diga nada!"
         'Eu o fiz repetir toda essa histria.
         'Hans: "Depois Hanna saiu."
         'Eu: "Como, se ela no podia andar de jeito nenhum naquela poca?"
         'Hans: "Bom, ento ns a suspendemos e tiramos."
         'Eu: "Mas como  que ela podia ter sentado no cavalo? Ela no podia sentar-se de jeito nenhum no ano passado."
         'Hans: "Ah, sim, ela podia sentar-se muito bem, e gritou 'Vira para a direita', e chicoteou com seu chicote - 'Vira para a direita! Vira para a direita!' 
-, o chicote que eu tinha. O cavalo no tinha nenhum estribo, mas Hanna montou nele. Eu no estou brincando, voc sabe, papai."'
         
         Qual pode ser o significado da persistncia obstinada do menino em toda essa bobagem? Oh, no, no era bobagem: era uma pardia, era a vingana de Hans 
sobre seu pai. Era o mesmo que dizer: 'Se voc realmente espera que eu acredite que a cegonha trouxe Hanna em outubro, quando at mesmo no vero, enquanto estvamos 
viajando para Gmunden, eu notei como o estmago de mame estava grande - ento, espero que voc acredite nas minhas mentiras.' Qual pode ser o significado da afirmao 
de que, at mesmo no vero anterior ao ltimo, Hanna tinha viajado com eles para Gmunden 'na caixa', exceto que ele sabia da gravidez de sua me? O fato de ele sustentar 
a perspectiva de uma repetio dessa jornada na caixa a cada ano sucessivo exemplifica uma maneira comum pela qual os pensamentos inconscientes do passado emergem 
para a conscincia; ou pode haver razes especiais, e expressar seu receio em ver uma gravidez semelhante repetir-se nas suas prximas frias de vero. Agora vemos, 
acima de tudo, quais eram as circunstncias que o fizeram tomar uma antipatia pela viagem a Gmunden, como indicou sua segunda fantasia [ver em [1]]. 
         'Mais tarde perguntei-lhe como foi que Hanna realmente veio para a cama de sua me, depois que nasceu.'
         Isso deu a Hans uma oportunidade de se soltar e de 'encher' bastante o seu pai.
         'Hans: "Hanna veio. Frau Kraus" (a parteira) "colocou-a na cama. Ela no podia andar,  claro. Mas a cegonha carregou-a no seu bico.  claro que ela no 
podia andar." (Ele continuou sem uma pausa.) "A cegonha subiu as escadas at o patamar, e ento bateu, e todos estavam dormindo, e ela tinha a chave certa e abriu 
a porta e ps Hanna na sua cama, e mame estava dormindo - no, a cegonha colocou-a na cama dela. Isso foi no meio da noite, e ento a cegonha colocou-a na cama 
muito tranqilamente, no fez o menor barulho com os ps, e depois pegou seu chapu e foi embora de novo. No, ela no tinha chapu."
         'Eu: "Quem tirou o chapu dela? O mdico, talvez?"
         'Hans: "Depois a cegonha foi embora; foi para casa, e depois tocou a campainha da porta, e todos na casa pararam de dormir. Mas no diga isso a mame ou 
a Tini" (a cozinheira). " um segredo."
         'Eu: "Voc gosta de Hanna?"
         'Hans: "Oh, sim, gosto muito."
         
         'Eu: "Voc prefere que Hanna no estivesse viva, ou que ela esteja viva?"
         'Hans: "Eu preferia que ela no estivesse viva."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Em todo caso, ela no gritaria tanto, e eu no suporto a sua gritaria."
         'Eu: "Por que se voc mesmo grita?"
         'Hans: "Mas Hanna grita demais."
         'Eu: "Por que  que voc no agenta isso?"
         'Hans: "Porque ela grita muito alto."
         'Eu: "Ora, ela no grita nada."
         'Hans: "Quando ela apanha no seu traseiro nu, ela grita."
         'Eu: "Voc j bateu nela?"
         'Hans: "Quando a mame bate no traseiro dela, ela grita."
         'Eu: "E voc no gosta disso?"
         'Hans: "No... Por qu? Porque ela faz muito barulho com a sua gritaria."
         'Eu: "Se voc prefere que ela no estivesse viva, voc no pode gostar nada dela."
         'Hans (concordando): ",  mesmo."
         'Eu: "Foi por isso que voc pensou, quando a mame estava dando o banho dela, que, se ela a soltasse, Hanna cairia na gua..."
         'Hans (atalhando-me): "...e morreria."
         'Eu: "E ento voc ficaria sozinho com mame. Mas um bom menino no deseja esse tipo de coisa."
         'Hans: "Mas ele pode PENSAR isso."
         'Eu: "Mas isso no  bom."
         'Hans "Se ele pensa isso,  bom de todo jeito, porque voc pode escrev-lo para o Professor."
         'Mais tarde eu lhe disse: "Voc sabe, quando Hanna for maior e souber falar, voc vai gostar mais dela."
         'Hans: "Oh, no. Eu gosto dela. No outono, quando ela for grande, eu vou sozinho com ela para o Stadtpark, e vou explicar tudo a ela."
         'Quando eu estava comeando a lhe dar algum esclarecimento adicional, ele me interrompeu, provavelmente com a inteno de me explicar que no era to mau 
assim, de sua parte, desejar que Hanna estivesse morta.
         'Hans: "Voc sabe, de qualquer jeito, que ela j estava viva h muito tempo, mesmo antes de chegar aqui. Quando ela estava com a cegonha, ela estava viva 
tambm."
         'Eu: "No. Talvez afinal de contas ela no estivesse com a cegonha."
         'Hans: "Quem a trouxe, ento? A cegonha a conseguiu."
         'Eu: "De onde foi que ela a trouxe, ento?"
         'Hans: "Oh - dela."
         'Eu: "Onde foi que ela a conseguiu, ento?"
         'Hans: "Na caixa; na caixa da cegonha."
         'Eu: "Bom, e como  que  a caixa?"
         'Hans: "Vermelha, Pintada de vermelho." (Sangue?)
         'Eu: "Quem lhe disse isso?"
         'Hans: "Mame... eu pensei isso para mim mesmo... est no livro."
         'Eu: "Em que livro?"
         'Hans: "No livro de ilustraes." (Eu o fiz buscar seu primeiro livro de ilustraes. Nele havia uma figura de um ninho com cegonhas, numa chamin vermelha. 
Esta era a caixa. Curiosamente, na mesma pgina havia tambm a figura de um cavalo sendo ferrado. Hans transferiu os bebs para a caixa, pois eles no deveriam ser 
vistos no ninho.)
         'Eu: "E o que foi que a cegonha fez com ela?"
         'Hans: "Ento a cegonha trouxe Hanna para c. No seu bico. Voc sabe, a cegonha que est em Schnbrunn, e que bicou o guarda-chuva." (Uma reminiscncia 
de um episdio em Schnbrunn.)
         'Eu: "Voc viu como foi que a cegonha trouxe Hanna?"
         'Hans: "Ora, eu estava dormindo, voc sabe. Uma cegonha nunca pode trazer uma menininha ou um menininho de manh."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Ela no pode. Uma cegonha no pode fazer isso. Voc sabe por qu? Para que as pessoas no vejam. E ento, de repente, pela manh, l est uma menininha."
         
         'Eu: "Mas, de todo jeito, na poca voc ficou curioso para saber como foi que a cegonha fez isso?"
         'Hans: "Oh, sim."
         'Eu: "Como  que Hanna era quando ela veio?"
         'Hans: (hipocritamente): "Toda branca e adorvel. To bonitinha."
         'Eu: "Mas quando voc a viu pela primeira vez, voc no gostou dela."
         'Hans: "Oh, gostei sim; muito!"
         'Eu: "Voc no entanto ficou surpreso de ela ser to pequena."
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "De que tamaninho ela era?"
         'Hans: "Do tamanho de um beb de cegonha."
         'Eu: "Do tamanho de que mais? De um 'lumf', talvez?"
         'Hans: "Oh, no. Um 'lumf'  muito maior... um pouco menor que Hanna,  verdade."'
         Eu tinha predito a seu pai que seria possvel reportar a fobia de Hans aos pensamentos e desejos ocasionados pelo nascimento da sua irmzinha. Mas deixei 
de salientar que, de acordo com a teoria sexual das crianas, um beb  um 'lumf', de modo que a trilha de Hans se encontraria no complexo excremental. Foi devido 
a essa negligncia da minha parte que o progresso do caso se tornou temporariamente obscurecido. Agora que o assunto tinha sido esclarecido, o pai de Hans tentou 
examinar o menino, de uma segunda vez, em relao a esse ponto importante.
         No dia seguinte, 'fiz Hans repetir o que ele me dissera ontem. Ele disse: "Hanna viajou para Gmunden na caixa grande e mame viajou na carruagem da estrada 
de ferro, e Hanna viajou no trem de bagagem com a caixa; e depois, quando chegamos a Gmunden, mame e eu suspendemos e tiramos Hanna, e a pusemos em cima do cavalo. 
O cocheiro sentou na frente, e Hanna tinha o velho chicote" (o chicote que ele tinha no ano passado) "e chicoteou o cavalo e ficou dizendo 'Vira para a direita' 
e foi to engraado; o cocheiro chicoteou tambm. - O cocheiro no chicoteou no, porque Hanna tinha o chicote. - O cocheiro tinha as rdeas - Hanna tambm tinha 
as rdeas." (Em todas as ocasies ns fomos numa carruagem da estao at em casa. Hans estava, aqui, tentando reconciliar fato e fantasia.) "Em Gmunden ns suspendemos 
Hanna e a tiramos do cavalo, e ela subiu os degraus sozinha." (No ano passado, quando Hanna estava em Gmunden, ela tinha oito meses de idade. No ano anterior a este 
- e a fantasia de Hans evidentemente referia-se a essa poca - sua me estava com cinco meses completos de gravidez quando chegamos a Gmunden.)
         'Eu: "No ano passado Hanna estava l."
         'Hans: "No ano passado ela viajou na carruagem; mas no ano anterior a este, quando ela estava morando conosco..."
         'Eu: "Ela j estava conosco nessa poca?"
         'Hans: "Estava. Voc sempre esteve aqui; voc costumava ir sempre no barco comigo, e Anna era nossa empregada."
         'Eu: "Mas isso no foi no ano passado. Hanna no estava viva ento."
         'Hans: "Sim, ela estava viva nessa poca. Mesmo quando ela ainda estava viajando na caixa, ela podia correr por a e podia dizer 'Anna'." (Ela s foi capaz 
de agir assim nos ltimos quatro meses.)
         'Eu: "Mas ela no estava conosco de jeito nenhum naquela poca."
         'Hans: "Oh, sim, ela estava; ela estava com a cegonha."
         'Eu: "Que idade ela tem, ento?"
         'Hans: ''Ela vai fazer dois anos no outono. Hanna estava aqui, voc sabe que ela estava."
         'Eu: "E quando  que ela estava com a cegonha, na caixa da cegonha?"
         'Hans: "Muito tempo antes de ela viajar na caixa, muito tempo mesmo."
         'Eu: "H quando tempo Hanna sabe andar, ento? Quando ela estava em Gmunden, ela ainda no sabia andar."
         'Hans: "No no ano passado; mas em outras vezes ela sabia."
         'Eu: "Mas Hanna s esteve em Gmunden uma vez."
         'Hans: "No. Ela esteve duas vezes. Sim,  isso mesmo. Eu me lembro muito bem. Pergunte  mame, ela vai lhe dizer logo."
         'Eu: "De qualquer maneira, no  verdade."
         'Hans: "Sim,  verdade. Quando ela esteve em Gmunden da primeira vez ela sabia andar e montar, e mais tarde, ela precisava ser carregada. - No. Foi s 
mais tarde que ela montou, e no ano passado ela precisava ser carregada."
         'Eu: "Mas s h muito pouco tempo  que ela est andando. Em Gmunden, ela no sabia andar."
         'Hans: "Sabia sim. Pode escrever isso. Eu me lembro muito bem. - Por que  que voc est rindo?"
         'Eu: "Porque voc  um impostor; porque voc sabe muito bem que Hanna s esteve em Gmunden uma vez."
         
         'Hans: "No, no  verdade. Da primeira vez ela foi montada a cavalo... e da segunda vez..." (Ele mostrou sinais de evidente incerteza.)
         'Eu: "Talvez o cavalo fosse mame?"
         'Hans: "No, um cavalo de verdade, num coche."
         'Eu: "Mas ns costumvamos ter sempre uma carruagem com dois cavalos."
         'Hans: "Bom, ento, era uma carruagem e uma parelha."
         'Eu: "O que  que Hanna comia dentro da caixa?"
         'Hans: "Botavam po com manteiga l para ela, e arenque, e rabanetes" (o tipo de coisa que costumvamos ter na ceia em Gmunden), "e no caminho Hanna passava 
manteiga no seu po com manteiga, e comia cinqenta refeies."
         'Eu: "Hanna no gritava?"
         'Hans:: "No."
         'Eu: "E o que  que ela fazia, ento?"
         'Hans: "Ficava sentada bem quietinha l dentro."
         'Eu: "Ela no ficava batendo?"
         'Hans: "No, ela ficava comendo o tempo todo e no se agitou nenhuma vez. Ela bebeu duas canecas grandes de caf - pela manh tinha acabado tudo, e ela 
deixou os pedaos atrs, dentro da caixa, as folhas dos dois rabanetes e uma faca para cortar os rabanetes. Ela engolia tudo como uma lebre: num minuto estava tudo 
terminado. Foi uma brincadeira. Hanna e eu realmente viajamos juntos na caixa; eu dormi a noite inteira na caixa." (Ns, de fato, h dois anos, fizemos a viagem 
para Gmunden de noite.) "E mame viajou na carruagem da estrada de ferro. E ns ficamos comendo o tempo todo, quando estvamos viajando na carruagem tambm; foi 
divertido. - Ela no foi montada a cavalo, no..." (ele agora se tornou indeciso, pois sabia que tnhamos viajado com dois cavalos) "...ela foi sentada na carruagem. 
Sim, foi assim mesmo, mas Hanna e eu fomos por nossa conta... mame foi num cavalo, e Karoline" (nossa empregada no ano passado) "no outro... quero dizer, o que 
estou lhe dizendo no  nem um pouco verdade."
         'Eu: "O que no  verdade?"
         'Hans: "Nada disso  verdade. Quero dizer, vamos pr Hanna e eu dentro da caixa e eu vou fazer pipi na caixa. Eu vou fazer pipi nas calas; no me importo 
nem um pouco; no h nada de vergonhoso nisso. Quero dizer, no  uma brincadeira, voc sabe: mas  muito divertido, mesmo assim." 
         
         'Depois ele me contou a histria de como a cegonha veio - a mesma histria de ontem, s que ele deixou de fora a parte sobre a cegonha levar o chapu quando 
ia embora.
         'Eu: "Onde foi que a cegonha guardou a chave do trinco?"
         'Hans: "No bolso dela."
         'Eu: "E onde  o bolso da cegonha?"
         'Hans: "No bico dela."
         'Eu: " no bico dela! Eu ainda no tinha visto uma cegonha com uma chave no bico."
         'Hans: "De que outro jeito ela poderia ter entrado? Como foi que a cegonha entrou pela porta, ento? No, no  verdade; e eu cometi um erro. A cegonha 
tocou a campainha da porta da frente e algum a fez entrar."
         'Eu: "E como foi que a ela tocou a campainha?"
         'Hans: "Ela tocou a campainha."
         'Eu: "Como foi que ela fez isso?"
         'Hans: "Ela pegou seu bico e a apertou com ele."
         'Eu: "E ela fechou a porta de novo?"
         'Hans: "No, uma empregada fechou. Ela j estava de p, voc sabe, e abriu a porta para a cegonha, e a fechou."
         'Eu: "Onde  que a cegonha mora?"
         'Hans: "Onde? Na caixa onde ela guarda as menininhas. Em Schnbrunn talvez."
         'Eu: "Eu nunca vi nenhuma caixa em Schnbrunn."
         'Hans: "Deve ser mais longe ento. - Voc sabe como  que a cegonha abre a caixa? Ela pega seu bico - a caixa tem uma chave tambm -, ela pega o bico, levanta 
um" (isto , uma metade do bico) "e a destranca assim." (Ele demonstrou na fechadura da escrivaninha.) "Tambm h um cabo na caixa."
         'Eu: "Uma menininha como essa no  pesada demais para ela?"
         'Hans: "Oh, no."
         'Eu: "Escuta, um nibus no se parece com uma caixa de cegonha?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: " uma carroa de mudanas?"
         'Hans: "E tambm um vagozinho" ("scallywag" - termo para os abusos das crianas levadas).
         
         '17 de abril. Ontem Hans levou a cabo seu esquema, longamente premeditado, de atravessar o ptio em frente. Ele no faria hoje, pois havia uma carroa parada 
na rampa de carregamento, exatamente em frente aos portes de entrada. "Quando uma carroa fica parada a", disse-me ele, "eu tenho medo de importunar os cavalos 
e de eles carem e fazerem um barulho com as suas patas."
         'Eu: "Como  que se importuna os cavalos?"
         'Hans: "Quando voc est zangado com eles, voc os importuna, e quando voc grita 'Vira para a direita'."
         'Eu: "Voc j importunou os cavalos?"
         'Hans: "Sim, muitas vezes. Eu tenho medo de faz-lo, mas eu no o fao, realmente."
         'Eu: "Voc alguma vez importunou os cavalos em Gmunden?"
         'Hans: "No."
         'Eu: "Mas voc gosta de importun-los?"
         'Hans: "Oh, sim, muito."
         'Eu: "Voc gostaria de chicote-los?"
         'Hans: "Gostaria."
         'Eu: "Voc gostaria de bater nos cavalos como a mame bate em Hanna? Voc gosta disso tambm, voc sabe."
         'Hans: "No acontece nada de mal aos cavalos quando se bate neles." (Eu lhe disse isso uma vez, para mitigar o seu medo de ver os cavalos serem chicoteados.) 
"Uma vez eu bati. Uma vez eu tinha o chicote, e chicoteei o cavalo, e ele caiu e fez um barulho com suas patas."
         'Eu: "Quando?"
         'Hans: "Em Gmunden."
         'Eu: "Um cavalo de verdade? Arreado a uma carroa?"
         'Hans: "No foi na carroa."
         'Eu: "Onde foi, ento?"
         'Hans: "Eu apenas o segurei, para que ele no pudesse fugir." ( claro que tudo isso soava muito improvvel.)
         'Eu: "Onde foi isso?"
         'Hans: "Perto do bebedouro."
         'Eu: "Quem o deixou? O cocheiro tinha deixado o cavalo parado l?"
         'Hans: "Era apenas um cavalo das estrebarias."
         
         'Eu: "Como foi que ele chegou ao bebedouro?"
         'Hans: "Eu o levei l."
         'Eu: "De onde? Das estrebarias?"
         'Hans: "Eu o levei para fora porque eu queria bater nele."
         'Eu: "No havia ningum nas estrebarias?"
         'Hans: "Oh sim, o Loisl." (O cocheiro em Gmunden.)
         'Eu: "Ele o deixou?"
         'Hans: "Eu falei direitinho com ele, e ele disse que eu poderia levar o cavalo."
         'Eu: "O que foi que voc disse a ele?"
         'Hans: "Eu posso levar o cavalo e chicote-lo e gritar com ele. E ele disse 'pode'."
         'Eu: "Voc chicoteou muito o cavalo?"
         'Hans: "O que eu te disse no  nem um pouco verdade."
         'Eu: "At que ponto isso  verdade?"
         'Hans: "Nada disso  verdade; eu s contei isso para me divertir."
         'Eu: "Voc nunca levou um cavalo para fora das estrebarias?"
         'Hans: "Oh, no."
         'Eu: "Mas voc queria faz-lo."
         'Hans: "Oh, sim, eu queria. Eu pensei nisso para mim mesmo."
         'Eu: "Em Gmunden?"
         'Hans: "No, s aqui. Eu pensei nisso na manh em que eu estava inteiramente despido; no, de manh, na cama."
         'Eu: "Por que  que voc nunca me falou sobre isso?"
         'Hans: "Eu no pensei nisso."
         'Eu: "Voc pensou isso para voc mesmo porque voc viu a cena na rua."
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "Em quem  que voc realmente gostaria de bater? Na mame, em Hanna, ou em mim?"
         'Hans: "Na mame."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Eu apenas gostaria de bater nela."
         'Eu: "Quando foi que voc viu algum bater na sua mame?"
         'Hans: "Eu nunca vi ningum fazer isso, nunca em toda a minha vida."
         'Eu: "E, no entanto, voc gostaria de faz-lo. Como  que voc gostaria de executar isso?"
         
         'Hans: "Com um batedor de tapete." (Sua me freqentemente ameaa bater-lhe com o batedor de tapete.)
         'Fui obrigado a parar com a conversa por hoje.
         'Na rua Hans explicou-me que os nibus, as carroas de mudanas e as carroas de carvo eram carroas de caixas de cegonha.'
         Isso quer dizer mulheres grvidas. O acesso de sadismo de Hans imediatamente anterior no pode ser desligado do presente tema.
         '21 de abril. Esta manh Hans disse que tinha pensado o seguinte: "Havia um trem em Lainz e eu viajei com minha vov de Lainz para a estao de Hauptzollamt. 
Voc no tinha descido da ponte ainda, e o segundo trem j estava em St. Veit. Quando voc chegou embaixo, o trem j estava l, e ns entramos."
         'Hans esteve em Lainz ontem. Para chegar  plataforma de embarque a pessoa tem que atravessar uma ponte. Da plataforma pode-se ver ao longo da linha at 
a estao de St. Veit. A coisa est um pouco obscura. O pensamento original de Hans foi, sem dvida, que ele tinha partido no primeiro trem, que eu perdi, e que 
ento um segundo trem veio de Unter St. Veit, no qual eu tinha ido atrs dele. Mas ele distorceu uma parte dessa fantasia de fuga, de modo que finalmente disse: 
"Ns dois s fomos embora no segundo trem."
         'Essa fantasia relaciona-se  ltima [ver em [1]], que no foi interpretada e de acordo com a qual demoramos muito para pr nossas roupas na estao em 
Gmunden, de modo que o trem nos levou.
         'De tarde, em frente da casa, Hans correu subitamente para casa, quando uma carruagem com dois cavalos vinha vindo. Eu no conseguia ver nada de inusitado 
na cena, e perguntei-lhe o que estava errado. "Os cavalos esto to orgulhosos", disse ele, "que eu tenho medo de que eles caiam." (O cocheiro estava conduzindo 
os cavalos com firmeza, de modo que eles estavam trotando com passadas curtas e mantendo suas cabeas erguidas. De fato a ao deles era "orgulhosa".)
         'Perguntei-lhe quem  que era realmente to orgulhoso.
         'Ele: " voc, quando eu venho para a cama com mame."
         'Eu: "De modo que voc quer que eu caia?"
         
         'Hans: "Sim. Voc teria que estar nu" (significando "descalo", como Fritzl estava) "e ferir-se contra uma pedra e sangrar, e ento eu poderei ficar sozinho 
com a mame um pouquinho pelo menos. Quando voc voltar ao nosso apartamento eu poderei fugir rpido para que voc no veja."
         'Eu: "Voc se lembra quem foi que se feriu contra a pedra?"
         'Hans: "Sim, foi Fritzl."
         'Eu: "Quando Fritzl caiu, o que foi que voc pensou?"
         'Ele: "Que voc devia bater na pedra e cair."
         'Eu: "Ento voc gostaria de ir ficar com a mame?"
         'Ele: "Sim."
         'Eu: "A respeito de que eu realmente repreendo voc?"
         'Ele: "No sei."(!!)
         'Eu: "Por qu?"
         'Ele: "Porque voc est zangado."
         'Eu: "Mas isso no  verdade."
         'Hans: "Sim,  verdade. Voc est zangado. Eu sei que voc est. Isso tem que ser verdade."
         'Evidentemente, portanto, minha explicao de que s os menininhos vo para a cama com suas mames e que os meninos grandes dormem nas suas prprias camas 
no o tinha impressionado muito.
         'Suspeito que seu desejo de "importunar" o cavalo, isto , de bater e gritar com ele, no se aplica  sua me, como ele declarou, mas a mim. No h dvida 
de que ele s a colocou na frente porque no queria admitir a alternativa para mim. Nos ltimos dias ele tem estado particularmente afetuoso comigo.'
         Falando com o ar de superioridade que  to facilmente adquirido depois do acontecimento, podemos corrigir o pai de Hans, e explicar que o desejo do menino 
de 'importunar' o cavalo tinha dois constituintes; era composto de um desejo sdico obscuro por sua me e de um claro impulso de vingana contra seu pai. O ltimo 
no podia ser reproduzido at que o ngulo do precedente viesse a emergir, ligado ao complexo da gravidez. No processo da formao de uma fobia pelos pensamentos 
inconscientes que a fundamentam, tem lugar a condensao; e por essa razo o curso da anlise nunca pode seguir o do desenvolvimento da neurose.
         
         '22 de abril. Esta manh, de novo, Hans pensou algo para si mesmo: "Um menino da rua estava dirigindo uma carreta, o guarda veio e o despiu, deixando-o 
inteiramente nu, e fez o menino ficar parado l at a manh seguinte, e de manh o menino deu ao guarda 50.000 florins, para que ele pudesse continuar a dirigir 
a carreta."
         '(A Nordbahn [Ferrovia Setentrional] corre por trs da nossa casa. Numa via de servio havia um trole, que Hans uma vez viu um menino da rua dirigir. Ele 
tambm queria faz-lo; mas eu lhe disse que no era permitido, e que se ele o fizesse o guarda iria atrs dele. Um segundo elemento nessa fantasia  o desejo reprimido 
de Hans de ficar nu.)'
         Pde-se notar por algum tempo que a imaginao de Hans estava sendo colorida por imagens derivadas do trfego, e que estava avanando sistematicamente de 
cavalos, que puxam veculos, para ferrovias. Da mesma forma, uma fobia de estrada de ferro finalmente torna-se associada a qualquer fobia de rua. 
         'Na hora do almoo fui informado de que Hans tinha brincado a manh inteira com uma boneca de borracha, que ele chamava de Grete. [Cf. em [1].] Ele tinha 
metido um pequeno canivete atravs da abertura  qual estava originalmente pregado um pequeno guincho, e depois separou bem as pernas da boneca, de modo a deixar 
a faca sair. Ele tinha dito  empregada, apontando para entre as pernas da boneca: "Olha, l est o pipi dela!"
         'Eu: "De que  que voc estava brincado com a sua boneca hoje?"
         'Hans: "Eu separei bem as suas pernas. Voc sabe por qu? Porque havia uma faca dentro, que pertencia a mame. Eu a coloquei dentro, no lugar em que o boto 
faz gemer, e depois eu separei suas pernas e a faca apareceu l."
         'Eu: "Por que  que voc separou as pernas da boneca? Para que pudesse ver o pipi dela?"
         'Ele: "O pipi dela no estava l antes; eu poderia t-lo visto antes, de qualquer modo."
         'Eu: "Para que foi que voc botou a faca l dentro?"
         'Ele: "No sei."
         
         'Eu: "Bom, como  a faca?"
         'Ele a trouxe para mim.
         'Eu: "Voc pensou que era um beb, talvez?"
         'Ele: "No, eu no pensei nada, nada; mas eu acredito que a cegonha teve um beb uma vez - ou algum."
         'Eu: "Quando?"
         'Ele: "Uma vez. Eu ouvi dizer - ou no ouvi? - ou eu disse errado?"
         'Eu: "O que significa 'dizer errado'?"
         'Ele: "Que no  verdade."
         'Eu: "Tudo que a gente diz  um pouco verdade."
         'Ele: "Bom, sim um pouquinho."
         'Eu (depois de mudar de assunto): "Como  que voc acha que as galinhas nascem?"
         'Ele: "A cegonha as faz crescer; a cegonha faz as galinhas crescerem - no, Deus  que faz."
         'Eu lhe expliquei que as galinhas botam ovos, e que de dentro dos ovos vm outras galinhas.
         'Hans riu.
         'Eu: "Por que  que voc est rindo?"
         'Ele: "Porque eu gosto do que voc me contou."
         'Ele disse que j tinha visto isso acontecer.
         'Eu: "Onde?"
         'Hans: "Voc fez isso."
         'Eu: "Onde  que eu botei um ovo?"
         'Hans: "Em Gmunden; voc botou um ovo na grama e, de repente, uma galinha saiu pulando. Voc botou um ovo uma vez; eu sei que voc botou, eu tenho certeza. 
Porque mame disse."
         'Eu: "Vou perguntar a mame se isso  verdade."
         'Hans: "No  nem um pouco verdade. Mas eu uma vez botei um ovo, e uma galinha saiu pulando."
         'Eu: "Onde?"
         'Hans: "Em Gmunden eu botei um ovo na grama - no, eu me ajoelhei - e as crianas no olharam para mim, e de repente, de manh eu disse: 'Olhem para isso, 
crianas; eu botei um ovo ontem.' De repente, elas olharam e viram um ovo, e de dentro deste veio um pequeno Hans. Bom, de que  que voc est rindo? Mame no sabia 
disso, e Karoline tambm no, porque ningum estava olhando; de repente eu botei um ovo e, de repente, estava l. De verdade mesmo. Papai, quando  que uma galinha 
sai de um ovo? Quando ele  deixado s? Ele precisa ser comido?"
         
         'Eu lhe expliquei o assunto.
         'Hans: "Est certo, vamos deixar o ovo com a galinha; ento, uma galinha vai crescer. Vamos acondicion-la na caixa e vamos lev-la para Gmunden."'
         Como seus pais ainda hesitavam em dar-lhe a informao que j estava, a essa altura, muito atrasada, o pequeno Hans, com um golpe audaz, tomou em suas prprias 
mos a direo da anlise. Por meio de um brilhante ato sintomtico, 'Olhem!' ele tinha lhes dito, ' assim que eu imagino que acontea um nascimento.' O que ele 
tinha dito  empregada sobre o significado da sua brincadeira com a boneca tinha sido insincero; para seu pai negou explicitamente que ele queria apenas ver o pipi 
da boneca. Depois que seu pai lhe disse, como numa espcie de pagamento por conta, como  que as galinhas saem dos ovos, Hans deu uma expresso combinada do seu 
descontentamento, da sua desconfiana e do seu conhecimento superior, numa encantadora zombaria, que culminou, com suas ltimas palavras, numa aluso inconfundvel 
ao nascimento de sua irm.
         'Eu: "De que  que voc estava brincando com a sua boneca?"
         'Hans: "Eu disse 'Grete' para ela."
         'Eu: "Por qu?"
         'Hans: "Porque eu disse 'Grete' para ela."
         'Eu: "Como  que voc brincou?"
         'Hans: "Eu apenas tomei conta dela como de um beb de verdade."
         'Eu: "Voc gostaria de ter uma menininha?"
         'Hans: "Oh, sim. Por que no? Eu gostaria de ter uma, mas a mame no deve ter; eu no gosto disso."
         '(Ele antes expressou muitas vezes esse ponto de vista. Ele tem medo de perder ainda mais da sua posio, se uma terceira criana chegar.)
         'Eu: "Mas s as mulheres tm crianas."
         'Hans: "Eu vou ter uma menininha."
         'Eu: "Onde  que voc vai consegui-la?"
         'Hans: "Ora, da cegonha. Ela tira a menininha para fora, e de repente a menininha bota um ovo, e de dentro do ovo sai uma outra Hanna - outra Hanna. De 
dentro de Hanna sai outra Hanna. No, sai uma Hanna."
         'Eu: "Voc gostaria de ter uma menininha."
         'Hans: "Sim , no ano que vem eu vou ter uma, e ela vai chamar-se Hanna tambm."
         'Eu: "Mas por que  que mame no deve ter uma menininha?''
         'Hans: "Porque eu quero ter uma menininha dessa vez."
         'Eu: "Mas voc no pode ter uma menininha."
         
         'Hans: "Oh, sim, os meninos tm meninas e as meninas tm meninos." 
         
         'Eu: "Os meninos no tm crianas. S as mulheres, s as mames  que tm crianas."
         'Hans: "Mas por que eu no poderia?"
         'Eu: "Porque Deus arranjou as coisas assim."
         'Hans: "Mas por que voc no tem uma? Oh, sim, voc vai ter uma, sim. Espere s."
         'Eu: "Eu vou ter que esperar algum tempo."
         'Hans: "Mas eu perteno a voc."
         'Eu: "Mas mame trouxe voc ao mundo. Ento, voc pertence a mame e a mim."
         'Hans: "Hanna pertence a mim ou a mame?"
         'Eu: "A mame."
         'Hans: "No, a mim. Por que no a mim e a mame?"
         'Eu: "Hanna pertence a mim, mame, e voc."
         'Hans: "Est vendo?, a est voc."'
         Enquanto a criana estiver na ignorncia quanto s partes genitais femininas, haver naturalmente uma lacuna vital na sua compreenso dos assuntos sexuais.
         'No dia 24 de abril minha mulher e eu esclarecemos Hans at um certo ponto: ns lhe dissemos que as crianas crescem dentro das suas mames, e que depois 
so trazidas ao mundo ao serem empurradas para fora delas, como um "lumf", e que isso envolve muita dor.
         'De tarde samos para a frente da casa. Havia uma melhora visvel no seu estado. Ele correu atrs das carroas, e a nica coisa que traiu um trao remanescente 
de sua ansiedade foi o fato de que ele no se aventurou para fora da vizinhana da porta da rua, no podendo ser induzido a dar nenhum passeio maior.
         'No dia 25 de abril Hans deu uma marrada no meu estmago com sua cabea, como ele j tinha feito uma vez [ver em [1]]. Eu lhe perguntei se ele era uma cabra.
         '"Sim", disse ele, "um carneiro". Eu perguntei onde ele tinha visto um carneiro.
         
         'Ele: "Em Gmunden: Fritzl tinha um." (Fritzl tinha um cordeiro de verdade para brincar.)
         'Eu: "Voc precisa falar-me sobre o cordeiro. O que  que ele fazia?"
         'Hans: "Voc sabe, a Frulein Mizzi" (uma professora da escola que morava na casa) "costumava sempre pr Hanna em cima do cordeiro, mas assim ele no conseguia 
ficar em p, e ele no podia dar marradas. Se voc fosse na direo dele, ele costumava dar marradas, porque tinha chifres. Fritzl costumava lev-lo por uma corda 
e amarr-lo a uma rvore. Ele sempre o amarrava a uma rvore."
         'Eu: "O carneiro deu marradas em voc?"
         'Hans: "Ele pulou para cima de mim; Fritzl me tirou de perto dele uma vez... Eu fui na direo do carneiro uma vez, e eu no sabia, e de repente ele pulou 
em cima de mim. Foi to divertido - eu no fiquei assustado."
         'Isso certamente no era verdade.
         'Eu: "Voc gosta do papai?"
         'Hans: "Oh, sim."
         'Eu: "Ou talvez no."
         'Hans estava brincando com o cavalinho de brinquedo. Nesse momento o cavalo caiu, e Hans exclamou: "O cavalo caiu! Olha que barulho ele est fazendo!"
         'Eu: "Voc est um pouco vexado com o papai porque a mame gosta dele."
         'Hans: "No."
         'Eu: "Ento por que voc sempre chora toda vez que a mame me d um beijo?  porque voc est com cimes."
         'Hans: "Com cimes,  mesmo."
         'Eu: "Voc gostaria de ser o papai."
         'Hans: "Oh, gostaria."
         'Eu: "O que  que voc gostaria de fazer se voc fosse o papai?"
         'Hans: "E se voc fosse Hans? Eu gostaria de levar voc a Lainz todo domingo - no, todo dia da semana tambm. Se eu fosse papai eu seria sempre to agradvel 
e bom."
         'Eu: "Mas o que  que voc gostaria de fazer com mame?"
         'Hans: "Lev-la para Lainz tambm."
         'Eu: "E o que mais?"
         'Hans: "Nada."
         'Eu: "Ento, por que  que voc estava com cimes?"
         'Hans: "No sei."
         
         'Eu: "Voc tinha cimes em Gmunden tambm?"
         'Hans: "No, em Gmunden no." (Isso no  verdade.)
         "Em Gmunden eu tinha minhas prprias coisas. Eu tinha um jardim em Gmunden e crianas tambm."
         'Eu: "Voc se lembra de como a vaca teve o bezerro?"
         'Hans: "Oh, sim. Ele veio numa carroa." (Sem dvida lhe disseram isso em Gmunden; um outro ataque  teoria da cegonha.) "E uma outra vaca o empurrou para 
fora do seu traseiro." (Isso j era fruto do seu esclarecimento, que ele estava tentando harmonizar com a teoria da carroa.)
         'Eu: "No  verdade que o bezerro veio numa carroa; ele veio de dentro da vaca no curral."
         'Hans contestou isso, dizendo que tinha visto a carroa de manh. Eu salientei para ele que provavelmente lhe tinham falado sobre o bezerro ter vindo numa 
carroa. No fim, ele admitiu isso, e disse: " bem provvel que Berta me tenha dito, ou no - ou talvez tenha sido o senhorio. Ele estava l e foi de noite, de modo 
que  verdade, afinal de contas, o que eu lhe estava dizendo - ou eu acho que ningum me disse; eu pensei isso para mim mesmo de noite."
         'A menos que eu esteja enganado, o bezerro foi levado embora numa carroa; da a confuso.
         'Eu: "Por que  que voc no pensou que foi a cegonha que trouxe o bezerro?"
         'Hans: "Eu no quis pensar isso."
         'Eu: "Mas voc pensou que a cegonha trouxe Hanna?"
         'Hans: "De manh" (na manh do parto) "eu pensei assim. - Escuta, Herr Reisenbichler" (nosso senhorio) "estava l quando o bezerro saiu da vaca?"
         'Eu: "No sei. Voc acha que ele estava?"
         'Hans: "Acho que sim... Papai, voc andou notando que os cavalos tm uma coisa preta na boca?"
         'Eu: "Notei uma vez ou outra na rua em Gmunden."
         'Eu: "Voc foi muitas vezes para a cama com a mame em Gmunden?"
         'Hans: "Fui."
         
         'Eu: "E voc costumava pensar para si mesmo que voc era o papai?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "E ento voc sentiu medo do papai?"
         'Hans: "Voc sabe tudo; eu no sabia nada."
         'Eu: "Quando Fritzl caiu voc pensou: 'Se ao menos o papai casse assim!' E quando o carneiro deu uma marrada em voc, voc pensou: 'Se ao menos o carneiro 
desse uma marrada no papai!' Voc se lembra do enterro em Gmunden?" (O primeiro enterro que Hans tinha visto. Ele freqentemente se recorda disso, e esta , sem 
dvida, uma lembrana encobridora.)
         'Hans: "Sim. O que tem isso?"
         'Eu: "Voc pensou ento que era s o papai morrer e voc seria o papai."
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "De que carroas voc ainda tem medo?"
         'Hans: "De todas elas."
         'Eu: "Voc sabe que isso no  verdade."
         'Hans: "Eu no tenho medo de carruagens e parelhas ou cabriols com um cavalo. Eu tenho medo de nibus e carroas de bagagem, mas s quando esto carregadas, 
no quando esto vazias. Quando h um cavalo e a carroa est totalmente cheia, ento eu tenho medo; mas quando h dois cavalos e a carroa no est totalmente cheia, 
ento eu no tenho medo."
         'Eu: "Voc tem medo de nibus porque h muita gente dentro?"
         'Hans: "Porque tem muita bagagem no teto."
         'Eu: "Quando mame estava tendo Hanna, ela estava totalmente lotada, tambm?"
         'Hans: "Mame vai ficar completamente lotada de novo quando ela tiver outro, quando outro comear a crescer, quando outro estiver dentro dela."
         'Eu: "E voc gostaria disso?"
         'Hans: "Gostaria".
         'Eu: "Voc disse que no queria que mame tivesse outro beb."
         'Hans: "Bom, ento ela no vai ficar lotada de novo. Mame disse que se mame no quisesse um beb, Deus tambm no iria querer. Se a mame no quiser um 
beb, ela no vai ter." (Hans naturalmente perguntou ontem se havia mais algum beb dentro da mame. Eu lhe disse que no, e disse que se Deus no o desejasse, nenhum 
beb cresceria dentro dela.)
         'Hans: "Mas mame me disse que, se ela no quisesse, no cresceria mais nenhum, e voc diz que se Deus no quiser."
         'Ento eu lhe disse que era como eu tinha dito, ao que ele observou: "Voc estava l, contudo, no estava? Voc sabe melhor, com certeza." Ele, ento procedeu 
a um interrogatrio da sua me, e ela reconciliou as duas afirmaes, declarando que se ela no quisesse beb, Deus tambm no iria querer.
         'Eu: "A mim parece que, de todo jeito, voc deseja que a mame tenha um beb."
         'Hans: "Mas eu no quero que isso acontea."
         'Eu: "Mas voc deseja isso?"
         'Hans: "Oh, sim, desejo."
         'Eu: "Voc sabe por que voc deseja isso? Porque voc gostaria de ser papai."
         'Hans: "Sim... Como  que funciona?"
         'Eu: "Como  que funciona o qu?"
         'Hans: "Voc diz que os papais no tm bebs; ento, como  que funciona a minha vontade de ser papai?"
         'Eu: "Voc gostaria de ser papai e casado com a mame; voc gostaria de ser do meu tamanho e de ter um bigode; e voc gostaria que a mame tivesse um beb."
         'Hans: "E, papai, quando eu for casado, s vou ter um beb se eu quiser, quando eu for casado com a mame, e se eu no quiser um beb, Deus no vai querer 
tambm, quando eu for casado."
         'Eu: "Voc gostaria de ser casado com a mame?"
         'Hans: "Oh, gostaria."'
          fcil ver que a alegria de Hans com a sua fantasia foi atrapalhada tanto pela sua incerteza quanto ao papel desempenhado pelos pais como pelas suas dvidas 
quanto  concepo das crianas estar sob seu controle.
         'Na noite do mesmo dia, enquanto Hans estava sendo posto na cama, ele me disse: "Escuta, papai, voc sabe o que  que eu vou fazer agora? Agora eu vou falar 
com Grete at as dez horas; ela est na cama comigo. Meus filhos esto sempre na cama comigo. Voc pode dizer-me por que  assim?" - Como ele j estava com muito 
sono, eu lhe prometi que escreveramos isso no dia seguinte, e ele dormiu.
         
         'Eu j tinha notado em relatos anteriores que, desde a volta de Hans de Gmunden, ele tem tido constantemente fantasias sobre "seus filhos" [por exemplo, 
em [1]], tem mantido conversas com eles, e assim por diante.
         'De modo que no dia 26 de abril eu lhe perguntei por que ele estava sempre pensando nos seus filhos.
         'Hans: "Por qu? Porque eu gostaria tanto de ter filhos; mas eu nunca quero; eu no deveria gostar de t-los."
         'Eu: "Voc sempre imaginou que Berta e Olga e o resto eram seus filhos?"
         'Hans: "Sim, Franzl e Fritzl, e Paul tambm" (seus companheiros em Lainz), "e Lodi." Este  um nome de menina inventado, o de seu filho favorito, de quem 
ele fala com mais freqncia - posso enfatizar aqui o fato de que a figura de Lodi no  uma inveno dos ltimos dias, mas existia antes da data em que ele recebeu 
a ltima parcela de esclarecimento (24 de abril).
         'Eu: "Quem  Lodi? Ela est em Gmunden?"
         'Hans: "No."
         'Eu: "Existe uma Lodi?"
         'Hans: "Existe, eu a conheo."
         'Eu: "Quem  ela ento?"
         'Hans: "Eu a tive aqui."
         'Eu: "Como  que ela ?"
         'Hans: "Como ela ? Olhos pretos, cabelos pretos... eu a encontrei uma vez com Mariedl" (em Gmunden), "quando eu estava indo para a cidade."
         'Quando eu entrei no assunto parecia que isso era uma inveno.
         'Eu: "Ento voc pensou que era a mame deles?"
         
         'Hans: "E eu era mesmo a mame deles."
         'Eu: "O que  que voc fazia com os seus filhos?"
         'Hans: "Eu os botava para dormir comigo, as meninas e os meninos."
         'Eu: "Todo dia?"
         'Hans: "Ora,  claro."
         'Eu: "Voc conversava com eles?"
         'Hans: "Quando eu no conseguia botar todas as crianas na cama, eu botava algumas delas no sof, e algumas no corredor; se ainda houvesse alguma sobrando, 
eu as levava para o sto e as punha na caixa, e se houvesse mais algumas, eu as punha na outra caixa."
         'Eu: "Ento as caixas de beb da cegonha estavam no sto?"
         'Hans: "Estavam."
         'Eu: "Quando  que voc teve seus filhos? Hanna j estava viva?"
         'Hans: "Sim, ela j estava viva h muito tempo."
         'Eu: "Mas de quem  que voc acha que teve os filhos?"
         'Hans: "Ora, de mim."
         'Eu: "Mas nessa poca voc no tinha a menor idia de que as crianas vinham de algum."
         'Hans: "Eu pensei que a cegonha as tivesse trazido." (Obviamente uma mentira e uma evaso.)
         'Eu: "Voc teve Grete na cama com voc ontem, mas voc sabe muito bem que os meninos no podem ter filhos."
         'Hans: "Bom, . Mas eu acredito que eles possam, assim mesmo."
         'Eu: "Como  que voc chegou ao nome de Lodi? Nenhuma menina se chama assim. Lotti, talvez?"
         'Hans: "Oh, no, Lodi. No sei; mas de qualquer jeito  um nome lindo."
         'Eu (brincando): "Talvez voc queira dizer um Schokolodi?" 
         'Hans (prontamente): "No, um Saffalodi,... porque eu gosto tanto de comer salsichas, e salame tambm."
         'Eu: "Escuta, um Saffalodi no parece um 'lumf'?"
         'Hans: "Parece."
         
         I: "Bom, como  um 'lumf'?"
         'Hans: "Preto. Voc sabe" (apontando para as minhas sobrancelhas e meu bigode), "como isso e como isso."
         'Eu: "E que mais? Redondo como um Saffaladi?"
         'Hans: "Sim."
         'Eu: "Quando voc sentava no urinol e vinha um "lumf', voc pensava para si mesmo que voc estava tendo um beb?"
         'Hans (rindo): "Pensava. No s na Rua..., mas tambm aqui."
         'Eu: "Voc sabe quando os cavalos do nibus caram? [Ver a partir de [1]] O nibus parecia uma caixa de beb, e quando o cavalo preto caiu era exatamente 
como..."
         'Hans (atalhando-me): "... como ter um beb."
         'Eu: "E o que foi que voc pensou quando o cavalo fez um barulho com suas patas?"
         'Hans: "Oh, quando eu no quero sentar-me no urinol e preferiria brincar, ento fao um barulho assim com os meus ps." [Cf. em [1].] (Ele bateu com os 
ps.)
         'Esta era a razo pela qual ele estava to interessado na questo de saber se as pessoas gostavam ou no gostavam de ter filhos.
         'Hans hoje esteve o dia inteiro brincando de carregar e descarregar caixotes; ele disse que desejaria poder ter um vago de brinquedo e caixas desse tipo 
para brincar. O que mais costumava interess-lo no ptio da Alfndega em frente era o carregamento e descarregamento das carroas. E ele costumava assustar-se mais 
quando uma carroa tinha sido completamente carregada e estava no ponto de partir. "Os cavalos vo cair"; costumava dizer [ver em [1]]. Costumava tambm chamar as 
portas do alpendre da Agncia Central da Alfndega de "buracos" (por exemplo, primeiro buraco, segundo buraco, terceiro buraco etc.). Mas agora, em vez de "buraco", 
ele diz "atrs do buraco".
         'A ansiedade tinha desaparecido quase completamente, com a exceo de que ele gosta de permanecer na vizinhana da casa, de modo a ter uma linha de retirada 
no caso de se assustar. Mas ele nunca foge para casa agora, e fica na rua o tempo todo. Como sabemos, a doena comeou com a sua volta em prantos quando ele estava 
fora, passeando; e quando ele foi obrigado a ir a um segundo passeio, s foi at a estao Hauptzollamt no Stadtbahn, de onde a nossa casa ainda pode ser vista. 
Na poca do parto de minha mulher, ele foi,  claro, afastado dela; e a sua presente ansiedade, que o impede de deixar a vizinhana da casa, na realidade,  a necessidade 
dela que ele sentiu ento.
         '30 de abril. Vendo Hans brincar com seus filhos imaginrios de novo, eu lhe disse "Al, seus filhos ainda esto vivos? Voc sabe muito bem que um menino 
no pode ter filhos."
         'Hans: "Eu sei. Antes eu era a mame deles, agora eu sou o papai deles."
         'Eu: "E quem  a mame das crianas?"
         'Hans: "Ora, a mame, e voc  o vov delas."
         'Eu: "Ento voc gostaria de ser do meu tamanho, e de ser casado com a mame, e ento voc gostaria que ela tivesse filhos."
         'Hans: "Sim,  disso que eu gostaria, e ento a minha vov de Lainz" (minha me) "ser a vov deles."' 
         As coisas estavam caminhando para uma concluso satisfatria. O pequeno dipo encontrou uma soluo mais feliz do que a prescrita pelo destino. Em vez de 
colocar seu pai fora do caminho, concedeu-lhe a mesma felicidade que ele mesmo desejava: fez dele um av e casou-o com a sua prpria me tambm.
         'No dia 1 de maio Hans chegou para mim na hora do almoo e disse: "Sabe de uma coisa? Vamos escrever alguma coisa para o Professor."
         'Eu: "Bom, e o que vai ser?"
         'Hans: "Esta manh eu estava no banheiro com todos os meus filhos. Primeiro eu fiz 'lumf' e fiz pipi, e eles olharam. Depois eu os pus no assento e eles 
fizeram pipi e 'lumf', e eu limpei seus traseiros com papel. Voc sabe por qu? Porque eu gostaria tanto de ter filhos; ento eu faria tudo para eles - eu os levaria 
ao banheiro, limparia seus traseiros, e faria tudo que se faz com os filhos."'
         Depois da admisso fornecida por essa fantasia, quase no ser possvel discutir-se o fato de que na mente de Hans havia prazer ligado s funes excretrias.
         'De tarde ele se aventurou ao Stadtpark pela primeira vez. Como  dia 1 de maio, no h dvida de que havia menos trfego do que o normal, mas ainda assim 
o suficiente para t-lo assustado at agora. Ele estava muito orgulhoso do seu feito, e depois do ch fui obrigado a ir com ele para o Stadtpark mais uma vez. No 
caminho encontramos um nibus; Hans apontou-o para mim dizendo: "Olha! uma carroa de caixa de cegonha!" Se ele for comigo para o Stadtpark de novo amanh, como 
planejamos, poderemos realmente encarar a sua doena como curada.
         'No dia 2 de maio Hans veio a mim de manh. "Escuta", disse ele, "eu pensei uma coisa hoje." Primeiramente ele tinha esquecido o que era; mais tarde, porm, 
ele contou o que se segue, mas com sinais de considervel resistncia: "O bombeiro veio; e primeiro ele retirou o meu traseiro com um par de pinas, e depois me 
deu outro, e depois fez o mesmo com o meu pipi. Ele disse: 'Deixe-me ver o seu traseiro!' Tive que dar uma volta, e ele o levou; depois disse: 'Deixe-me ver o seu 
pipi!'"'
         O pai de Hans compreendeu a natureza dessa fantasia apaixonada, e no hesitou um momento quanto  nica interpretao que ela poderia admitir.
         'Eu: "Ele te deu um pipi maior e um traseiro maior."
         'Hans: "."
         'Eu: "Como os do papai; porque voc gostaria de ser o papai."
         'Hans: "Sim, e eu gostaria de ter um bigode como o seu e cabelos como os seus." (Ele apontou para os cabelos no meu peito.)
         ' luz desse fato, podemos rever a interpretao da fantasia anterior de Hans quanto ao contedo de que o bombeiro tinha vindo e tinha desaparafusado a 
banheira e golpeado o seu estmago com uma broca [ver em [1]]. A banheira grande significava um "traseiro", a broca ou chave de parafuso era (como foi explicado 
na poca) um pipi. As duas fantasias so idnticas. Alm disso, uma nova luz foi lanada sobre o medo de Hans da banheira grande. (Isto, a propsito, j diminuiu.) 
Ele no gosta de seu "traseiro" ser pequeno demais para a banheira grande.'
         No curso dos prximos dias a me de Hans escreveu-me mais de uma vez para expressar sua alegria pelo restabelecimento do menino.
         
         Uma semana depois chegou um ps-escrito do pai de Hans. 
         'Meu caro Professor, gostaria de fazer os seguintes acrscimos ao caso clnico de Hans:
         '(1) A melhora depois que ele recebeu sua primeira parcela de esclarecimento no foi to completa como eu a representei [ver em [1]].  verdade que Hans 
deu passeios, mas s sob compulso e num estado de grande ansiedade. Uma vez ele foi comigo at a estao de Hauptzollamt, de onde nossa casa ainda pode ser vista, 
mas no pde ser induzido a ir mais longe.
         '(2) Com relao a "gelia de framboesa" e "uma espingarda para atirar" [ver em [2]]. Damos gelia de framboesa a Hans quando ele est constipado. Ele tambm 
confunde freqentemente as palavras "atirar" e "cagar".
         '(3) Hans tinha mais ou menos quatro anos quando foi transferido do nosso quarto para um quarto s seu.
         '(4) Ainda persiste um trao do seu distrbio, mesmo que no mais sob a forma de medo, mas s sob a do instinto normal de fazer perguntas. As perguntas 
dizem respeito principalmente a saber de que so feitas as coisas (bondes, mquinas etc.), quem faz as coisas etc. A maior parte das suas perguntas  caracterizada 
pelo fato de que Hans as faz apesar de ele mesmo j t-las respondido. Ele s quer ter certeza. Uma vez, quando me tinha cansado ao mximo com suas perguntas, e 
eu lhe disse: "Voc acha que eu posso responder a toda pergunta que voc faz?", ele respondeu: "Bom, eu pensei que, como voc sabia aquilo sobre o cavalo, voc saberia 
isso tambm."
         '(5) Hans s refere a sua doena agora como um assunto de histria antiga - "na poca em que eu tive a minha bobagem".
         '(6) Um resduo no resolvido permanece por trs, pois Hans ainda quebra a cabea para descobrir o que um pai tem a ver com seu filho, j que  a me que 
o traz ao mundo. Isso pode ser visto pelas suas perguntas, como, por exemplo: "Eu perteno a voc tambm, no perteno?" (querendo dizer no s  sua me). No est 
claro para ele de que maneira ele pertence a mim. Por outro lado, no tenho nenhuma evidncia direta de ele por acaso ter ouvido, como o senhor supe, seus pais 
tendo relaes sexuais.
         
         '(7) Ao apresentar o caso  preciso que se insista sobre a violncia da sua ansiedade. De outra forma, poderia ser dito que o menino teria sado para passeios 
bem cedo, se tivesse recebido uma boa surra.'
         
         Concluindo, deixe-me acrescentar estas palavras. Com a ltima fantasia de Hans, a ansiedade que foi provocada pelo seu complexo de castrao tambm foi 
superada, e suas dolorosas expectativas receberam uma transformao mais feliz. Sim, o doutor [ver em [1]] (o bombeiro) veio, ele de fato levou seu pnis - mas apenas 
para dar-lhe um maior em troca. Quanto ao resto, nosso jovem investigador simplesmente chegou um pouco cedo  descoberta de que todo o conhecimento  um monte de 
retalhos, e que cada passo  frente deixa atrs um resduo no resolvido.
         
         DISCUSSO
         
         Devo agora proceder ao exame dessa observao do desenvolvimento e resoluo de uma fobia em um menino de menos de cinco anos de idade, e vou ter que fazer 
isso de trs pontos de vista. Em primeiro lugar, devo considerar at que ponto o exame dessa observao apia as afirmaes que fiz nos meus Trs Ensaios sobre a 
Teoria da Sexualidade (1905d). Em segundo lugar, devo considerar em que medida ele pode contribuir para nossa compreenso dessa freqente forma de distrbio. E em 
terceiro lugar, devo considerar se pode ser feito de modo a projetar alguma luz sobre a vida mental das crianas ou a fornecer alguma crtica dos nossos objetivos 
educacionais.
         (I)
         Minha impresso  de que o quadro da vida sexual de uma criana apresentado nessa observao do pequeno Hans est muito de acordo com o relato que forneci 
(baseando meus pontos de vista em exames psicanalticos de adultos) nos meus Trs Ensaios. Mas antes de entrar nos detalhes dessa concordncia, devo tratar de duas 
objees que sero levantadas contra o fato de eu fazer uso da presente anlise para esse fim. A primeira objeo  quanto ao fato de que Hans no era uma criana 
normal, mas (como os eventos - a prpria doena, de fato - mostraram) tinha uma predisposio para a neurose, e era um jovem "degenerado"; seria ilegtimo, portanto, 
aplicar-se a outras crianas normais concluses que talvez pudessem ser verdadeiras em relao a ele. Devo adiar a considerao dessa objeo, de vez que ela s 
limita o valor da observao, e no o anula completamente. De acordo com a segunda e menos comprometedora objeo, uma anlise de uma criana conduzida por seu pai, 
que foi instilado ao trabalho com meus pontos de vista tericos e infectado com meus preconceitos, deve ser inteiramente desprovida de qualquer valor objetivo. Uma 
criana, diro,  necessariamente muito sugestionvel, e muito mais por seu prprio pai do que talvez por qualquer outra pessoa; ela permitir que qualquer coisa 
lhe seja forada, por causa da gratido a seu pai por lhe dar tanta ateno; nenhuma das suas afirmaes pode ter qualquer valor de evidncia, e tudo o que ela produz 
sob a forma de associaes, fantasias e sonhos tomar, naturalmente, a direo para a qual est sendo pressionada por todos os meios possveis. Mais uma vez, em 
suma, a coisa toda  simplesmente `sugesto' - a nica diferena  que, no caso de uma criana, ela pode ser desmascarada muito mais facilmente do que no caso de 
um adulto.
         Coisa singular. Lembro-me, quando comecei a me intrometer no conflito de opinies cientficas h vinte e dois anos atrs, de com que zombaria a gerao 
mais velha de neurologistas e psiquiatras dessa poca recebeu as afirmaes sobre a sugesto e seus efeitos. Desde ento a situao mudou fundamentalmente. A averso 
original converteu-se numa aceitao por demais pronta; e isso aconteceu no s como conseqncia da impresso que o trabalho de Libeault e Bernheim e de seus alunos 
no podia deixar de criar no curso dessas duas dcadas, mas tambm porque desde ento se descobriu que grande economia de pensamento pode ser feita com o uso da 
chamada `sugesto'. Ningum sabe e ningum se importa com o que seja sugesto, de onde ela vem, ou quando surge - basta que tudo de estranho na regio da psicologia 
seja rotulado de `sugesto'. No compartilho do ponto de vista, que est em voga atualmente, de que as afirmaes feitas pelas crianas so invariavelmente arbitrrias 
e indignas de confiana. O arbitrrio no tem existncia na vida mental. A no-confiabilidade das afirmaes das crianas  devida  predominncia da sua imaginao, 
exatamente como a no-confiabilidade das afirmaes das pessoas crescidas  devida  predominncia dos seus preconceitos. Quanto ao resto, mesmo as crianas no 
mentem sem um motivo, e no todo so mais inclinadas para um amor da verdade do que os mais velhos. Se fssemos rejeitar a raiz e os ramos das declaraes do pequeno 
Hans certamente deveramos estar-lhe fazendo uma grave injustia. Ao contrrio, podemos distinguir claramente as ocasies em que ele estava falsificando os fatos 
ou guardando-os sob a fora compelidora de uma resistncia, as ocasies em que, estando indeciso, concordava com seu pai (de modo que aquilo que ele dissesse no 
fosse tomado como evidncia), e as ocasies em que, livre de qualquer presso, ele explodia numa torrente de informao sobre o que estava realmente acontecendo 
dentro dele e sobre coisas que at ento ningum sabia, a no ser ele mesmo. As declaraes feitas por adultos no oferecem maior certeza.  um fato lamentvel que 
nenhum relatrio de uma psicanlise possa reproduzir as impresses recebidas pelo analista enquanto ele a conduz, e que um sentido final de convico nunca possa 
ser obtido pela leitura sobre ela, mas somente experimentando-a diretamente. Contudo, essa incapacidade aplica-se em igual grau a anlises de adultos.
         O pequeno Hans  descrito por seus pais como uma criana alegre, franca, e assim ele deve ter sido, considerando-se a educao dada por seus pais, que consistia 
essencialmente na omisso dos nossos costumeiros pecados educacionais. Enquanto podia levar avante suas pesquisas num estado de feliz navt, sem nenhuma suspeita 
dos conflitos que estavam para surgir a partir destas, ele no escondeu nada; e as observaes feitas durante o perodo anterior  fobia no admitem dvida ou reserva. 
Foi com a ecloso da doena e durante a anlise que comearam a aparecer as discrepncias entre o que ele dizia e o que ele pensava; isso acontecia em parte porque 
o material inconsciente, que ele era incapaz de controlar, de repente se estava forando sobre ele, e em parte porque o contedo de seus pensamentos provocava reservas 
em relao s suas relaes com seus pais. Minha opinio imparcial  que essas dificuldades no resultaram maiores do que em muitas anlises de adultos.
          verdade que durante a anlise teve que ser contada a Hans muita coisa que ele mesmo no podia dizer, ele teve de ser apresentado a pensamentos que at 
ento ele no tinha mostrado sinais de possuir, e sua ateno teve de ser voltada para a direo da qual seu pai estava esperando que surgisse algo. Isso diminui 
o valor de evidncia da anlise, mas o processo  o mesmo em todos os casos. Pois uma psicanlise no  uma investigao cientfica imparcial, mas uma medida teraputica. 
Sua essncia no  provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa. Em uma psicanlise o mdico sempre d a seu paciente (s vezes em maior e s vezes em menor 
escala) as idias conscientes antecipadas, com a ajuda das quais ele se coloca em posio de reconhecer e de compreender o material inconsciente. H alguns pacientes 
que necessitam mais de tal assistncia e alguns que necessitam menos, mas no h nenhum que passe sem alguma assistncia. Leves distrbios podem, s vezes, ser levados 
a um fim pelos esforos no auxiliados do sujeito, mas nunca uma neurose - uma coisa que se colocou contra o ego como um elemento estranho a ele. Para obter o melhor 
de tal elemento, outra pessoa precisa ser trazida para dentro, e na medida em que essa pessoa puder auxiliar, a neurose ser curvel. Se est na prpria natureza 
de qualquer neurose afastar-se da `outra pessoa' - e isso parece ser uma das caractersticas dos estados agrupados sob o nome de demncia precoce -, ento, por esta 
razo, tal estado ser incurvel por quaisquer esforos de nossa parte.  verdade que uma criana, devido ao pequeno desenvolvimento dos seus sistemas intelectuais, 
requer uma assistncia especialmente enrgica. Mas, afinal, a informao que o mdico d ao seu paciente deriva, por sua vez, de experincia analtica; e, de fato, 
isso  suficientemente convincente se,  custa dessa interveno do mdico, ficamos habilitados para descobrir a estrutura do material patognico e, simultaneamente, 
para dissip-lo.
         Contudo, mesmo durante a anlise, o pequeno paciente deu sinal de independncia suficiente para coloc-lo acima da acusao de `sugesto'. Como todas as 
outras crianas, ele aplicava suas teorias sexuais infantis ao material  sua frente, sem ter recebido qualquer encorajamento para agir assim. Essas teorias esto 
extremamente distantes da mente adulta. Na verdade, nesse caso eu realmente deixei de avisar ao pai de Hans que o menino seria impelido a aproximar-se do tema do 
parto por meio do complexo excretrio. Essa negligncia da minha parte, apesar de ter levado a uma fase obscura na anlise, foi, todavia, o meio de produzir uma 
boa parte de evidncia da legitimidade e da independncia dos processos mentais de Hans. Ele se tornou de repente, ocupado com `lumf': [ver a partir de [1].], sem 
que seu pai, que se supunha estar praticando sugesto sobre ele, tivesse a menor idia de como ele tinha chegado a esse tema, ou o que iria sair da. Seu pai tambm 
no pode ser sobrecarregado com nenhuma responsabilidade pela produo das duas fantasias do bombeiro [ver em [1] e [2]], que surgiram com o `complexo de castrao' 
de Hans, adquirido muito cedo.  preciso confessar aqui que, fora o interesse terico, ocultei inteiramente do pai de Hans minha expectativa de que acabaria havendo 
um pouco de tal conexo, de modo a no interferir no valor de uma parte de evidncia que no vem muitas vezes  compreenso da pessoa.
         Se eu entrasse mais profundamente nos detalhes da anlise, poderia mostrar muito mais evidncia da independncia de Hans quanto  `sugesto', mas devo interromper 
a discusso dessa objeo preliminar neste ponto. Estou ciente de que, mesmo com esta anlise, no vou conseguir convencer ningum que no se deixe ser convencido, 
e vou continuar com minha discusso do caso para o benefcio daqueles leitores que j esto convencidos da realidade objetiva do material patognico inconsciente. 
E fao isso com a agradvel certeza de que o nmero de tais leitores est constantemente crescendo.
         O primeiro trao no pequeno Hans que pode ser encarado como parte da sua vida sexual  um interesse particularmente vivo por seu `pipi' - um rgo cujo 
nome deriva de uma de suas duas funes que, no sendo a menos importante das duas, no pode ser excluda dos cuidados com a criana. Esse interesse despertou nele 
o esprito de inqurito, e ele assim descobriu que a presena ou ausncia de um pipi tornava possvel diferenciar objetos animados de inanimados [ver em [1]]. Ele 
presumiu que todos os objetos animados eram como ele, e possuam esse importante rgo corporal; ele observou que este estava presente nos animais maiores, suspeitou 
que era assim tambm no seus pais, e no foi dissuadido pela evidncia dos seus prprios olhos ao autenticar o fato na sua irm recm-nascida [ver em [2]]. Algum 
poderia quase dizer que teria sido um golpe por demais dilacerante para a sua `Weltanschauung' se ele tivesse tido que se decidir a renunciar  presena desse rgo 
num ser semelhante a ele; teria sido como se este tivesse sido arrancado dele. Foi provavelmente por causa disso que uma ameaa de sua me [ver em [3]], que se referia 
precisamente  perda do seu pipi, foi to precipitadamente banida dos seus pensamentos e s conseguiu tornar seus efeitos aparentes num perodo posterior. O motivo 
para a interveno da sua me tinha sido que ele costumava gostar de proporcionar a si mesmo sentimentos de prazer ao tocar o seu membro: o menininho tinha comeado 
a praticar a mais comum - e mais normal - forma de atividade sexual auto-ertica.
         O prazer que uma pessoa sente no seu prprio rgo sexual pode tornar-se associado com a escopofilia (ou prazer sexual em olhar) nas suas formas ativa e 
passiva, de uma maneira que tem sido descrita com muita aptido por Alfred Adler (1908) como `confluncia de instintos'. Assim, o pequeno Hans comeou a tentar dar 
uma olhada nos pipis dos outros; sua curiosidade sexual desenvolveu-se, e ao mesmo tempo ele gostava de exibir seu prprio pipi. Um dos seus sonhos, datando do incio 
do seu perodo de represso, expressava o desejo de que uma das suas amiguinhas o assistisse ao fazer pipi, isto , que ela compartilhasse do espetculo [ver em 
[1]]. O sonho mostra, portanto, que at ento esse desejo tinha subsistido sem ter sido reprimido, e informao posterior confirmou o fato de que ele tinha o hbito 
de gratific-lo. O lado ativo da sua escopofilia logo se associou nele com um tema definido. Ele expressou repetidamente, tanto para seu pai como para sua me, seu 
pesar por nunca ter visto seus pipis; e foi provavelmente a necessidade de fazer uma comparao que o impeliu a fazer isso. O ego  sempre o padro pelo qual a pessoa 
mede o mundo externo; a pessoa aprende a compreend-lo por meio de uma comparao constante consigo mesma. Hans tinha observado que os animais grandes tinham pipis 
que eram correspondentemente maiores que o seu; por conseguinte suspeitou de que o mesmo procedia quanto a seus pais, e ficou ansioso para ter certeza disso. Sua 
me, pensou ele, certamente tem um pipi `como um cavalo'. Ele estava, ento, preparado com a reconfortante reflexo de que seu pipi cresceria com ele. Era como se 
o desejo da criana de ser maior tivesse sido concentrado nos seus genitais.
         Assim, na constituio sexual do pequeno Hans a zona genital foi, desde o comeo, aquela dentre as suas zonas ergenas que lhe proporcionou o mais intenso 
prazer. O nico outro prazer semelhante do qual ele deu sinal foi o prazer excretrio, o prazer ligado aos orifcios atravs dos quais a mico e a evacuao dos 
intestinos so efetuadas. Na sua fantasia final de prazer perfeito, com a qual a sua doena foi superada, ele imaginou que tinha filhos, que os levava ao banheiro, 
que os fazia urinar, que limpava seus traseiros - em suma, fazia com eles `tudo o que se pode fazer com os filhos' [ver em [1]]; parece, portanto, impossvel evitar 
a suposio de que, durante o perodo em que ele mesmo era tratado como um beb, esses mesmos atos tivessem sido a fonte de sensaes de prazer para ele. Ele tinha 
obtido esse prazer das suas zonas ergenas com a ajuda da pessoa que cuidava dele - sua me, na realidade, e assim o prazer j apontava o caminho para a escolha 
objetal. Mas  possvel que numa data ainda mais remota ele tenha tido o hbito de proporcionar a si mesmo esse prazer auto-eroticamente - que ele tenha sido dessas 
crianas que gostam de reter suas fezes at que possam tirar uma sensao voluptuosa da sua evacuao. Eu s digo que isso  possvel, porque o assunto no ficou 
esclarecido na anlise; o `fazer um barulho com as pernas' (dando pontaps), de que ele tinha tanto medo mais tarde, aponta essa direo. Mas de qualquer maneira 
essas fontes de prazer no tiveram qualquer importncia particularmente impressionante com Hans, como elas tm to freqentemente com outras crianas. Ele cedo se 
tornou limpo nos seus hbitos, e nem molhar a cama ou a incontinncia diurna desempenharam qualquer papel durante seus primeiros anos; no foi observado nele nenhum 
trao de qualquer inclinao a brincar com seu excremento, propenso que  to repulsiva em adultos, e que reaparece no trmino de processos de involuo fsica.
         Nessa juno  bom enfatizar logo o fato de que durante a sua fobia havia uma manifesta represso desses dois componentes bem desenvolvidos da sua atividade 
sexual. Ele tinha vergonha de urinar na frente de outras pessoas, acusava-se de colocar o dedo no seu pipi, fazia esforos para parar de se masturbar, e mostrava 
sinais de nojo diante de `lumf' e `pipi', e de tudo o que lhe lembrasse estes. Na sua fantasia de tomar conta dos seus filhos, ele desfez essa ltima represso.
         Uma constituio sexual como a do pequeno Hans no parece encerrar uma predisposio para o desenvolvimento nem de perverses, nem de seu negativo (vamos 
limitar-nos a uma considerao de histeria). At onde vai minha experincia (e ainda h uma necessidade real de se falar com cuidado nesse ponto), a constituio 
inata dos histricos - que isso  procedente tambm em relao a pervertidos  quase evidente em si mesmo -  marcada pelo fato de a zona genital ser relativamente 
menos proeminente do que as outras zonas ergenas. Mas precisamos excetuar expressamente dessa regra uma `aberrao' especial da vida sexual. Naqueles que mais tarde 
se tornam homossexuais encontramos a mesma predominncia na influncia da zona genital (e especialmente do pnis) que nas pessoas normais. Na realidade  a alta 
estima sentida pelo homossexual pelo rgo masculino que decide o seu destino. Na sua infncia ele escolhe mulheres como seu objeto sexual, enquanto presume que 
elas tambm possuem o que, a seus olhos,  uma parte indispensvel do corpo; quando ele se convence de que as mulheres o decepcionaram nesse particular, elas deixam 
de ser aceitveis para ele como objeto sexual. Ele no pode abrir mo de um pnis em qualquer pessoa que deva atra-lo para o ato sexual; e se as circunstncias 
forem favorveis, ele fixar sua libido sobre a `mulher com um pnis', um jovem de aparncia feminina. Os homossexuais, ento, so pessoas que, devido  importncia 
ergena dos seus prprios genitais, no podem passar sem uma forma semelhante no seu objeto sexual. No curso do desenvolvimento do auto-erotismo para o amor objetal, 
eles permaneceram fixados num ponto entre os dois - um ponto que est mais perto do auto-erotismo.
         No h absolutamente qualquer justificativa para distinguir um instinto homossexual especial. O que constitui um homossexual  uma peculiaridade no na 
sua vida instintual, mas na sua escolha de um objeto. Deixem-me lembrar o que eu disse nos meus Trs Ensaios quanto ao fato de que erradamente imaginamos a conexo 
entre instinto e objeto na vida sexual como sendo mais ntima do que realmente . Um homossexual pode ter instintos normais, mas  incapaz de separ-los de uma classe 
de objetos definida por um determinante particular. E na sua infncia, j que nesse perodo esse determinante  considerado como um fato de aplicao universal, 
ele  capaz de se comportar como o pequeno Hans, que mostrou sua afeio por menininhos e menininhas indiscriminadamente, e uma vez descreveu seu amigo Fritzl como 
`a menina de quem ele gostava mais' [ver em [1]]. Hans era um homossexual (como todas as crianas podem muito bem ser), devido ao fato, que precisa ser sempre mantido 
em mente, de que ele s estava informado quanto a um tipo de rgo genital - um rgo genital como o seu.
         No seu desenvolvimento subseqente, contudo, no foi para a homossexualidade que o nosso jovem libertino prosseguiu, mas para uma masculinidade enrgica, 
com traos de poligamia; tambm soube como variar seu comportamento, com seus objetos femininos variados - audaciosamente agressivo num caso, lnguido e acanhado 
em outro. Sua afeio passou de sua me para outros objetos de amor, mas, numa poca em que havia uma escassez destes, suas afeio voltou a ela, s para desabar 
numa neurose. S depois que isso aconteceu  que se tornou evidente a que grau de intensidade seu amor por sua me se tinha desenvolvido, e por que vicissitudes 
tinha passado. O objetivo sexual que ele perseguia com suas companheiras meninas, o de dormir com elas, tinha-se originado com relao  sua me. Foi expresso em 
palavras que poderiam ser conservadas na maturidade, embora trouxessem ento uma conotao mais rica. O menino tinha descoberto o caminho para o amor objetal da 
maneira usual, pelo cuidado que tinha recebido quando era beb; e um novo prazer tinha, agora, se tornado o mais importante para ele - o de dormir ao lado de sua 
me. Eu gostaria de enfatizar a importncia do prazer proveniente do contato cutneo como um componente nesse novo objetivo de Hans, que, de acordo com a nomenclatura 
(artificial em minha opinio) de Moll, teria que ser descrito como a satisfao do instinto de contrectao. [Moll (1898). Cf. ver em [1], 1972.]
         Na sua atitude em relao a seu pai e sua me Hans confirma da maneira mais concreta e sem compromisso o que eu tinha dito na minha A Interpretao de Sonhos 
(1900a, na Seo D (?) do Captulo V; a partir de [1], 1972] com respeito s relaes sexuais de uma criana com seus pais. Hans era realmente um pequeno dipo que 
queria ter seu pai `fora do caminho', queria livrar-se dele, para que pudesse ficar sozinho com sua linda me e dormir com ela. Esse desejo tinha-se originado durante 
suas frias de vero, quando a presena e a ausncia alternativa de seu pai tinha atrado a ateno de Hans para a condio da qual dependia a intimidade com sua 
me, que ele desejava tanto. Nessa poca a forma tomada pelo desejo tinha sido simplesmente que seu pai devia `ir embora'; num estdio posterior tornou-se possvel 
para seu medo de ser mordido por um cavalo branco ligar-se diretamente a essa forma do desejo, devido a uma impresso casual que ele recebeu no momento da partida 
de outra pessoa. Mas, subseqentemente (provavelmente s depois que eles se tinham mudado para Viena, onde no devia mais contar com as ausncias de seu pai), o 
desejo tomou a forma de que seu pai devia ficar permanentemente longe - que ele devia estar `morto'. O medo que se originou desse desejo de morte contra seu pai, 
e que portanto podemos dizer que teve um motivo normal, formou o obstculo principal  anlise, at que foi removido durante a conversa no meu consultrio [ver em 
[1]].
         Mas Hans no era, de modo algum, um mau carter; no era nem dessas crianas que, na sua idade, ainda do livre curso para a propenso  crueldade e  violncia, 
o que  um constituinte da natureza humana. Ao contrrio, ele tinha uma disposio incomumente humana e afetuosa; seu pai relatou que a transformao das tendncias 
agressivas em sentimentos de piedade ocorreram muito cedo nele. Muito antes da fobia ele tinhaficado inquieto quando viu os cavalos num carrossel serem batidos; 
e nunca ficava insensvel se algum chorasse na sua presena. Num estdio da anlise, uma parte de sadismo suprimido apareceu num contexto particular: mas era sadismo 
suprimido, e teremos que descobrir agora, pelo contexto, o que representava e o que queria substituir. E Hans amava profundamente seu pai, contra quem ele nutria 
esses desejos de morte; enquanto seu intelecto objetava a tal contradio, ele no podia deixar de demonstrar o fato da existncia desta, batendo no seu pai e logo 
depois beijando o lugar em que ele tinha batido [ver em [1].]. Ns mesmos, tambm, precisamos ter cuidado para no fazer de tal contradio uma dificuldade. A vida 
emocional do homem , em geral, feita de pares de contrrios como estes. De fato, se no fosse assim, as represses e as neuroses talvez nunca ocorressem. No adulto 
esses pares de emoes contrrias no se tornam, via de regra, simultaneamente conscientes, exceto nos clmaxes de amor apaixonado; em outras ocasies eles, em geral, 
continuam suprimindo-se uns aos outros at que um deles consiga manter o outro completamente fora de vista. Mas nas crianas eles podem existir pacificamente lado 
a lado, por um tempo bem considervel.
         A influncia mais importante sobre o curso do desenvolvimento psicossexual de Hans foi o nascimento de uma irmzinha, quando ele estava com trs anos e 
meio. Esse evento acentuou as suas relaes com seus pais e lhe deu alguns problemas insolveis em que pensar; mais tarde, enquanto observava a maneira pela qual 
o beb era cuidado, os traos de memria das suas prprias experincias mais remotas de prazer foram reavivados nele. Essa influncia  tambm uma influncia tpica; 
em um nmero inesperadamente grande de histricos de vida, tanto normais quanto patolgicos, vemo-nos obrigados a tomar como nosso ponto de partida uma exploso 
de prazer sexual e de curiosidade sexual ligada, como esta, ao nascimento da criana seguinte. O comportamento de Hans em relao  nova chegada foi exatamente o 
que eu tinha descrito em A Interpretao de Sonhos [1900a, na Seo D (?) do Captulo V; a partir de [1], 1972]. Na sua febre, poucos dias mais tarde, deixou escapar 
quo pouco gostava do acrscimo  famlia [ver em [2]]. A afeio por sua irm podia vir mais tarde, mas sua primeira atitude foi de hostilidade. Dessa poca em 
diante o medo de que ainda pudesse chegar outro beb encontrou lugar entre os seus pensamentos conscientes. Na neurose, a sua hostilidade, j suprimida, foi representada 
por um medo especial - um medo do banho [ver em [1]]. Na anlise ele deu uma expresso indisfarada do seu desejo de morte contra sua irm, e no se contentou com 
aluses que precisavam ser suplementadas por seu pai. Sua conscincia mais ntima no considerava esse desejo to vil como o desejo anlogo contra seu pai; est 
claro, porm, que no seu inconsciente ele tratava ambas as pessoas da mesma maneira, porque ambas afastavam sua mame dele, e interferiam em seu estar s com ela.
         Alm do mais, esse evento e os sentimentos que foram reavivados por ele deram uma nova direo para seus desejos. Na sua triunfante fantasia final [ver 
em [1]], ele somou todos os seus desejos erticos, tanto os derivados da sua fase auto-ertica quanto os ligados ao seu amor objetal. Nessa fantasia ele estava casado 
com sua linda me e tinha inmeros filhos, de quem ele podia cuidar  sua prpria maneira.
         (II)
         Um dia, quando Hans estava na rua, foi acometido de um ataque de ansiedade. No podia, contudo, dizer de que  que tinha medo; mas logo no incio desse 
estado de ansiedade deixou escapar para seu pai o motivo para estar doente, o ganho proveniente da doena. Queria ficar com sua me e acarici-la; sua lembrana 
de que ele tambm tinha ficado separado dela na poca do nascimento do beb tambm pode ter contribudo, como sugere seu pai [ver em [1]], para seu anseio. Logo 
se tornou evidente que sua ansiedade no era mais reconversvel em anseio, ele tinha medo at mesmo quando sua me ia com ele. Nesse nterim apareceram indicaes 
sobre aquilo a que sua libido (agora transformada em ansiedade) se tinha ligado. Ele deu expresso ao medo bastante especfico de que um cavalo branco o mordesse.
         Os distrbios desse tipo so chamados de `fobias', e poderamos classificar o caso de Hans como um agorafobia, se no fosse pelo fato de que uma caracterstica 
dessa doena  que a locomoo da qual o paciente , de outra forma, incapaz, pode ser facilmente efetuada quando ele est acompanhado por uma pessoa especialmente 
escolhida - no ltimo recurso, pelo mdico. A fobia de Hans no preenchia essa condio; logo deixou de ter qualquer relao com a questo da locomoo e se tornou 
cada vez mais claramente concentrada sobre cavalos. Nos primeiros dias da sua doena, quando a ansiedade estava no seu mais alto grau, ele expressou um medo de que 
`o cavalo entrasse no quarto' [ver em [1]], e foi isso que tanto me ajudou a compreender sua condio.
         No sistema classificatrio das neuroses no foi, at agora, atribuda uma posio definida para as `fobias'. Parece certo que elas s devam ser encaradas 
como sndromes, que podem formar parte de vrias neuroses e que no precisamos classific-las como um processo patolgico independente. Para fobias da espcie a 
que pertence a do pequeno Hans, e que so, na realidade, as mais comuns, o nome `histeria de angstia' no me parece imprprio; sugeri o termo para o Dr. W. Stekel, 
quando ele estava empreendendo uma descrio dos estados de ansiedade neurticos; e espero que passe para uso geral. O termo encontra sua justificao na semelhana 
entre a estrutura psicolgica dessas fobias e a da histeria - uma semelhana que  completa, exceto em um nico ponto. Esse ponto, todavia,  um ponto decisivo e 
bem adaptado para finalidades de diferenciao. Na histeria de angstia, a libido, que tinha sido libertada do material patognico pela represso, no  convertida 
(isto , desviada da esfera mental para uma inervao somtica), mas  posta em liberdade na forma de ansiedade. Nos casos clnicos com os quais nos defrontamos, 
essa `histeria de angstia' pode estar combinada em alguma proporo com a `histeria de converso'. Existem casos de pura histeria de converso sem nenhum trao 
de ansiedade, assim como h casos de simples histeria de angstia que exibem sentimentos de ansiedade e de fobias, mas no tm mistura de converso. O caso do pequeno 
Hans  da ltima espcie.
         As histerias de angstia so os distrbios psiconeurticos mais comuns. Mas, antes de tudo, so as que aparecem mais cedo na vida; so as neuroses da infncia 
par excellence. Quando uma me usa frases como os `nervos' do seu filho esto num mau estado, podemos ter certeza de que em nove entre dez casos a criana est sofrendo 
de alguma espcie de ansiedade ou de muitas espcies ao mesmo tempo. Infelizmente o mecanismo mais delicado desses distrbios altamente significativos no foi ainda 
suficientemente estudado. Ainda no foi estabelecido se a histeria de angstia  determinada, em contraste com a histeria de converso e outras neuroses, unicamente 
por fatores constitucionais ou unicamente por experincias acidentais, ou por que combinao dos dois. A mim parece que de todos os distrbios neurticos este  
o menos dependente de uma disposio constitucional especial e , conseqentemente, o mais facilmente adquirido em qualquer poca da vida.
         Uma caracterstica essencial das histerias de angstia  muito facilmente apontada. Uma histeria de angstia tende a desenvolver-se mais e mais para uma 
`fobia'. No final o paciente pode ter-se livrado de toda a sua ansiedade, mas somente ao preo de sujeitar-se a todos os tipos de inibies e restries. Desde o 
comeo, na histeria de angstia, a mente est constantemente trabalhando no sentido de ligar psiquicamente, mais uma vez, a ansiedade que tinha se liberado; mas 
esse trabalho no pode nem efetuar uma retransformao da ansiedade em libido, nem estabelecer qualquer contato com os complexos que foram a fonte da libido. Nada 
lhe resta, a no ser cortar o acesso a todo possvel motivo que possa levar ao desenvolvimento de ansiedade, erigindo barreiras mentais da natureza de precaues, 
inibies ou proibies; e so essas estruturas protetoras que aparecem para ns sob a forma de fobias e que constituem aos nossos olhos a essncia da doena.
         Pode-se dizer que at agora o tratamento da histeria de angstia tem sido um tratamento puramente negativo. A experincia demonstrou que  impossvel efetuar-se 
a cura de uma fobia (e at mesmo em certas circunstncias, perigoso tentar faz-lo) por meios violentos, isto , primeiro privando-se o paciente de suas defesas, 
e depois colocando-o numa situao da qual ele no possa escapar da liberao da sua ansiedade. Conseqentemente, nada pode ser feito, a no ser deixar o paciente 
procurar por proteo onde quer que ele ache que pode encontr-la; e ele  simplesmente encarado com um desprezo, que no  de muita ajuda, pela sua `incompreensvel 
covardia'.
         Os pais do pequeno Hans estavam determinados, desde o incio da sua doena, a que no era para se rir dele, nem para tiraniz-lo, mas que se precisava obter 
acesso aos seus desejos reprimidos por meio da psicanlise. Os sofrimentos extraordinrios suportados pelo pai de Hans foram recompensados pelo sucesso, e os seus 
relatos vo-nos dar uma oportunidade de penetrar no sistema desse tipo de fobia e de acompanhar o curso de sua anlise.
         No acho improvvel que o carter extensivo e detalhado da anlise a tenha tornado um tanto obscura para o leitor. Vou, portanto, comear por dar um breve 
resumo dela, no qual omitirei todas as sadas laterais que distraem e atrairei a ateno para os resultados,  medida que vinham  luz, um atrs do outro.
         A primeira coisa que aprendemos  que a ecloso do estado de ansiedade no foi, de modo algum, to repentina como parecia  primeira vista. Uns dias antes 
o menino tinha acordado de um sonho de ansiedade, cujo contedo era que sua me tinha ido embora e que agora ele no tinha me para fazer carinho [ver em [1]]. Esse 
sonho, por si s, aponta para a presena de um processo repressivo de intensidade ominosa. No podemos explic-lo, como podemos explicar tantos outros sonhos de 
ansiedade, supondo que a criana tenha sentido nesse sonho a ansiedade surgindo de alguma causa somtica e tenha feito uso da ansiedade com a finalidade de realizar 
um desejo inconsciente que, de outra forma, teria sido profundamente reprimido. Precisamos encar-lo mais como um sonho genuno de punio e represso, e, alm disso, 
como um sonho que falhou na sua funo, j que a criana acordou do seu sono num estado de ansiedade. Podemos facilmente reconstruir o que, de fato, ocorreu no inconsciente. 
A criana sonhou trocando carinhos com sua me e dormindo com ela, mas todo o prazer foi transformado em ansiedade, e todo o contedo ideativo, no seu oposto. A 
represso derrotou a finalidade do mecanismo de sonhar.
         Mas os primrdios dessa situao psicolgica vo ainda mais longe. Durante o vero precedente Hans tinha tido estados de esprito semelhantes de anseio 
e apreenso, nos quais tinha dito coisas semelhantes; e nessa poca eles lhe tinham assegurado a vantagem de ser levado por sua me para a cama dela. Podemos presumir 
que, desde ento, Hans tenha ficado num estado de excitao sexual intensificada, cujo objeto era sua me. A intensidade dessa excitao foi mostrada por suas duas 
tentativas [ver em [1] e [2]] de seduzir sua me (a segunda das quais ocorreu imediatamente antes da ecloso da sua ansiedade); e ele achou um canal de descarga 
incidental para isso, masturbando-se toda noite e, dessa forma, obtendo gratificao. Se a sbita transmutao da sua excitao em ansiedade teve lugar espontaneamente, 
ou como resultado da rejeio de sua me aos seus avanos, ou devido ao renascimento acidental das impresses anteriores pela `causa precipitadora' da sua doena 
(sobre a qual vamos ouvir agora) - no podemos decidir; e, de fato, essa  uma questo indiferente, pois essas trs possibilidades alternativas no podem ser encaradas 
como mutuamente incompatveis. O fato  que a sua excitao sexual subitamente mudou para ansiedade.
         J descrevemos o comportamento da criana no incio da sua ansiedade, assim como o primeiro contedo que ele atribuiu a esta, a saber, que um cavalo o morderia. 
Foi nesse ponto que interveio a primeira parte da terapia. Seus pais fizeram com que ele visse que a sua ansiedade era o resultado da masturbao, e o encorajaram 
a romper com esse hbito [ver em [1]]. Tive o cuidado de que, quando falassem com ele, fosse dada grande nfase  sua afeio por sua me, pois era isso que ele 
estava tentando substituir pelo seu medo de cavalos [ver em [2]]. A primeira interveno trouxe uma leve melhora, mas o terreno foi logo novamente perdido, durante 
um perodo de doena fsica. A condio de Hans permaneceu inalterada. Logo depois ele reportou seu medo de ser mordido por um cavalo a uma impresso que ele tinha 
recebido em Gmunden [ver em [3]]. Um pai se dirigira a sua filha, na partida desta, com estas palavras de advertncia: `No ponha o dedo no cavalo; se voc puser, 
ele vai morder voc.' As palavras `No ponha o dedo no', que Hans usou ao contar essa advertncia, se parecia com a frmula de palavras na qual a advertncia contra 
a masturbao tinha sido estruturada. A princpio, portanto, como os pais de Hans estavam certos em supor, parecia que o que o assustava era sua prpria indulgncia 
masturbadora. Mas todo o nexo ficou solto, e parecia ser simplesmente por acaso que os cavalos se tinham tornado seu bicho-papo.
         Expressei uma suspeita de que o desejo reprimido de Hans poderia ser agora que ele quisesse, a todo custo, ver o pipi de sua me. Como seu comportamento 
para com uma nova empregada combinava com essa hiptese, seu pai lhe deu sua primeira parte de esclarecimento, a saber, que as mulheres no tm pipis [ver em [1]]. 
Ele reagiu a esse primeiro esforo para ajud-lo, criando uma fantasia de que tinha visto sua me mostrando o pipi dela. Essa fantasia e uma observao feita por 
ele em conversa, dizendo que seu pipi estava `preso,  claro', nos concedem entrever pela primeira vez o processo mental inconsciente do paciente. O fato  que a 
ameaa de castrao feita a ele por sua me, cerca de quinze meses antes [ver em [1] e [2]], estava agora tendo um efeito adiado sobre ele. Pois sua fantasia de 
que sua me estava fazendo o mesmo que ele tinha feito (a rplica familiar do tu quoque das crianas culpadas) destinava-se a servir como uma parte de autojustificao; 
era uma fantasia protetora ou defensiva. Ao mesmo tempo precisamos observar que foram os pais de Hans que extraram do material patognico operando nele o tema particular 
do seu interesse por pipis. Hans seguiu a orientao deles nesse assunto, mas no tinha tomado ainda nenhuma linha prpria na anlise. E no havia nenhum sucesso 
teraputico a ser observado. A anlise tinha passado longe do assunto de cavalos; e a informao de que as mulheres no tm pipis foi calculada para, no mnimo, 
aumentar seu interesse pela preservao do seu prprio pipi.
         O sucesso teraputico, entretanto, no  o nosso objetivo primordial; ns nos empenhamos mais em capacitar o paciente a obter uma compreenso consciente 
dos seus desejos inconscientes. E podemos atingir isso trabalhando com base nos indcios que ele expe, e assim, com a ajuda da nossa tcnica interpretativa, apresentar 
o complexo inconsciente para a sua conscincia nas nossas prprias palavras. Haver um certo grau de semelhana entre o que ele ouve de ns e aquilo que ele est 
procurando, e o que, a despeito de todas as resistncias, est tentando forar caminho at a conscincia; e  essa semelhana que vai capacit-lo a descobrir o material 
inconsciente. O mdico est um passo  frente dele no conhecimento; e o paciente segue pelo seu prprio caminho, at que os dois se encontrem na meta marcada. Os 
principiantes em psicanlise esto aptos para assimilar esses dois eventos e para supor que o momento no qual um dos complexos inconscientes do paciente tornou-se 
conhecido para eles  tambm o momento no qual o prprio paciente o reconhece. Esto esperando demais quando pensam que vo curar o paciente informando-o sobre essa 
parcela de conhecimento; pois ele nada mais pode fazer com a informao, a no ser fazer uso dela para ajudar a si mesmo a descobrir o complexo inconsciente onde 
ele est ancorado no seu inconsciente. Um primeiro sucesso desse tipo foi obtido com Hans. Tendo parcialmente dominado seu complexo de castrao, ele era ento capaz 
de comunicar seus desejos em relao a sua me. Ele o fez, no que ainda era uma forma distorcida, por meio da fantasia das duas girafas, uma das quais estava gritando 
em vo porque Hans tinha tomado posse da outra [ver em [1]]. Ele representou o `tomar posse de', pictoricamente, como `sentar em cima'. Seu pai reconheceu a fantasia 
como uma reproduo de uma cena de quarto, que costumava ter lugar de manh, entre o menino e seus pais; e logo despiu o desejo subjacente do disfarce que ainda 
usava. O pai e a me do menino eram as duas girafas. A razo para a escolha de uma fantasia de girafa para as finalidades de disfarce foi plenamente explicada por 
uma visita que, alguns dias antes, o menino tinha feito a esses mesmos grandes animais em Schnbrunn, por um desenho de girafa, pertencente a um perodo anterior, 
que tinha sido conservado por seu pai, e tambm, talvez, por uma comparao inconsciente baseada no pescoo longo e rgido da girafa. Pode ser observado que a girafa, 
sendo um animal grande, e interessante do ponto de vista do seu pipi, era um possvel competidor com o cavalo para o papel de bicho-papo; alm do mais, o fato de 
tanto seu pai como sua me terem aparecido como girafas oferecia um indcio que ainda no tinha sido seguido, no que se refere  interpretao dos cavalos de ansiedade.
         Imediatamente depois da histria da girafa, Hans criou duas fantasias menores: uma de forar passagem para um espao proibido em Schnbrunn, e outra de 
quebrar uma janela de uma carruagem de estrada de ferro no Stadtbahn [ver em [1]]. Em cada um dos casos a natureza punvel da ao foi enfatizada, e em cada um deles 
seu pai aparecia como um cmplice. Infelizmente seu pai fracassou ao interpretar essas duas fantasias, de modo que o prprio Hans no lucrou nada em cont-las. Em 
uma anlise, no entanto, uma coisa que no foi compreendida, inevitavelmente reaparece; como um fantasma inquieto, no pode descansar at que o mistrio tenha sido 
resolvido e que o encanto tenha sido quebrado. 
         
         No h dificuldades na maneira para compreendermos essas duas fantasias criminosas. Elas pertenciam ao complexo de Hans de tomar posse da sua me. Agitava-se 
em sua mente algum tipo de vaga noo de que havia algo que ele poderia fazer com sua me por meio do que ele chegaria a tomar posse dela; para esse pensamento ilusrio 
ele encontrou algumas representaes pictricas, que tinham em comum as qualidades de serem violentas e proibidas, e cujo contedo nos choca por combinar maravilhosamente 
com a verdade escondida. S podemos dizer que havia fantasias simblicas de relaes sexuais, e no era um detalhe irrelevante o fato de que seu pai era representado 
como compartilhando das suas aes: `Eu gostaria', ele parecia estar dizendo, `de estar fazendo algo com minha me, algo proibido; eu no sei o que , mas sei que 
voc est fazendo isso tambm.'
         A fantasia da girafa fortaleceu a convico que j tinha comeado a se formar na minha mente, quando Hans expressou seu medo de que `o cavalo entrasse no 
quarto' [ver em [1]]; e achei que ento tinha chegado o momento certo para inform-lo de que ele tinha medo do seu pai porque ele mesmo nutria desejos ciumentos 
e hostis contra este - pois era essencial postular-se bem isso com relao aos seus impulsos inconscientes. Ao lhe dizer isso, eu tinha interpretado parcialmente 
o seu medo de cavalos para ele: o cavalo tem que ser seu pai - a quem ele tinha boas razes internas para temer. Certos detalhes dos quais Hans mostrou que tinha 
medo, o preto nas bocas dos cavalos e as coisas na frente dos seus olhos (os bigodes e os culos que so o privilgio de um homem crescido), me pareciam ter sido 
diretamente transpostos do seu pai para os cavalos [ver em [1]].
         Ao esclarecer Hans sobre esse assunto, liquidei sua resistncia mais poderosa contra permitir aos seus pensamentos inconscientes tornarem-se conscientes; 
pois seu prprio pai estava agindo como seu mdico. O pior do ataque estava ento acabado; havia uma torrente abundante de material; o pequeno paciente convocou 
coragem para descrever os detalhes da sua fobia, e logo comeou a tomar parte ativa na conduo da anlise.
         
         Foi s ento que soubemos quais eram os objetos e as impresses de que Hans tinha medo. Ele no tinha medo s de cavalos o morderem - logo silenciou a respeito 
desse ponto -, mas tambm de carroas, de carroas de mudana, de nibus (sua qualidade comum sendo, como se tornou claro agora, que todos estavam pesadamente carregados), 
de cavalos que comeavam a se mover, de cavalos que pareciam grandes e pesados, e de cavalos que andavam depressa. O significado dessas especificaes foi explicado 
pelo prprio Hans: ele tinha medo de cavalos caindo, e conseqentemente incorporou na sua fobia tudo que parecesse provavelmente facilitar a queda destes [ver em 
[1]].
         No  nada raro acontecer que, s depois de fazer uma certa quantidade de trabalho psicanaltico com um paciente, um analista possa conseguir saber o contedo 
real de uma fobia, a forma precisa de palavras de um impulso obsessivo, e assim por diante. A represso no s invadiu os complexos inconscientes, como est continuamente 
atacando seus derivados e at impede o paciente de ficar sabendo dos produtos da prpria doena. O analista, assim, se encontra na posio, curiosa para um mdico, 
de vir em auxlio de uma doena e de proporcionar-lhe a devida ateno. Mas s aqueles que no entendem nada da natureza da psicanlise vo dar nfase a essa fase 
do trabalho e supor que por causa disto  provvel que se possa fazer mal atravs da anlise. O fato  que  preciso pegar o ladro para poder enforc-lo, e  necessrio 
algum dispndio de trabalho para se agarrar firmemente as estruturas patolgicas, sendo a destruio destas a meta do tratamento.
         J observei no curso do meu comentrio corrido sobre o caso clnico [ver em [1]] que  muito instrutivo mergulhar desse modo nos detalhes de uma fobia, 
e assim chegar a uma convico da natureza secundria da relao entre a ansiedade e seus objetos.  isso que contribui para as fobias serem ao mesmo tempo to curiosamente 
difusas e to estritamente condicionadas.  evidente que o material para os disfarces particulares que o medo de Hans adotou foi coletado das impresses s quais 
ele estava exposto o dia todo, devido  Central de Alfndega ser situada do lado oposto da rua. Nessa conexo ele tambm mostrou sinais de um impulso - embora estivesse 
agora inibido por sua ansiedade - de brincar com as cargas nas carroas, com os embrulhos, barris e caixas como os meninos da rua. 
         
         Foi nesse estgio da anlise que ele se lembrou do acontecimento, insignificante em si, que precedeu imediatamente a ecloso da doena e que pode, sem dvida, 
ser encarado como a causa precipitadora dessa ecloso. Ele foi dar um passeio com sua me e viu um cavalo de nibus cair e escoicear com suas patas [ver em [1]]. 
Isso lhe causou uma grande impresso. Ele ficou aterrorizado e pensou que o cavalo estava morto; dessa poca em diante, achava que todo os cavalos iriam cair. Seu 
pai salientou para ele que, quando viu o cavalo cair, deve ter pensado nele, seu pai, e ter desejado que ele casse da mesma maneira e morresse. Hans no discutiu 
essa interpretao: um pouco mais tarde fez uma brincadeira que consistia em morder seu pai, e assim mostrou que aceitava a teoria de ter identificado seu pai com 
o cavalo de que ele tinha medo [ver em [1]]. Dessa poca em diante seu comportamento em relao ao pai era sem constrangimento e sem medo, e de fato um pouquinho 
arrogante. Contudo, seu medo de cavalos persistia; e no estava claro, ainda, atravs de que cadeia de associaes a queda do cavalo agitou seus desejos inconscientes.
         Deixem-me resumir os resultados que foram alcanados at agora. Por trs do medo que Hans exprimiu primeiro, o medo de que um cavalo o mordesse, descobrimos 
um medo mais profundamente assentado, o medo de cavalos caindo; e os dois tipos de cavalo, o cavalo que morde e o cavalo que cai, foram mostrados para representar 
seu pai, que ia puni-lo pelos maus desejos que ele estava nutrindo contra ele. Nesse nterim a anlise se tinha afastado do tema da sua me. 
         Bem inesperadamente, e certamente sem nenhuma incitao do seu pai, Hans agora comeava a se ocupar com o complexo do `lumf', e a mostrar nojo pelas coisas 
que lhe lembravam a evacuao dos seus intestinos [ver em [1]]. Seu pai, que estava relutando em acompanh-lo nessa linha, impulsionou a anlise, sem fazer caso 
de nada, na direo em que ele queria ir. Ele desencavou de Hans a lembrana de um acontecimento em Gmunden, cuja impresso ficou oculta atrs da do cavalo de nibus 
que caiu. Quando eles estavam brincando de cavalos, Fritzl, o companheiro de quem ele tanto gostava, mas que, ao mesmo tempo, talvez fosse seu rival diante das muitas 
meninas suas amigas, tinha batido com o p contra uma pedra e tinha cado, tendo seu p sangrado [ver em [1]]. Ver o cavalo do nibus cair lhe tinha lembrado esse 
acidente. Merece ser notado que Hans, que no momento estava interessado em outras coisas, comeou por negar que Fritzl tivesse cado (embora isso tenha sido o acontecimento 
que formou a conexo entre as duas cenas) e s o admitiu num estdio posterior da anlise [ver em [1] ].  especialmente interessante, no entanto, observar a maneira 
como a transformao da libido de Hans em ansiedade foi projetada do principal objeto da sua fobia para os cavalos. Os cavalos o interessavam mais do que todos os 
animais grandes; brincar de cavalos era a sua brincadeira favorita com outras crianas. Tive uma desconfiana - e esta foi confirmada pelo pai de Hans quando o interroguei 
- de que a primeira pessoa que serviu a Hans como um cavalo devia ter sido seu pai; e foi isso que o habilitou a encarar Fritzl como um substituto para seu pai, 
quando se deu o acidente em Gmunden. Quando a represso comeou e trouxe consigo uma revulso de sentimento, os cavalos, que at ento tinham sido associados com 
tanto prazer, foram necessariamente transformados em objetos de medo.
         Mas, como j dissemos, foi devido  interveno do pai de Hans que foi feita essa ltima importante descoberta quanto  maneira como a causa precipitadora 
da doena tinha operado. O prprio Hans estava ocupado com seus interesses relativos ao lumf, e a, finalmente, precisamos segui-lo. Ficamos sabendo que Hans anteriormente 
tinha o hbito de insistir em acompanhar sua me ao banheiro [ver em [1]], e que ele tinha reavivado esse costume com sua amiga Berta, numa poca em que ela estava 
ocupando o lugar da sua me, at que o fato se tornou conhecido e ele foi proibido de agir assim [ver em [2]]. O prazer sentido ao ficar olhando enquanto uma pessoa 
que se ama executa as funes naturais , mais uma vez, uma `confluncia de instintos' da qual j tnhamos observado um exemplo em Hans [ver em [3]]. Por fim seu 
pai entrou no simbolismo do lumf, e reconheceu que havia uma analogia entre uma carroa pesadamente carregada e um corpo cheio com fezes, entre a maneira pela qual 
uma carroa sai por um porto e a maneira como as fezes deixam o corpo, e assim por diante [ver a partir de [4]].
         Nessa poca, contudo, a posio ocupada por Hans na anlise tinha-se tornado muito diferente do que tinha sido em um estdio anterior. Antes, seu pai era 
capaz de dizer-lhe, de antemo, o que estava por vir, enquanto Hans simplesmente seguia sua orientao e vinha trotando atrs; mas agora era Hans quem estava abrindo 
caminho na frente, to rapidamente e to firmemente que seu pai encontrou dificuldade em acompanh-lo. Sem nenhum aviso, como vinha, Hans criava uma nova fantasia: 
o bombeiro desaparafusou a banheira na qual Hans estava, e depois bateu no seu estmago com sua grande broca [ver em [1]]. Da em diante o material introduzido na 
anlise ultrapassou de longe o nosso poder de compreend-lo. S mais tarde foi possvel adivinhar que isso era uma remodelao de uma fantasia de procriao, distorcida 
pela ansiedade. A grande banheira de gua, na qual Hans se imaginou, era o ventre de sua me; a `broca', que seu pai tinha reconhecido desde a primeira vez como 
um pnis, deveu sua meno  sua conexo com `estar nascendo'. A interpretao que somos obrigados a dar  fantasia soar,  claro, muito curiosa: `Com seu grande 
pnis voc me "molestou"' (isto  `me deu origem') `e colocou-me na barriga de minha me.' No momento, no entanto, a fantasia iludiu a interpretao, e s serviu 
a Hans como ponto de partida de onde continuar a dar informao.
         Hans mostrou medo de que lhe dessem banho na banheira grande [ver em [1]]; e esse medo era, mais uma vez, um medo composto. Uma parte deste nos escapou 
at agora, mas a outra parte podia ser imediatamente elucidada, em conexo com sua irmzinha tomando banho. Hans confessou ter desejado que sua me deixasse a criana 
cair enquanto esta estava sendo banhada de modo que ela morresse [ver em [1]]. Sua prpria ansiedade enquanto ele estava tomando seu banho era o medo de retribuio 
pelo seu mau desejo e de ser punido com a mesma coisa. Hans agora deixou o tema do lumf e passou diretamente para o da sua irmzinha. Podemos imaginar o que essa 
justaposio significava: nada menos, na realidade, do que a pequena Hanna ser um lumf - que todos os bebs eram lumfs e nasciam como lumfs. Podemos, agora, reconhecer 
que todas as carroas de mudanas, carrinhos e nibus eram apenas carroas de caixas de cegonhas, e s tinham interesse para Hans como sendo representaes simblicas 
da gravidez; e que, quando um cavalo pesado ou pesadamente carregado caiu, ele pode ter visto nisto apenas uma coisa - um parto, uma libertao [`ein Niederkommen']. 
Portanto, o cavalo que caiu no era s seu pai moribundo, mas tambm sua me no parto.
         E nesse ponto Hans nos fez uma surpresa, para a qual no estvamos nem um pouco preparados. Ele tinha notado a gravidez de sua me, que terminara com o 
nascimento da sua irmzinha, quando ele estava com trs anos e meio, e em todo caso, depois do parto, tinha juntado os fatos do caso - sem dizer a ningum,  verdade, 
e talvez sem ser capaz de dizer a ningum. Tudo que podia ser visto na poca era que, imediatamente aps o parto, ele tinha assumido uma atitude extremamente ctica 
em relao a tudo o que pudesse pretender apontar a presena da cegonha [ver em [1]]. Mas que ele - em completa contradio com suas falas oficiais - sabia no seu 
inconsciente de onde o beb tinha vindo e onde ele tinha estado antes,  provado sem sombra de dvida pela presente anlise; de fato, este talvez seja seu trao 
mais inatacvel.
         A evidncia mais convincente disso  fornecida pela fantasia (na qual ele persistia com tanta obstinao, e que embelezou com tanta riqueza de detalhe) 
de como Hanna tinha estado com eles em Gmunden no vero anterior ao nascimento dela, de como ela tinha viajado para l com eles, e de como ela tinha sido capaz de 
fazer muito mais do que podia um ano mais tarde, depois que ela tinha nascido [ver a partir de [1]]. O descaramento com que Hans contou essa fantasia e as incontveis 
mentiras extravagantes com as quais ele a interligou eram tudo, menos sem significao. Tudo isso tencionava ser uma vingana sobre o seu pai, contra quem ele acalentava 
rancor por t-lo enganado com a fbula da cegonha. Era exatamente como se ele quisesse dizer: `Se voc realmente pensou que eu era to estpido assim, e esperava 
que eu acreditasse que a cegonha trouxe Hanna, ento, em troca, eu espero que voc aceite as minhas invenes como sendo verdade.' Esse ato de vingana da parte 
do nosso jovem inquiridor sobre seu pai foi sucedido pela fantasia claramente correlata de importunar e bater nos cavalos [ver em [1]]. Essa fantasia, mais uma vez, 
tinha dois constituintes. De um lado, era baseada na irritao a que ele tinha submetido seu pai imediatamente antes; e, de outro lado, reproduzia os obscuros desejos 
sdicos dirigidos  sua me, que j tinham encontrado expresso (apesar de no terem sido compreendidos a princpio) nas suas fantasias de fazer algo proibido. Hans 
at confessou conscientemente um desejo de bater na sua me [ver em [2]].
         No h muitos mistrios mais  nossa frente agora. Uma obscura fantasia de perder um trem [ver em [3]], parece ter sido um pressgio da noo posterior 
de entregar o pai de Hans para a sua av em Lainz, pois a fantasia tratava de uma visita a Lainz, e sua av aparecia nela. Uma outra fantasia, na qual um menino 
dava ao guarda 50.000 florins para deix-lo andar na carreta [ver em [1]], soa quase como um plano de comprar sua me do seu pai, parte de cujo poder,  claro, repousa 
na sua riqueza. Mais ou menos nessa mesma poca tambm, ele confessou, com um grau de abertura que nunca tinha alcanado antes, que desejava livrar-se do seu pai, 
e que a razo pela qual desejava isso era que seu pai interferia em sua prpria intimidade com sua me [ver em [2]]. No devemos surpreender-nos ao encontrar os 
mesmos desejos reaparecendo constantemente no curso da anlise. A monotonia s se prende s interpretaes que o analista faz desses desejos. Para Hans eles no 
eram meras repeties, mas passos num desenvolvimento progressivo do tmido indcio para a clareza plenamente consciente e sem distoro.
         
         O que resta so apenas confirmaes da parte de Hans de concluses analticas que as nossas interpretaes j tinham estabelecido. Num ato sintomtico inteiramente 
inequvoco, que ele disfarou ligeiramente para a empregada, mas de modo algum para seu pai, mostrou como imaginava que um nascimento ocorria [ver em [1]]; mas, 
se olharmos para isso mais de perto, poderemos ver que ele mostrou algo mais, que estava sugerindo algo a que no mais se aludiu na anlise. Ele empurrou um pequeno 
canivete, que pertencia a sua me, para dentro de um buraco redondo no corpo de uma boneca de borracha, e depois deixou-o cair de novo para fora, afastando as pernas 
da boneca. O esclarecimento que logo depois ele recebeu dos seus pais [ver em [1]], dizendo que as crianas de fato crescem dentro do corpo de suas mes e que so 
empurradas para fora deste como um lumf, veio tarde demais; no podia dizer-lhe nada de novo. Um outro ato sintomtico, acontecendo como por acidente, envolveu uma 
confisso de que ele tinha desejado que seu pai estivesse morto; pois, no exato momento em que seu pai estava falando deste desejo de morte, Hans deixou um cavalo, 
com o qual ele estava brincando, cair - na verdade ele o derrubou. Depois, confirmou com muitas palavras a hiptese de que carroas pesadamente carregadas representavam 
para ele a gravidez de sua me, e de que o cavalo caindo era como ter um beb. A parte da confirmao mais deliciosa em conexo com isso - uma prova de que, segundo 
seu ponto de vista, as crianas eram `lumfs' - foi ele inventar o nome de `Lodi' para seu filho favorito. Houve algum atraso em contar esse fato, pois depois pareceu 
que ele tinha estado brincando com esse seu filho de salsicha j por um longo tempo [ver em [1]].
         J consideramos as duas fantasias concludentes de Hans, com as quais a sua recuperao foi fechada. Uma destas [ver em [2]], a do bombeiro dando-lhe um 
novo e, como seu pai adivinhou, maior pipi, no era simplesmente a repetio da fantasia anterior que dizia respeito ao bombeiro e  banheira. A nova era uma fantasia 
triunfante e apaixonada, e foi com ela que ele superou seu medo de castrao. Sua outra fantasia [ver em [3]], que confessava o desejo de ser casado com sua me 
e de ter muitos filhos com ela, no esgotou simplesmente o contedo dos complexos inconscientes que tinham sido agitados pela viso do cavalo caindo e que tinham 
gerado sua ansiedade. Tambm corrigiu aquela poro daquelas idias que era inteiramente inaceitvel; pois, ao invs de matar seu pai, tornou-o inofensivo, incentivando-o 
a um casamento com a av de Hans. Com essa fantasia, tanto a doena como a anlise chegaram a um final apropriado.
         Enquanto a anlise de um caso est em andamento  impossvel obter qualquer impresso clara da estrutura e do desenvolvimento da neurose. Isso  da competncia 
de um processo sinttico que precisa ser executado subseqentemente. Ao tentar levar a cabo tal sntese da fobia do pequeno Hans, devemos tomar como nossa base a 
considerao da sua constituio mental, do seu controle sobre os desejos sexuais e das suas experincias at a poca do nascimento da sua irm, o que fornecemos 
em parte anterior deste artigo.
         A chegada da sua irm trouxe para a vida de Hans muitos elementos novos, que dessa poca em diante no lhe deram sossego. Em primeiro lugar, foi obrigado 
a submeter-se a um certo grau de privao: para comear, uma separao temporria de sua me, e mais tarde uma diminuio permanente na soma de cuidado e ateno 
que ele tinha recebido dela, o que, a partir de ento, teve que se acostumar a dividir com sua irm. Em segundo lugar, experimentou uma reanimao dos prazeres que 
tinha desfrutado quando era cuidado como um beb, pois foram invocados por tudo o que ele viu sua me fazer para o beb. Como resultado dessas duas influncias, 
suas necessidades erticas tornaram-se intensificadas, enquanto, ao mesmo tempo, comearam a obter satisfao insuficiente. Compensou a perda que a chegada da sua 
irm lhe legou, imaginando que ela tinha filhos seus; durante o tempo em que ficou em Gmunden - na sua segunda visita l - e podia realmente brincar com essas crianas, 
encontrou uma sada suficiente para as suas afeies. Mas, depois da sua volta a Viena, ficou de novo sozinho e colocou todas as suas esperanas em sua me. Ele 
tinha, nesse nterim, sofrido uma outra privao, tendo sido exilado do quarto dos seus pais com a idade de quatro anos e meio. Sua excitabilidade ertica intensificada 
encontrou ento expresso em fantasias, por meio das quais, na sua solido, ele evocava seus companheiros do vero anterior, e numa satisfao auto-ertica regular, 
obtida por uma estimulao masturbatria dos seus genitais.
         
         Mas em terceiro lugar, o nascimento de sua irm estimulou-o a um esforo de pensamento que, de um lado, era impossvel conduzir a uma concluso e que, de 
outro lado, envolveu-o em conflitos emocionais. Ele deparou o grande enigma do de onde  que os bebs vm, que , talvez, o primeiro problema a ocupar os poderes 
mentais de uma criana, e do qual o enigma da Esfinge tebana provavelmente no  mais do que uma verso distorcida. Ele rejeitou a soluo oferecida, a de a cegonha 
ter trazido Hanna. Pois ele tinha notado que, meses antes do nascimento do beb, o corpo de sua me tinha crescido, que depois ela tinha ido para a cama, que tinha 
gemido enquanto o nascimento estava ocorrendo e que, quando se levantou, estava magra de novo. Ele ento deduziu que Hanna tinha estado dentro do corpo de sua me, 
e que depois tinha vindo para fora como um `lumf'. Foi capaz de imaginar o ato de dar  luz como um ato de prazer, relacionando-o com seus prprios primeiros sentimentos 
de prazer ao evacuar; e assim foi capaz de encontrar um duplo motivo para desejar ter filhos seus: o prazer de dar  luz eles e o prazer (o prazer compensatrio, 
como era o caso) de cuidar deles. No havia nada em tudo isso que pudesse t-lo levado a dvidas ou conflitos.
         Mas havia algo mais, que no podia deixar de torn-lo inquieto. Seu pai tinha que ter algo a ver com o nascimento da pequena Hanna, pois ele tinha declarado 
que Hanna e o prprio Hans eram filhos dele. No entanto, certamente no era seu pai quem os tinha trazido para o mundo, mas sua me. Esse seu pai ficou entre ele 
e sua me. Quando ele estava l, Hans no podia dormir com sua me, e quando sua me queria trazer Hans para a cama com ela, seu pai costumava reclamar. Hans tinha 
aprendido, por experincia, como podia ficar  vontade na ausncia de seu pai, e era bastante justificvel que desejasse livrar-se dele. E depois a hostilidade de 
Hans tinha recebido um novo reforo. Seu pai lhe contou a mentira sobre a cegonha e, desse modo, tornou impossvel para ele pedir esclarecimento a respeito dessas 
coisas. Ele no s impediu que Hans ficasse na cama com sua me, mas tambm manteve afastado dele o conhecimento de que ele estava sedento. Estava colocando Hans 
em desvantagem nas duas direes, e estava obviamente agindo assim em seu prprio benefcio.
         Mas seu pai, a quem ele no podia deixar de odiar como um rival, era o mesmo pai que ele sempre tinha amado, e estava inclinado a continuar amando, que 
tinha sido seu modelo, tinha sido seu primeiro companheiro, etinha cuidado dele desde a mais tenra infncia: e foi isso que deu origem ao primeiro conflito. Esse 
conflito tambm no podia encontrar uma soluo imediata. Pois a natureza de Hans se tinha desenvolvido tanto que, no momento, seu amor s podia levar vantagem e 
suprimir seu dio - apesar de no poder matar esse dio, pois este era mantido permanentemente vivo por seu amor a sua me.
         Seu pai, porm, no s sabia de onde vinham as crianas, mas de fato as fez - coisa que Hans s podia adivinhar obscuramente. O pipi tem que ter algo a 
ver com isso, pois o seu prprio ficou excitado toda vez que ele pensou nessas coisas - e tem que ser um pipi grande tambm, maior que o de Hans. Se ele atendia 
a essas sensaes premonitrias, s podia supor que era uma questo de algum ato de violncia executado em sua me, de quebrar alguma coisa, de fazer uma abertura 
em alguma coisa, de forar um caminho num espao fechado - tais eram os impulsos que ele sentiu agitando-se dentro dele. Mas, apesar de as sensaes do seu pnis 
o terem colocado no caminho de pressupor uma vagina, ele ainda no podia resolver o problema, pois em sua experincia no existia tal coisa como o seu pipi exigia. 
Ao contrrio, sua convico de que sua me possua um pnis, tal como ele, ficou no caminho de qualquer soluo. Sua tentativa de descobrir o que era que tinha de 
ser feito com sua me a fim de que ela pudesse ter filhos afundou para o seu inconsciente; e seus dois impulsos ativos - o hostil em relao a seu pai e o sdico-terno 
em relao a sua me - no podem ser postos em uso - o primeiro, por causa do amor que existia lado a lado com o dio, e o segundo, por causa da perplexidade na 
qual suas teorias sexuais infantis o deixaram.
          assim, baseando minhas concluses nas descobertas da anlise, que sou obrigado a reconstruir os complexos e desejos inconscientes, a represso e o redespertar 
do que produziu a fobia do pequeno Hans. Estou ciente de que, agindo assim, atribuo muito  capacidade mental de uma criana entre quatro e cinco anos de idade; 
mas deixei-me ser guiado pelo que aprendemos recentemente, e no me considero ligado aos preconceitos da nossa ignorncia. Poderia ter sido possvel, talvez, fazer 
uso do medo de Hans de `fazer um barulho com as pernas' para preencher umas poucas lacunas mais na nossa adjudicao sobre a evidncia. Hans,  verdade, declarou 
que isso lhe lembrava ele dando pontaps com suas pernas quando era obrigado a parar de brincar para fazer lumf; de modo que esse elemento da neurose torna-se ligado 
ao problema de saber se sua me gostava de ter filhos ou era obrigada a t-los. Contudo, tenho a impresso de que esta no  toda a explicao do `fazer um barulho 
com as pernas'. O pai de Hans foi incapaz de confirmar minha suspeita de que havia alguma lembrana agitando-se na mente da criana, lembrana de ter observado uma 
cena de relao sexual entre seus pais no quarto destes. Ento, contentemo-nos com o que descobrimos.
          difcil dizer qual foi a influncia que, na situao que acabamos de esboar, levou  sbita mudana em Hans e  transformao do seu anseio libidinal 
em ansiedade - para dizer de que direo foi que a represso comeou. A questo provavelmente s poderia ser decidida fazendo-se uma comparao entre esta anlise 
e vrias outras similares. Se as escalas foram mudadas pela inabilidade intelectual da criana em resolver o difcil problema da gerao de crianas e em lidar com 
os impulsos agressivos que foram liberados com a sua aproximao dessa soluo, ou se o efeito foi produzido por uma incapacidade somtica, uma intolerncia constitucional 
da gratificao masturbatria  qual ele se entregava regularmente (se, por assim dizer, a mera persistncia do excitamento sexual em to alto nvel de intensidade 
tendia a causar uma revulso) - esta questo precisa ser deixada em aberto at que possa chegar  nossa assistncia experincia nova.
         Consideraes cronolgicas tornaram impossvel, para ns, dar qualquer importncia maior  causa precipitadora real da ecloso da doena de Hans, pois ele 
mostrou sinais de apreenso muito antes de ter visto o cavalo do nibus cair na rua.
         De qualquer modo, a neurose deu sua partida diretamente desse evento casual, e preservou um trao deste na circunstncia de o cavalo ser exaltado como objeto 
da sua ansiedade. Em si, a impresso do acidente que por acaso ele presenciou no carregava nenhuma `fora traumtica'; adquiriu sua grande eficcia somente a partir 
do fato de que os cavalos antes tinham sido de importncia para ele como objetos de sua predileo e interesse, a partir do fato de que ele associou o acontecimento 
na sua mente a um acontecimento anterior em Gmunden, que tinha mais razo para ser encarado como traumtico, isto , com a queda de Fritzl enquanto eles estavam 
brincando de cavalos, e, por ltimo, a partir do fato de que havia um caminho fcil de associao de Fritzl a seu pai. De fato, mesmo essas conexes provavelmente 
no teriam sido suficientes, no fosse o fato de, graas  flexibilidade e  ambigidade de cadeias associativas, o mesmo acontecimento ter-se mostrado capaz de 
agitar o segundo dos complexos que se escondiam no inconsciente de Hans, o complexo do parto de sua me grvida. A partir desse momento, o caminho ficou livre para 
o retorno do reprimido; e este voltou de tal maneira que o material patognico foi remodelado e transposto para o complexo do cavalo, enquanto os afetos acompanhantes 
foram uniformemente transformados em ansiedade.
         
         Merece ser notado que o contedo da fobia de Hans, tal como ficou depois, teve que ser submetido a um processo posterior de distoro e de substituio 
para que sua conscincia tomasse conhecimento dele. A primeira formulao de Hans da sua ansiedade foi a seguinte: `o cavalo vai morder-me'; e isso derivou-se de 
um outro episdio em Gmunden que, de um lado, era relacionado com seus desejos hostis para com seu pai e, de outro lado, era um remanescente do aviso que ele tinha 
recebido contra masturbao. Alguma influncia interferente, emanando talvez dos seus pais, se tinha feito sentir. No estou certo se os relatos sobre Hans eram, 
nessa poca, estabelecidos com o cuidado suficiente para nos habilitar a decidir se ele expressava sua ansiedade dessa forma antes ou s depois de sua me repreend-lo 
sobre o assunto da masturbao. Devo inclinar-me a suspeitar de que s foi assim depois, embora isso fosse contradizer o relato fornecido no caso clnico [ver em 
[1]]. De qualquer forma,  evidente que em todos os pontos o complexo hostil de Hans contra seu pai encobria seu complexo luxurioso em relao a sua me, assim como 
foi o primeiro a ser revelado e tratado na anlise.
         Em outros casos desse gnero, haveria muito mais a ser dito a respeito da estrutura, do desenvolvimento e da difuso da neurose. Todavia, a histria do 
ataque do pequeno Hans foi muito curta; quase logo que comeou, seu lugar foi ocupado pela histria do seu tratamento. E apesar de durante o tratamento a fobia ter 
parecido desenvolver-se mais e estender-se a novos objetos, e estabelecer novas condies, seu pai, j que era ele quem estava tratando do caso, naturalmente tinha 
penetrao suficiente para ver que se tratava simplesmente da emergncia do material que j existia, e no de novas criaes para as quais o tratamento poderia ser 
tomado como responsvel. No tratamento de outros casos no seria possvel contar sempre com tanta penetrao.
         Antes que eu possa encarar esta sntese como completa, preciso voltar-me ainda para outro aspecto do caso, que vai levar-nos para o mais profundo mago 
das dificuldades, que ficam no caminho da nossa compreenso de estados neurticos. Vimos como o nosso pequeno paciente foi alcanado por uma grande onda de represso 
e que esta apanhou precisamente aqueles seus componentes sexuais que eram dominantes. Ele abandonou a masturbao, e afastou-se com nojo de tudo que lhe lembrava 
excremento e olhar para outras pessoas executando suas funes naturais. Mas esses no eram os componentes que foram agitados pela causa precipitadora da doena 
(ver o cavalo cair) ou que forneceram o material para os sintomas, isto , o contedo da fobia.
         Isso nos permite, portanto, fazer uma distino radical. Chegaremos provavelmente a compreender o caso mais profundamente se nos voltarmos para aqueles 
outros componentes que, de fato, preenchem as duas condies que acabaram de ser mencionadas. Esses outros componentes eram tendncias em Hans que j tinham sido 
suprimidas e que, tanto quando podemos dizer, nunca puderam encontrar expresso desinibida: sentimentos hostis e ciumentos em relao a seu pai, e impulsos sdicos 
(premonies, como era o caso, da cpula) em relao a sua me. Essas supresses primitivas podem ter ocorrido, talvez, para formar a predisposio para sua doena 
subseqente. Essas propenses agressivas de Hans no encontraram sada, e logo que chegou um tempo de privao e de excitao sexual intensificada, elas tentaram 
romper sua sada com fora redobrada. Foi ento que a batalha que chamamos de sua `fobia' rebentou. Durante o curso desta, uma parte das idias reprimidas, numa 
forma distorcida e transposta para um outro complexo, forou seu caminho para a conscincia como contedo da fobia. Mas este era um sucesso decididamente desprezvel. 
A vitria ficou com as foras de represso; e elas fizeram uso da oportunidade para estender seu domnio a outros componentes que no aqueles que se tinham rebelado. 
Essa ltima circunstncia, todavia, no altera nem um pouco o fato de que a essncia da doena de Hans era inteiramente dependente da natureza dos componentes instintuais 
que tiveram de ser repelidos. O contedo da sua fobia era tal que impunha uma grande medida de restrio sobre sua liberdade de movimento, e este era o seu propsito. 
Tratava-se, portanto, de uma poderosa reao contra os impulsos obscuros ao movimento que eram especialmente dirigidos contra sua me. Pois os cavalos de Hans sempre 
foram tpicos do prazer no movimento (`Eu sou um jovem cavalo', disse ele enquanto pulava [ver em [1]]); mas j que esse prazer no movimento inclua o impulso para 
copular, a neurose imps uma restrio a este e exaltou o cavalo como emblema de terror. Assim, pareceria que tudo o que os instintos reprimidos obtiveram da neurose 
foi a honra de fornecer pretextos para o aparecimento da ansiedade na conscincia. Mas no importa quo clara possa ter sido a vitria na fobia de Hans das foras 
que eram opostas  sexualidade, j que essa doena  na sua mais profunda natureza um compromisso, isso no pode ser tudo o que os instintos reprimidos obtiveram. 
Afinal, a fobia de Hans por cavalos era um obstculo a ele ir at a rua, e podia servir como um meio de lhe permitir ficar em casa com sua querida me. Dessa maneira, 
portanto, sua afeio por sua me realizou triunfalmente seu objetivo. Em conseqncia da sua fobia, o amante agarrou-se ao objeto do seu amor - apesar de, para 
se assegurar, terem sido tomadas medidas para torn-lo incuo. O verdadeiro carter de um distrbio neurtico  exibido nesse resultado duplo.
         Alfred Adler, num sugestivo artigo, desenvolveu recentemente o ponto de vista de que a ansiedade surge da supresso do que ele chama de `instinto agressivo', 
e por meio de um processo sinttico impetuoso ele imputa a esse instinto o papel principal nos acontecimentos humanos, `na vida real ou na neurose'. Como chegamos 
 concluso de que, no nosso presente caso de fobia, a ansiedade deve ser explicada como sendo devida  represso das propenses agressivas de Hans (as propenses 
hostis contra seu pai e as sdicas contra sua me), parece que produzimos uma pea muito impressionante de confirmao do ponto de vista de Adler. Sou, contudo, 
incapaz de concordar com ele, e na verdade encaro-o como uma generalizao enganadora. No posso convencer-me a aceitar a existncia de um instinto agressivo especial 
ao lado dos instintos familiares de autopreservao e de sexo, e de qualidade igual  destes. Parece-me que Adler promoveu erradamente a um instinto especial e auto-subsistente 
o que , na realidade, um atributo universal e indispensvel de todos os instintos - o seu carter instintual [triebhaft] e `premente', o que poderia ser descrito 
como a sua capacidade para iniciar movimento. Nada restaria, ento, dos outros instintos, a no ser a sua relao com um objetivo, pois a sua relao com os meios 
de alcanar esse objetivo teria sido retirada deles pelo `instinto agressivo'. Apesar de toda a incerteza e obscuridade de nossa teoria dos instintos, eu preferiria, 
no momento, aderir ao ponto de vista usual, que deixa a cada instinto o seu prprio poder de se tornar agressivo; e estaria inclinado a reconhecer os dois instintos 
que se tornaram reprimidos em Hans como componentes familiares da libido sexual.
         (III)
         Procederei agora ao que, espero, ser uma breve discusso de at que ponto a fobia do pequeno Hans oferece alguma contribuio de importncia geral aos 
nossos pontos de vista sobre a vida e a educao das crianas. Mas, antes de faz-lo, preciso voltar  objeo que foi mantida por tanto tempo, de acordo com a qual 
Hans era um neurtico, um `degenerado', com uma m hereditariedade, e no uma criana normal, sendo possvel aplicar o conhecimento sobre ele a outras crianas. 
Estive pensando por algum tempo, com pesar, na maneira como os que aderem  `pessoa normal' vo cair em cima do pobre pequeno Hans logo que forem informados de que 
ele, de fato, pode ser mostrado como tendo tido uma tara hereditria. Sua linda me ficou doente com uma neurose como resultado de um conflito durante sua meninice. 
Pude ser de auxlio para ela na poca, e este foi, de fato, o comeo da minha ligao com os pais de Hans.  com a maior desconfiana que me arrisco a levar avante 
uma ou duas consideraes em seu favor.
         Em primeiro lugar, Hans, no era o que se entenderia, falando estritamente, por uma criana degenerada, condenada por sua hereditariedade a ser um neurtico. 
Ao contrrio, ele era bem formado fisicamente, e era um rapazinho alegre, amvel e de mente ativa, que poderia dar prazer a mais pessoas que seu prprio pai. No 
pode haver dvida,  claro, quanto  sua precocidade sexual; mas sobre esse ponto h muito pouco material no qualuma comparao justa possa ser baseada. Colhi, por 
exemplo, de um trabalho de pesquisa coletiva conduzida na Amrica [Sanford Bell (1902)], que no , de modo algum, uma coisa to rara encontrar-se uma escolha de 
objeto e sentimentos de amor em meninos numa idade assim to tenra; e o mesmo pode ser aprendido estudando-se os registros da infncia de homens que mais tarde chegaram 
a ser reconhecidos como `grandes'. Devo inclinar-me a acreditar, portanto, que a precocidade sexual  um correlato, raramente ausente, da precocidade intelectual, 
e que, assim, deve ser encontrada em crianas dotadas mais freqentemente do que se poderia esperar. 
         Alm disso, deixem-me dizer em favor de Hans (e admito francamente minha atitude partidria) que ele no  a nica criana que foi atingida por uma fobia 
em uma poca ou outra na sua infncia. Problemas desse tipo so conhecidos por serem extraordinariamente freqentes, mesmo em crianas cujo cuidado da educao no 
deixava nada a desejar. Na vida futura essas crianas ou se tornam neurticas ou permanecem saudveis. Suas fobias so subjugadas na educao porque so inacessveis 
a tratamento e so decididamente inconvenientes. No curso de meses ou anos elas diminuem, e a criana parece recuperar-se; mas ningum pode dizer que mudanas psicolgicas 
so necessitadas por tal recuperao, ou que alteraes no carter nela esto envolvidas. Quando, todavia, um paciente adulto neurtico vem a ns para tratamento 
psicanaltico (e presumamos que sua doena s se tornou manifesta depois que ele atingiu a maturidade), achamos regularmente que sua neurose tem como ponto de partida 
uma ansiedade infantil tal como a que discutimos, e  de fato uma continuao dela; de modo que, por assim dizer, um contnuo e tranqilo foi de atividade psquica, 
partindo dos conflitos da sua infncia, foi prolongado atravs de sua vida - sem considerao se o primeiro sintoma daqueles conflitos persistiu ou recolheu-se sob 
a presso das circunstncias. Acho, portanto, que a doena de Hans pode, talvez, no ter sido mais sria que aquela de muitas outras crianas que no so rotuladas 
de `degeneradas'; mas, j que ele foi criado sem ser intimidado e com tanta considerao e com to pouca coero quanto possvel, sua ansiedade ousou mostrar-se 
mais atrevidamente. Com ele no havia lugar para motivos tais como uma m conscincia ou um medo de punio, o que com outras crianas deve, sem dvida, contribuir 
para diminuir a ansiedade. Parece-me que nos concentramos demais nos sintomas e nos interessamos muito pouco por suas causas. Ao educar as crianas s visamos a 
ser deixados em paz e no ter dificuldades, em suma, a formar uma criana modelo, e prestamos muito pouca ateno a se tal curso de desenvolvimento  tambm para 
o bem da criana. Posso, portanto, imaginar muito bem que tenha sido para seu benefcio que Hans produziu essa fobia, pois ela dirigiu a ateno dos seus pais para 
as dificuldades inevitveis com as quais uma criana  confrontada quando, no curso de sua formao cultural,  solicitada a superar os componentes instintuais inatos 
da sua mente; e seu problema levou seu pai a assisti-lo. Pode ser que agora Hans desfrute de uma vantagem sobre as outras crianas, pelo fato de que ele no mais 
carrega dentro de si aquela semente sob a forma de complexos reprimidos que dever ser sempre de algum significado para a vida futura de uma criana e que, sem dvida, 
traz consigo um certo grau de deformidade de carter, se no uma disposio a uma neurose subseqente. Estou inclinado a pensar que isso  assim, mas no sei se 
muitos outros vo partilhar da minha opinio; nem sei tambm se a experincia vai provar que estou certo.
         Mas preciso, agora, inquirir que mal foi feito a Hans para trazer  luz nele complexos tais como os que so no apenas reprimidos pelas crianas, mas temidos 
por seus pais. O menininho chegou a empreender alguma ao sria no que se refere ao que ele queria da sua me? Ou suas ms intenes contra seu pai deram lugar 
a feitos maldosos? Tais pressentimentos tero, sem dvida, ocorrido a muitos mdicos, que no entendem a natureza da psicanlise e pensam que os instintos maus so 
fortalecidos por se tornarem conscientes. Os homens sbios como estes no esto sendo mais que convenientes quando nos imploram pelo amor de Deus que no nos metamos 
com as coisas ruins que se escondem por trs de uma neurose. Ao faz-lo, esquecem-se,  verdade, de que so mdicos, e suas palavras mostram uma semelhana fatal 
com as de Dogberry, quando aconselhou os guardas a evitarem todo contato com quaisquer ladres que pudessem vir a encontrar: `pois com tal tipo de homens, quanto 
menos vocs se misturarem ou concordarem com eles, tanto melhor para sua honestidade.'
         
         Ao contrrio, os nicos resultados da anlise foram que Hans se recuperou, deixou de ter medo de cavalos e chegou a termos bem familiares com seu pai, como 
este ltimo relatou com algum humor. Mas o que seu pai possa ter perdido no respeito do menino, ganhou, de volta, na sua confiana: `Eu pensei', disse Hans, `que 
voc sabia tudo, como voc sabia aquilo sobre o cavalo.' Pois a anlise no desfaz os efeitos da represso. Os instintos que foram suprimidos anteriormente permanecem 
suprimidos, mas o mesmo efeito  produzido de uma maneira diferente. A anlise substitui o processo de represso, que  um processo automtico e excessivo, por um 
controle moderado e resoluto da parte das mais altas instncias da mente. Numa palavra, a anlise substitui a represso pela condenao. Isso parece trazer at ns 
a longamente procurada evidncia de que a conscincia tem uma funo biolgica, e de que com a sua entrada em cena uma importante vantagem  assegurada. 
         Se o assunto estivesse inteiramente entregue s minhas mos, eu teria arriscado dar  criana a parcela de esclarecimento restante que seus pais retiveram 
dele. Eu teria confirmado as suas premonies instintivas, falando-lhe da existncia da vagina e da cpula; assim, eu teria diminudo ainda mais seu resduo no 
resolvido, e posto um fim  sua torrente de perguntas. Estou convencido de que essa nova parcela de esclarecimento no o teria feito perder nem seu amor por sua 
me nem sua prpria natureza de criana e de que ele teria compreendido que essa preocupao com essas coisas importantes, essas coisas muito importantes, precisa 
descansar no momento - at que seu desejo de ser grande tenha sido satisfeito. Mas a experincia educacional no foi levada to longe.
         
         Que no pode ser traada qualquer linha ntida entre pessoas `neurticas' e `normais' - quer crianas ou adultos -, que a nossa concepo de `doena'  
uma concepo puramente prtica e uma questo de somao, que a disposio e as eventualidades da vida precisam combinar-se para que o limiar dessa somao seja 
ultrapassado e que, conseqentemente, vrios indivduos esto passando constantemente da classe de pessoas saudveis para a de pacientes neurticos, enquanto um 
nmero bem menor tambm faz a viagem na direo oposta - tudo isso so coisas que tm sido ditas com tanta freqncia e acatadas com tanta concordncia, que certamente 
no estou s ao sustentar sua veracidade. , para se falar o mnimo sobre isso, extremamente provvel que a educao de uma criana possa exercer uma influncia 
poderosa, para o bem ou para o mal, sobre a disposio que acabamos de mencionar como um dos fatores na ocorrncia da `doena'; mas o que essa educao deve visar 
e em que ponto deve ser repelida parecem, no momento, ser questes muito duvidosas. At agora a educao s estabeleceu para si a tarefa de controlar, ou, seria 
muitas vezes mais prprio dizer-se, de suprimir, os instintos. Os resultados no tm sido, de modo algum, gratificantes, e onde o processo foi bem-sucedido foi somente 
para o benefcio de um pequeno nmero de indivduos favorecidos, a quem no se exigiu que suprimissem seus instintos. Ningum tambm inquiriu por que meios e a que 
custo a supresso dos instintos inconvenientes foi conseguida. Suponha-se agora que substituamos outra tarefa por essa e que visemos, em vez disso, fazer o indivduo 
capaz de se tornar um membro civilizado e til  sociedade com o mnimo de sacrifcio possvel da sua prpria atividade; nesse caso a informao obtida pela psicanlise 
sobre a origem dos complexos patognicos e sobre o ncleo de qualquer afeco nervosa pode reclamar, com justia, que merece ser encarada por educadores como um 
guia inestimvel na sua conduta em relao s crianas. Que concluses prticas podem resultar disso e at que ponto a experincia pode justificar a aplicao dessas 
concluses no nosso sistema social atual, so assuntos que deixo para o exame e a deciso de outros. 
         No posso despedir-me da fobia do nosso pequeno paciente sem expressar uma noo que tornou sua anlise, conduzindo como ela o fez a uma recuperao, parecer 
de especial valor para mim. Falando francamente, no aprendi nada de novo com essa anlise, nada que eu j no tivesse sido capaz de descobrir (apesar de muitas 
vezes menos distintamente e mais indiretamente) em outros pacientes analisados numa idade mais avanada. Mas a neurose desses outros pacientes podia, em todos os 
casos, ser reportada aos mesmos complexos infantis que foram revelados por trs da fobia de Hans. Estou, portanto, tentado a reclamar para essa neurose da infncia 
o significado de ser um tipo e um modelo, assim como a supor que a multiplicidade dos fenmenos de represso exibidos pelas neuroses e a abundncia do seu material 
patognico no evitam que sejam derivadas de um nmero muito limitado de processos que participam de complexos ideativos idnticos.
         
         PS-ESCRITO (1922)
         
         H uns meses atrs - na primavera de 1922 - um rapaz se apresentou a mim e me informou de que ele era o `pequeno Hans', cuja neurose infantil tinha sido 
o tema do artigo que publiquei em 1909. Fiquei muito contente em v-lo de novo, pois, cerca de dois anos depois do fim da sua anlise, eu o tinha perdido de vista 
e no tinha tido notcias dele por mais de dez anos. A publicao dessa primeira anlise de uma criana causara uma grande agitao e at uma grande indignao, 
e um futuro dos mais negros tinha sido previsto para o pobre menininho, porque lhe tinham `roubado sua inocncia' numa idade to tenra e ele se tornara vtima de 
uma psicanlise.
         Mas nenhuma dessas apreenses tornou-se verdade. O pequeno Hans era agora um forte rapaz de dezenove anos. Declarou que estava perfeitamente bem e que no 
sofria de nenhum problema ou inibio. No s tinha atravessado sua puberdade sem nenhum dano, como tambm sua vida emocional tinha sofrido sucessivamente uma das 
mais severas provas. Seus pais se tinham divorciado e cada um deles se casara de novo. Em conseqncia disso ele vivia sozinho; mas estava em bons termos com seus 
pais, e s lamentava que, como resultado da diviso da famlia, ele tivesse sido separado de sua irm mais moa, de quem tanto gostava.
         Uma parte da informao que me foi dada pelo pequeno Hans chamou minha ateno por ser particularmente notvel; nem me arrisco a dar qualquer explicao 
sobre ela. Quando leu seu caso clnico, disse-me ele, tudo aquilo veio a ele como algo desconhecido; ele no se reconheceu; no se lembrava de nada; e s quando 
chegou  viagem a Gmunden despontou nele uma espcie de trmula lembrana de que poderia ter sido a ele que aquilo tinha acontecido. Ento a anlise no tinha preservado 
os acontecimentos da amnsia, mas tinha sido superada pela prpria amnsia. Qualquer um que esteja familiarizado com a psicanlise pode experimentar ocasionalmente 
algo semelhante no sono. Ser acordado por um sonho e decidir analis-lo imediatamente; ento voltar a dormir, sentindo-se bastante satisfeito com o resultado 
dos seus esforos; na manh seguinte o sonho e a anlise tero igualmente sido esquecidos.
         
         
         
         







NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA (1909)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         BEMERKUNGEN BER EINEN FALL VON ZWANGSNEUROSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1909 Jb. psychoanal. psychopath. Forsch., 1 (2), 357-421.
         1913 S. K. S. N., III, 123-197. (1921, 2 ed.)
         1924 G. S., 8, 269-351.
         1932 Vier Krankengeschichten, 284-376.
         1941 G. W., 7, 381-463.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Notes upon a Case of Obsessional Neurosis'
         1925 C. P., 3, 293-383. (Trad. de Alix e James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa do caso clnico  uma reimpresso (contendo alteraes considerveis e inmeras notas de rodap adicionais) da verso inglesa 
original de 1925.
         
         O tratamento desse caso, por Freud, comeou a 1 de outubro de 1907. Um relato de seus primrdios, fornecido por Freud e seguido de um debate, ocupou duas 
noites na Sociedade Psicanaltica de Viena, a 30 de outubro e 6 de novembro. Federn (1948) fez uma descrio das Atas dessas duas reunies em um artigo intitulado 
'Professor Freud: O Incio de um Caso Clnico'. Ele, contudo, fornece incorretamente a data da segunda reunio, indicando 16 de novembro. Pequenos relatos posteriores 
sobre detalhes do caso foram apresentados por Freud  Sociedade de Viena a 20 de novembro de 1907 e a 22 de janeiro e 8 de abril de 1908. Um relato mais longo foi 
apresentado por ele no Primeiro Congresso Psicanaltico Internacional, realizado em Salzburg a 27 de abril de 1908. Segundo o Dr. Ernest Jones, nele presente, a 
exposio de Freud exigiu quatro horas. Um breve resumo desta, feito por Otto Rank, pode ser encontrado na Zentralbl. Psychoanal., 1 (1910), 125-6, publicado um 
ano depois do caso clnico em sua forma definitiva. Na ocasio do congresso, contudo, o tratamento no estava de modo algum concludo, de vez que, como Freud nos 
relata adiante (ver em [1]), durou quase um ano. No vero de 1909 ele preparou a histria para ser publicada. Uma carta a Jung revela que levou um ms preparando-a 
e que, afinal, enviou-a  grfica em 7 de julho de 1909.
         Sobreviveu o registro original de Freud da primeira parte desse tratamento, que era feito dia a dia,  medida que prosseguia o tratamento, e que serviu 
de base para o caso clnico publicado. Acha-se publicado, pela primeira vez, na traduo inglesa que se encontra no final deste volume, junto com algumas notas explicativas 
que podero auxiliar o leitor a acompanhar a complicada histria. (Ver a partir de [1].)
         (Em todas as edies anteriores, refere-se uma vez ao paciente como 'Tenente H.' (ver em [2]) e ao 'cruel capito' como 'Capito M.' (ver em [3]). A fim 
de harmonizar essas letras com os nomes escolhidos para o 'Registro Original', elas foram modificadas para 'L' e 'N', respectivamente.)
         
         NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA - INTRODUO
         
         O assunto contido nas pginas a seguir ser de duas categorias. Primeiramente, fornecerei alguns extratos fragmentrios oriundos da histria de um caso 
de neurose obsessiva. Esse caso, julgado por sua extenso, pelos danos de suas conseqncias e pelo prprio ponto de vista do paciente a seu respeito, merece ser 
classificado como um caso relativamente srio. O tratamento, que durou cerca de um ano, acarretou o restabelecimento completo da personalidade do paciente, bem com 
a extino de suas inibies. Em segundo lugar, partindo-se desse caso e levando-se em considerao outros casos que analisei anteriormente, farei algumas assertivas 
de carter aforstico, fora de conexo, sobre a gnese e o mecanismo mais estritamente psicolgico dos processos obsessivos; assim, espero desenvolver as minhas 
primeiras observaes sobre o assunto, publicadas em 1896.
         Um programa desse tipo parece exigir de mim alguma justificativa. Isso porque, de outro modo, se poderia pensar que encaro esse mtodo de fazer um comunicado 
como perfeitamente correto, e como um mtodo a ser imitado; ao passo que, na realidade, me estou ajustando a obstculos, alguns externos e outros inerentes ao prprio 
assunto. Eu teria, com satisfao, comunicado mais coisas, caso me fosse certo, ou possvel, faz-lo. No posso fornecer uma histria completa do tratamento, porque 
isso implicaria entrar em pormenores das circunstncias da vida de meu paciente. O premente interesse de uma grande cidade, voltada com uma especial ateno para 
minhas atividades mdicas, probe-me de dar um quadro fiel do caso. Por outro lado, vim progressivamente a encarar as distores de que comumente se lanam mo em 
tais circunstncias, como inteis e passveis de objeo. Sendo insignificantes, essas distores pecam em seu objetivo de proteger o paciente contra a indiscreta 
curiosidade; ao passo que, se vo mais alm, requerem um sacrifcio muitssimo grande, de vez que destroem a inteligibilidade do material, a qual depende, por sua 
coerncia, precisamente dos pequenos detalhes da vida real. E, a partir dessa ltima circunstncia, provm a verdade paradoxal de que  muito mais fcil divulgar 
os segredos mais ntimos do paciente do que os fatos mais inocentes e triviais a respeito dele: enquanto os primeiros no esclareceriam sua identidade, os outros, 
pelos quais ele  geralmente reconhecido, torn-la-iam bvia a qualquer um. 
         Esta  a minha desculpa por haver reduzido to drasticamente a histria desse caso e seu tratamento. Ademais, posso oferecer razes ainda mais convincentes 
para o fato de haver-me limitado s afirmaes de apenas alguns resultados desconexos da investigao psicanaltica das neuroses obsessivas. Devo confessar que ainda 
no logrei penetrar inteiramente na complicada textura de um srio caso de neurose obsessiva, e que, se fosse reproduzir a anlise, me seria impossvel tornar a 
estrutura (como, com o auxlio da anlise, sabemos ou suspeitamos que ela exista) visvel para os outros mediante o volume de trabalho teraputico que se lhe superpe. 
O que to enormemente se acrescenta  dificuldade de faz-lo so as resistncias dos pacientes e as formas como elas se expressam. Contudo, mesmo no levando isso 
em considerao,  preciso admitir que uma neurose obsessiva no , em si, algo fcil de compreender -  muito menos fcil do que um caso de histeria. Na realidade, 
o fato  que esperaramos achar o contrrio. A linguagem de uma neurose obsessiva, ou seja, os meios pelos quais ela expressa seus pensamentos secretos, presume-se 
ser apenas um dialeto da linguagem da histeria; , porm, um dialeto no qual teramos de poder orientar-nos a seu respeito com mais facilidade de vez que se refere 
com mais proximidade s formas de expresso adotadas pelo nosso pensamento consciente do que a linguagem da histeria. Sobretudo, no implica o salto de um processo 
mental a uma inervao somtica - converso histrica - que jamais nos pode ser totalmente compreensvel.
         Talvez seja apenas porque estejamos pouco familiarizados com as neuroses obsessivas que no vemos essas expectativas confirmadas pelos fatos. As pessoas 
que sofrem de um srio grau de neurose obsessiva se apresentam com muito menos freqncia a um tratamento analtico do que os pacientes histricos. Dissimulam tambm 
sua condio na vida cotidiana, pelo tempo que puderem, e muitas vezes visitam um mdico somente quando a sua queixa atingiu um estdio avanado tal que, se estivessem 
sofrendo, por exemplo, de tuberculose pulmonar, teria acarretado a recusa de sua admisso a um sanatrio. Fao essa comparao porque, como acontece com a infecciosa 
doena crnica que acabo de mencionar, podemos apontar inmeros xitos teraputicos notveis em casos srios, no menos do que em casos brandos, de neurose obsessiva, 
onde estes foram manipulados em um estdio precoce.
         Nessas circunstncias, no h alternativa seno relatar os fatos de um modo imperfeito e incompleto, no qual eles so conhecidos e pelo qual  legtimo 
que se os comunique. Os fragmentos de conhecimento oferecidos nestas pginas, embora tenham sido reunidos com suficiente laboriosidade, no podem, em si, dar provas 
de satisfazerem a contento; podem, contudo, servir de ponto de partida para o trabalho de outros investigadores, e um esforo comum poder trazer o xito que talvez 
esteja alm do alcance do esforo individual.
         
        I - EXTRATOS DO CASO CLNICO
         
         Um jovem senhor de formao universitria apresentou-se a mim com a assero de que ele sempre havia sofrido de obsesses, desde a infncia, mas com intensidade 
especial nos ltimos quatro anos. Os aspectos principais de seu distrbio eram medos de que algo pudesse acontecer a duas pessoas de quem ele gostava muito: seu 
pai e uma dama a quem admirava. Alm disso, ele estava consciente de impulsos compulsivos, tais como, por exemplo, um impulso de cortar a garganta com uma lmina; 
posteriormente, criou proibies, s vezes em conexo com coisas um tanto sem importncia. Contou-me que gastou anos lutando contra essas suas idias, e desse modo 
perdera muito terreno no transcorrer de sua vida. Havia experimentado vrios tratamentos, mas nenhum lhe valeu, com exceo de uma temporada de tratamento por hidroterapia 
num sanatrio prximo; e isso, pensava ele, provavelmente fora possvel apenas porque l travara conhecimentos com algum, o que o levara a manter relaes sexuais 
regulares. Aqui ele no tinha oportunidades dessa espcie, e raramente tivera relaes, apenas em intervalos irregulares. Sentia repulsa por prostitutas. Ao mesmo 
tempo, disse ele, sua vida sexual havia sido obstruda; a masturbao desempenhara apenas um pequeno papel nela, quando tinha dezesseis ou dezessete anos de idade. 
Sua potncia era normal; a primeira vez que teve relaes sexuais tinha vinte e seis anos. 
         Ele me deu a impresso de ser uma pessoa de mente clara e sagaz. Quando lhe perguntei sobre o que o fizera pr nfase em contar-me a respeito de sua vida 
sexual replicou ser isso o que ele sabia sobre as minhas teorias. Na realidade, porm, ele no lera nenhum de meus escritos, com exceo de pouco tempo antes ter 
folheado as pginas de um de meus livros, tendo encontrado a explicao de algumas curiosas associaes verbais que lhe recordaram tanto alguns de seus prprios 
'esforos de pensamento' em correlao com suas idias, que decidira colocar-se sob meus cuidados.
         
         (A) O INCIO DO TRATAMENTO
         
         No dia seguinte, eu o fiz comprometer-se a submeter-se  nica e exclusiva condio do tratamento, ou seja, dizer tudo que lhe viesse  cabea, ainda que 
lhe fosse desagradvel ou que lhe parecesse sem importncia, irrelevante ou sem sentido. Ento lhe dei permisso para iniciar suas comunicaes com qualquer assunto 
que o contentasse, e assim ele comeou. 
         Disse-me que tinha um amigo sobre o qual possua uma opinio extraordinariamente elevada. Costumava procur-lo sempre que estava atormentado por algum impulso 
criminoso, e perguntar-lhe se ele o desprezava, como se despreza um criminoso. Seu amigo costumava, ento, dar-lhe apoio moral, assegurando-lhe que ele era um homem 
de conduta irrepreensvel e que provavelmente tinha tido o hbito, a partir de sua juventude, de encarar obscuramente sua prpria vida. Numa poca anterior, prosseguiu, 
outra pessoa havia exercido uma influncia semelhante sobre ele. Era um estudante de dezenove anos (ele prprio tinha quatorze ou quinze anos, naquele tempo) que 
passara a ter amizade por ele, e que levara sua auto-estima a um grau extraordinrio, de tal forma que ele, para si mesmo, pareceu ser um gnio. Esse estudante, 
subseqentemente, tornou-se seu professor, e de repente modificou seu comportamento e comeou a trat-lo como se fosse um idiota. Por fim, notou que o estudante 
estava interessado numa de suas irms, e compreendeu que ele o havia aceito apenas para conseguir admisso na casa. Este foi o primeiro grande golpe de sua vida.
         Ento, ele prosseguiu sem qualquer transio aparente:
         
         (B) SEXUALIDADE INFANTIL.
         
         'Minha vida sexual comeou muito cedo. Posso lembrar-me de uma cena durante meu quarto ou quinto ano de idade (dos seis anos em diante posso lembrar-me 
de tudo). Essa cena veio-me  cabea um pouco distintamente, anos depois. Tnhamos uma governanta, muito jovem e bonita, chamada Frulein Peter. Certa noite, ela 
estava deitada no sof, ligeiramente vestida, lendo. Eu estava deitado ao seu lado e pedi-lhe para arrastar-me para debaixo de sua saia. Ela me disse que podia, 
desde que eu nada dissesse sobre isso a ningum. Ela tinha muito pouca roupa por cima, e manipulei com os dedos seus genitais e a parte inferior do seu corpo, o 
que me chocou como algo muito extravagante. Depois disso, fiquei com uma curiosidade ardente e atormentadora de ver o corpo feminino. Ainda posso lembrar a intensa 
excitao com que eu, nos Banhos (aos quais ainda me permitiam ir com a governanta e com minhas irms), esperava a governanta despir-se e entrar na gua. Posso lembrar-me 
de mais coisas a partir dos seis anos de idade. quela poca tnhamos uma outra governanta, tambm jovem e de boa aparncia. Ela tinha abcessos nas ndegas, os quais 
tinha hbito de espremer  noite. Eu costumava esperar avidamente por aquele momento, para apaziguar a minha curiosidade. Era a mesma coisa, como nos Banhos - embora 
Frulein Lina fosse mais reservada que sua predecessora.' (Em resposta a uma pergunta que fiz de permeio: 'Via de regra', o paciente contou-me, 'eu no dormia no 
quarto dela, mas na maioria das vezes com meus pais.') 'Lembro-me de uma cena que deve ter-se passado quando eu tinha sete anos. Estvamos sentados, juntos, certa 
noite - a governanta, a cozinheira, outra criada, eu e meu irmo, dezoito meses mais novo que eu. As jovens estavam conversando e eu, de repente, me tornei cnscio 
do que Frulein Lina dizia: "Poder-se-ia faz-lo com o pequeno; mas Paul" (era eu) " muito desajeitado, seguramente ele iria falhar." Eu no entendia claramente 
o que estavam querendo dizer, contudo senti a desconsiderao e comecei a chorar. Lina confortou-me e me contou com uma jovem que fizera algo daquele tipo com um 
menininho de que se encarregava fora presa por vrios meses. No acredito que ela realmente fez algo errado comigo, mas tomei muitas liberdades com ela. Quando subia 
na sua cama eu costumava descobri-la e toc-la, e ela no fazia objees. Ela no era muito inteligente e tinha claramente desejos sexuais, fortes e excessivos. 
Com vinte e trs anos ela tivera um filho. Depois se casou com o pai deste, de modo que hoje  uma Frau Hofrat. Mesmo hoje, vejo-a com freqncia na rua.
         'Quando eu tinha seis anos, j sofria de erees, e sei que, certa vez, fui at minha me queixar-me delas. Tambm sei que, assim fazendo, eu tinha alguns 
receios para superar, pois tinha um pressentimento de que havia alguma conexo entre esse assunto e minhas idias e minhas indagaes, e naquela poca eu costumava 
ter uma idia mrbida de que meus pais conheciam meus pensamentos; dei-me a explicao disso supondo que os havia revelado em voz alta, sem haver-me escutado faz-lo. 
Encaro esse fato como o comeo de minha doena. Havia determinadas pessoas, moas, que muito me agradavam, e eu tinha um forte desejo de v-las despidas. Contudo, 
desejando isso, eu tinha um estranho sentimento, como se algo devesse acontecer se eu pensasse em tais coisas, e como se devesse fazer todo tipo de coisas para evit-lo.'
         (Em resposta a uma pergunta, ele me deu um exemplo desses seus temores: 'Por exemplo, que meu pai deveria morrer.') 'Os pensamentos a respeito da morte 
de meu pai ocuparam minha mente desde uma idade muito precoce e por um longo perodo, deprimindo-me enormemente.'
         Nesse ponto eu soube, com assombro, que o pai do paciente, com quem afinal seus temores obsessivos estavam agora ocupados [ver em [1]], falecera muitos 
anos antes.
         Os eventos no seu sexto, ou stimo, ano de idade, que o paciente descreveu na primeira sesso de seu tratamento, no eram puramente, como ele supunha, o 
comeo de sua enfermidade, mas j eram a prpria doena. Era uma neurose obsessiva completa, no faltando elemento essencial algum, e ao mesmo tempo o ncleo e o 
prottipo do distrbio posterior - um organismo elementar, digamos, cujo estudo poderia, sozinho, capacitar-nos a obter um apanhado da complicada organizao de 
sua subseqente enfermidade. A criana, como vimos, estava sob o domnio de um componente do instinto sexual, o desejo de olhar [escopofilia]; como resultado deste, 
existia nele uma constante recorrncia de um desejo muito intenso relacionado com pessoas do sexo feminino que o agradavam - ou seja, o desejo de v-las nuas. Esse 
desejo corresponde  ltima idia obsessiva ou compulsiva; e se a qualidade da compulso ainda no estava presente no desejo, era porque o ego ainda no se havia 
posto em oposio a ele e ainda no o encarava como algo estranho a si prprio. No obstante, a oposio a esse desejo a partir dessa ou daquela fonte j estava 
em atividade, de vez que sua ocorrncia era regularmente acompanhada de um afeto aflitivo. Um conflito estava evidentemente progredindo na mente desse jovem libertino. 
Paralelamente ao desejo obsessivo, e com ele intimamente associado, havia um medo obsessivo; sempre que ele tinha um desejo desse tipo, no podia evitar de temer 
que algo terrvel fosse acontecer. Essa coisa terrvel j estava vestida de uma indefinio caracterstica, que desde ento deveria ser um aspecto invarivel de 
toda manifestao da neurose. Contudo, numa criana no  difcil descobrir o que  que est oculto por trs de uma indefinio desse tipo. Se o paciente pode ser 
uma vez induzido a fornecer um exemplo particular, em lugar das vagas generalidades que caracterizam uma neurose obsessiva, pode-se confiantemente aceitar que o 
exemplo  a coisa original e real que tentou esconder-se por trs da generalizao. Portanto, o medo obsessivo de nosso atual paciente, quando restabelecido seu 
significado original, seria como se segue: 'Se tenho esse desejo de ver uma mulher despida, meu pai dever fatalmente morrer.' O afeto aflitivo estava distintamente 
colorido com um matiz de estranheza e superstio, e j estava comeando a gerar impulsos para fazer algo a fim de evitar o mal iminente. Esses impulsos deveriam, 
subseqentemente, desenvolver-se em medidas de proteo que o paciente adotava.
         Em conseqncia, achamos o seguinte: um instinto ertico e uma revolta contra ele; um desejo que ainda no se tornou compulsivo e, lutando contra ele, um 
medo j compulsivo; um afeto aflitivo e uma impulso em direo ao desempenho de atos defensivos. O inventrio da neurose alcanou sua amostragem completa. Com efeito, 
alguma coisa mais est presente, ou seja, uma espcie de delrio ou delirium com o estranho contedo de que seus pais conheciam seus pensamentos, porque ele os expressava 
em voz alta, sem escutar a si prprio faz-lo. No nos extraviaremos tanto, se supusermos que, fazendo essa tentativa de uma explicao, a criana tinha alguma suspeita 
daqueles notveis processos mentais que descrevemos como inconscientes e que no podemos tolerar, se  que devemos esclarecer cientificamente esse obscuro assunto. 
'Expresso em voz alta meus pensamentos, sem ouvi-los' soa como uma projeo no mundo externo de nossa prpria hiptese de que ele tinha pensamentos sem nada conhecer 
a respeito deles; soa como uma percepo endopsquica daquilo que foi reprimido.
         A situao  clara. A elementar neurose de infncia j envolvia um problema e um aparente absurdo, como qualquer complicada neurose da maturidade. Qual 
pode ter sido o significado da idia da criana de que, se ele tivesse esse lascivo desejo, seu pai estaria fadado a morrer? Era puro disparate? Ou existem meios 
de compreender as palavras e de perceb-las tal como uma conseqncia necessria de eventos e premissas anteriores?
         Se aplicarmos algum conhecimento adquirido em outra parte a este caso de neurose infantil, no seremos capazes de evitar uma suspeita de que, neste exemplo, 
como em outros (isto , antes de a criana haver chegado  idade de seis anos), houve conflitos e represses que foram surpreendidos pela amnsia, mas que deixaram 
atrs de si, como um resduo, o contexto particular desse medo obsessivo. Mais tarde, saberemos com que extenso nos ser possvel redescobrir aquelas experincias 
esquecidas ou reconstru-las com algum grau de certeza. Nesse nterim, pode-se enfatizar o fato (o qual , provavelmente, mais do que uma mera coincidncia) de que 
a amnsia infantil do paciente terminou exatamente com seu sexto ano de idade [ver em [1]].
         Encontrar uma neurose obsessiva crnica que comea assim, na tenra infncia, com desejos lascivos dessa espcie, correlacionados com estranhas apreenses 
e uma propenso ao desempenho de atos defensivos, no  nada de novo para mim. Tenho deparado isso em inmeros outros casos.  absolutamente tpico, embora provavelmente 
no seja o nico tipo possvel. Antes de passar aos eventos da segunda sesso, gostaria de acrescentar mais uma palavra a respeito das primeiras experincias sexuais 
do paciente. Dificilmente se por em discusso o fato de que elas podem ser descritas como experincias que foram considerveis, quer em si mesmas, quer nas conseqncias 
que tiveram. Contudo, foi o mesmo que aconteceu com os outros casos de neurose obsessiva que tive a oportunidade de analisar. Tais casos, distintamente daqueles 
de histeria, possuem invariavelmente a caracterstica de uma atividade sexual prematura. As neuroses obsessivas, mais do do que as histerias, tornam bvio que os 
fatores que formaro uma psiconeurose podem ser encontrados na vida sexual infantil do paciente, e no em sua vida atual. A vida sexual atual de um neurtico obsessivo 
pode, com freqncia, parecer perfeitamente normal a um observador superficial; com efeito, ela freqentemente oferece aos olhos elementos e anormalidades patognicas 
bem menos numerosas do que no exemplo que ora estamos considerando.
         
         (C) O GRANDE MEDO OBSESSIVO
         
         'Acho que hoje comearei com a experincia que constituiu motivo imediato para eu vir visit-lo. Foi em agosto, durante as manobras em ......... Eu antes 
estivera padecendo e me atormentando com todas as espcies de pensamentos obsessivos, mas eles passaram rapidamente durante as manobras. Eu estava a fim de mostrar 
aos oficiais regulares que pessoas como eu no s haviam aprendido bastante, mas tambm podiam agentar bastante. Um dia, partimos de......... em marcha lenta. Durante 
uma parada, perdi meu pince-nez e, embora pudesse encontr-lo facilmente, no queria atrasar nossa partida, de modo que o deixei para l. Todavia, telegrafei aos 
meus oculistas em Viena para que me enviassem um par, pelo prximo correio. Durante aquela mesma parada sentei-me entre dois oficiais, um dos quais, um capito de 
nome tcheco, no iria ter pequena importncia para mim. Eu tinha certo terror dele, pois ele obviamente gostava de crueldade. No digo que era um homem mau, mas 
no grupo de oficiais ele sempre havia defendido a introduo de castigo corporal, de modo que eu fora obrigado a discordar dele com veemncia. Pois bem, durante 
a parada passamos a conversar, e o capito contou-me que havia lido sobre um castigo particularmente horrvel aplicado no Leste...'
         Aqui o paciente interrompeu-se, levantou-se do div e pediu-me que lhe poupasse a exposio dos detalhes. Assegurei-lhe que eu prprio no tinha gosto, 
qualquer que fosse, por crueldade, e certamente no tinha desejo algum de atorment-lo; contudo, naturalmente no podia conceder-lhe algo que estava alm de minhas 
foras. Ele podia, igualmente, pedir-me para lhe dar a lua. A superao das resistncias era uma lei do tratamento, e de forma alguma poder-se-ia dispens-la. (Expliquei 
a idia de `resistncia' a ele, no comeo da sesso, quando me contou que havia nele muita coisa que ele teria de superar, se tivesse de relatar essa sua experincia.) 
Continuei, dizendo que faria tudo que pudesse para, no obstante, adivinhar o pleno significado de quaisquer pistas que me fornecesse. Ser que ele estava pensando 
em cerca de estacas? - `No, isso no;... o criminoso foi amarrado...' - expressou-se ele to indistintamente, que no pude adivinhar logo em qual situao - `...um 
vaso foi virado sobre suas ndegas... alguns ratos foram colocados dentro dele... e eles...' - de novo se levantou e mostrava todo sinal de horror e resistncia 
- `cavaram caminho no...' - Em seu nus, ajudei-o a completar.
         Em todos os momentos importantes, enquanto me contava sua histria, sua face assumiu uma expresso muito estranha e variada. Eu s podia interpret-la como 
uma face de horror ao prazer todo seu do qual ele mesmo no estava ciente. Prosseguiu com a maior dificuldade: `Naquele momento atravessou minha mente, como um relmpago, 
a idia de que isso estava acontecendo a uma pessoa que me era muito cara.' Respondendo a uma pergunta direta, ele disse que no era ele mesmo quem estava infligindo 
o castigo, mas que este estava sendo aplicado como se fosse de forma impessoal. Aps pequena insinuao, eu soube que a pessoa a quem essa sua `idia' se referia 
era a dama a quem ele admirava.
         Interrompeu sua histria para me assegurar de que esses pensamentos lhe eram totalmente alheios e repulsivos, e para contar-me que tudo que se tinha seguido, 
no curso deles, passara por sua cabea com a mais extraordinria rapidez. Simultaneamente  idia, sempre aparecia uma `sano', isto , a medida defensiva que ele 
estava obrigado a adotar, a fim de evitar que a fantasia fosse realizada. Quando o capito falara desse horrendo castigo, ele prosseguiu, e essas idias lhe vieram 
 mente, empregando as suas frmulas de praxe (um `mas' acompanhado de um gesto de repdio, e a frase `o que  que voc est pensando'), ele acabara por conseguir 
evitar ambas. [Cf. em [1].]
         Esse `ambas' surpreendeu-me, e no h dvida de que tambm confundiu o leitor. Isso porque, at aqui, ouvimos apenas uma idia - de o castigo com rato ser 
aplicado  dama. Agora ele estava obrigado a admitir que uma segunda idia lhe ocorrera simultaneamente, ou seja, a idia do castigo sendo tambm aplicado a seu 
pai. Como seu pai havia falecido muitos anos antes, esse medo obsessivo era muito mais disparatado at mesmo do que o primeiro; e, em conseqncia, tentara evadir-se 
de ser confessado por mais algum tempo.
         
         Naquela noite, prosseguiu, o mesmo capito entregou-lhe um pacote, chegado pelo correio, e dissera: `O Tenente A. pagou as despesas para voc. Voc lhe 
deve reembolsar.' O pacote continha o pince-nez pelo qual ele havia telegrafado. Naquele instante, contudo, uma `sano' tomara forma em sua mente, ou seja, ele 
no devia devolver em pagamento o dinheiro, ou aquilo iria acontecer (isto , a fantasia sobre os ratos se realizaria em relao a seu pai e  dama). E imediatamente, 
conforme um tipo de procedimento que lhe era familiar, para combater essa sano surgira uma ordem na forma de um juramento: `Voc deve pagar de volta as 3.80 coroas 
ao Tenente A.' Ele dissera essas palavras a si prprio quase em voz alta.
         Dois dias depois, terminaram as manobras. Ele passara todo o tempo de entremeio fazendo esforos para reembolsar o Tenente A. com a pequena quantia em questo; 
entretanto, uma srie de dificuldades, de natureza aparentemente externa, surgiu para impedi-lo. Primeiramente ele tentara efetuar o pagamento mediante um outro 
oficial que fora para a agncia postal. Mas aliviara-se bastante, quando esse oficial lhe trouxe o dinheiro de volta, dizendo que no encontrara l o Tenente A.; 
isso porque esse mtodo de realizar seu juramento no lhe satisfizera, na medida em que no correspondia  expresso, que era a seguinte: `Voc deve pagar de volta 
o dinheiro ao Tenente A.' Finalmente, encontrara o Tenente A., a pessoa que ele estava procurando; mas esse oficial recusara-se a aceitar o dinheiro, declarando 
que ele nada havia pago para ele, e nada, seja o que fosse, tinha a ver com os correios, que era responsabilidade do Tenente B. Isso causou enorme perplexidade ao 
meu paciente, pois significava que era incapaz de manter seu juramento, uma vez que fora baseado em falsas premissas. Ele urdira um meio muito curioso de sair da 
sua dificuldade; ou seja, ele iria  agncia postal com ambos os homens, A. e B., A. daria l  jovem dama, as 3.80 coroas, a jovem dama as daria a B., e ento ele 
mesmo devolveria em pagamento as 3.80 coroas a A., segundo as palavras de seu juramento.
         No me surpreenderia ouvir que, a essa altura, o leitor interrompesse sua capacidade de acompanhar essa exposio, pois mesmo o relato pormenorizado que 
o paciente me forneceu acerca dos eventos externos daqueles dias e de suas reaes a eles estava pleno de contradies e soava desesperadamente confuso. Somente 
quando narrou a histria pela terceira vez, pude faz-lo compreender as obscuridades dela e pude pr a nu os erros de memria e os deslocamentos nos quais ele ficara 
envolvido. Poupar-me-ei a dificuldade de reproduzir esses detalhes, cujos pontos essenciais eu, com facilidade, serei capaz de retomar mais tarde; apenas acrescentarei 
que, no final dessa segunda sesso, o paciente se comportou como se estivesse ofuscado e desnorteado. Repetidamente se dirigia a mim como `Capito', provavelmente 
porque no incio da consulta eu lhe contara que eu prprio no gostava de crueldade, como o Capito N., e que eu no tinha inteno de atorment-lo sem necessidade.
         A nica parte restante de informao que dele consegui durante essa consulta foi que, a partir da primeira ocasio, em todas as ocasies anteriores nas 
quais ele tivera medo de que algo aconteceria a pessoas a quem ele amava no menos do que no momento presente, ele referira as punies no apenas  nossa vida atual, 
mas tambm  eternidade - o outro mundo. At esse dcimo quarto ou dcimo quinto ano fora religioso devoto, mas a partir dessa poca evoluiu gradualmente para o 
livre-pensador que ele era hoje em dia. Reconciliou a contradio [entre suas crenas e suas obsesses], dizendo a si prprio: `O que pensa voc sobre o prximo 
mundo? O que sabem os outros a esse respeito? Nada pode ser conhecido a respeito dele. Voc nada est arriscando - faa-o ento.' Essa forma de argumentao parecia 
irrepreensvel para um homem que, em outros aspectos, era particularmente lcido; dessa forma ele explorou a incerteza da razo em face dessas perguntas, em benefcio 
da atitude religiosa que ele tinha deixado que continuasse crescendo.
         Na terceira sesso, completou sua histria, deveras caracterstica, de seus esforos para cumprir seu juramento obsessivo. Naquela noite, a ltima reunio 
de oficiais realizou-se antes do fim das manobras. Coube-lhe responder ao brinde de `O Cavalheiro da Reserva'. Ele falara bem, mas como se estivesse em um sonho, 
de vez que atrs de sua mente estava sendo incessantemente atormentado pelo seu juramento. Passou uma noite terrvel. Argumentos e contra-argumentos debatiam-se 
entre si. O principal argumento fora, naturalmente, que a premissa na qual se baseava seu juramento - de que o Tenente A. lhe pagara o dinheiro - provou ser falsa. 
Entretanto, consolara-se com o pensamento de que o negcio ainda no estava concludo, pois A. estaria, na manh seguinte, dirigindo-se com ele por parte do caminho 
at a estao ferroviria em P........., de modo que ele ainda teria tempo de lhe pedir um favor necessrio. Na realidade, ele no o fizera e permitiu a A. sair 
sem ele; contudo, dera instrues a seu adjunto para fazer A. saber que ele tinha inteno de lhe fazer uma visita  tarde. Ele prprio alcanou a estao s nove 
e meia da manh. L depositara a sua bagagem e providenciara vrias coisas que tinha de fazer na cidadezinha, com a inteno de depois fazer a visita a A. A vila 
para onde A. fora nomeado distava cerca de uma hora de viagem da cidade de P ......... A viagem por trem at o lugar onde estava a agncia postal [Z.........] levaria 
trs horas. Ele calculara, portanto, que a execuo de seu complicado plano lhe daria tempo exato para apanhar o trem da noite, que partia de P......... para Viena. 
As idias que lutavam dentro dele foram, de um lado, que ele estava simplesmente sendo covarde e obviamente apenas tentando escapar do desprazer de pedir a A. que 
fizesse o sacrifcio em questo e de fazer uma figura idiota  frente dele, e isso  que explicava por que ele estava desrespeitando seu juramento. Por outro lado, 
era a idia de que, pelo contrrio, seria covardia sua realizar o seu juramento, de vez que s queria faz-lo assim, a fim de que fosse deixado em paz por suas obsesses. 
Quando, no decurso de suas deliberaes, acrescentou o paciente, ele achava os argumentos to nitidamente equilibrados assim, era seu hbito permitir que seus atos 
fossem decididos por eventos casuais, embora pelas mos de Deus. Por conseguinte, quando um carregador na estao se dirigiu a ele com as palavras `O trem das dez 
horas, senhor?' ele respondeu `Sim', e de fato fora no trem das dez horas. Desse modo, criou um fait accompli e se sentiu enormemente aliviado. Providenciara a reserva 
de um lugar para a refeio no carro-restaurante. Na primeira estao em que pararam, lembrou-se, de repente, de que ainda tinha tempo para sair, esperar pelo prximo 
trem que descia, viajar de volta nele at P......, dirigir-se at o lugar onde o Tenente A. estava aquartelado, de l empreender a viagem de trem de trs horas de 
percurso junto com ele at a agncia postal, e assim por diante. Fora apenas a considerao de que reservara seu lugar para a refeio com o comissrio do carro-restaurante 
que o impedira de realizar esse plano. Ele, contudo, no o abandonara; s deixara para sair numa prxima parada. Dessa maneira, ele se debatera com as idias de 
estao a estao, at que alcanara uma, na qual lhe parecia impossvel sair, porque tinha parentes que l moravam. Determinara, pois, atravessar Viena, cumprimentar 
l o seu amigo e lhe expor todo o assunto, e assim, depois que seu amigo tivesse tomado sua deciso, apanhar o trem noturno de volta a P......... Quando expus a 
dvida quanto a saber se isso teria sido vivel, assegurou-me que teria tido meia hora a poupar entre a chegada de um trem e a partida do outro. Entretanto, quando 
chegara a Viena, no conseguiu encontrar seu amigo no restaurante onde esperava encontr-lo, nem encontrara a casa do seu amigo at as onze horas da noite. Ele lhe 
contou toda a histria naquela mesma noite. Seu amigo mantivera suas mos erguidas de assombro, por pensar que ele ainda podia duvidar se estava sofrendo de uma 
obsesso, e o acalmou naquela noite, de modo que ele pudesse dormir tranqilo. Na manh seguinte, foram juntos para a agncia postal a fim de remeter as 3.80 coroas 
 agncia postal [Z.........], onde havia chegado o pacote contendo o pince-nez.
         Foi essa ltima explicao que me forneceu um ponto de partida do qual pude comear a pr em ordem as diversas distores implicadas em sua histria. Depois 
que seu amigo o trouxe ao seu perfeito juzo, ele no remetera a pequena quantia de dinheiro em questo, nem ao Tenente A. nem ao Tenente B., mas diretamente  agncia 
postal. Ele, portanto, deve ter sabido que devia a importncia das despesas com o pacote a mais ningum seno ao oficial da agncia postal, e deve ter sabido isso 
antes de iniciar sua viagem. Revelou-se que, com efeito, ele o soubera antes de o capito fazer seu pedido e antes que ele prprio fizesse seu juramento; isso porque 
agora lembrava que poucas horas antes de encontrar o cruel capito tivera ocasio de se apresentar a outro capito, que lhe contara como estavam realmente as coisas. 
Esse oficial, ouvindo seu nome, lhe contara que estivera na agncia postal pouco tempo antes e que a a jovem dama lhe perguntou se ele conhecia o Tenente L., (que 
 o paciente), para quem chegara um pacote, a pagar contra-entrega. O oficial respondeu que no, mas a jovem dama fora de opinio que ela podia confiar no desconhecido 
tenente e dissera que, no meio tempo, ela prpria pagaria as taxas. Fora assim que o paciente se apossou do pince-nez que havia encomendado. O cruel capito cometera 
um equvoco quando, ao lhe entregar o pacote, lhe pediu para pagar a A., em reembolso, as 3.80 coroas, e o paciente deve ter sabido que foi um engano. Apesar disso, 
fizera um juramento fundado nesse equvoco, um juramento que estava fadado a ser um tormento para ele. Assim fazendo, suprimira para si prprio, justamente como 
suprimira para mim ao contar a histria, o episdio do outro capito e a existncia da confiante jovem na agncia postal. Devo admitir que, quando se fez essa correo, 
seu comportamento se tornou cada vez mais sem sentido e ininteligvel do que antes.
         
         Depois que deixou seu amigo e retornou  famlia, suas dvidas mais uma vez o assaltaram. Os argumentos de seu amigo, via ele, no foram diferentes dos 
seus prprios argumentos, e ele no estava em delrio algum de que seu alvio temporrio podia ser atribudo a alguma coisa mais alm da influncia pessoal do amigo. 
Sua determinao de consultar um mdico configurou-se num delrio da seguinte forma engenhosa: Pensava que iria encontrar um mdico que lhe desse certificao do 
fato de que, para recobrar a sade, lhe era necessrio realizar um ato tal como ele planejara com relao ao Tenente A.; e o tenente, sem dvida, deixar-se-ia persuadir 
pela certificao a aceitar dele as 3.80 coroas. A oportunidade de um dos meus livros ter cado em suas mos justamente naquele momento orientou a sua escolha para 
mim. No era, contudo, questo de conseguir de mim um certificado; tudo quanto me pediu foi, fato muito razovel, ser libertado de suas obsesses. Muitos meses depois, 
quando sua resistncia atingiu seu pice, sentiu uma vez mais a tentao de viajar a P........., apesar de tudo, a fim de visitar o Tenente A. e realizar a farsa 
de lhe devolver o dinheiro.
         
         (D) INICIAO NA NATUREZA DO TRATAMENTO
         
         O leitor no deve esperar ouvir de imediato como tento esclarecer as estranhas e absurdas obsesses do paciente acerca dos ratos. A verdadeira tcnica da 
psicanlise requer que o mdico suprima sua curiosidade, e deixe ao paciente liberdade total para escolher a ordem na qual os tpicos sucedero um ao outro durante 
o tratamento. Na quarta consulta, conseqentemente, recebi o paciente com a seguinte pergunta: `E como o senhor pretende prosseguir hoje?'
         `Decidi contar-lhe algo que considero mais importante e que me atormentou desde o primeiro instante.' Ele ento me contou, com muitos detalhes, a histria 
da ltima doena de seu pai, que morrera de enfisema, nove anos atrs. Certa noite, achando que se tratava de um estado que acarretaria uma crise, perguntara ao 
mdico quando o perigo poderia ser considerado acabado. `Na noite depois de amanh', fora a resposta. Nunca havia imaginado que seu pai poderia no sobreviver alm 
daquele limite.  noite, s onze e meia, deitara-se para descansar por uma hora. Despertara a uma hora, e soube por um amigo mdico que seu pai havia morrido. Censurou-se 
por no ter estado presente  hora de sua morte; e a censura intensificara-se quando a enfermeira lhe contou que seu pai dissera seu nome uma vez nos ltimos dias, 
e dissera a ela, ao aproximar-se do leito: ` o Paul?' Ele pensara haver observado que sua me e suas irms estivessem propensas a se censurarem de uma forma parecida; 
elas, porm, jamais falaram a esse respeito. Contudo, no princpio, a censura no o atormentara. Por muito tempo no compreendia o fato de o pai haver morrido. Constantemente 
sucedia que ele, ao escutar uma boa piada, dissesse para si: `Preciso contar essa a papai.' Tambm a sua imaginao estivera ocupada com o pai, de modo que, com 
freqncia, quando batiam  porta, ele iria pensar: ` papai que est chegando', e quando ia para uma sala esperaria encontrar seu pai nela. E, embora jamais tivesse 
esquecido que seu pai estava morto, a probabilidade de ver uma apario fantasmagrica desse tipo no encerrara terrores para ele; pelo contrrio, ele desejara isso 
muitssimo. Somente dezoito meses depois  que a recordao de sua negligncia lhe veio e comeou a atorment-lo terrivelmente, de forma que passara a tratar a si 
prprio como um criminoso. A ocasio desse acontecimento fora a morte de uma tia emprestada, e uma visita de condolncia paga em casa dela. A partir daquele tempo, 
ele ampliou a estrutura de seus pensamentos obsessivos de maneira a incluir o outro mundo. A conseqncia imediata dessa evoluo fora ele ficar seriamente incapacitado 
de trabalhar. Ele me contou que a nica coisa que o levava a continuar avante naquele tempo era o consolo que lhe dera o amigo, o qual sempre afastara as suas autocensuras, 
com base no fato de que elas eram totalmente exageradas. Ouvindo isso, aproveitei a oportunidade para lhe dar um primeiro vislumbre dos princpios bsicos da terapia 
psicanaltica. Quando, assim iniciei, existe uma msalliance entre um afeto e seu contedo ideativo (neste exemplo, entre a intensidade da autocensura e a oportunidade 
para ela manifestar-se), um leigo ir dizer que o afeto  demasiadamente grande para a ocasio - que isso  exagerado - e que, conseqentemente, a inferncia originria 
da autocensura (a inferncia de que o paciente  um criminoso)  falsa. Pelo contrrio, o mdico [analista] diz: `No. O afeto se justifica. O sentimento de culpa 
no est, em si, aberto a novas crticas. Mas pertence a algum outro contexto, o qual  desconhecido (inconsciente) e que exige ser buscado. O contedo ideativo 
conhecido s entrou em sua posio real graas a uma falsa conexo. No estamos acostumados a sentir fortes afetos, sem que eles tenham algum contedo ideativo; 
e, portanto, se falta o contedo, apoderamo-nos, como um substituto, de algum outro contedo que seja, de uma ou de outra forma, apropriado, com a mesma intensidade 
com que a nossa polcia, no podendo agarrar o assassino certo, prende, em seu lugar, uma pessoa errada. Alm disso, esse fato de existir uma falsa conexo  o nico 
meio de se responder pela impotncia dos processos lgicos para combater a idia atormentadora.' Conclu admitindo que esse novo meio de encarar o assunto deu origem 
imediatamente a alguns problemas difceis; porque, como podia ele admitir ser justificada a sua autocensura de ser um criminoso com relao ao seu pai, quando precisa 
saber que, na realidade, jamais cometera crime algum contra ele?
         Na sesso seguinte, o paciente mostrou grande interesse por aquilo que eu dissera, mas se arriscou, conforme me contou, a apresentar algumas dvidas. - 
Como, perguntou, podia justificar-se a informao de que a autocensura, o sentimento de culpa, tenha um efeito teraputico? - Expliquei que no era a informao 
que possua esse efeito, mas sim a descoberta do contedo inconsciente ao qual a autocensura de fato estava ligada. - Sim, disse ele, este era o ponto exato ao qual 
fora dirigida a sua pergunta. - Fiz ento algumas pequenas observaes sobre as diferenas psicolgicas entre o consciente e o inconsciente, e sobre o fato de que 
toda coisa consciente estava sujeita a um processo de desgaste, ao passo que aquilo que era inconsciente era relativamente imutvel; e ilustrei meus comentrios 
indicando as antiguidades que se encontravam ao redor, em minha sala. Era, com efeito, disse eu, apenas objetos achados num tmulo, e o enterramento deles tinha 
sido o meio de sua preservao: a destruio de Pompia s estava comeando agora que ela fora desenterrada. - Havia alguma garantia de qual seria a atitude de algum 
com relao ao que foi descoberto? Um homem, pensou ele, sem dvida se comportaria de um modo tal a conseguir o melhor de sua autocensura; outro, porm, no o faria. 
- No, disse eu, seguia da natureza das circunstncias o fato de que, em todo caso, o afeto seria superado - na maior parte, durante o progresso do prprio trabalho. 
Foi feito todo esforo para preservar Pompia, enquanto as pessoas estavam ansiosas por se livrarem de idias atormentadoras como as suas. - Ele disse a si mesmo, 
prosseguiu, que uma autocensura s podia originar-se de um rompimento dos prprios princpios morais internos de uma pessoa e no do de quaisquer outros princpios 
externos. - Concordei, e disse que o homem que simplesmente rompe com uma lei externa muitas vezes se v como um heri. - Uma ocorrncia assim, continuou, era ento 
possvel apenas onde j estivesse presente uma desintegrao da personalidade. Havia uma possibilidade de ele efetuar uma reintegrao da sua personalidade? Caso 
isso pudesse realizar-se, ele achava que seria capaz de tornar a sua vida um xito, talvez mais do que a maioria das pessoas. - Respondi que eu estava completamente 
de acordo com essa noo de uma diviso (splitting) da sua personalidade. Ele apenas tinha de assimilar esse novo contraste, entre um eu (self) moral e um eu (self) 
mau, com o contraste que eu j mencionara, entre o consciente e o inconsciente. O eu (self) moral era o consciente, o eu (self) mau era o inconsciente. Ele ento 
disse, embora se considerasse uma pessoa moral, que podia lembrar-se, com bastante determinao, de haver feito coisas em sua infncia que provinham do seu outro 
eu (self). - Observei que, aqui, ele havia incidentalmente atingido uma das principais caractersticas do inconsciente, ou seja, a relao deste com o infantil. 
O inconsciente, expliquei, era o infantil; era aquela parte do eu (self) que ficara apartada dele na infncia, que no participara dos estdios posteriores do seu 
desenvolvimento e que, em conseqncia, se tornara reprimida. Os derivados desse inconsciente reprimido eram os responsveis pelos pensamentos involuntrios que 
constituram a sua doena. Agora, acrescentei, ele podia ainda descobrir uma outra caracterstica do inconsciente; era uma descoberta que eu gostaria de deix-lo 
realizar por si prprio. - Ele nada mais achou para dizer nessa conexo imediata, mas, em lugar disso, expressou a dvida quanto a saber se era possvel desfazer 
modificaes de uma longa durao dessas. O que, em particular, poderia ser feito contra sua idia acerca do outro mundo de vez que no podia ser refutada pela lgica? 
Eu lhe disse que nem debateria a gravidade do seu caso nem a significao de suas construes patolgicas; contudo, ao mesmo tempo a sua juventude estava muitssimo 
a seu favor, bem como a integridade da sua personalidade. Nessa conexo eu disse uma ou duas palavras sobre a boa opinio que eu formara sobre ele, e isto lhe causou 
visvel prazer.
         Na sesso seguinte, ele comeou por dizer que devia contar-me um evento de sua infncia. A partir dos seus sete anos, conforme j me dissera [ver em [1]], 
havia tido um medo de que seus pais adivinhassem seus pensamentos, e esse medo, com efeito, persistira por toda a sua vida. Com doze anos de idade tinha gostado 
de uma menina, irm de um amigo seu. (Respondendo a uma pergunta, ele disse que seu amor no fora sensual; no quisera v-la nua porque ela era muito pequena.) Todavia, 
ela no lhe mostrara tanta afeio como ele havia desejado. E, conseqentemente, viera-lhe a idia de que ela lhe seria afvel se alguma desgraa viesse a lhe acontecer; 
e, como exemplo dessa desgraa, a morte de seu pai insinuou-se foradamente em sua mente. Ele logo rejeitava com energia a idia. Mesmo agora no podia admitir a 
possibilidade de que aquilo, que se originara desse modo, poderia ter sido um `desejo'; no fora, claramente, outra coisa seno uma `corrente de pensamento'. -  
guisa de objeo, perguntei-lhe por que, caso no tivesse sido um desejo, ele o repudiara. - Somente, replicou ele, em virtude do contedo da idia, a noo de que 
seu pai poderia morrer. - Observei que ele estava tratando a frase como se esta envolvesse uma lse-majest; bem se sabia, naturalmente, que era igualmente passvel 
de punio dizer `O imperador  um burro', ou disfarar as palavras proibidas, dizendo `Se algum diz etc.,... ento esse algum me ter como um que concorde com 
isso.' Acrescentei que eu poderia facilmente inserir a idia, que ele repudiara to energicamente, num contexto que excluiria a possibilidade de qualquer repdio 
desse tipo; por exemplo, `Se meu pai morrer, eu me matarei sobre seu tmulo.' - Ele estava abalado, mas no abandonou sua objeo. Portanto, interrompi o argumento, 
com a observao de que eu estava seguro de essa no ter sido a primeira ocorrncia da sua idia de seu pai morrer; evidentemente ela se originara numa data mais 
anterior, e algum dia haveramos de seguir sua histria. - Ento prosseguiu, dizendo-me que um pensamento exatamente idntico perpassara como um raio a sua mente 
uma segunda vez, seis meses antes da morte de seu pai. Naquela poca, ele j estivera namorando essa dama, mas obstculos financeiros impossibilitaram que pensasse 
numa aliana com ela. Ocorrera-lhe, ento, a idia de que a morte de seu pai poderia torn-lo rico o suficiente para despos-la. Defendendo-se dessa idia ele estivera 
a ponto de desejar que seu pai no lhe deixasse absolutamente nada, de modo que ele no pudesse ter compensao alguma pela sua terrvel perda. A mesma idia, ainda 
que de forma muito mais amena, lhe adviera pela terceira vez, no dia anterior  morte de seu pai. Ele pensara: `Agora posso estar perdendo o que mais amo'; e ento 
viera a contradio: `No, existe algum mais, cuja perda seria bem mais penosa para voc.' Esses pensamentos surpreenderam-no muito, de vez que ele estava bem seguro 
de que a morte de seu pai jamais poderia ter sido objeto de seu desejo, mas apenas de seu medo. - Aps essas palavras, que enunciou foradamente, achei aconselhvel 
trazer  sua observao um novo fragmento de teoria. Conforme a teoria psicanaltica, eu lhe disse, todo medo correspondia a um desejo primeiro, agora reprimido; 
por conseguinte, ramos obrigados a acreditar no exato contrrio daquilo que ele afirmara. Isto tambm se ajustaria a uma outra exigncia terica, ou seja, a de 
que o inconsciente deve ser o exato contrrio do consciente. - Ele estava muito agitado com isso, e muito incrdulo. Queria saber como lhe fora possvel ter um desejo 
desses, considerando que ele amava seu pai mais do que amava qualquer outra pessoa no mundo; no podia haver dvida de que ele teria renunciado a todas as suas prprias 
perspectivas de felicidade se, fazendo-o, pudesse ter salvo a vida de seu pai. - Respondi que exatamente um amor assim intenso era a precondio necessria do dio 
reprimido. No caso de pessoas com que se sentia indiferente, ele podia, seguramente, no ter dificuldades de manter, lado a lado, propenses a um prazer moderado 
e a um desprazer igualmente moderado; por exemplo, supondo-se que ele fosse um oficial, ele poderia pensar que seu chefe era agradvel como um superior, contudo 
ao mesmo tempo um velhaco como um advogado, e desumano com um juiz. (Shakespeare faz Brutus falar de Jlio Csar de um modo semelhante: `Como Csar me amou, eu choro 
por ele; como foi afortunado; eu me regozijo com isso; como foi valoroso, eu o honro; mas, como foi ambicioso, eu o matei.' Mas essas palavras j nos atingem como 
um tanto estranhas e pelo verdadeiro fato de que havamos imaginado o sentimento de Brutus por Csar como algo mais profundo.) No caso de algum que fosse mais ntimo 
dele, sua esposa, por exemplo, ele desejaria que seus sentimentos fossem puros, e, em conseqncia, como era apenas humano, ele no notaria as faltas dela, j que 
estas poderiam faz-lo desgostar dela - ele as ignoraria como se no as enxergasse. Assim, foi precisamente a intensidade de seu amor que no permitiu que seu dio 
- embora dar este nome fosse caricaturar o sentimento - permanecesse consciente. Para confirmar, o dio precisa ter uma fonte, e descobrir essa fonte era certamente 
um problema; suas prprias afirmaes indicavam a poca em que ele temia que seus pais adivinhassem seus pensamentos. Por outro lado, tambm se poderia perguntar 
por que esse seu amor intenso no lograra extinguir seu dio, como de praxe acontecia quando no havia dois impulsos antagnicos. Apenas poderamos presumir que 
o dio deve fluir de alguma fonte, que deve estar relacionado com alguma causa particular que o tornasse indestrutvel. Por um lado, ento, alguma conexo dessa 
espcie deve estar mantendo vivo seu dio pelo pai, ao passo que, por outro lado, o seu intenso amor o impedia de tornar-se consciente. Por conseguinte, nada restou 
para ele, a no ser existir no inconsciente, embora fosse, vez ou outra, capaz de irradiar-se, por instantes, para dentro da conscincia.
         Ele admitiu que tudo isso ressoava um tanto plausvel, mas ele naturalmente no estava, em ltima anlise, convencido pelo fato. Disse que no se arriscaria 
a indagar como uma idia desse tipo poderia conter remisses, como poderia ela aparecer por um instante, quando ele tinha doze anos de idade, e depois, com vinte 
anos, e ento mais uma vez, dois anos mais tarde, desta vez para sempre. Ele no podia acreditar que sua hostilidade fora extinguida nos intervalos, e, contudo, 
durante o curso destes, no houvera sinal algum de autocensuras. - Respondi que algum, sempre que perguntava algo assim, j estava preparado com uma resposta; precisava 
ser encorajado a continuar falando. - Ele ento prosseguiu, parecia que com alguma desconexo, dizendo que fora o melhor amigo de seu pai e que seu pai fora seu 
melhor amigo. Exceto em alguns tpicos nos quais pais e filhos comumente se mantinham separados uns dos outros - (Que queria ele dizer com isso?) -, houvera entre 
eles uma intimidade maior do que ento existia entre ele e seu melhor amigo. No que concerne  dama, por cuja causa ele sacrificara seu pai com aquela sua idia, 
era verdade que a amara muito mas jamais sentira realmente desejos sensuais por ela, como constantemente tivera em sua infncia. Ao mesmo tempo, em sua infncia 
os impulsos sensuais haviam sido muito mais intensos do que durante a puberdade. - Nesse ponto, disse-lhe que pensava que ele ento fabricara a resposta que estvamos 
esperando e que, simultaneamente, havia descoberto a terceira grande caracterstica do inconsciente [ver em [1]]. A fonte da qual sua hostilidade pelo pai tirava 
a sua indestrutibilidade era, evidentemente, algo da natureza de desejos sensuais, e nessa correlao ele deve ter sentido seu pai como uma interferncia, de uma 
ou de outra forma. Acrescentei que um conflito dessa espcie entre a sensualidade e o amor infantil era totalmente tpico. As remisses de que ele falara ocorreram 
porque a exploso prematura dos seus desejos sensuais havia sofrido, como conseqncia imediata, uma considervel diminuio da violncia deles. S quando ele foi 
novamente arrebatado por intensos desejos erticos, foi que reapareceu sua hostilidade, de novo devido  revivescncia da antiga situao. Ento fiz com que ele 
concordasse que eu no o havia levado nem ao assunto da infncia nem ao do sexo, mas que ele desespertara ambos por sua livre e espontnea vontade. - Ento continuou, 
perguntando por que simplesmente no chegara a uma deciso, na poca em que estava apaixonado pela dama, relativamente a saber se a interferncia de seu pai naquele 
amor no poderia, por um momento que fosse, pesar contra seu amor pelo pai. - Repliquei que raramente  possvel destruir uma pessoa in absentia. Tal deciso s 
teria sido possvel se o desejo a que ele objetava tivesse aparecido pela primeira vez naquele tempo; ao passo que, de fato, era um desejo longamente reprimido, 
diante do qual ele no podia comportar-se de outra forma a no ser como fizera no princpio, e o qual, em conseqncia, estava imune  destruio. Esse desejo (de 
livrar-se de seu pai como uma interferncia) deve ter-se originado numa poca em que as circunstncias foram muito diferentes - numa poca, talvez, em que ele no 
amava seu pai mais do que amava a pessoa a quem ele desejava sensualmente, ou quando era incapaz de tomar uma deciso ntida. Deve ter sido, portanto, em sua primeira 
infncia, antes de chegar aos seis anos de idade e antes do dia em que sua lembrana passou a ser contnua; e desde ento as coisas devem ter permanecido nesse mesmo 
estado. - Com esse fragmento de interpretao, nossa discusso foi interrompida temporariamente. [Cf. em [1].]
         Na sesso, seguinte, a stima, retomou novamente o mesmo assunto. Ele no podia acreditar, disse ele, que tivesse alguma vez estado s voltas com um desejo 
desses contra seu pai. Lembrou-se de uma histria de Sudermann, prosseguiu, que lhe causara profunda impresso. Nessa histria havia uma mulher que, quando se sentava 
ao leito de sua irm enferma, sentia desejo de que a irm viesse a morrer, a fim de que ela pudesse casar-se com o marido da irm. Ento a mulher cometeu suicdio, 
pensando que ela no estava apta a viver depois de sentir-se culpada de tal baixeza. Ele podia compreender isto, disse ele, e s estaria direito se seus pensamentos 
fossem a sua morte, de vez que no merecia nada menor. - Observei que sabamos muito bem que os pacientes derivavam alguma satisfao de seus sofrimentos, de modo 
que, na realidade, todos eles resistiam, em alguma extenso,  sua prpria recuperao. Ele jamais deve abster-se do fato de que um tratamento como o nosso procedeu 
ao acompanhamento de uma resistncia constante; eu estaria, repetidas vezes, lembrando-o desse fato.
         Prosseguiu, ento, dizendo que gostaria de falar de um ato criminoso, cujo autor no reconheceu como sendo ele prprio, embora bem nitidamente se lembrasse 
de hav-lo cometido. Citou um trecho de Nietszche: `"Eu o fiz", diz minha Lembrana. "Eu no posso ter feito isto", diz meu Orgulho, e permanece inexorvel. No final... 
a Lembrana cede.' `Bem', ele continuou, `minha lembrana no cedeu nesse ponto.' - `Isto porque, o senhor deriva o prazer de suas prprias autocensuras como um 
meio de autopunio.' - `Meu irmo mais novo... eu agora realmente gosto muito dele, e ele, justamente agora, est-me causando bastante preocupao, pois quer fazer 
o que considero uma unio fora de hora; antes pensei em sair e matar a pessoa envolvida, de modo a evitar que ele se casasse com ela - bem, meu irmo mais novo e 
eu costumvamos brigar um bocado quando ramos crianas. Gostvamos muito um do outro, ao mesmo tempo, e ramos inseparveis; mas eu estava verdadeiramente cheio 
de cimes, uma vez que ele era o mais forte e de melhor aparncia entre os dois, e conseqentemente o favorito.' - `Sim. O senhor j me fez a descrio de uma cena 
de cime relacionada com Frulein Lina [ver em [1]].' - `Ento muito bem, em alguma ocasio dessas (foi seguramente antes de eu fazer oito anos, pois ainda no estava 
na escola, a qual passei a freqentar quando tinha oito anos), em uma dessas ocasies foi isto o que fiz. Ns dois tnhamos espingardas de brinquedo de fabricao 
comum. Carreguei a minha com a vareta e lhe disse que, se ele olhasse para o cilindro, veria alguma coisa. A, enquanto olhava dentro dele, puxei o gatilho. Ele 
foi atingido na testa, mas no se feriu; mas eu de fato tinha tido a inteno de feri-lo muito. A seguir fiquei recolhido em mim mesmo, atirei-me no cho e me interroguei 
como poderia ter feito uma coisa assim. Contudo, eu realmente fizera.' - Aproveitei a oportunidade de encorajar meu caso. Se ele preservara a recordao de uma ao 
como esta, que lhe era to estranha, ele no poderia, insisti, negar a possibilidade de algo semelhante, que agora esquecera por completo, ter acontecido, em uma 
idade ainda mais precoce, em relao a seu pai. - Ento me contou que estava ciente de haver sentido outros impulsos vingativos, dessa vez voltados  dama a quem 
tanto admirava, de cujo carter ele pintou uma ardente imagem. Podia ser verdade, disse ele, que ela no pudesse amar com facilidade; mas ela estava reservando todo 
o seu eu (self) para o homem a quem um dia pertenceria. Ela no o amava. Quando ele se tornara sabedor disso, uma fantasia consciente tomara forma em sua meta: de 
como ele viria a ficar muito rico e casar-se com outra, e ento a levaria a visitar a dama, a fim de ferir os sentimentos dela. Entretanto, a essa altura a fantasia 
frustrara-se, de vez que ele fora obrigado a confessar a si mesmo que a outra mulher, sua esposa, lhe era completamente indiferente; logo, seus pensamentos ficaram 
confusos, at que lhe nasceu no pensamento a idia de que essa outra mulher teria de morrer. Nessa fantasia, bem como em seu atentado ao irmo, reconheceu a qualidade 
de covardia que lhe era to particularmente terrvel. - No curso posterior de nossa conversa apontei-lhe que no tinha, logicamente, de se considerar de modo algum 
responsvel por qualquer desses traos de seu carter, por todos esses impulsos reprovveis oriundos de sua infncia, e que eram apenas derivados de seu carter 
infantil, sobreviventes em seu inconsciente; alm disso ele precisa saber que responsabilidade moral no podia ser aplicada a crianas. Acrescentei que, apenas mediante 
um processo de desenvolvimento, um homem, com sua responsabilidade moral, procedia da soma de suas disposies infantis. Expressou, contudo, uma dvida sobre se 
todos os seus maus impulsos se haviam originado daquela fonte. Prometi, porm, prov-lo para ele no decorrer do tratamento.
         Prosseguiu, aduzindo o fato de sua doena haver ficado to enormemente intensificada desde a morte de seu pai; e eu lhe disse que concordava com ele, desde 
que eu encarava seu sentimento pela morte do pai como a fonte principal da intensidade da sua doena. Digamos que seu sentimento encontrara uma expresso patolgica 
em sua doena. Disse-lhe que, enquanto um perodo normal de luto duraria de um a dois anos, um perodo patolgico como este duraria indefinidamente.
         
         Isto  tudo quanto sou capaz de relatar do presente caso clnico, de forma detalhada e consecutiva. Coincide toscamente com a parte expositiva do tratamento; 
este durou, no todo, mais de onze meses.
         
         (E) ALGUMAS IDIAS OBSESSIVAS E SUA EXPLICAO
         
         As idias obsessivas, como bem se sabe, tm uma aparncia de no possurem nem motivo nem significao, tal como os sonhos. O primeiro problema  saber 
como lhe dar um sentido e um status na vida mental do indivduo, de modo a torn-las compreensveis e, mesmo, bvias. O problema de traduzi-las pode parecer insolvel, 
mas jamais devemos deixar-nos ser mal orientados por essa iluso. As idias obsessivas mais rudimentares e mais excntricas podem ser esclarecidas, se investigadas 
com suficiente profundidade. A soluo se d ao se levar as idias obsessivas a uma relao temporal com as experincias do paciente, quer dizer, ao se indagar quando 
foi que uma idia obsessiva particular fez sua primeira apario e em que circunstncias externas ela est apta para voltar a ocorrer. Como sucede com tanta freqncia, 
quando uma idia obsessiva no logrou estabelecer-se permanentemente, a tarefa de esclarec-la  correspondentemente simplificada. Podemos convencer-nos facilmente 
de que, uma vez descobertas as interconexes entre uma idia obsessiva e as experincias do paciente, no haver dificuldade de se obter acesso a algo mais, no 
importa o qu, que possa ser enigmtico ou digno de conhecimento na estrutura patolgica, com que estamos lidando - seu significado, o mecanismo de sua origem e 
sua derivao das foras motivadoras preponderantes da mente do paciente.
         Para dar um exemplo sobremodo claro, iniciarei por um dos impulsos suicidas, que, em nosso paciente, ocorriam com tanta freqncia. Esse exemplo j quase 
se analisa por si prprio ao ser narrado. Ele me contou que, certa vez, perdeu algumas semanas de estudo em virtude da ausncia da sua dama: ela havia partido para 
cuidar de sua av, que estava seriamente enferma. No exato momento em que se encontrava em meio a uma dificlima parte de seu trabalho, ocorrera-lhe a seguinte idia: 
`Se voc recebesse a ordem de levar a cabo, na primeira oportunidade, a sua prova, voc deveria tratar de obedec-la. Mas, se lhe ordenassem cortar a garganta com 
uma lmina, o que voc faria?' Imediatamente ficara ciente de que essa ordem j tinha sido dada, e j estava correndo at o aparador, para apanhar a lmina, quando 
pensou: `No, no  to simples assim. Voc tem que sair e matar a velha.' Logo aps, cara no cho, com horror.
         Nesse exemplo, a relao entre a idia compulsiva e a vida do paciente est contida nas palavras iniciais de sua histria. Sua dama estava ausente, enquanto 
ele trabalhava arduamente para um exame, de modo a conseguir mais cedo a possibilidade de estabelecer uma unio com ela. Enquanto trabalhava foi acometido por um 
anseio pela dama ausente, e pensou na razo da ausncia dela. Agora acabava de ser acometido por algo que seria provavelmente uma espcie de sentimento de averso 
contra a av de sua dama, caso ele tivesse sido um homem normal: `Por que a velha deveria ficar doente, justamente agora que anseio por ela, com tanto temor?' Temos 
de supor que algo semelhante, contudo bem intenso, atravessou a mente de nosso paciente - um acometimento inconsciente de raiva que se coadunaria com seu anseio 
e poderia encontrar expresso na seguinte exclamao: `Como eu gostaria de sair e matar aquela velha mulher por haver-me roubado o meu amor!' Ao que se seguiu a 
ordem de `Mate-se a si prprio, como punio dessas suas paixes selvagens e assassinas!' Todo esse processo introduziu-se na conscincia do obsessivo paciente, 
acompanhando-se do mais violento afeto e numa ordem inversa: em primeiro lugar veio a ordem de punio, e a seguir, enfim, a meno da culpa. No me  possvel achar 
que essa tentativa de explicao parecesse forada, ou que envolvesse elementos hipotticos vrios.
         Um outro impulso, que se pode descrever como indiretamente suicida, e de durao mais longa, no se podia explicar com tanta facilidade assim, de vez que 
a relao deste com as experincias do paciente conseguiu ocultar-se por trs de uma daquelas associaes puramente externas, que parecem to chocantes  nossa conscincia. 
Certo dia, estando fora, em suas frias de vero, ocorreu-lhe de sbito a idia de que ele era muito gordo [em alemo`dick'], e de que ele teria de ficar mais magro. 
Comeou, pois, a levantar-se da mesa antes de servirem a sobremesa e apressar-se pela rua, sem o chapu, sob o calor ofuscante do sol de agosto; a seguir, tambm, 
subiu com pressa uma montanha, at parar, forado e vencido, pela transpirao. Certa poca, suas intenes suicidas de fato emergiram, sem disfarce, por detrs 
dessa mania de emagrecer: quando se encontrava  beira de um precipcio profundo, recebeu a ordem de saltar, o que sem dvida significaria sua morte. Nosso paciente 
no seria capaz de imaginar explicao alguma para esse comportamento obsessivo sem nenhum sentido, at que, de repente, ocorreu-lhe que, ao mesmo tempo, tambm 
a sua dama estava veraneando na companhia de um primo ingls, que era muito solcito para com ela, e de quem o paciente estava muito enciumado. O nome desse seu 
primo era Richard, e, conforme o uso coloquial na Inglaterra, tinha o apelido de Dick. Nosso paciente, ento havia desejado matar o Dick; tinha estado muito mais 
enciumado e enraivecido em relao a ele do que podia admitir para si mesmo, e isso foi a razo por que se impusera esse emagrecimento mediante uma punio. Esse 
impulso obsessivo pode parecer bem diferente da ordem diretamente suicida acima discutida, mas ambos possuam em comum um importante aspecto. Isso porque ambos emergiram 
como reaes a um sentimento de raiva muito grande, inacessvel  conscincia do paciente, e dirigido contra algum que surgira como uma interferncia no curso de 
seu amor. 
         Outras obsesses do paciente, no entanto, apesar de tambm estarem centradas em sua dama, mostravam um mecanismo diverso e deviam sua origem a um instinto 
diferente. Alm de sua mania de emagrecer, ele construiu toda uma srie de outras atividades obsessivas, no perodo em que a dama veraneava, atividades essas ao 
menos em parte relacionadas diretamente com ela. Certo dia, passeando de barco em companhia dela, soprava um fortssimo vento, e ele teve de obrig-la a pr o gorro 
dele, pois se formulara em sua mente a ordem que nada deveria acontecer a ela. Isto era uma espcie de obsesso de proteger, e teve outros efeitos alm deste. Em 
outra ocasio, durante uma tempestade, enquanto estavam sentados juntos, ele ficou obcecado, e no era capaz de saber a razo, com a necessidade de contar at quarenta, 
ou cinqenta, no intervalo entre um raio e o trovo que o seguisse. No dia em que ela devia partir, ele bateu com o p numa pedra da estrada, e foi obrigado a afast-la 
do caminho, pondo-a  beira da estrada, pois lhe veio a idia de que o carro dela iria passar, dentro de poucas horas, pela mesma estrada e poderia acidentar-se 
nessa pedra. Contudo, minutos depois, pensou que era um absurdo, e foi obrigado a voltar e restituir a pedra  sua posio original, no meio da estrada. Depois que 
ela partiu, ele se viu presa de uma obsesso por compreenso, que o tornou uma praga para todos os seus amigos. Forou-se a compreender o significado exato de cada 
slaba que lhe dirigiam, como se, de outro modo, estivesse perdendo um precioso tesouro. Conseqentemente, detinha-se interrogando: `O que voc acabou de dizer?', 
e aps a frase ter sido repetida, ele no conseguia pensar que ela soara diferente ao ser dita pela primeira vez, e ele, assim, ficava insatisfeito.
         Todos esses produtos de sua doena dependiam de uma determinada circunstncia que, naquela poca, regia as suas relaes com a dama. Em Viena, ao despedir-se 
dela, antes das frias de vero, ela dissera algo que ele interpretou como um desejo, da parte dela, de rejeit-lo pelo resto de sua presena; e isso deixou-o muito 
triste. Durante a permanncia dela no balnerio de vero, houvera oportunidade de debater a questo, e a dama fora capaz de provar-lhe que essas suas palavras, que 
ele interpretara mal, encerravam, pelo contrrio, a inteno de poup-lo de parecer uma pessoa ridcula. Isso fez com que ele se sentisse de novo muito feliz. A 
mais clara aluso a esse incidente estava encerrada em sua obsesso por compreenso. Foi elaborada como se ele estivesse dizendo a si mesmo: `Aps uma experincia 
dessas, voc jamais dever interpretar mal de novo a quem quer que seja, se  que voc deseja escapar a uma desnecessria aflio.' Tal resoluo no era meramente 
uma generalizao de uma nica ocasio, mas tambm estava deslocada - talvez em virtude da ausncia da dama - de um indivduo superestimado a todos os outros indivduos 
inferiores. E a obsesso no pode ter emergido unicamente de sua insatisfao pela explicao que ela lhe dera; deve ter exprimido algo mais alm disso, de vez que 
redundou em uma dvida insatisfatria quanto a saber se aquilo que ele ouvira fora repetido corretamente.
         As outras ordens compulsivas mencionadas nos deixam no rastro desse outro elemento. Sua obsesso de proteger s pode ter sido uma reao - como uma expresso 
de remorso e penitncia - a um impulso contrrio, ou seja, hostil, que ele deve ter sentido com relao a sua dama, antes do claircissement de ambos. Sua obsesso 
de contar, durante a tempestade, pode ser interpretada, com o auxlio de algum material fornecido por ele, como uma medida defensiva contra temores de que algum 
estivesse em perigo de morte. A anlise das obsesses que consideramos em primeiro lugar j nos aconselhou a encarar os impulsos hostis do nosso paciente como particularmente 
violentos e da natureza de uma raiva irracional; e agora achamos que, mesmo depois da reconciliao desses impulsos, sua raiva pela dama continuava a desempenhar 
um papel na formao de suas obsesses. Sua mania de dvida com relao a saber se ele havia ouvido corretamente era expresso da dvida que ainda espreitava em 
sua mente, se de fato ele dessa vez havia entendido corretamente a sua dama e se estava justificado por considerar as palavras dela como prova de sua afeio por 
ele. A dvida contida em sua obsesso por compreenso era uma dvida de seu (dela) amor. No peito do amante enfurecia-se a batalha entre amor e dio, e o objeto 
desses dois sentimentos era a nica e mesma pessoa. A batalha era representada numa forma plstica por seu ato compulsivo e simblico de remover a pedra da estrada 
pela qual dama iria passar, desfazendo depois esse ato de amor mediante a restituio da pedra ao lugar onde estivera, de modo que o carro viesse a acidentar-se 
nela e a dama se ferisse. No estaremos fazendo um julgamento correto dessa segunda parte do ato compulsivo se o encarssemos,  primeira vista, apenas como um repdio 
crtico de uma ao patolgica, embora seja uma parte que foi determinada por um motivo contrrio quele que produziu a primeira parte.
         Atos compulsivos como este, em dois estdios sucessivos, quando o segundo neutraliza o primeiro, constituem uma tpica ocorrncia nas neuroses obsessivas. 
Naturalmente a conscincia do paciente interpreta-os mal e formula um conjunto de motivaes secundrias que os explica - em suma, que os racionaliza. (Cf. Jones, 
1908.) Sua real significao, contudo, reside no fato de serem eles representao de um conflito entre dois impulsos opostos de fora aproximadamente igual; e, at 
agora, tenho achado, invariavelmente, que esta se trata de uma oposio entre o amor e o dio. Atos compulsivos dessa natureza tm, sob o ponto de vista terico, 
um interesse peculiar, de vez que nos mostram uma nova modalidade de mtodo de construo de sintomas. Na histeria o que ocorre normalmente  chegar-se a uma conciliao, 
que capacita ambas as tendncias opostas a se expressarem simultaneamente - o que  como matar dois coelhos de uma s cajadada; ao passo que aqui cada uma das duas 
tendncias opostas  satisfeita, isoladamente, primeiro uma e depois a outra, embora naturalmente se faa uma tentativa de estabelecer determinado tipo de conexo 
lgica (muitas vezes desafiando toda lgica) entre os antagonistas.
         
         O conflito entre o amor e o dio revelou-se em nosso paciente tambm por meio de outros sinais. Na ocasio em que revivesceu a sua piedade [ver em [1] e 
[2]], ele elaborou para si preces que exigiam cada vez mais tempo e que chegavam a durar hora e meia. A razo disso foi que ele achou, como um Balaam ao inverso, 
que alguma coisa invariavelmente se inseria em suas frases piedosas, vertendo-as ao seu sentido oposto. [Cf. em [1].] Por exemplo, se ele dizia `Deus o proteja', 
um esprito mau imediatamente insinuaria um `no'. Numa dessas ocasies ocorreu-lhe a idia de, em vez disso, amaldioar, pois nesse caso, pensava, seguramente se 
insinuariam as palavras contrrias. Sua inteno original, que fora reprimida por sua prece, forava uma sada atravs dessa sua ltima idia. No final, encontrou 
sada para a sua dificuldade deixando de lado as preces e substituindo-as por uma pequena frmula forjada pelas letras ou slabas iniciais de diversas preces. Recitava 
ento essa frmula com tanta rapidez que nada poderia intrometer-se nela. [Ver em [1].]
         Certa vez, trouxe-me um sonho que representava o mesmo conflito com relao a sua transferncia para o mdico. Sonhou que minha me havia morrido; ele estava 
ansioso por prestar-me suas condolncias, mas tinha receio de que, se o fizesse, poderia ele irromper em uma risada inoportuna, como fizera repetidas vezes, no passado, 
em ocasies idnticas. Por conseguinte, preferiu deixar um carto para mim, onde se lia `p.c.'; mas ao escrev-lo, as letras mudaram para `p.f.' 
         O mtuo antagonismo entre os seus sentimentos em relao a sua dama era forte demais para ter escapado completamente  sua percepo consciente, embora 
possamos concluir das obsesses nas quais o antagonismo se manifestara que ele no avaliava corretamente a profundidade de seus impulsos negativos. A dama havia 
recusado sua primeira proposta, dez anos atrs. Desde ento, ele tinha conhecimento de que passara por perodos alternados em que ora ele acreditava que a amava 
intensamente, ora se sentia indiferente com relao a ela. No decorrer do tratamento, sempre que se deparava com a necessidade de dar algum passo que o aproximasse 
mais de um final bem-sucedido para seu namoro, habitualmente sua resistncia comeava a assumir a forma da convico de que, afinal de contas, ele no ligava muito 
para ela - embora, em verdade, essa resistncia costumasse ser logo vencida. Certa vez, estando ela acamada, com uma sria enfermidade, ficando ele extremamente 
preocupado com ela, perpassou-lhe pela mente, quando olhava para ela, um desejo de que ela continuasse deitada assim, para sempre. Explicou essa idia mediante um 
sofisma bastante engenhoso: asseverando que apenas desejara que ela estivesse permanentemente doente, de modo que ele pudesse livrar-se de seu medo intolervel de 
que ela fosse acometida por uma repetida sucesso de crises! De vez em quando costumava povoar sua imaginao com devaneios, que ele prprio identificava como `fantasias 
de vingana', e se sentia envergonhado com isso. Por exemplo, acreditando que a dama dava grande importncia  posio social de um certo pretendente, ele construiu 
uma fantasia na qual ela estava casada com um homem daquela espcie, que ocupava um cargo pblico. Ele prprio entrava, ento, no mesmo departamento, onde subiu 
de posio com muito mais rapidez do que seu marido, tornando-se este, enfim, seu subordinado. Um dia - dando-se prosseguimento a sua fantasia - esse homem cometia 
determinado ato desonesto. A dama atirava-se de joelhos a seus ps e lhe implorava que salvasse seu marido. Ele prometia faz-lo, e lhe comunicava que fora apenas 
por amor a ela que havia assumido o cargo, de vez que havia previsto que um momento como este iria chegar; e agora, salvo o seu marido, estava cumprida sua misso 
e ele renunciaria ao seu posto.
         Construiu outras fantasias nas quais prestou  dama um grande servio, sem que ela soubesse que era ele quem o fazia. Nelas, ele reconhecia apenas a sua 
afeio, sem avaliar suficientemente a origem e a finalidade de sua magnanimidade, que visava a reprimir sua sede de vingana, segundo o modelo do Conde de Monte 
Cristo, de Dumas. Ademais, admitiu que por vezes era acometido por impulsos bem ntidos de causar algum agravo  dama a quem admirava. Esses impulsos, em sua maior 
parte, ficavam temporariamente inativos em presena da dama, e somente apareciam em sua ausncia.
         
         (F) A CAUSA PRECIPITADORA DA DOENA
         
         Certo dia, o paciente mencionou, de passagem, um evento que eu no podia deixar de reconhecer como a causa que precipitou sua doena, ou, pelo menos, como 
o motivo imediato da crise iniciada h uns seis anos atrs, e que persistira at aquele dia. Ele prprio no tinha noo alguma de que havia apresentado algo muito 
importante; no era capaz de se lembrar de haver ligado, alguma vez, importncia ao evento, do qual, ademais, jamais se esquecera. Tal atitude de sua parte requer 
alguma considerao terica.
         Na histeria, via de regra, as causas precipitadoras da doena cedem lugar  amnsia, como  tambm o caso das experincias infantis, com cujo auxlio as 
causas precipitadoras conseguem transformar em sintomas sua energia afetiva. E a amnsia, quando no pode ser completa, submete a causa precipitadora traumtica 
recente a um processo de eroso e, ao menos, dela subtrai seus componentes mais importantes. Nessa amnsia percebemos a evidncia da represso que teve lugar. O 
caso  diferente nas neuroses obsessivas. As precondies infantis da neurose podem ser colhidas pela amnsia, embora esta, muitas vezes, seja parcial; mas, pelo 
contrrio, os motivos imediatos da doena so retidos na memria. A represso utiliza-se de outro mecanismo, que, na realidade,  mais simples. O trauma, em lugar 
de ser esquecido,  destitudo de sua catexia afetiva, de modo que, na conscincia, nada mais resta seno o seu contedo ideativo, o qual  inteiramente desinteressante 
e considerado sem importncia. A distino entre aquilo que ocorre na histeria e numa neurose obsessiva reside nos processos psicolgicos que nos  possvel reconstruir 
por trs dos fenmenos; o resultado  quase sempre o mesmo, de vez que o contedo mnmico apagado raramente se reproduz e no desempenha papel algum na atividade 
mental do paciente. A fim de estabelecer uma diferenciao entre os dois tipos de represso, temos, a princpio, num caso, que utilizar apenas a certeza do paciente 
de que ele tem a sensao de haver sempre conhecido essa coisa, e, no outro, de t-la esquecido h muito tempo.
         
         Por esse motivo, ocorre, com alguma regularidade, que os neurticos obsessivos, perturbados com autocensuras, mas havendo ligado seus afetos com causas 
errneas, contam tambm ao mdico as causas verdadeiras, sem qualquer desconfiana de que as suas autocensuras ficaram simplesmente separadas delas. Ao relatarem 
um incidente desses, eles, s vezes, acrescentam, com assombro, ou mesmo com certo rasgo de orgulho: 'Mas no  isso que eu penso.' Tal aconteceu no primeiro caso 
de neurose obsessiva que me forneceu uma compreenso interna (insight), h anos atrs, da natureza do seu sofrimento. O paciente, que era funcionrio pblico, estava 
conturbado por inmeras dvidas. Ele era aquele homem cujo ato compulsivo ligado ao galho, no parque de Schnbrunn, eu j havia mencionado [ver em [1]]. Surpreendeu-me 
o fato de as cdulas de florim com as quais pagou suas consultas estarem invariavelmente limpas e lisas. (Isto foi antes de haver na ustria moedas de prata.) Certa 
vez fiz-lhe a observao de que sempre se podia reconhecer um funcionrio do governo pelos florins novssimos que ele retirava da Casa da Moeda, e ento me informou 
que suas notas de florim no eram novas, em absoluto, mas as havia passado a ferro, em casa. Para ele, como explicou, era uma questo de conscincia no passar s 
mos de algum cdulas sujas, de vez que nelas aderiam bactrias patognicas de todos os tipos, que poderiam causar danos ao seu portador. Naquela poca, eu j desconfiava 
vagamente da correlao entre as neuroses e a vida sexual, de modo que, numa outra ocasio, arrisquei-me a perguntar ao paciente qual era sua posio perante esse 
assunto. 'Oh, quanto a isso, tudo bem!', respondeu distrado, 'no tenho problema algum a esse respeito. Desempenho o papel de um velho tio, estimado, em algumas 
famlias de respeito, e ora e outra valho-me de minha posio para convidar alguma jovem para sairmos juntos para um dia de passeio no campo. Ento providencio para 
perdemos o trem, ao partirmos de l, o que nos obriga a passar a noite fora da cidade. Sempre reservo dois quartos, fao as coisas com muito cavalheirismo; porm, 
quando a jovem j est na cama, chego at ela e a masturbo com os dedos.'- 'Mas o senhor no receia causar-lhe algum dano, manipulando os genitais dela com sua mo 
suja?' - Ao que exclamou, perplexo: 'Dano? Como, que dano lhe causaria? Isso jamais causou dano a nenhuma delas, at agora, e todas apreciaram. Algumas j esto 
casadas, e no sofreram absolutamente dano algum.' - Ele levou a mal minha repreenso, e jamais retornou  consulta. Eu, contudo, s poderia encontrar explicao 
do contraste entre suas preocupaes com as cdulas de florim e sua falta de escrpulos por abusar das jovens que se lhe confiavam supondo que o afeto repleto de 
autocensura se tornara deslocado. O objetivo desse deslocamento era bastante bvio: se as suas autocensuras se permitissem permanecer no lugar pertinente a elas, 
ele teria de abandonar determinada forma de gratificao sexual  qual provavelmente fosse compelido por alguns determinantes infantis muito fortes. Portanto, o 
deslocamento lhe favorecia derivar de sua doena uma boa vantagem. 
         Mas devo agora retomar um exame mais detalhado da causa precipitadora da doena de nosso paciente. Sua me foi educada numa famlia saudvel com a qual 
ela se relacionava com certa distncia. Essa famlia administrava uma grande empresa industrial. Seu pai, quando de seu casamento, entrou nesse negcio e, com seu 
casamento, adquiriu uma posio relativamente confortvel. O paciente soube, numa vez que houvera uma zanga entre seus pais (cujo casamento foi extremamente feliz), 
que seu pai, pouco antes de conhecer sua me, cortejara uma humilde jovem sem recursos. Isto, como introduo. Aps a morte de seu pai, a me do paciente, um dia, 
lhe contou que havia discutido com ricos parentes sobre o futuro dele, e que um dos primos seus prontificou-se a permitir-lhe que, ao completar a sua educao, ele 
se casasse com uma de suas filhas; uma relao de negcios com a firma oferecer-lhe-ia brilhantes perspectivas na profisso. Esse plano familiar desencadeou nele 
um conflito relacionado a saber se ele permaneceria fiel  sua amada, a despeito de sua pobreza, ou se seguiria os passos de seu pai e casaria com a linda, rica 
e bem relacionada jovem que lhe haviam predestinado. E resolveu esse conflito, que de fato existia entre seu amor e a persistente influncia dos desejos de seu pai, 
ficando doente; ou melhor, caindo doente evitava a tarefa de resolv-lo na vida real.
         
         A comprovao de que esse ponto de vista era correto reside no fato de que a conseqncia principal de sua doena foi uma obstinada incapacidade para o 
trabalho, permitindo-lhe adiar por anos a concluso de sua educao. Entretanto, os resultados de uma doena dessa natureza nunca so involuntrios; na realidade, 
o que parece ser a conseqncia da doena  a causa ou motivo de ficar doente.
         Conforme era de esperar, a princpio o paciente no aceitou meu esclarecimento do fato. Ele no era capaz de imaginar, segundo disse, que o plano de casamento 
pudesse tido um resultado desses; no exercera nele, na poca, a mnima impresso. No curso posterior do tratamento, porm, ele foi levado forosamente a acreditar 
na verdade de minha suspeita, e isso de uma forma bastante singular. Com o auxlio de uma fantasia de transferncia, vivenciou, como se fosse um fato novo e atual, 
o prprio episdio passado, do qual se havia esquecido ou que apenas lhe passara inconscientemente pela mente. Adveio, ento, no tratamento, um perodo obscuro e 
difcil. Finalmente, aconteceu que ele encontrou, certa vez, uma menina nas escadas de minha casa e imediatamente imaginou que fosse minha filha. Ela lhe agradou, 
e ele imaginou que a nica razo por que eu era agradvel e incrivelmente paciente com ele estava no fato de que eu desejava torn-lo meu genro. Ao mesmo tempo, 
elevava a riqueza e a posio de minha famlia a um nvel que coadunava com o modelo que tinha em mente. Contudo, seu inextinguvel amor pela dama lutava contra 
essa tentao. Aps atravessarmos uma srie das mais severas resistncias e das mais amargas injrias de sua parte, ele no podia mais permanecer cego ao efeito 
esmagador da perfeita analogia entre a fantasia de transferncia e o estado atual de acontecimentos passados. Repetirei um dos sonhos que ele teve nesse perodo, 
para fornecer um exemplo de sua maneira de tratar o assunto. Sonhou que ele via minha filha  sua frente; ela tinha dois pedaos de estrume em lugar dos olhos. Qualquer 
um que compreende a linguagem dos sonhos no encontrar muita dificuldade para traduzir esse sonho; seu significado era: ele se casava com minha filha, no por causa 
de seus 'beaux yeux', mas sim pelo seu dinheiro.
         
         (G) O COMPLEXO PATERNO E A SOLUO DA IDIA DO RATO
         
         Partindo da causa precipitadora da doena do paciente em sua idade adulta, existe um fio que reconduz  sua infncia. Encontrara-se numa situao semelhante 
quela na qual, conforme sabia ou desconfiava, seu pai estivera antes de seu casamento; e assim fora capaz de identificar-se com seu pai. Mas seu falecido pai estava 
envolvido em sua recente crise, ainda de uma forma diferente. O conflito nas razes de sua doena era, em essncia, uma luta entre a persistente influncia dos desejos 
de seu pai e suas prprias inclinaes amorosas. Se levarmos em considerao aquilo que o paciente relatou no decorrer das primeiras horas de seu tratamento, no 
poderemos evitar a suspeita de que essa luta era realmente uma luta antiga e se originara h mais tempo, na infncia do paciente.
         Segundo todas as informaes dadas, o pai de nosso paciente era um homem de excelentes qualidades. Antes de seu casamento, fora um suboficial e, como lembrana 
desse perodo de sua vida, havia mantido uma atitude militar escorreita e um penchant por usar uma linguagem categrica. Ademais dessas virtudes, celebradas, como 
o so, nas lpides dos mortos, ele se distinguia por um cordial senso de humor e amvel tolerncia para com seus companheiros. O fato de que ele pudesse ser uma 
pessoa impetuosa e violenta certamente no estava em desacordo com outras qualidades suas; era, antes, um complemento necessrio dessas ltimas; contudo, ocasionalmente, 
castigava severamente os filhos, quando estes eram novos e travessos. Quando ficaram crescidos, porm, distinguia-se dos outros pais em no procurar enaltecer-se 
com uma sacrossanta autoridade, mas sim compartilhando com eles um conhecimento das pequenas falhas e infortnios de sua vida com afvel sinceridade. Seu filho sem 
dvida no exagerava ao declarar que eles haviam vivido junto como dois bons amigos,  exceo de um nico aspecto (ver em [1]). E, em relao a esse mesmo aspecto, 
no h dvida de que pensamentos a respeito da morte de seu pai ocuparam sua mente, com uma intensidade inabitual e indevida, quando ele era menino (ver em [2]), 
e que tais pensamentos surgiram na trama das idias obsessivas de sua infncia. Ademais, s pode ter sido nessa mesma correlao que ele se tornou capaz de desejar 
a morte de seu pai, a fim de despertar simpatia em determinada menina e fazer com que ela se comportasse de modo mais amvel para com ele (ver em [3]).
         No pode haver dvida de que existia algo, no mbito da sexualidade, que permanecia entre pai e filho, e de que o pai assumira alguma espcie de oposio 
 vida ertica do filho, prematuramente desenvolvida. Muitos anos depois da morte de seu pai, na primeira vez que experimentou as prazerosas sensaes da cpula, 
irrompeu em sua mente uma idia: 'Que maravilha! Por uma coisa assim algum  at capaz de matar o pai!' Isto foi, ao mesmo tempo, um eco e uma elucidao das idias 
obsessivas de sua infncia. Ademais disso, pouco antes de sua morte, seu pai se ops diretamente quilo que, mais tarde, se tornou a paixo dominante de nosso paciente. 
Ele observara que seu filho estava sempre na companhia da dama, e o aconselhou a manter-se distante dela, dizendo ser imprudente de sua parte e que isso s iria 
faz-lo de tolo.
         A esse inatacvel acervo de provas, seremos capazes de acrescentar novos elementos, se voltarmos  histria do lado masturbatrio das atividades sexuais 
do nosso paciente. Existe um conflito entre as opinies de mdicos e de pacientes a respeito desse assunto, o qual at agora no tem sido adequadamente avaliado. 
Os pacientes so todos unnimes na crena de que a masturbao, querem dizer masturbao durante a puberdade,  a raiz e origem de todas as perturbaes. Os mdicos, 
em geral, so incapazes de decidir que linha de pensamento devem seguir; contudo, influenciados pelo conhecimento de que no apenas os neurticos, mas a maioria 
das pessoas normais, atravessam por um perodo de masturbao durante sua puberdade, em sua maioria tendem a repudiar as asseres dos pacientes, achando-as muito 
exageradas. Em minha opinio, os pacientes mais uma vez esto mais prximos de uma viso correta do que os mdicos; pois os pacientes possuem uma vaga noo da verdade, 
ao passo que os mdicos correm o risco de negligenciar um ponto essencial. A tese sustentada pelos pacientes certamente no corresponde aos fatos, no sentido em 
que eles prprios a interpretam, ou seja, de que a masturbao na puberdade (que se pode descrever, aproximadamente, como uma ocorrncia tpica)  responsvel por 
todos os distrbios neurticos. Sua tese requer uma interpretao. A masturbao da puberdade, na realidade, nada mais  do que um revivescimento da masturbao 
da tenra infncia, um assunto que at hoje tem sido invariavelmente desprezado. A masturbao infantil atinge uma espcie de clmax, via de regra, entre as idades 
de trs e quatro ou cinco anos; e constitui a mais evidente expresso da constituio sexual de uma criana, na qual se deve buscar a etiologia das neuroses subseqentes. 
Logo, sob esse disfarce, os pacientes ficam atribuindo a culpa por suas doenas  sua sexualidade infantil, e tm toda razo de faz-lo. Por outro lado, o problema 
da masturbao torna-se insolvel se tentarmos trat-lo como uma unidade clnica e esquecermos que pode representar a descarga de toda a variedade de componente 
sexual e de toda espcie de fantasia  qual tais componentes possam dar origem. Os efeitos prejudiciais da masturbao so autnomos - ou seja, determinados por 
sua prpria natureza - apenas em um bem pequeno grau. So, em sua essncia, meramente parte e parcela da significao patognica da vida sexual, como um todo, do 
indivduo. O fato de muitas pessoas poderem tolerar a masturbao - ou seja, determinada poro desse ato - sem prejuzo, mostra apenas que a sua constituio sexual 
e o curso de evoluo de sua vida sexual foram de tal forma a permitir-lhes exercer a funo sexual dentro dos limites daquilo que  culturalmente permissvel; ao 
passo que outras pessoas, de vez que sua constituio sexual foi menos favorvel, ou perturbado o seu desenvolvimento, caem doentes em conseqncia de sua sexualidade 
- isto , elas no conseguem alcanar a necessria supresso ou sublimao de seus componentes sexuais sem recorrerem a inibies ou substituies.
         O comportamento desse nosso paciente, no que concerne a masturbao, foi realmente fora do comum. Ele no a praticava durante a puberdade [digno de meno, 
em todos os sentidos (ver em [1])], e, portanto, de conformidade com determinadas perspectivas, poderia-se esperar que ele ficasse livre de neurose. Por outro lado, 
um impulso em direo a atividades masturbatrias acometeu-lhe quando tinha vinte e um anos de idade, pouco depois da morte de seu pai. Sentia-se muitssimo envergonhado 
de si mesmo cada vez que se gratificava com esse ato, e logo abjurava do hbito. A partir daquela poca este somente reaparecia em ocasies raras e extraordinrias. 
Contou-me que era provocado quando vivia momentos de especial beleza ou quando lia belssimas passagens. Por exemplo, certa vez ocorreu numa adorvel tarde de vero, 
quando, estando no centro de Viena, ouvia um postilho tocando corneta maravilhosamente, at que um policial o impediu, porque tocar corneta no centro da cidade 
era proibido. Noutra ocasio, aconteceu quando ele lia em Dichtung und Wahrheit [III, 11] como o jovem Goethe se libertara, numa exploso de ternura dos efeitos 
de uma maldio que uma amante ciumenta havia conjurado contra a prxima mulher que lhe beijasse nos lbios, depois dela; por muito tempo sofrera, quase de modo 
supersticioso, a maldio que o mantinha  distncia; porm, agora, acabava de romper os grilhes e beijava repetidamente seu amor com alegria. 
         
         Ao paciente no parecia nada estranho que ele fosse impelido a masturbar-se exatamente em belas e enaltecedoras ocasies como estas. Contudo, eu no podia 
deixar de apontar que essas duas ocasies tinham algo em comum: uma proibio e o desafio a uma ordem.
         Precisamos considerar tambm, nessa mesma conexo, seu curioso comportamento numa vez em que ele estudava para um exame e brincava com sua fantasia favorita 
de que seu pai ainda estava vivo e a qualquer momento poderia reaparecer [ver em [1]]. Costumava fazer com que suas horas de estudo fossem to tardias quanto possvel, 
 noite. Entre a meia-noite e uma hora ele interromperia o seu estudo e abriria a porta da frente do apartamento, como se seu pai estivesse do lado de fora; em seguida, 
regressando ao hall, ele tiraria para fora o seu pnis e olharia para ele no espelho. Esse comportamento maluco torna-se inteligvel se presumirmos que ele agia 
como se esperasse uma visita de seu pai  hora em que os fantasmas esto circulando. Em geral tinha sido preguioso com seus estudos quando seu pai vivia, e isto 
constitura, com freqncia, uma causa de aborrecimento para seu pai. Agora que ele retornava como um fantasma, devia ficar muito contente ao encontrar seu filho 
estudando arduamente. Mas era impossvel que seu pai gostasse da outra parte do seu comportamento; nisto, portanto, estava desafiando-o. Assim, com um singular e 
ininteligvel ato obsessivo, expressava os dois lados de sua relao com seu pai, de modo idntico ao que fez, subseqentemente, com respeito a sua dama por meio 
de seu ato obsessivo com a pedra [ver em [1]].
         Partindo dessas indicaes e de outros dados de natureza semelhante, arrisquei-me a apresentar uma construo segundo a qual ele, quando criana de menos 
de seis anos, fora culpado por alguma m conduta relacionada com a masturbao, tendo sido duramente castigado por seu pai, por isso. Essa punio, consoante minha 
hiptese, pusera, era verdade, um fim em sua masturbao; contudo, por outro lado, deixara atrs de si um rancor inextinguvel pelo seu pai e o fixara para sempre 
em seu papel de perturbador do gozo sexual do paciente. Para minha grande surpresa, o paciente ento me comunicou que sua me repetidamente lhe descrevera um acontecimento 
dessa natureza, que datava de sua tenra infncia e que, evidentemente, no fugira  lembrana de sua me em virtude de suas surpreendentes conseqncias. Ele prprio, 
contudo, no tinha recordao de que coisa era. Segue-se a narrativa. Quando ele era muito pequeno (foi possvel estabelecer a data com maior exatido, devido  
sua coincidncia com a doena fatal de uma irm mais velha [ver em [1]]), ele praticara uma travessura, pela qual seu pai lhe batera. O pequeno foi tomado de terrvel 
raiva e xingara seu pai ainda enquanto apanhava. Entretanto, como no conhecia improprios, chamara-o de todos os nomes de objetos comuns que lhe vinham  cabea 
e gritara: 'Sua lmpada! Sua toalha! Seu prato!', e assim por diante. Seu pai, abalado com uma tal exploso de fria natural, parou de lhe bater, e exclamara: 'O 
menino ou vai ser um grande homem, ou um grande criminoso!' O paciente acreditava que a cena causara uma impresso permanente tanto em si prprio como em seu pai. 
Ele disse que seu pai jamais bateu nele de novo; e tambm atribuiu a essa experincia parte da mudana que ocorreu em seu prprio carter. A partir daquela poca, 
tornou-se um covarde [ver em [1]], por medo da violncia de sua prpria raiva. Alis, por toda a sua vida, teve terrvel medo de pancadas, e costumava agachar-se 
e esconder-se, cheio de terror e indignao, quando um de seus irmos ou irms era espancado.
         Subseqentemente, o paciente indagou de novo sua me a esse respeito. Ela confirmou a histria, acrescentando que, na poca, ele tinha entre trs e quatro 
anos de idade e que lhe haviam dado o castigo porque ele havia mordido algum. Ela no era capaz de se lembrar de mais detalhes, exceto uma vaga idia de que a pessoa 
a quem o pequeno havia ferido talvez tivesse sido a sua bab. No relato de sua me no se cogitava de que sua ao m fosse de natureza sexual.
         
         Uma discusso a respeito dessa cena da infncia encontra-se na nota de rodap, e aqui anotarei apenas que a emergncia dela abalou, pela primeira vez, o 
paciente em sua recusa a acreditar que em algum perodo pr-histrico de sua infncia tivesse sido tomado de fria (que, a seguir, se tornara latente) contra o pai, 
a quem amava tanto. Devo confessar minha expectativa de que isso tivesse causado maior efeito, de vez que o incidente lhe fora tantas vezes descrito - at mesmo 
pelo prprio pai -, que no poderia haver dvidas quanto  sua realidade objetiva. Entretanto, com aquela capacidade de ser ilgico que jamais deixa de desnortear 
uma dentre essas pessoas to sumamente inteligentes, como o so os neurticos obsessivos, ele continuou insistindo, contra o valor comprobatrio dessa histria, 
no fato de que ele mesmo no conseguia lembrar da cena. Assim, somente pelo caminho doloroso da transferncia  que foi capaz de se convencer de que sua relao 
com o pai realmente carecia da postulao desse complemento inconsciente. As coisas atingiram um ponto em que, em seus sonhos, em suas fantasias despertas e em suas 
associaes, ele comeou a acumular os mais grosseiros e indecorosos improprios contra mim e minha famlia embora em suas aes deliberadas jamais me tratasse de 
outra forma seno com o maior respeito. Seu comportamento, enquanto me repetia esses insultos, era de um homem em desespero. 'Como pode um cavalheiro como o senhor', 
ele costumava perguntar, 'deixar-se xingar desse modo por um sujeito baixo e -toa como eu? O senhor devia  me enxotar,  o que mereo.' Enquanto assim falava, 
costumava levantar-se do div e circular pela sala - um hbito que a princpio explicou como sendo devido a uma questo de tica: ele no podia chegar, como disse, 
a proferir coisas to horrveis estando ali deitado, to comodamente. Logo, porm, ele prprio encontrou uma explicao mais plausvel, ou seja, que estava evitando 
a minha proximidade por medo de que eu lhe desse uma bofetada. Se ficava no div, comportava-se como algum em desesperado terror que tentasse se salvar de castigos 
terrivelmente violentos; costumava enterrar a cabea nas mos, cobrir o rosto com o brao, saltar de repente e correr, com o semblante desfigurado de dor etc. Recordou 
que seu pai tivera um temperamento passional e, s vezes, em seu carter violento, no soubera quando parar. Assim, paulatinamente, nessa escola de sofrimento, o 
paciente logrou o sentimento de convico que lhe faltava - embora a uma pessoa de fora a verdade fosse evidente quase por si mesma. 
         Agora estava aberto o caminho para a soluo de sua idia do rato. O tratamento atingiu seu ponto crtico, e boa quantidade de informaes materiais, retidas 
at ento, tornou-se disponvel, ficando assim possvel reconstruir a concatenao completa dos eventos.
         Em minha descrio, irei, como j disse, contentar-me com o resumo mais sucinto possvel das circunstncias. Obviamente, o primeiro problema a resolver 
era saber por que as duas falas do capito tcheco - sua histria do rato [ver em [1]] e seu pedido ao paciente para que ele pagasse ao Tenente A. [ver em [2]] - 
tinham exercido um tal efeito de agitao sobre ele e provocado reaes to violentamente patolgicas. A suposio era que se tratava de uma questo de 'sensibilidade 
complexiva' e que as falas tivessem um efeito desagradvel em determinados pontos hiperestticos em seu inconsciente. E o fato confirmou-se. Como sempre acontecia 
com o paciente, no que concernia a assuntos militares, ele estivera em um estado de identificao inconsciente com seu pai, que enfrentara um servio militar de 
muitos anos [ver em [1]] e retivera muitas histrias do seu tempo de soldado. Agora, acontecia, por casualidade - pois a casualidade pode desempenhar um papel na 
formao de um sintoma, do mesmo modo como o fraseado pode ajudar na formao de um chiste -, que uma das pequenas aventuras de seu pai tinha um importante elemento 
em comum com o pedido do capito. Seu pai, na qualidade de suboficial, controlava uma pequena soma de dinheiro, e, certa ocasio, perdera-o num jogo de cartas. (Portanto, 
ele fora um 'Spielratte'.) Teria ficado em m situao se um de seus camaradas no lhe tivesse adiantado a importncia. Depois que deixou o exrcito e estando em 
boa situao financeira, tentara encontrar esse amigo em necessidade, de modo a reembolsar-lhe o dinheiro, mas no o conseguira localizar. O paciente estava inseguro 
quanto a saber se ele, alguma vez, conseguira devolver o dinheiro. A recordao desse pecado da juventude de seu pai era-lhe penosa, pois, malgrado as aparncias, 
seu inconsciente estava repleto de crticas hostis ao carter de seu pai. As palavras do capito, 'Voc dever reembolsar ao Tenente A. os 3.80 kronen', soaram ao 
seus ouvidos como uma aluso a essa dvida no liquidada de seu pai.
         Entretanto, a informao de que a jovem dama da agncia postal de Z......... havia, ela mesma, pago as taxas pelo pacote, com uma observao lisonjeira 
a respeito dele prprio [ver em [1]], intensificara sua identificao com seu pai em sua direo relativamente diferente. Nesse estdio da anlise, ele apresentou 
algumas informaes novas, como a de que o senhorio da hospedaria na pequena localidade onde ficava a agncia postal tinha uma linda filha. Ela estivera positivamente 
encorajando o jovem oficial, de modo que ele pensou em voltar l depois de terminadas as manobras, e tentar sua sorte com ela. Agora, todavia, tinha ela uma rival 
na figura da jovem dama da agncia postal. Como seu pai, na narrativa feita de seu casamento [ver em [1]], ele agora podia permitir-se hesitar quanto a qual das 
duas ele concederia seus favores, aps concludo seu servio militar. Podemos imediatamente verificar que sua inslita indeciso quanto a saber se viajaria a Viena 
ou regressaria ao lugar onde estava a agncia postal, bem como a constante tentao que sentia de voltar enquanto viajava (ver em [1]), no eram assim to disparatadas, 
como nos pareciam em princpio. Para sua mente consciente, a atrao exercida sobre ele por Z........., o lugar onde ficava a agncia postal, explicava-se pela necessidade 
de ver o Tenente A. e de cumprir o juramento com sua ajuda. Na realidade, contudo, o que o estava atraindo era a jovem da agncia postal, e o tenente era simplesmente 
um bom substituto para ela, de vez que havia morado na mesma localidade e se havia incumbido do servio postal militar. Subseqentemente, ouvindo que no era o Tenente 
A., mas sim outro oficial, B., quem estivera a servio na agncia postal naquele dia [ver em [1]], tambm o incluiu em sua associao. E assim foi capaz de reproduzir 
em seus delrios com relao aos dois oficiais a hesitao que sentia entre as duas jovens to amavelmente inclinadas para ele.
         
         Na elucidao dos efeitos produzidos pela histria do rato, narrada pelo capito,  preciso acompanhar mais de perto o curso da anlise. O paciente comeou 
a elaborar grande volume de material associativo, o qual, contudo, no esclareceu as circunstncias nas quais se havia dado a formao de sua obsesso. A idia da 
punio realizada por meio de ratos atuara como estmulo a muitos de seus instintos e evocara um conjunto de recordaes; de sorte que, no curto intervalo entre 
a histria do capito e seu pedido para reembolsar o dinheiro, os ratos tomaram uma srie de significados simblicos aos quais outros, recentes, se foram acrescentando, 
durante o perodo que se seguiu. 
         
         
         Fig. 5
         
         Devo confessar que posso apenas fornecer um relato muito incompleto de toda a situao. Aquilo que a punio com ratos nele incitou, mais do que qualquer 
outra coisa, foi o seu erotismo anal, que desempenhara importante papel em sua infncia e se mantivera ativo, por muitos anos, por via de uma constante irritao 
sentida por vermes. Desse modo, os ratos passaram a adquirir o significado de 'dinheiro'. O paciente deu uma indicao dessa conexo reagindo  palavra 'Ratten' 
['ratos'] com a associao 'Raten' ['prestaes']. Em seus delrios obsessivos ele inventou uma espcie de dinheiro regular como moeda-rato. Por exemplo, ao responder 
a uma pergunta, disse-lhe o valor de meu honorrio por uma hora de tratamento; ele disse para si prprio (segundo eu soube, seis meses mais tarde): 'Tantos florins, 
tantos ratos'. Paulatinamente traduziu para a sua lngua o complexo inteiro de juros monetrios centrados em torno do legado que lhe daria o pai; isso quer dizer 
que todas as suas idias correlacionadas com aquele assunto se reportavam, por intermdio da ponte verbal 'Raten-Ratten',  sua vida obsessiva e caam sob o domnio 
de seu inconsciente. Ademais, o pedido que lhe fizera o capito, para reembolsar as despesas relativas ao pacote, serviu para fortalecer a significao monetria 
de ratos, mediante outra ponte verbal, 'Spielratte', que reconduziu  dvida contrada por seu pai no jogo [ver em [1]].
         O paciente, todavia, estava tambm familiarizado com o fato de que os ratos so portadores de perigosas doenas contagiosas; portanto, ele podia empreg-los 
como smbolos de seu pavor (bastante justificvel, no exrcito) de uma infeco sifiltica. Esse pavor ocultava todas as espcies de dvidas relativamente ao tipo 
de vida que seu pai levara durante o tempo de seu servio militar. Por outro lado, em um sentido diferente, o prprio pnis  um portador de infeco sifiltica; 
dessa forma, ele podia considerar o rato como um rgo sexual masculino. Havia uma outra designao a ser encarada desse modo, de vez que um pnis (mormente o pnis 
de uma criana) pode ser facilmente comparado com um verme, e a histria do capito fora a respeito de ratos que se enfiavam no nus de algum exatamente como as 
grandes lombrigas lhe fizeram quando era criana. Assim, a significao de ratos como pnis baseava-se, uma vez mais, em erotismo anal. E, alm disso, o rato  um 
bicho sujo, que come excremento e vive em esgotos. Talvez seja desnecessrio mostrar em que escala uma extenso do delrio de ratos se tornou possvel em virtude 
desse novo significado. Por exemplo, 'Tantos ratos, tantos florins' poderia valer como uma caracterizao excelente de determinada profisso feminina que ele detestava 
em particular. Por outro lado, certamente no h que encarar com indiferena o fato de que a substituio de um pnis por um rato, na histria do capito, resultasse 
numa situao de relao sexual per anum, que no podia deixar de ser para ele particularmente revoltante quando em conexo com seu pai e com a mulher que ele amava. 
E quando consideramos que a mesma situao foi reproduzida na ameaa compulsiva formada em sua mente, depois de o capito haver feito o seu pedido [ver em [1]], 
forosamente nos lembraremos de algumas maldies em uso entre os eslavos do sul. Ademais disso, todo esse material (e outros mais) foi entretecido nas discusses 
sobre ratos por trs da associao encobridora 'heiraten' ['casar'].
         A histria da punio com ratos, conforme nos mostrou o prprio relato do paciente acerca do assunto e sua expresso fisionmica quando me repetia a histria, 
inflamara todos os seus impulsos, precocemente suprimidos, de crueldade, tanto egosta como sexual. Contudo, malgrado todo esse rico material, no ficou esclarecido 
o significado dessa idia obsessiva, at que, um dia, emergiu na anlise a Mulher-Rato de O Pequeno Eyolf, de Ibsen, e foi impossvel evitar a inferncia de que 
em muitas das formas assumidas pelos seus delrios obsessivos os ratos tinham ainda outro significado, ou seja, o de crianas. Investigando acerca da origem desse 
novo significado, imediatamente deparei com algumas das suas razes mais primitivas e importantes. Certa vez, visitando o tmulo de seu pai, o paciente vira um grande 
bicho, que ele imaginou ser um rato, passando em carreira pelo tmulo. Ele sups que o bicho tivesse, na realidade, sado do tmulo de seu pai, e tinha acabado de 
devorar uma parte de seu cadver. A noo a respeito de um rato est inseparavelmente comprometida com o fato de que este possui dentes afiados, com os quais ri 
e morde. Os ratos, contudo, no podem ter dentes to afiados, ser devoradores e sujos impunemente: so cruelmente perseguidos e impiedosamente mortos pelos homens, 
como o paciente muitas vezes observara com grande terror. Com freqncia havia-se apiedado das pobres criaturas. Ele prprio, porm, tinha sido um sujeitinho asqueroso 
e sujo, sempre pronto a morder as pessoas quando enfurecido, e fora assustadoramente punido por t-lo feito [ver em [1]].  bem verdade que ele podia ver no rato 
'uma imagem viva de si mesmo'. Foi quase como se o prprio destino, quando o capito lhe contou a sua histria, o estivesse submetendo a um teste de associao: 
o destino lhe apresentara, em desafio, uma 'palavra-estmulo complexa' [ver em [2]], e ele reagira com sua idia obsessiva.
         Assim, de acordo com as suas mais remotas e importantes experincias, os ratos eram as crianas. E, a essa altura, apresentou uma informao que ele havia 
mantido longe de seu contexto por bastante tempo, mas que agora explicava plenamente o interesse que ele estava fadado a ter por crianas. A dama, de quem ele fora 
admirador por tantos anos, mas com quem no fora capaz de decidir a casar-se, estava condenada  esterilidade em virtude de uma operao ginecolgica que envolvera 
a extirpao dos ovrios. De fato isto fora, de vez que ele gostava extraordinariamente de crianas, o motivo principal de sua hesitao.
         Somente ento  que se tornou possvel compreender o inexplicvel processo pelo qual a sua idia obsessiva se formara. Com o auxlio de nosso conhecimento 
acerca das teorias sexuais da infncia e do simbolismo (adquirido, como o foi, a partir de interpretao de sonhos) tudo pode ser traduzido e adquirir um significado. 
Na parada que fizeram  tarde (durante a qual ele perdera o seu pince-nez), quando o capito lhe contara sobre a punio com ratos, o paciente, a princpio, apenas 
se chocara com a crueldade e lascividade, combinadas, da situao que estava sendo descrita. Contudo, logo aps verificou-se uma conexo com a cena, oriunda de sua 
infncia, na qual ele havia mordido algum. O capito - homem que poderia defender esse tipo de punio - tornou-se um substituto de seu pai, e, por conseguinte, 
atrara sobre si parte dessa vvida repulsa que explodira, na ocasio, contra seu cruel pai. A idia que lhe veio por um instante  conscincia, com relao ao fato 
de que algo dessa natureza podia acontecer a algum de quem ele gostava, pode, provavelmente, ser traduzida como um desejo parecido com ' preciso que lhe faam 
tambm a mesma coisa!', dirigido quele que narrou a histria, e atravs dele, a seu pai. Um dia e meio mais tarde, quando o capito lhe entregara o pacote pelo 
qual as taxas eram devidas, pedindo para reembolsar os 3.80 kronen ao Tenente A. [ver em [1]], ele j se fizera ciente de que seu 'cruel superior' estava equivocado, 
e de que a nica pessoa a quem devia algo era  jovem dama da agncia postal. Por conseguinte, podia facilmente lhe haver ocorrido pensar em alguma resposta irnica, 
tal como 'Voc acha mesmo que eu vou pagar?' ou 'Pago coisa nenhuma!', ou ento 'Claro! Pode deixar que eu vou pagar a ele!' - respostas que no estariam sujeitas 
a nenhuma fora compulsiva. Contudo, em vez disso, nascida das agitaes de seu complexo paterno e de sua lembrana da cena oriunda de sua infncia, formou-se em 
sua mente uma resposta parecida com 'Est bem. Reembolsarei o dinheiro ao Tenente A. quando meu pai e a dama tiverem filhos!', ou 'To certo quanto meu pai e a dama 
possam ter filhos, eu lhe pagarei!' Em suma, uma afirmao ridcula ligada a uma absurda condio que jamais se satisfaria.
         Agora, porm, o crime fora cometido; ele insultara as duas pessoas que lhe eram mais caras: seu pai e a sua dama. Esse feito clamava por punio, e a pena 
consistia em ele se comprometer com um juramento que lhe fosse impossvel cumprir e que impunha total obedincia  injustificada exigncia de seu superior. O juramento 
era o seguinte: 'Agora voc dever realmente reembolsar o dinheiro a A.' Em sua convulsiva obedincia ele reprimira seu melhor conhecimento de que o pedido do capito 
se tinha baseado em premissas erradas: 'Sim, voc precisa reembolsar o dinheiro a A., conforme o exigiu o substituto de seu pai. Seu pai no pode estar equivocado; 
e se ele investe um de seus sditos de um ttulo que no lhe pertence, o sdito passar a trazer sempre esse mesmo ttulo.'
         Apenas uma vaga noo desses eventos foi assimilada pela conscincia do paciente. Mas a sua revolta contra a ordem do capito e a sbita transformao daquela 
revolta em seu oposto estavam, ambas, aqui representadas. Em primeiro lugar, adveio a idia de que ele no tinha de reembolsar o dinheiro, ou ento aquilo (isto 
, a punio com ratos) iria acontecer; e a seguir adveio a transformao dessa idia em um juramento de efeito contrrio, como punio por sua revolta [ver em [1]].
         Dando prosseguimento ao fato, imaginemos as condies gerais sob as quais ocorreu a formao da grande idia obsessiva do paciente. Sua libido tinha sido 
aumentada por um longo perodo de abstinncia acoplado com a amvel receptividade com a qual um jovem oficial pode contar quando est entre mulheres. Ademais disso, 
na poca em que ele estava iniciando as manobras se instalara entre ele e a dama uma certa frieza nas relaes. A intensificao de sua libido levou-o a renovar 
sua luta antiga contra a autoridade de seu pai, e ele ousara pensar em manter relaes sexuais com outras mulheres. Sua lealdade  lembrana que guardava de seu 
pai fora-se debilitando, e aumentaram suas dvidas a respeito dos mritos de sua dama; com essa disposio de esprito ele se deixou arrebatar a um perjrio contra 
os dois, e assim se punira por hav-lo feito. Com esse ato, copiara, pois, um antigo modelo. E quando, no final das manobras, hesitara por tanto tempo para saber 
se viajaria a Viena ou se ficaria e cumpriria seu juramento, representara num s quadro os dois conflitos que desde o princpio o haviam afetado: se deveria, ou 
no, manter obedincia a seu pai, e se deveria, ou no, manter-se fiel a sua amada. 
         Posso acrescentar uma observao acerca da interpretao daquela 'sano' que, como se h de lembrar, consistia em que 'de outra forma, a punio com ratos 
ser infligida a ambos'. Baseava-se na influncia das duas teorias sexuais da infncia, que abordei em outro lugar. A primeira dessas teorias  que os bebs nascem 
do nus; e a segunda, que decorre logicamente da primeira, que os homens tambm podem ter bebs, como as mulheres. Em conformidade com as regras tcnicas de interpretao 
de sonhos, a noo de vir para fora do reto pode ser representada pela noo oposta de mover-se para dentro do reto (como na punio com ratos), e vice-versa.
         No nos cabe justificativa alguma por esperarmos que idias obsessivas severas como as que estavam presentes nesse caso sejam esclarecidas por um mtodo 
mais simples, ou por quaisquer outros meios. Quando achamos a soluo descrita acima, o delrio que o paciente sofria sobre os ratos desapareceu.
         
        II - CONSIDERAES TERICAS
         
         (A) ALGUMAS CARACTERSTICAS GERAIS DAS ESTRUTURAS OBSESSIVAS
         
         No ano de 1896, defini as idias obsessivas como `autocensuras transformadas que reemergiram da represso e que invariavelmente se referem a algum ato sexual 
praticado com prazer na infncia'. [Freud 1896b (no incio da Seo II).] Essa definio agora me parece exposta s crticas sobre seus fundamentos formais, embora 
seus elementos componentes sejam irrepreensveis. Ela visava demais a uma unificao e tomou por modelo a prtica dos prprios neurticos obsessivos, quando, em 
vista de sua caracterstica de serem propensos  indefinio, eles aglomeram sob a designao de `idias obsessivas' as mais heterogneas estruturas psquicas. Com 
efeito, seria mais correto falar de `pensar obsessivo', e esclarecer que as estruturas obsessivas podem corresponder a toda sorte de ato psquico. Elas podem ser 
classificadas como desejos, tentaes, impulsos, reflexes, dvidas, ordens ou proibies. Os pacientes esforam-se, geralmente, por amenizar tais distines e encarar 
aquilo que fica desses atos psquicos aps terem sido destitudos de seu contexto afetivo simplesmente como `idias obsessivas'. O paciente do presente caso forneceu 
um exemplo desse tipo de comportamento numa de suas primeiras consultas, ao tentar reduzir um desejo ao nvel de uma mera `corrente de pensamento' (ver em [1]).
         
         Ademais,  preciso admitir que mesmo a fenomenologia do pensar obsessivo ainda no desfrutou de suficiente ateno. Durante a luta defensiva secundria, 
que o paciente empreende contra as `idias obsessivas' que tentaram penetrar em sua conscincia, revelam-se estruturas psquicas que merecem receber uma designao 
especial. (Tais foram, por exemplo, as seqncias de pensamentos que se apossaram da mente de nosso paciente, em sua viagem de volta das manobras.) No se trata 
de consideraes puramente racionais levantadas em oposio aos pensamentos obsessivos, mas sim, como o eram, de hbridos das duas espcies do pensar; elas assumem 
determinadas premissas da obsesso que combatem; e, portanto, usando as armas da razo, se estabelecem numa base de pensamento patolgico. Acho que estruturas como 
estas merecem ser denominadas de `delrios'. A fim de esclarecer a diferena, fornecerei um exemplo, que devia ser inserido em seu adequado contexto no caso clnico 
do paciente. J descrevi a disparatada conduta que ele assumiu certa vez, quando se preparava para um exame - como, aps estudar at tarde da noite, costumava ir 
abrir a porta da frente para o fantasma de seu pai, e ento olhar para as suas partes genitais pelo espelho (ver em [1]). Ele tentava se orientar indagando-se sobre 
o que diria seu pai diante disso tudo se ainda estivesse vivo. Porm o argumento no surtiu efeito enquanto desenvolvido dessa forma racional. O espectro s desapareceu 
quando ele transformou a mesma idia em uma ameaa `delrica' de que, enquanto continuasse cometendo esse absurdo, alguma coisa maligna aconteceria a seu pai no 
outro mundo.
         A distino entre uma luta defensiva primria e uma secundria estava, indubitavelmente, bem estabelecida, mas achamos seu valor inesperadamente diminudo 
ao descobrirmos que os prprios pacientes no conhecem o contexto verbal de suas prprias idias obsessivas. Isto pode parecer paradoxal, mas  perfeitamente admissvel. 
Durante o processo de uma psicanlise, no  apenas o paciente que ganha coragem, mas tambm sua doena; esta se atreve o suficiente para falar com maior clareza 
do que antes. Deixando de lado essa metfora, o que acontece  o paciente, que at ento abstinha-se, horrorizado, de encarar suas prprias produes patolgicas, 
comear a dar-lhes ateno e conseguir uma opinio mais ntida e detalhada a respeito delas. [Cf. em [1].]
         
         Alm disso, existem dois modos especiais pelos quais se pode obter um conhecimento mais preciso das estruturas obsessivas. Em primeiro lugar, a experincia 
mostra que uma ordem obsessiva (ou seja l o que for), conhecida na vida desperta apenas de forma truncada ou deformada, como uma mensagem telegrfica mutilada, 
pode ter o seu texto real esclarecido num sonho. Tais textos aparecem, nos sonhos, em forma de conversas e constituem, pois, uma exceo  regra de que os dilogos, 
em sonhos, derivam de conversas na vida real. Em segundo lugar, no decorrer do exame analtico de um caso clnico, fica-se convencido de que se inmeras obsesses 
se sucedem uma a outra, elas, com freqncia, so, em ltima anlise, a mesma e nica obsesso - ainda que seu teor no seja idntico. A obsesso pode ter sido resolvida 
com xito em sua primeira apario; contudo, retorna de forma distorcida e irreconhecvel, sendo ento capaz de, na luta defensiva, afirmar-se com mais eficcia 
exatamente em virtude de sua deformao. Mas a forma correta  a original, e muitas vezes exibe seu significado abertamente. Quando, com grande dificuldade, elucidamos 
uma idia obsessiva ininteligvel, quase sempre acontece informar-nos o paciente de que exatamente essa noo, desejo ou tentao, como o que elaboramos, realmente 
surgiu um momento antes que a idia obsessiva brotasse, mas no persistiu. Infelizmente ver-nos-amos envolvidos numa digresso muito longa caso tivssemos de fornecer 
exemplos disto extrados da histria desse nosso paciente.
         Aquilo que se descreve oficialmente como uma `idia obsessiva' mostra, por conseguinte, em sua deformao a partir de seu teor original; vestgios da luta 
defensiva primria. Sua deformao possibilita que esta persista, de vez que o pensamento consciente , pois, impelido a compreend-la mal, como se fosse um sonho; 
isso porque tambm os sonhos so um produto da conciliao e da deformao, e so mal compreendidos pelo pensamento desperto.
         
         Essa m compreenso por parte da conscincia pode ser vista atuando no apenas com relao s prprias idias obsessivas, mas tambm com referncia aos 
produtos da luta defensiva secundria tais como, por exemplo, as frmulas de proteo. Posso dar dois bons exemplos disso. Nosso paciente costumava utilizar, como 
uma frmula defensiva, um `aber' [`mas'] pronunciado rapidamente, acompanhado de um gesto de repdio. Contou-me certa ocasio, que essa frmula recentemente se modificara; 
j no mais dizia `ber', mas sim `abr'. Indagado pela razo desse novo processo, declarou que o `e' mudo da segunda slaba no lhe dava qualquer sentimento de 
segurana contra a intruso, que tanto havia temido, de algum elemento estranho e contraditrio, e que, por conseguinte, decidira acentuar o `e'. Essa explicao 
(uma excelente amostra do estilo neurtico obsessivo) era, contudo, nitidamente inapropriada; no mximo, ela s podia ser uma racionalizao. A verdade era que `abr', 
representava uma aproximao  palavra de pronncia semelhante: `Abwehr' (`defesa'], um vocbulo que ele havia aprendido durante nossos debates tericos de psicanlise. 
Ele havia, portanto, consignado o tratamento a um uso ilegtimo e `delrico', a fim de fortalecer uma frmula defensiva. Noutra ocasio, falou-me a respeito de sua 
principal palavra mgica, um apotropico contra qualquer mal; ele a compusera a partir das letras iniciais da mais poderosamente benfica de suas preces e colocara 
imediatamente um `amm' no final. No posso reproduzir essa palavra, por motivos que logo se tornaro claros. Porque, quando ele me falou, eu no podia deixar de 
notar que a palavra era, de fato, um anagrama do nome de sua dama. Seu nome continha um `s', e ele ps este por ltimo, isto , imediatamente antes do `amm', no 
final. Portanto, podemos dizer que mediante esse processo ele pusera o seu `Samen' [`smen'] em contato com a mulher que amava; digamos, pois, que em sua imaginao 
ele se havia masturbado com ela. Contudo, ele prprio jamais notara essa conexo to bvia, as suas foras defensivas permitiram-se enganar pelas foras reprimidas. 
Este, tambm,  um bom exemplo da regra de que com o tempo a coisa que se pretendia afastar encontra meio de expresso no mesmo recurso que est sendo utilizado 
para afast-la.
         J afirmei que os pensamentos obsessivos sofrem uma deformao semelhante quela pela qual os pensamentos onricos passam antes de se tornarem o contedo 
manifesto de um sonho. A tcnica dessa deformao pode, por conseguinte, interessar-nos, e nada nos impediria de mostrar suas vrias modalidades mediante uma srie 
de obsesses que foram traduzidas e esclarecidas. Mas, aqui, de novo as condies que regem a publicao deste caso me impossibilitam fornecer mais exemplos. Nem 
todas as obsesses do paciente foram assim to complicadas nas suas estruturas e to difceis de resolver, como a grande idia do rato. Em algumas outras, foi utilizada 
uma tcnica muito simples, ou seja, a de deformao por omisso ou elipse. Essa tcnica aplica-se preferentemente a chistes, mas tambm no presente caso ela funcionou 
bem, como um meio de evitar que as coisas fossem compreendidas.
         Por exemplo, uma das mais antigas e preferidas obsesses do paciente (correspondente a uma advertncia ou admoestao) tinha o seguinte contexto: `Se eu 
casar com a dama, a meu pai ocorrer algum infortnio (no outro mundo).' Introduzindo os elementos intermedirios, que foram omitidos mas que conhecemos da anlise, 
obtemos a seguinte corrente de pensamento: `Se meu pai estivesse vivo, ele estaria to furioso com minha inteno de casar-me com a dama como esteve na cena de minha 
infncia; de modo que eu teria outra exploso de raiva contra ele, desejando-lhe todo mal possvel; e graas  onipotncia de meus desejos esses males acabariam 
inevitavelmente por incidir sobre ele.'
         Eis um outro exemplo no qual se pode chegar a uma soluo completando-se uma elipse, e que, novamente, corresponde a uma advertncia ou uma proibio asceta. 
Tinha o paciente uma encantadora sobrinha, menina ainda, de quem ele gostava muito. Certo dia, passou-lhe pela cabea a seguinte idia: `Se voc se permitir uma 
relao sexual, alguma coisa ir acontecer a Ella (isto , ela morrer).' Preenchendo-se as omisses, temos: `Sempre que voc copular, ainda que com uma desconhecida, 
voc no ser capaz de escapar  reflexo de que em sua vida de casado as relaes sexuais jamais lhe daro um filho (em conseqncia da esterilidade da dama). Isto 
lhe afligir tanto que voc ter inveja de sua irm por causa da pequena Ella. Tais impulsos de inveja inexoravelmente acarretaro a morte da criana.'
         
         A tcnica de deformao por elipse parece ser caracterstica das neuroses obsessivas; tenho notado isso tambm nos pensamentos obsessivos de outros pacientes. 
Um exemplo, particularmente claro, interessa-nos de modo todo especial em virtude de certa semelhana estrutural com a idia do rato. Trata-se de um caso de dvida 
ocorrido com uma dama que sofria principalmente de atos obsessivos. Essa dama saiu a passeio com seu marido, em Nuremberg, e f-lo lev-la a uma loja onde ela comprou 
diversos artigos para seu filho, entre estes um pente. Seu marido, achando que fazer compras era um negcio muito demorado para o seu gosto, disse que havia visto, 
no meio do caminho, algumas moedas num antiqurio que ele desejava muito adquirir e acrescentou que, depois dessas compras, voltaria  loja para busc-la. Mas ela 
achou que ele estava demorando muito. Quando ele voltou, ela ento lhe perguntou por onde havia estado. `Ora', respondeu ele, `na loja de antiguidades, como eu te 
disse.' No mesmo instante invadiu-lhe a dvida sobre se ela j no possua de fato o pente que acabava de comprar para o filho. Naturalmente ela era incapaz de descobrir 
o elo mental aqui presente. Nada nos resta seno considerar que a dvida foi deslocada e reconstruir toda a cadeia de pensamentos inconscientes da seguinte forma: 
`Se  verdade que voc s esteve na loja de antiguidades, se devo realmente acreditar nisso, ento tambm posso acreditar que esse pente que acabo de comprar esteve 
em minhas mos durante anos.' Por conseguinte, a dama aqui fazia um paralelo derrisrio e irnico, tal como quando o nosso paciente pensou [ver em [1]]: `Ah sim, 
to certo como aqueles dois (seu pai e a dama) tero filhos, eu irei reembolsar o dinheiro a A.' No caso da dama, a dvida dependia de seu cime inconsciente, que 
a levou a supor que seu marido, enquanto esteve ausente, passou o tempo visitando algum a quem fazia a corte.
         Neste artigo no empreenderei qualquer discusso sobre a significao psicolgica do pensar obsessivo. Uma tal discusso seria, por seus resultados, de 
um valor extraordinrio e contribuiria mais para esclarecer nossas idias a respeito da natureza do consciente e do inconsciente do que qualquer estudo sobre a histeria 
ou sobre os fenmenos da hipnose. Seria prefervel se os filsofos e psiclogos, que desenvolvem brilhantes pontos de vista tericos acerca do inconsciente na base 
de um conhecimento adquirido por ouvir dizer ou a partir de suas prprias definies convencionais, se submetessem, de incio, s impresses convincentes que se 
podem adquirir a partir de um estudo direto dos fenmenos do pensar obsessivo. Poderamos at mesmo chegar a exigi-lo deles, se essa tarefa no fosse to mais rdua 
do que os mtodos de trabalho a que esto acostumados. Apenas acrescentarei que, nas neuroses obsessivas, os processos mentais inconscientes s vezes irrompem na 
conscincia em sua forma pura e indeformada; que tais incurses se podem dar em todo e qualquer estdio do processo inconsciente de pensamento; e que, no momento 
dessas incurses, as idias obsessivas podem, na maioria, ser reconhecidas como formaes de muito longa durao. Isto explica a surpreendente circunstncia de o 
paciente, ao tentar o analista, com a ajuda dele, descobrir a data da primeira ocorrncia de uma idia obsessiva, ser obrigado a retroced-la sempre mais  medida 
que prossegue a anlise, e estar constantemente encontrando `primeiras' ocasies do surgimento da obsesso.
         
         (B) ALGUMAS PECULIARIDADES PSICOLGICAS DOS NEURTICOS OBSESSIVOS: SUA ATITUDE PERANTE A REALIDADE, A SUPERSTIO E A MORTE
         
         Nesta seo pretendo lidar com algumas caractersticas mentais dos neurticos obsessivos que, embora no paream importantes em si, esto no meio do caminho 
para uma compreenso de aspectos mais importantes. Essas caractersticas foram profundamente marcantes em nosso atual paciente; sei, contudo, que no se  capaz 
de atribu-las ao seu carter individual, mas sim ao seu distrbio, e que no podem ser encontradas to tipicamente em outros pacientes obsessivos.
         Nosso paciente era altamente supersticioso, embora fosse um homem bastante instrudo e esclarecido, e muito perspicaz, e embora fosse capaz, s vezes, de 
me assegurar que no acreditava numa palavra sequer dessas bobagens todas. Portanto, era ao mesmo tempo supersticioso e no supersticioso; ademais, existia uma ntida 
diferena entre a sua atitude e a superstio de pessoas incultas que se sentem inseparveis de sua crena. Ele parecia entender que sua superstio dependia do 
seu modo de pensar obsessivo, embora, vez e outra, se deixasse dominar completamente. O significado desse comportamento inconsistente e vacilante pode ser apreendido 
com a maior facilidade se for encarado  luz de uma hiptese a que agora passarei a fazer meno. No hesitei em aceitar a idia de que no era verdade que o paciente 
ainda tivesse a mente esclarecida a esse respeito, mas que possua duas convices separadas e contraditrias acerca do assunto. Sua oscilao entre esses dois pontos 
de vista dependia, obviamente, de sua atitude momentnea perante o seu distrbio obsessivo. Logo que se refazia de uma dessas obsesses, costumava sorrir, com um 
ar superior, para a sua prpria credulidade, e nada acontecia que pudesse abalar suas convices; no obstante, no momento em que caiu em poder de uma outra obsesso 
que ainda no tinha sido elucidada - ou, o que d no mesmo, de uma resistncia -, as mais estranhas coincidncias iriam acontecer, para apoi-lo em sua crdula convico.
         Sua superstio, contudo, era de um homem culto, e ele escapava de preconceitos vulgares, tais como temer a sexta-feira ou o nmero treze, e outros mais. 
Acreditava, porm, em premonies e em sonhos profticos; constantemente iria encontrar a mesma pessoa em que, por alguma razo inexplicvel, acabava de pensar; 
ou ento receberia uma carta de algum que, de repente, lhe vinha  lembrana, depois de esquecido durante anos. Era ao mesmo tempo suficientemente honesto - ou 
antes suficientemente leal  sua convico oficial - para no se esquecer de casos em que os mais estranhos pressentimentos deram em nada. Numa ocasio, por exemplo, 
quando saiu de frias, no vero, sentira-se moralmente certo de que jamais regressaria vivo a Viena. Tambm admitiu que a grande maioria de suas premonies se referia 
a coisas que no continham importncia especial para ele, e que, quando encontrava um conhecido em que, at poucos instantes antes, no tinha pensado durante longo 
tempo atrs, mais nada ocorria entre ele mesmo e a milagrosa apario. Ademais, naturalmente no podia negar que todos os eventos importantes de sua vida ocorreram 
sem ele haver tido premonio dos mesmos, e que, por exemplo, a morte de seu pai o apanhara de surpresa. Argumentos como estes, porm, no modificaram em nada a 
discrepncia de suas convices; serviram, puramente, para provar a natureza obsessiva de suas supersties, e isto j se podia inferir do modo como elas vinham 
e iam com o aumento e a diminuio de sua resistncia.
         Obviamente eu no tinha condies de fornecer uma explicao racional de todas as histrias milagrosas de seu passado mais remoto. Mas, no que concerne 
s coisas semelhantes que ocorreram durante o seu tratamento, fui capaz de provar-lhe que ele mesmo invariavelmente havia ajudado na fabricao desses milagres, 
e fui capaz de indicar para ele os mtodos que utilizou. Ele agia por meio de viso e leitura perifricas, esquecimento e, sobretudo, erros de memria. No final, 
ele usava a si mesmo para ajudar-me a descobrir os pequenos truques de prestidigitao pelos quais se executavam essas mgicas. Posso fazer meno a uma interessante 
raiz infantil de sua crena de que pressentimentos e premonies se realizam, que foi trazida  luz por sua recordao de que, com muita freqncia, ao se fixar 
a data para qualquer coisa, sua me costumava dizer: `Em tal e tal dia no vou poder; vou ter de ficar de cama, nesse dia.' E, com efeito, chegando o referido dia, 
ela invariavelmente ficava de cama!
         No pode haver dvida de que o paciente sentia uma necessidade de encontrar experincias desse tipo, que atuassem como esteios de suas supersties, e de 
que foi em virtude disso que ele tanto se ocupou em observar as inexplicveis coincidncias da vida quotidiana com as quais estamos todos familiarizados, utilizando 
sua prpria atividade inconsciente quando estas no bastavam. J deparei com uma idntica necessidade em muitos outros pacientes obsessivos, suspeitando-a tambm 
em muitos outros mais alm desses. Parece-me facilmente explicvel, em face das caractersticas psicolgicas da neurose obsessiva. Nesse distrbio, conforme j expliquei 
(ver em [1]), a represso no se efetua por meio da amnsia, mas sim mediante a ruptura de conexes causais devidas a uma retirada de afeto. Essas conexes reprimidas 
parecem persistir em algum tipo de configurao muito vaga (que eu, em outro lugar, comparei a uma percepo endopsquica), sendo, por um processo de projeo, assim 
transferidas para o mundo externo, onde do testemunho daquilo que foi apagado da conscincia.
         Uma outra necessidade mental, tambm compartilhada pelos neurticos obsessivos e que, em alguns aspectos, tem parentesco com aquela que se acaba de mencionar, 
 a necessidade de incerteza em suas vidas, ou de dvida. Pesquisando essa caracterstica, vemo-nos aprofundados na investigao do instinto. A criao da incerteza 
 um dos mtodos utilizados pela neurose a fim de atrair o paciente para fora da realidade e isol-lo do mundo - o que  uma das tendncias de qualquer distrbio 
psiconeurtico. De novo, o bvio so apenas os esforos que os prprios pacientes empreendem a fim de poderem evitar a certeza e ficarem em dvida. De fato, alguns 
deles do uma vvida expresso a essa tendncia, numa averso por relgios (de vez que estes, em ltima anlise, do a certeza da hora do dia), como tambm nos pequenos 
artifcios inconscientes de que se utilizam para tornar incuos esses instrumentos que extinguem as dvidas. Esse nosso paciente desenvolvera um especial talento 
para evitar um conhecimento de quaisquer fatos que o teriam auxiliado a chegar a uma deciso sobre o seu conflito. Por conseguinte, mantinha-se em ignorncia a respeito 
daqueles assuntos relacionados com a sua dama que encerravam a mxima importncia diante da questo de seu casamento: ele era ostensivamente incapaz de dizer quem 
a havia influenciado e se essa atuao tinha sido unilateral ou recproca. Ele tinha de ser obrigado a lembrar o que havia esquecido, e a descobrir aquilo que ele 
havia deixado de conhecer.
         A predileo dos neurticos obsessivos pela incerteza e pela dvida leva-os a orientar seus pensamentos de preferncia para aqueles temas perante os quais 
toda a humanidade est incerta e nossos conhecimentos e julgamentos necessariamente expostos a dvida. Os principais temas dessa natureza so paternidade, durao 
da vida, vida aps a morte e memria - na qual todos ns costumamos acreditar, sem possuirmos a menor garantia de sua fidedignidade. 
         Nas neuroses obsessivas, a incerteza da memria  utilizada em toda a sua extenso como auxiliar na formao de sintomas; e conheceremos diretamente o papel 
desempenhado no contedo real dos pensamentos do paciente pelas questes sobre a durao da vida e a vida depois da morte. Contudo, como uma transio mais adequada, 
considerarei em primeiro lugar um vestgio particular de superstio em nosso paciente, ao qual j aludi (ver em [1]), e que, sem dvida, ter confundido a mais 
de um de meus leitores.
         Estou-me referindo  onipotncia que ele atribua aos seus pensamentos e sentimentos, e aos seus desejos, quer os bons quer os maus. Devo admitir ser decididamente 
tentador declarar que essa idia era um delrio e que ela ultrapassa os limites da neurose obsessiva. No obstante, tenho deparado com essa mesma convico em outro 
paciente obsessivo; e h muito tempo que recuperou a sade e vive uma vida normal. De fato, todos os neurticos obsessivos comportam-se como se compartilhassem dessa 
convico. Ser nossa incumbncia esclarecer, de algum modo, a superestimao com que os pacientes revestem as suas foras. Admitindo, sem mais delongas, que essa 
crena seja um reconhecimento sincero de uma lembrana da antiga megalomania da tenra infncia, prosseguiremos indagando nosso paciente acerca dos fundamentos de 
sua convico. Em resposta, ele evoca duas experincias suas. Ao regressar para uma segunda visita ao estabelecimento hidroptico onde seu distrbio se havia atenuado 
pela primeira e nica vez [ver em [1]], ele pediu que lhe dessem seu antigo quarto, de vez que a localizao deste favorecera suas relaes com uma das enfermeiras. 
Disseram-lhe que o quarto j estava reservado e foi ocupado por um velho professor. Essa notcia diminuiu consideravelmente as suas expectativas de um tratamento 
bem-sucedido, e ele reagiu com o seguinte mau pensamento: `Desejo que ele caia morto por isso!' Duas semanas depois foi despertado de seu sonho pela perturbadora 
idia de um cadver; e, de manh, ouviu que o professor havia realmente sofrido um ataque e que fora levado para seu quarto quase no mesmo instante em que ele despertara. 
A segunda experincia referia-se a uma mulher solteira, j no jovem, malgrado seu grande desejo de ser amada, que lhe dera muita ateno e certa vez lhe perguntara, 
sem rodeios, se ele no a poderia amar. Ele lhe dera uma resposta evasiva. Poucos dias depois, ele soube que ela se havia atirado de uma janela. Comeou ento a 
censurar-se e disse consigo mesmo que poderia ter salvo sua vida concedendo-lhe seu amor. Assim, ficou convencido da onipotncia de seu amor e de seu dio. Sem negar 
a onipotncia do amor, podemos mostrar que esses dois exemplos tinham conexo com a morte, e admitir a explicao lgica de que nosso paciente, tal como outros neurticos 
obsessivos, era compelido a superestimar os efeitos de seus sentimentos hostis sobre o mundo externo, porque uma vasta parcela de seus efeitos internos e mentais 
escapou ao seu conhecimento consciente. Seu amor - ou, antes, seu dio - era, em verdade, subjugador; foram precisamente eles que criaram os pensamentos obsessivos, 
cuja origem ele no era capaz se compreender e contra os quais lutou em vo para se defender. 
         
         Nosso paciente tinha uma atitude bastante peculiar perante a questo da morte. Mostrava a mais profunda simpatia sempre que algum falecia, e acompanhava, 
religiosamente, o funeral; desse modo, ganhou entre seus irmos e irms o apelido de `abutre'. Tambm em sua imaginao constantemente matava as pessoas, de modo 
a mostrar sua cordial simpatia para com seus desolados parentes. A morte de uma irm mais velha, ocorrida quando ele tinha entre trs e quatro anos de idade [ver 
em [1]], desempenhou importante papel em suas fantasias e foi intimamente correlacionada com suas travessuras infantis durante o mesmo perodo. Ademais, sabemos 
em que idade precoce os pensamentos acerca da morte de seu pai se haviam apoderado de sua mente; e podemos encarar a sua doena propriamente como uma reao quele 
evento, pelo qual sentira um desejo obsessivo quinze anos antes. A estranha extenso de seus medos obsessivos at o `outro mundo' nada mais era do que uma compensao 
por esses desejos de morte que sentira contra seu pai. Fora introduzida dezoito meses aps a morte de seu pai, numa ocasio em que houvera um revivescimento de seu 
lamento pela perda, e estava destinada - em desafio  realidade e em deferncia ao desejo que anteriormente se vinha revelando em fantasias de todo tipo - a anular 
o fato de seu pai haver morrido. Em vrias passagens (ver em [1] e [2]) j tivemos oportunidade de traduzir a expresso `no outro mundo' com as palavras `se meu 
pai ainda fosse vivo'.
         O comportamento de outros neurticos obsessivos, contudo, no difere tanto assim daquele de nosso paciente, muito embora no lhes tenha sido destinado encarar 
o fenmeno da morte numa idade to precoce. Os seus pensamentos ocupam-se incessantemente com a durao da vida e possibilidade da morte de outras pessoas. As suas 
inclinaes para a superstio no tiveram outro contedo em primeiro lugar, e talvez no tenham qualquer outra fonte possvel. Mas esses neurticos carecem do auxlio 
da possibilidade da morte, sobretudo a fim de que ela possa servir de soluo dos conflitos que eles no resolveram. A sua caracterstica essencial reside no fato 
de eles serem incapazes de chegar a uma deciso, especialmente em matria de amor; esforam-se por protelar qualquer deciso e, na dvida de saberem por qual pessoa 
vo se decidir ou que medidas adotaro contra alguma pessoa, obrigam-se a eleger como modelo o velho tribunal de justia alemo, no qual os processos se encerravam, 
de praxe, antes de serem julgados, com a morte das partes em litgio. Assim, em todo conflito que se introduz em suas vidas, ficam  espreita de que ocorra a morte 
de algum que lhes  importante, em geral de algum a quem amam - como um de seus pais, um rival, ou um dos objetos de seu amor entre os quais hesitam as suas inclinaes. 
Todavia, a essa altura nossa discusso a respeito do complexo da morte nas neuroses obsessivas tangencia o problema da vida instintual dos neurticos obsessivos. 
E agora havemos de nos ocupar desse problema.
         
         
         
         
         (C) A VIDA INSTINTUAL DOS NEURTICOS OBSESSIVOS E AS ORIGENS DA COMPULSO E DA DVIDA
         
         Caso desejemos adquirir uma compreenso das foras psquicas cuja interao formou essa neurose, precisaremos retornar quilo que aprendemos do paciente 
a respeito das causas precipitadoras de seu ficar doente enquanto adulto e quando criana. Ele adoeceu na idade de vinte anos, ou um pouco mais, ao deparar com a 
tentao de casar-se com uma outra mulher em vez daquela a quem amava h tanto tempo; e afastou-se de chegar a uma deciso a respeito desse conflito adiando todos 
os atos preliminares necessrios. Os meios para tanto foram-lhe fornecidos pela sua neurose. Sua hesitao entre a dama a quem amava e a outra jovem pode ser reduzida 
a um conflito entre a influncia de seu pai e o amor que sentia pela sua dama, ou ento, em outras palavras, a uma escolha conflitiva entre seu pai e seu objeto 
sexual, tal como j havia subsistido (julgando-se a partir de suas recordaes e idias obsessivas) em sua remota infncia. Ademais disso, em toda a sua vida fora 
ele, inequivocamente, vtima de um conflito entre amor e dio, tanto em relao a sua dama como em relao a seu pai. As suas fantasias de vingana e fenmenos obsessivos 
como sua obsesso por compreenso e a proeza que realizou com a pedra na estrada [ver em [1]] confirmam seus sentimentos divididos; e, numa certa medida, elas eram 
compreensveis e normais, pois a dama, com sua primeira recusa [ver em [2]] e, a seguir, com sua frieza, lhe dera um pretexto para sua hostilidade. Contudo, as suas 
relaes com seu pai eram dominadas por uma idntica diviso de sentimento, conforme vimos a partir da traduo de seus pensamentos obsessivos; e seu pai tambm 
deve ter dado motivo para hostilidade em sua infncia, como de fato fomos capazes de constatar com uma certeza quase completa. Sua atitude perante a dama - uma combinao 
de ternura e hostilidade - em sua maior parte era da alada de seu conhecimento consciente; no mximo ele se equivocou quanto ao grau e  violncia de seus sentimentos 
negativos. Mas a sua hostilidade com seu pai, pelo contrrio, embora tenha estado uma vez profundamente consciente da existncia dela, h muito tempo que j se havia 
desaparecido de seu campo visual, e apenas nas garras da mais violenta resistncia  que ela poderia ser levada de volta  sua conscincia. Podemos considerar a 
represso de seu dio infantil contra o pai como o evento que colocou todo o seu modo de vida subseqente sob o domnio da neurose.
         Os conflitos de sentimentos em nosso paciente, os quais aqui enumeramos separadamente, no eram independentes um do outro, mas coligados em pares. Seu dio 
pela dama estava inevitavelmente ligado a seu afeioamento ao pai, e, de modo inverso, seu dio pelo pai com seu afeioamento  dama. Contudo, ambos os conflitos 
de sentimento resultantes dessa simplificao - ou seja, a oposio entre sua relao com seu pai e com sua dama, e a contradio entre seu amor e seu dio dentro 
de cada uma dessas relaes - no possuam a mnima conexo entre si, quer em seu contedo quer em sua origem. O primeiro desses dois conflitos corresponde  vacilao 
normal entre macho e fmea que caracteriza a escolha de um objeto de amor, que qualquer pessoa faz. Este conflito inicialmente  levado  observao da criana quando 
algum lhe faz a inevitvel pergunta: `De quem voc gosta mais, do papai ou da mame?', e a acompanha por toda a sua vida, no importa qual possa ser a intensidade 
relativa de seus sentimentos em relao aos dois sexos, ou qual possa ser o objetivo sexual ao qual afinal se fixe. Normalmente, porm, essa oposio perde logo 
o carter de uma aguda contradio, de um inexorvel `ou isso... ou aquilo'. H espao para a satisfao das desiguais exigncias de ambos os lados, embora mesmo 
numa pessoa normal uma valorizao maior de um sexo sempre  ressaltada mediante uma depreciao do outro sexo.
         O outro conflito, entre o amor e o dio, atinge-nos com uma estranheza maior. Sabemos que o amor incipiente com freqncia  percebido como o prprio dio, 
e que o amor, se se lhe nega satisfao, pode, com facilidade, ser parcialmente convertido em dio; os poetas nos dizem que nos mais tempestuosos estdios do amor 
os dois sentimentos opostos podem subsistir lado a lado, por algum tempo, ainda que em rivalidade recproca. Mas a coexistncia crnica de amor e dio, ambos dirigidos 
para a mesma pessoa e ambos com o mesmo elevadssimo grau de intensidade, no pode deixar de assombrar-nos. Seria de esperar que o amor apaixonado tivesse, h muito 
tempo atrs, conquistado o dio ou por ele sido absorvido. E, com efeito, uma tal sobrevivncia protelada dos dois opostos s  possvel sob condies psicolgicas 
bastante peculiares e com a cooperao do estado de coisas presentes no inconsciente. O amor no conseguiu extinguir o dio, mas apenas reprimi-lo no inconsciente; 
e no inconsciente o dio, protegido do perigo de ser destrudo pelas operaes do consciente,  capaz de persistir e, at mesmo, de crescer. Em tais circunstncias, 
o amor consciente alcana, via de regra, mediante uma reao, um sobremodo elevado grau de intensidade, de maneira a ficar suficientemente forte para a eterna tarefa 
de manter sob represso o seu oponente. A condio necessria para a ocorrncia de um estado de coisas to estranho na vida ertica de uma pessoa parece ser que, 
numa idade realmente precoce, em algum lugar no perodo pr-histrico de sua infncia, ambos os opostos ter-se-iam separado e um deles, habitualmente o dio, teria 
sido reprimido.
         Se considerarmos algumas anlises de neurticos obsessivos, acharemos impossvel evitar a impresso de que uma relao entre o amor e o dio, tal como vimos 
nesse nosso paciente, conta-se entre as caractersticas mais freqentes, mais marcantes e, provavelmente, mais importantes da neurose obsessiva. Contudo, ainda que 
seja tentador pr o problema da `escolha da neurose' em conexo com a vida instintual, existem razes suficientes para sair desse caminho. Porque  preciso lembrarmos 
que, em toda neurose, deparamos com os mesmos instintos reprimidos por trs dos sintomas. O dio, sobretudo, conservando-se suprimido no inconsciente por ao do 
amor, desempenha um grande papel na patognese da histeria e da parania. Conhecemos muito pouco a natureza do amor para sermos capazes de chegar, aqui, a alguma 
concluso definitiva; ademais, particularmente, a relao entre o fator negativo no amor e os componentes sdicos da libido permanece inteiramente obscura. O que 
vem a seguir deve, por conseguinte, ser visto como nada mais alm de uma explicao de carter provisrio. Podemos supor, ento, que nos casos de dio inconsciente 
com os quais nos preocupamos agora os componentes sdicos do amor tm sido, partindo das causas constitucionais, desenvolvidos de modo excepcionalmente intenso, 
e, em conseqncia disso, sofrido uma supresso prematura e profundamente radical, e que os fenmenos neurticos que observamos se originam, de um lado, dos sentimentos 
conscientes de afeio que ficaram exacerbados como se fossem uma reao, e, por outro lado, do sadismo que persiste no inconsciente sob a forma de dio.
         No obstante, sem ligar para o modo como essa notvel relao entre o amor e o dio deva ser explicada, seu aparecimento  estabelecido, sem sombra de dvida, 
pelas observaes feitas no atual caso; ademais,  gratificante descobrir com que facilidade podemos, agora, acompanhar os enigmticos processos de uma neurose obsessiva 
fazendo-os relacionarem-se com esse fator. Se a um amor intenso se ope um dio de fora quase equivalente e que, ao mesmo tempo, esteja inseparavelmente vinculado 
a ele, as conseqncias imediatas sero certamente uma paralisia parcial da vontade e uma incapacidade de se chegar a uma deciso a respeito de qualquer uma das 
aes para as quais o amor deve suprir a fora motivadora. Essa indeciso, todavia, no se restringir, por tanto tempo, a um mero grupo de aes. Isto porque, em 
primeiro lugar, que atos de um amante no esto relacionados com o seu nico motivo principal? Em segundo lugar, a atitude de um homem nos assuntos sexuais tem a 
fora de um modelo ao qual suas demais reaes se inclinam a amoldar-se. E, em terceiro lugar,  caracterstica intrnseca, dentro da psicologia de um neurtico 
obsessivo, fazer a mais plena utilizao possvel do mecanismo do deslocamento. Destarte, a paralisia de seus poderes de deciso vai-se gradualmente estendendo por 
todo o terreno do comportamento do paciente.
         Temos, ento, aqui, a dominao da compulso e da dvida, tal qual com ela deparamos na vida mental dos neurticos obsessivos.
         A dvida corresponde  percepo interna que tem o paciente de sua prpria indeciso, a qual, em conseqncia da inibio de seu amor atravs de seu dio, 
dele se apossa diante de qualquer ao intencionada. A dvida , na realidade, uma dvida de seu prprio amor - que devia ser a coisa mais exata em sua mente como 
um todo; e ela se difunde por tudo o mais, sendo mormente capaz de ser deslocada para aquilo que  mais insignificante e sem valor. Um homem que duvida de seu prprio 
amor permite-se, ou, antes, tem de duvidar de alguma coisa de menor valor.
          essa mesma dvida que leva o paciente  incerteza com respeito a suas medidas protetoras, bem como  sua contnua repetio delas com o fito de expulsar 
a incerteza; ademais, , tambm, essa dvida que enfim estabelece o fato de os prprios atos protetores do paciente serem impossveis de se realizarem, tanto quanto 
a sua original deciso inibida em relao ao seu amor. No incio de minhas investigaes, fui levado a presumir uma outra origem, mais geral, para a incerteza dos 
neurticos obsessivos, uma origem que parecia aproximar-se mais do normal. Por exemplo, se eu estou escrevendo uma carta e algum me interrompe com perguntas, sinto 
uma incerteza relativamente justificvel com relao quilo que eu escrevi sob a ao da interrupo e, para ter certeza, sou obrigado a reler a carta aps hav-la 
terminado. Do mesmo modo, eu poderia admitir que a incerteza dos neurticos obsessivos quando esto orando, por exemplo, se deve a fantasias inconscientes que intervm 
com suas preces, perturbando-as. Essa hiptese  correta, mas pode ser facilmente reconciliada com aquilo que acabamos de dizer.  verdade que a certeza do paciente, 
de haver concretizado uma medida protetora  devida ao efeito perturbador das fantasias inconscientes; contudo, o contedo dessas fantasias  precisamente o impulso 
contrrio - cujo desvio constitua o real objetivo da prece. Esse aspecto evidenciou-se claramente, em nosso paciente, em certa ocasio, pois o elemento perturbador 
no continuou inconsciente, surgindo, porm, abertamente. As palavras que ele desejava usar em sua prece eram `Que Deus a proteja'; contudo, um hostil `no' despencou, 
subitamente, de seu inconsciente e se inseriu na frase; e ele compreendeu que isto constitua uma tentativa de rogar uma praga (ver em [1]). Se o `no' ficasse mudo, 
ele se teria encontrado em estado de incerteza e teria ficado indefinidamente prolongando as suas preces. Mas, uma vez articulado, finalmente deixou de rezar. Antes 
de faz-lo, porm, ele, como outros pacientes obsessivos, experimentou todo tipo de mtodo para evitar que o sentimento oposto se insinuasse. Abreviou, por exemplo, 
as suas preces ou as proferia com maior rapidez. E, de forma idntica, outros pacientes esforar-se-o para `isolar' todos os atos protetores, dessa natureza, das 
outras coisas. Todavia, nenhum desses procedimentos tcnicos  til a longo prazo. Se o impulso de amor logra algum sucesso, deslocando-se para algum ato trivial, 
o impulso de hostilidade cedo haver de tambm acompanh-lo em seu novo terreno, e passar a anular tudo que ele realizou.
         E quando o paciente obsessivo toca o ponto fraco na segurana de nossa vida mental - a falta de confiabilidade da nossa memria -, a descoberta o capacita 
a estender sua dvida por sobre tudo, at mesmo sobre aes que j foram executadas e que, at ento, no tiveram conexo alguma com o complexo amor-dio, bem como 
por sobre o passado inteiro. Posso recordar o exemplo da mulher que havia acabado de comprar um pente para seu filhinho, numa loja, e que, ficando desconfiada de 
seu marido, comeou a duvidar se de fato j no possua o pente por muito tempo [ver em [1]]. No estava ela dizendo, sem rodeios: `Se posso duvidar de seu amor' 
(e isto era apenas projeo de sua dvida sobre o prprio amor que sentia por ele), `ento tambm posso duvidar disto, posso ento duvidar de tudo' - revelando-nos, 
portanto, o significado oculto da dvida neurtica?
         A compulso , por outro lado, uma tentativa para alguma compensao pela dvida e para uma correo das intolerveis condies de inibio das quais a 
dvida apresenta testemunho. Se o paciente, auxiliado pelo deslocamento, enfim consegue decidir acerca de uma de suas intenes inibidas, a inteno deve ser efetivada. 
 verdade que esta no  a sua inteno original, mas a energia represada nessa ltima no pode deixar escapar a oportunidade de encontrar um escoamento para a sua 
descarga, no ato substituto. Portanto, essa energia se faz sentir ora em ordens, ora em proibies, na medida em que o impulso de afeto ou impulso hostil exerce 
o controle da senda que conduz  descarga. Se sucede que uma ordem compulsiva no pode ser obedecida, a tenso fica intolervel e  percebida pelo paciente sob a 
forma de uma ansiedade extrema. Contudo, a senda que conduz a um ato substituto, mesmo onde o deslocamento tenha continuado a se exercer para algo muito pequeno, 
 to ardentemente contestada que um semelhante ato pode, via de regra, ser desempenhado apenas sob a forma de uma medida protetora intimamente associada com o impulso 
que deve ser evitado.
         Ademais, mediante uma espcie de regresso, atos preparatrios ficam substitudos pela deciso final, o pensar substitui o agir, e, em lugar do ato substitutivo, 
algum pensamento que se lhe antecipa persevera com a fora total da compulso. Na medida em que essa regresso a partir do agir para o pensar fica mais marcada ou 
menos marcada, um caso de neurose obsessiva ir expor as caractersticas do pensar obsessivo (isto , de idias obsessivas), ou ento do agir obsessivo no sentido 
mais estrito da palavra. Atos obsessivos verdadeiros, como estes, todavia s se tornam possveis porque constituem uma espcie de reconciliao, na forma de um acordo, 
entre os dois impulsos antagnicos. Pois os atos obsessivos tendem a se aproximar cada vez mais - e quanto mais tempo persistir o distrbio, mais evidente este se 
torna - dos atos sexuais infantis de carter masturbatrio. Por conseguinte, nessa forma da neurose, os atos de amor so executados a despeito do que quer que seja 
e apenas com o auxlio de um novo tipo de regresso; porque tais atos j no mais se referem a uma outra pessoa, o objeto de amor e dio, mas so atos auto-erticos 
tais como ocorrem na tenra infncia.
         O primeiro tipo de regresso, aquela que parte do agir para o pensar,  favorecido por um outro fator de interesse no quadro de produo da neurose. As 
histrias de pacientes obsessivos revelam quase que invariavelmente um precoce desenvolvimento e uma represso prematura do instinto sexual de olhar e conhecer [o 
instinto escopoflico e o instinto epistemoflico]; ademais, como sabemos, uma parte da atividade sexual infantil desse nosso paciente era governada por aquele instinto 
[pg. 144 e segs].
         J mencionamos o importante papel desempenhado pelos componentes instintuais sdicos na gnese das neuroses obsessivas. Ali onde o instinto epistemoflico 
constitui um aspecto preponderante na constituio de um paciente obsessivo, a cisma se torna o sintoma principal da neurose. O processo de pensamento torna-se sexualizado, 
pois o prazer sexual que est normalmente ligado ao contedo do pensamento v-se aplicado ao prprio ato de pensar, e a satisfao derivada do fato de se alcanar 
a concluso de uma linha de pensamento  sentida como uma satisfao sexual. Nas variadas formas de neurose obsessiva nas quais o instinto epistemoflico desempenha 
determinado papel, a sua relao com os processos de pensamento torna-o particularmente bem adaptado para atrair a energia que se esfora em vo por abrir caminho 
at a ao, e desvi-la para dentro da esfera do pensamento, onde existe uma possibilidade de obter satisfao prazerosa de uma outra natureza. Dessa forma, com 
o auxlio do instinto epistemoflico, o ato substituto pode, por seu lado, ser substitudo por atos preparatrios do pensamento. Entretanto, uma protelao na ao 
logo  substituda por um persistir sobre pensamentos, e, finalmente, o processo inteiro, juntamente com todas as suas peculiaridades  transferido para a nova esfera, 
do mesmo modo como, na Amrica, pode-se, s vezes, remover uma casa inteira, de um local para outro.
         Posso, agora, fundado no debate precedente, arriscar-me a determinar a caracterstica psicolgica, h tanto tempo buscada, que empresta aos produtos de 
uma neurose obsessiva a sua qualidade `obsessiva' ou compulsiva. Um processo de pensamento  obsessivo ou compulsivo quando, em conseqncia de uma inibio (devida 
a um conflito entre impulsos oponentes) na extremidade motora do sistema psquico, ele  levado a cabo com um dispndio de energia que (no que concerne tanto  qualidade 
quanto  quantidade) est normalmente reservado unicamente para as aes; ou ento, com outras palavras, um pensamento obsessivo ou compulsivo  aquele cuja funo 
est em representar um ato regressivamente. Penso que ningum questionar a minha suposio de que os processos do pensamento so de ordinrio conduzidos (por motivos 
de economia) com menores deslocamentos de energia, provavelmente a um nvel mais elevado [de catexia], do que os atos com que se pretende realizar a descarga ou 
modificar o mundo externo.
         O pensamento obsessivo que forou caminho atravs da conscincia com to excessiva violncia precisa, agora, de ser garantido contra os esforos que o pensamento 
consciente fez para resolv-lo. Conforme j sabemos, essa proteo  alcanada mediante a deformao sofrida pelo pensamento obsessivo antes de se tornar consciente. 
Isto, porm, no  o nico meio utilizado. Alm disso, cada idia obsessiva  quase sempre removida da situao na qual ela se originou e na qual, a despeito de 
sua deformao, ela seria capaz de ser compreendida com maior facilidade. Tendo em mira essa finalidade, em primeiro lugar um intervalo de tempo  inserido entre 
a situao patognica e a obsesso que dela emerge, de modo a desnortear toda investigao consciente de suas conexes casuais, e, em segundo lugar, o contedo da 
obsesso  deduzido de suas relaes referenciais particulares mediante uma generalizao dele. A `obsesso por compreender', de nosso paciente,  um exemplo desse 
caso (ver em [1]). Contudo, talvez um exemplo melhor nos seja fornecido por um outro paciente. Trata-se de uma mulher que se proibiu de usar qualquer tipo de adorno 
pessoal, embora a causa excitadora da proibio s se referisse a um nico objeto particular de joalheria: sentia inveja de sua me por possu-lo e tivera esperanas 
de que um dia ela o herdaria. Finalmente, se nos damos o cuidado de distinguir a deformao verbal da deformao do contedo, existe, contudo, um outro meio com 
que a obsesso  protegida das tentativas conscientes para uma soluo. E esta  a escolha de um fraseado indefinido ou ambguo. Aps ser mal compreendido, o fraseado 
poder penetrar nos `delrios' do paciente, e, indiferentemente a quais sejam os demais processos de desenvolvimento ou substituio que sofre a sua obsesso, estes 
se basearo ento numa compreenso errada, e no no sentido apropriado, do texto. Contudo, a observao mostrar que os delrios tendem constantemente a formar novas 
conexes com aquela parte da matria e do teor da obsesso que no est presente na conscincia.
         Gostaria de novamente retornar  vida instintual dos neurticos obsessivos e acrescentar mais uma observao a seu respeito. Revelou-se que nosso paciente, 
ademais de todas as outras caractersticas suas, era um renifleur. Conforme ele prprio relatou, quando criana reconhecia cada pessoa pelo seu cheiro, como o faz 
um cachorro; e mesmo quando adulto era mais suscetvel s sensaes olfativas do que a maioria das pessoas. Deparei com essa mesma caracterstica em outros neurticos, 
tanto em pacientes histricos como em pacientes obsessivos, e cheguei a reconhecer que uma tendncia para tirar prazer do cheiro que se extinguiu desde a infncia, 
pode desempenhar algum papel na gnese da neurose. Ademais, gostaria aqui de levantar a questo geral de saber se a atrofia do sentido do olfato (que foi um resultado 
inevitvel da postura erecta do homem, como se presume) e a conseqente represso orgnica de seu prazer no cheiro no podem ter constitudo uma considervel parcela 
da origem de sua suscetibilidade ao distrbio nervoso. Esse fato fornecer-nos-ia a explicao da razo por que, com o progresso da civilizao,  exatamente a vida 
sexual que tem de cair vtima da represso. Isso porque h muito conhecemos a ntima conexo, na organizao animal, entre o instinto sexual e a funo do rgo 
olfativo.
         Na concluso deste artigo, quero expressar a esperana de que, malgrado seja incompleta a minha comunicao, em todos os sentidos, possa ela, ao menos, 
estimular outros estudiosos para que forneam mais esclarecimentos sobre a neurose obsessiva, com uma investigao mais profunda do assunto. Aquilo que  caracterstico 
dessa neurose - o que a distingue da histeria - no pode, segundo  minha opinio, ser verificado na vida instintual, mas sim no campo psicolgico. No posso deixar 
meu paciente sem registrar com palavras a minha impresso de que ele tinha como que se desintegrado em trs personalidades: em uma personalidade inconsciente e em 
duas pr-conscientes, entre as quais pudesse oscilar a sua conscincia. O seu inconsciente abrangia aqueles seus impulsos que tinham sido suprimidos a uma idade 
precoce e que se podia descrever como impulsos apaixonados e impulsos maus. Em seu estado normal, ele era amvel, animado e sensvel - um tipo de pessoa esclarecida 
e inteligente -, ao passo que em sua terceira organizao psicolgica se curvava ante a superstio e o asceticismo. Ele, portanto, era capaz de ter dois credos 
diferentes e duas diferentes cosmovises a respeito da vida. Essa segunda personalidade pr-consciente abrangia mormente as formaes reativas contra seus desejos 
reprimidos, e era fcil prever que ela teria consumido com a personalidade normal, se a doena tivesse persistido por muito mais tempo. Tenho, no momento, uma oportunidade 
de estudar uma senhora que padece seriamente de atos obsessivos. Ela, de modo semelhante, se viu desintegrada em uma personalidade tolerante e alegre e em uma personalidade 
excessivamente melanclica e asceta. Estabeleceu a primeira delas como seu ego oficial, ao passo que, na realidade, era dominada pela segunda. Essas duas organizaes 
psquicas tm acesso  sua conscincia; contudo, por trs de sua personalidade asceta pode-se discernir a parte inconsciente de seu ser - consideravelmente desconhecida 
para ela e composta de antigos impulsos plenos de desejo h muito tempo reprimidos.
          
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       ADDENDUM:  REGISTRO ORIGINAL DO CASO
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         Foi hbito de Freud, por toda a sua vida, destruir, aps haver sido impresso um de seus trabalhos, todo o material no qual se baseava a publicao.  fato 
conseqente que bem poucos manuscritos originais de seus trabalhos sobreviveram, e menos ainda as notas e registros preliminares dos quais aqueles derivaram. O presente 
registro constitui uma inexplicvel exceo a essa regra, tendo sido encontrado em Londres, entre os artigos de Freud, depois de sua morte. Esse fato  mencionado 
pelos editores das Gesammelte Werke, em seu Prefcio ao Vol. XVII, o qual continha alguns escritos pstumos. Essas notas, contudo, no foram includas naquele volume, 
e ainda (1954) no tinham sido publicadas em alemo. Surgem agora, pela primeira vez, em ingls, em traduo feita por Alix e James Strachey.
         Escritos, como era seu feitio, em grandes folhas de papel almao, sempre preferido por Freud, esses manuscritos contm, naturalmente, as anotaes referidas 
em [1] como tendo sido `feitas na noite do dia do tratamento'. Via de regra, eram essas notas escritas cada dia; contudo, vez e outra saltam alguns dias, e os apontamentos 
incompletos eram feitos logo a seguir. s margens das pginas, aparecem, s vezes, palavras isoladas, grafadas na vertical. Presume-se que essas palavras - tais 
como `sonho', `transferncias', `fantasias de masturbao' - constituem resumos do material particular em discusso.  evidente que foram inseridas numa data um 
tanto posterior, talvez enquanto Freud preparava uma ou outra das apresentaes do caso. No se julgou necessrio inclu-las aqui. O registro interrompe-se por algum 
motivo explcito aps o apontamento que traz a data de 20 de janeiro (1908), quando o tratamento contava com quase quatro meses.
         O original alemo est, em sua maior parte, escrito em estilo telegrfico, com numerosas abreviaes e com a omisso de pronomes e outras palavras de valor 
secundrio. Existem, todavia, apenas bem raros lugares nos quais no se pde decifrar com preciso o significado. A fim de tornar o material mais inteligvel e legvel, 
as elipses verificadas no original foram, na maioria, completadas na traduo. Por conseguinte, apesar da coerncia formal dessa verso, o leitor deve constantemente 
se lembrar de que aquilo que vem adiante no  de fato, outra coisa seno lembretes feitos sem qualquer inteno, fosse qual fosse, de publicao em forma no editada. 
Os nomes prprios que, em sua grande maioria, ocorrem no registro, foram aqui substitudos por outros ou por letras iniciais arbitrariamente escolhidas. Os pseudnimos 
usados pelo prprio Freud no caso clnico publicado foram, naturalmente, mantidos no texto.
         Quase toda a primeira tera parte do registro original foi reproduzida por Freud quase verbatim na verso publicada. Abrange a entrevista preliminar de 
1 de outubro de 1907 e as sete primeiras consultas - ou seja, at 9 de outubro, inclusive (ao final do Captulo I (D), em [1]). As alteraes empreendidas por Freud 
foram quase que exclusivamente verbais ou estilsticas. Na verso publicada, Freud acrescentou determinado volume de comentrios, mas a principal modificao consistiu 
em ele tornar a histria das manobras menos confusa do que era  medida que vinha emergindo no registro dirio. Na ntegra, as diferenas entre as duas verses no 
parecem ter importncia suficiente para justificar a publicao dessa primeira parte do registro. Pode, entretanto, ser interessante fornecer a verso original da 
primeira entrevista de Freud com o paciente, que fornecer alguma idia a respeito da natureza das modificaes, j que elas so maiores aqui do que em qualquer 
outra parte das primeiras consultas.
         `1 de out., 07. - O Dr. Lorenz, 29 anos e meio de idade, disse que sofria de obsesses, de forma particularmente intensa a partir de 1903, mas que remontavam 
 sua infncia. Seu aspecto principal eram medos de que alguma coisa acontecesse a duas pessoas de quem ele tanto gostava, seu pai e uma dama a quem ele admirava. 
Alm disso, havia impulsos compulsivos, como, por exemplo, o de cortar a garganta com uma lmina, e proibies, s vezes com relao a coisas de bem pouca importncia. 
Perdeu anos de seus estudos, conforme me contou, combatendo essas suas idias; e, conseqentemente, s agora  que passava em seus exames finais de direito. Suas 
idias afetavam o seu trabalho profissional apenas no que concernia ao direito criminal. Sofria tambm de um impulso para causar algum dano  dama que ele admirava. 
Esse impulso normalmente se calava na presena da dama, mas se mostrava quando ela estava ausente dele. Contudo, estar longe dela - ela mora em Viena - sempre lhe 
havia causado um bem. Dos vrios tratamentos que tentara, nenhum fora de qualquer utilidade para ele, salvo um ou outro tratamento hidroteraputico em Munique; e, 
pensava ele, s foi bom para ele porque havia travado certo conhecimento, l, que o levou a ter relaes sexuais regulares. Aqui no tinha quaisquer oportunidades 
dessa natureza e ele raramente tinha relaes sexuais, e apenas irregularmente, quando se oferecia a ocasio. Sentia repulsa por prostitutas. Disse que sua vida 
sexual se havia involudo; a masturbao s desempenhou um pequeno papel, entre os 16 e 17 anos de idade. A primeira vez que tivera relaes sexuais tinha ele 26 
anos.
         `Ele me deu a impresso de ser uma pessoa esclarecida e sagaz. Aps dizer-lhe as minhas condies, contou-me que ele precisava consultar sua me a respeito. 
No dia seguinte, voltou, e aceitou-as.'
         Os dois teros restantes do registro de Freud encontram-se, aqui, traduzidos na ntegra. Encontrar-se-, em seu contedo, alguma matria que Freud inseriu 
no caso clnico publicado; porm, grandes parcelas abarcam um terreno novo. Caso existam discrepncias eventuais entre o registro e o caso clnico publicado,  mister 
lembrar que o caso continuou por muitos meses aps terminado o registro e que, portanto, existiam muitas oportunidades para o paciente corrigir os seus relatos anteriores 
e para o prprio Freud obter uma viso mais ntida dos pormenores. O registro  notvel pelo fato de fornecer a nica imagem que temos do tipo de matria-prima na 
qual se assentava o trabalho total de Freud e pelo modo paulatino com que esse material vinha  luz. Finalmente, ele nos d uma oportunidade nica de observar a 
detalhada elaborao da tcnica de Freud na poca dessa anlise.
         A fim de proporcionar ao leitor algum auxlio em seu acompanhamento da histria,  medida que ela vem  tona, acha-se apenas uma lista, de carter intrinsecamente 
experimental, de alguns dados cronolgicos s vezes inconsistentes oriundos desse registro e do caso clnico publicado, juntamente com alguns fatos tabelados relativos 
 famlia do paciente.
         
         DADOS CRONOLGICOS
1878        Nascimento do paciente.
1881        (Idade: 3)        Raiva contra o pai.
1882        (Idade: 4)        Cena com Frulein Peter. Morte de 
1883        (Idade: 6)        Katherine. Pssaro empalhado
1884        (Idade: 5)        .Erees. Idias de que os pais liam seus pensamento.
1885        (Idade: 7)        Cena com Frulein Lina. Atirou no irmo.
1886        (Idade: 8)        Passou a freqentar a escola. Conheceu Gisela.
1887        (Idade: 9)        Morte do pai de Gisela.
1888        (Idade: 10)        Verme nas fezes do primo.
1889        (Idade: 11)        Esclarecimento sexual. `Porco sujo.'
1890        (Idade: 12)        Apaixonado por uma menina. Obsesso sobre a morte do pai. Arrotos da me.
1891 (Idade: 13) Exibiu-se a Frulein Lina. 
1892        (Idade: 14) 
1893        (Idade: 15)        Religioso at essa data.
1894        (Idade: 16)
1895        (Idade: 17)         Masturbao ocasionalmente.
1898        (Idade: 20)        Apaixonou-se por Gisela. Obsesso sobre a morte do pai. Suicdio da costureira.
1899        (Idade: 21)        Operao de Gisela. Morte do pai. Incio da masturbao. Servio militar.
1900        (Idade: 22)         Juramento contra masturbao. - (Dez.) Rejeio da parte de Gisela.
1901        (Idade: 23)         Doena da av de Gisela. Retorno da masturbao.
1902        (Idade: 24)         (Maio) Morte da tia e irrupo da neurose obsessiva. (Vero) Gmunden. - (Out.) Exame.
1903        (Idade: 25)         (Jan.) Exame. Morte de um tio aptico. Projeto de casamento. Exacerbao da neurose obsessiva. - (Julho) Exame. Segunda rejeio 
da parte da Gisela. Vero em Unterach. Idia de suicdio.
1904        (Idade: 26)        Primeira cpula (Trieste).
1906        (Idade: 28)        Em Salzburg. Apotropicos `iniciais'.
Sonho das espadas japonesas.
1907        (Idade: 29)        (Ago.) Manobras na Galcia. - (Out.) Comeo da anlise.
         
         NOTA SOBRE ALGUNS IRMOS E IRMS DO PACIENTE
         Hilde, irm mais velha, casada.
         Katherine, quatro ou cinco anos mais velha que o paciente.
         Morreu aos quatro anos de idade.
         Gerda.
         Constanze.
         Irmo, um ano e meio mais novo que o paciente (? Hans.) 
         Julie, trs anos mais nova que o paciente. Casada com Bob St.
         
         
         
         
         
         REGISTRO ORIGINAL DO CASO
         
         Com respeito s consultas que se seguem, farei anotao apenas de uns poucos fatos essenciais, sem reproduzir o curso da anlise.
         10 de out. - Anunciou que queria conversar sobre o comeo das suas idias obsessivas. Verificou-se que ele queria, com isso, dizer o comeo de suas ordens. 
[Elas comearam] quando ele estudava para as provas de concurso pblico. Estavam ligadas  dama, iniciando-se por pequenas ordens sem sentido (por exemplo, contar 
at certo nmero, no espao entre o trovo e o relmpago; sair correndo da sala em determinado exato minuto etc.) Em conexo com a sua inteno de emagrecer, foi 
impelido por uma ordem em seus passeios em Gmunden [ver em [1]] (no vero de 1902), a andar sob o calor do meio-dia. Tinha uma ordem de fazer os exames em julho, 
mas se ops  idia aconselhado por seu amigo; contudo, mais tarde recebeu ordem de faz-los na primeira oportunidade, em outubro,  qual obedeceu. Animou-se em 
seus estudos com a fantasia de que deveria apressar-se de modo a fazer-se capaz de casar com a dama. Essa fantasia era como que a motivao para sua ordem. Parece 
que atribuiu essas ordens a seu pai. Uma vez perdeu vrias semanas devido  ausncia da dama, que se afastara em virtude da doena de sua av, uma mulher muito idosa. 
Ele se ofereceu para visit-la, mas ela recusou. (`Abutre' [ver em [1]].) Precisamente ao se achar atento em seu estudo, aconteceu pensar o seguinte: `Voc devia 
providenciar para obedecer  ordem de fazer suas provas no primeiro momento, em outubro. Mas se voc recebesse uma ordem para cortar a sua garganta, como  que seria?' 
Imediatamente cientificou-se de que essa ordem j tinha sido dada, e j corria at o aparador para apanhar a sua lmina, quando pensou: `No, no  to simples assim. 
Voc tem de sair e matar a velha.' Logo aps, caiu no cho, invadido de horror. - Quem foi que lhe deu essa ordem?
         A dama ainda permanece em grande mistrio. Juramentos que ele esqueceu. Sua luta defensiva contra eles, explcita porm esquecida tambm.
         11 de out. - Luta violenta, um mau dia. Resistncia, porque ontem lhe pedi para trazer consigo um retrato da dama - quer dizer, para deixar de lado a sua 
reticncia com respeito a ela. Conflito relativo a saber se ele abandonaria o tratamento ou cederia os seus segredos. Seu Cs. estava longe de ter controlado seus 
pensamentos oscilantes. Ele descreveu o modo como procura rechaar idias obsessivas. Durante o seu perodo religioso, ele comps, para si mesmo, preces, que tomavam 
cada vez mais tempo, durando por vezes uma hora e meia - e a razo disso,  que sempre se inseria alguma coisa nas frases simples e as revertia em seu sentido contrrio, 
por exemplo: `Que Deus - no - o proteja!' (Um Balaam s avessas.) Expliquei a incerteza fundamental de todas as medidas de confiana readquirida, de vez que aquilo 
contra o que se tem lutado vai-se gradualmente inserindo neles. Ele o confirmou. Numa dessas ocasies, ocorreu-lhe a noo de amaldioar: isto certamente no se 
transformaria em uma idia obsessiva. (Era este o significado original daquilo que tinha sido reprimido.) Ele havia de repente deixado tudo isso de lado, h dezoito 
meses atrs; isto , ele formara uma palavra com as iniciais de algumas de suas preces - algo como `Hapeltsamen' (preciso pedir mais pormenores a esse respeito) 
[cf. em [1]] - e a dizia com tanta rapidez que nada poderia se insinuar para dentro dela. Tudo isso era fortalecido com determinada dose de superstio, um trao 
de onipotncia, como se seus desejos maus possussem poder, e isto se confirmava por experincias reais. A ttulo de exemplo: na primeira vez que esteve no Sanatrio 
de Munique [ver em [1]], ocupava um quarto junto ao da jovem com que ele teve relaes sexuais. Ao l retornar pela segunda vez, ele hesitou quanto a tomar novamente 
o mesmo quarto, de vez que este era muito grande e caro. Quando, finalmente, ele disse  jovem que havia decidido ocup-lo, ela lhe falou que o Professor j o havia 
tomado. `Que ele caia morto por isso!', pensou. Quinze dias depois, foi perturbado, em seu sono, pela idia de um cadver. Ele a baniu de sua mente; porm, de manh, 
ele escutou que o Professor de fato sofrera um derrame, tendo sido levado para seu quarto mais ou menos naquela mesma hora. Ele tambm possui, diz ele, o dom de 
ter sonhos profticos. Contou-me o primeiro desses sonhos.
         12 de out. - Ele no me contou o segundo, mas me falou de como havia passado o dia. Seu nimo estava melhor e ele foi ao teatro. Ao chegar em casa, topou 
com a oportunidade de encontrar com sua criada, que no  nem jovem nem bonita, mas que durante algum tempo lhe vinha dando ateno. Ele no  capaz de saber por 
que, mas aconteceu que, de repente, lhe deu um beijo e a agarrou. Embora ela, sem dvida, lhe fizesse apenas uma mostra de resistncia, ele recobrou o juzo e fugiu 
para o seu quarto. Com ele ocorria sempre a mesma coisa: os seus momentos agradveis e felizes eram estragados por algo srdido. Orientei a sua ateno para a analogia 
entre esse fato e homicdios instigados por agents provocateurs.
         Continuou com esse fluxo de pensamento e chegou ao assunto da masturbao que em seu caso encerrava uma estranha histria. Comeara a se masturbar quando 
tinha cerca de 21 anos - depois da morte de seu pai, como consegui que confirmasse - porque ouviu falar e sentiu certa curiosidade. Ele praticava isso raramente, 
e sempre se sentia muito envergonhado depois. Certo dia, sem qualquer provocao, pensou o seguinte: `Juro, pela salvao de minha alma, deixar de masturbar-me!' 
Embora no ligasse valor algum a esse voto e risse dele em face de seu peculiar ar solene, abandonou-o por algum tempo. Alguns anos depois, na poca em que faleceu 
a av de sua dama e ele ento quis encontrar-se com ela, sua me lhe disse: `Pela salvao de minha prpria alma, voc no ir!' A semelhana desse juramento com 
o outro o impressionou, e ele se censurou por colocar em perigo a salvao da alma de sua me. Disse a si mesmo para no ser com relao a si prprio mais covarde 
do que com relao a outras pessoas e, se persistisse em sua inteno de acompanhar a dama, que comearia a masturbar-se de novo. Subseqentemente, abandonou a idia 
de ir, porque tinha uma carta que lhe dizia para no o fazer. A partir daquele momento a masturbao ressurgia de tempos em tempos. Era provocada quando ele vivia 
momentos especialmente agradveis ou quando lia belas passagens. Por exemplo, uma vez ocorreu um desses momentos, numa tarde agradvel, quando ele escutou um postilho 
que tocava sua corneta na Teinfaltstrasse [no centro de Viena] - at que isto foi proibido por um oficial de polcia, provavelmente em virtude de algum decreto da 
Corte que proibia tocar corneta na cidade. E ocorreu noutra oportunidade, quando lia em Wahrheit und Dichtung; como Goethe se havia livrado, numa irrupo de ternura, 
dos efeitos de uma maldio que uma amante conjurara sobre qualquer pessoa que beijasse nos lbios dele; vinha sofrendo h algum tempo, de forma quase supersticiosa, 
da maldio que o mantinha sem ao; mas, agora, ele acabava de romper com essa priso, e euforicamente cobria seu amor de beijos. (Lilli Schoenemann?) E nesse ponto 
ele se masturbou, conforme me contou com admirao.
         
         Havia, ademais, em Salzburg uma criada que o atraa e com quem ele, mais tarde, tambm se envolveu. Isso o levou a masturbar-se. Contou-me a esse respeito 
fazendo aluso ao fato de que essa masturbao havia frustrado uma pequena viagem at Viena pela qual ele vinha ansiando.
         Forneceu-me mais alguns dados particulares a respeito de sua vida sexual. Relaes sexuais com puellae desagradam-no. Uma vez, estando com uma, ele imps 
como condio que ela se despisse e, exigindo ela, em troca, 50 por cento a mais, ele lhe pagou e foi embora, muitssimo revoltado com tudo. Nas poucas ocasies 
em que tivera relaes sexuais com jovens (em Salzburg e, mais tarde, em Munique, com a amante), ele jamais se sentia censurando a si mesmo. Quo exalt tinha ele 
ficado, quando a copeira lhe contou a comovente histria de seu primeiro amor e como tinha sido chamada ao leito de morte de seu amor. Ele lamentou ter combinado 
passar a noite com ela, e foi apenas a escrupulosidade dela que o compeliu a enganar o morto. Ele sempre buscava fazer uma rigorosa distino entre relaes que 
consistiam somente na cpula e tudo aquilo que era denominado de amor; e a idia de que ela tinha sido amada to profundamente f-la, aos olhos dele, um objeto inadequado 
para a sua sensualidade.
         Eu no poderia evitar, aqui, de elaborar o material  nossa disposio dentro de um evento: como antes da idade de seis anos, ele cultivara o hbito de 
se masturbar, e como seu pai o havia proibido, usando, como ameaa, a frase `Voc vai morrer se fizer isso', e, talvez, tambm ameaando cortar-lhe o pnis. Isto 
explicaria o seu ato de masturbar-se em conexo com a libertao da maldio, as ordens e proibies em seu inconsciente e a ameaa de morte que acabava de se retransferir 
para seu pai. Suas idias suicidas iniciais corresponderiam a uma autocensura de ser ele um assassino. Isto, disse ele no fim da consulta, gerou em sua mente um 
grande nmero de idias.
         Addenda - Contou-me que eram srias as suas intenes de cometer suicdio, e s foi detido por duas consideraes. Uma delas consistia em que ele no podia 
aturar a idia de sua me encontrar seus restos mortais cobertos de sangue. Contudo, era capaz de evit-lo mediante a fantasia de executar a faanha no Semmering, 
deixando uma carta com o pedido de que fosse seu cunhado o primeiro a ser informado. (Da segunda considerao eu me esqueci, fato bastante curioso.)
         No mencionei de consultas anteriores trs lembranas inter-relacionadas, que datam de seu quarto ano de idade, as quais ele apresenta como sendo as mais 
remotas, e que se referem  morte de sua irm mais velha, Katherine. A primeira lembrana era a irm sendo levada para cama. A segunda, de ele perguntar `Onde est 
Katherine?', entrar no quarto e encontrar seu pai sentado na poltrona, chorando. A terceira, tratava-se de seu pai curvando-se por sobre sua me em prantos. (Curioso 
 que no estou seguro quanto a saber se essas lembranas so dele ou de Ph.)
         14 de out. - Minha incerteza e meu esquecimento a respeito desses dois ltimos pontos parecem estar intimamente ligados. As lembranas eram realmente dele, 
e a considerao que eu havia esquecido foi que, certa vez, quando muito jovem, ele e a irm conversavam sobre a morte, e esta dissera: `Juro pela minha salvao 
que se voc morrer eu me matarei.' De modo que, em ambos os casos, tratava-se da morte de sua irm. (Foram esquecidas devido aos meus prprios complexos.) Ademais 
disso, essas mais remotas recordaes, quando ele tinha 3 anos e meio e seu irmo oito anos, se ajustam  minha construo. A noo da morte o envolveu muito de 
perto, e ele realmente acreditava que morreria se se masturbasse.
         As idias geradas em sua mente [no final da consulta anterior] foram as seguintes. A idia de seu pnis ser cortado fora atormentou-o a um grau extraordinrio, 
e isto havia acontecido quando ele se encontrava na parte mais sria de seus estudos. A nica razo que ele poderia achar era que, naquela poca, padecia do desejo 
de masturbar-se. Em segundo lugar, e isto lhe parecia ter muito mais importncia, por duas vezes em sua vida, na ocasio de sua primeira cpula (em Trieste) e em 
Munique - e tinha ele dvidas quanto  primeira delas, embora seja plausvel no plano interno -, essa idia ocorreu-lhe a seguir: `Que sensao maravilhosa! A gente 
faria tudo por isto; por exemplo, at assassinar o pai de algum!' Isto no fazia sentido, em seu caso, de vez que seu pai j estava morto. Em terceiro lugar, descreveu 
uma cena sobre a qual outras pessoas muitas vezes lhe contaram, inclusive seu pai, mas de que ele mesmo no tinha recordao, em absoluto. Por toda a sua vida teve 
ele um medo terrvel de bofetes, e  muito grato a seu pai por jamais hav-lo espancado (at onde se lembre). Quando outras crianas eram espancadas, ele costumava 
afastar-se de mansinho e se esconder, transido de terror. Contudo, quando bem pequeno (3 anos de idade), parece que fez uma travessura, em virtude da qual seu pai 
lhe batera. O menino ento se tomou de uma raiva terrvel e passou a proferir improprios contra o pai. Mas como desconhecia a linguagem dos xingamentos, ele o chamava 
de todos os nomes de objetos triviais que lhe vinham  cabea: `Sua lmpada! Sua toalha! Seu prato!', e outros mais. Parece que seu pai exclamou `Ou o menino vai 
ser um grande homem ou um grande criminoso!' Essa histria, como admitiu o paciente, era evidncia da raiva e da vingana datadas de um passado remoto.
         Expliquei para ele o princpio do Adige, em Verona, o qual ele achou bastante ilustrativo. Contou-me mais alguma coisa relacionada com sua sede de vingana. 
Certa vez, quando seu irmo estava em Viena, pensou que tinha motivos para acreditar que a dama o preferia. Ficou to furiosamente ciumento com esse fato, que receou 
vir a cometer alguma ofensa contra o irmo. Pediu ao irmo que brigasse com ele e no se sentiu de fato pacificado at que ele prprio fosse derrotado.
         Contou-me sobre uma outra fantasia de vingana referente  dama, da qual ele no tinha necessidade de se envergonhar. Ele acha que ela d valor  posio 
social. Por conseguinte, elaborou a fantasia de que ela havia casado com um homem de nvel social, que ocupava um cargo pblico. Ele ento entrou para o mesmo departamento 
e subiu profissionalmente com mais rapidez do que o marido dela. Um dia, esse homem cometeu um ato desonesto. A dama atirou-se a seus ps e lhe implorou que salvasse 
o marido. Ele prometeu faz-lo e lhe comunicou que fora apenas por amor a ela que havia assumido o cargo, de vez que havia previsto que esse momento iria ocorrer. 
Agora estava cumprida a sua misso, seu marido estava salvo e ele se retiraria de seu posto. Mais tarde, ele foi ainda mais adiante e achou que preferiria ser o 
benfeitor da dama e que lhe prestaria qualquer favor de porte sem ela saber ser ele quem o estava fazendo. Em sua fantasia ele via apenas a evidncia de seu amor 
e no a magnanimidade  la Monte Cristo destinada a reprimir sua vingana.
         18 de out. - Apontamentos incompletos. 
         Comeou confessando um ato desonesto que cometeu, j em idade adulta. Jogava vingt-et-un e j havia ganho bastante no jogo. Anunciou que iria apostar tudo 
na rodada seguinte e, ento, pararia de jogar. Subiu at 19 e refletiu por um momento se continuaria um pouco mais; a seguir, baralhou o mao de cartas, com algum 
alheamento, e viu que a carta seguinte era, de fato, um dois, de modo que, ao ser virada, ele conseguiu de fato fazer vinte e um. Seguiu-se uma lembrana da infncia, 
de seu pai hav-lo instigado a tirar do bolso de sua me a carteira dela e da retirar alguns kreuzer.
         Falou a respeito de sua conscienciosidade a partir daquela poca, e de seu cuidado com dinheiro. Ele no se apossou de sua herana, mas a deixou com sua 
me, que lhe concede uma quantia bem pequena de dinheiro para pequenos gastos. Desse modo, ele comea a comportar-se como um sovina, embora no tenha nenhuma propenso 
para isto. Tambm encontrou dificuldade de dar um subsdio a seu amigo. No era sequer capaz de vir a extraviar qualquer objeto que havia pertencido a seu pai ou 
 dama.
         No dia seguinte, dando continuidade s suas associaes, falou a respeito de sua atitude com relao a uma tal de `Reserl', que est para se casar mais 
 evidente que est muito ligada a ele; de como a beijou e, ao mesmo tempo, teve uma aflitiva idia compulsiva de que algo desagradvel estava acontecendo com sua 
dama - algo parecido com a fantasia ligada ao Capito Novak [o `cruel' capito]. Seu sonho, durante a noite, dizia com muito mais clareza o que tinha sido tocado 
de leve, quando ele estava acordado:
         (I) Reserl estava hospedada conosco. Ela se levantou como se hipnotizada, aproximou-se por trs de minha cadeira, com um semblante de palidez, e colocou 
seus braos ao meu redor. Parecia que eu tentava me livrar de seu abrao, como se cada vez que ela afagasse minha cabea alguma desgraa iria ocorrer  dama - tambm 
alguma desgraa no outro mundo. Acontecia automaticamente - como se a desgraa adviesse no exato momento do afago.
         (O sonho no foi interpretado; na realidade, ele  apenas uma verso mais clara da idia obsessiva da qual no ousava ter conhecimento durante o dia.)
         Estava profundamente abalado com o sonho de hoje, pois ele d muito valor a sonhos e estes desempenharam um grande papel em sua histria, havendo-lhe at 
provocado crises.
         (II) Em outubro de 1906 - possivelmente aps masturbar-se pelo momento em que lia a passagem de Wahrheit und Dichtung [ver em [1]]. 
         
         A dama estava num certo tipo de crcere. Ele tomava das duas espadas japonesas e a libertava. Agarrou-as com fora e apressou-se at o lugar onde suspeitava 
que ela se encontrava. Ele sabia que as espadas significavam `casamento' e `cpula'. Ambas as coisas agora se concretizavam. Encontrou-a encostada numa parede, com 
instrumentos de tortura para apertar os seus polegares. O sonho parecia-lhe, agora, ficar ambguo. Ou ele a libertava dessa situao por intermdio das suas duas 
espadas, `casamento' e `cpula', ou a outra idia era que apenas por causa delas  que ela cara nessa situao. (Era patente que ele prprio no compreendia essa 
alternativa, embora suas palavras provavelmente no pudessem encerrar qualquer outro significado.)
         As espadas japonesas existem realmente. Esto penduradas  cabeceira de sua cama e so feitas de inmeras moedas japonesas. Foram um presente de sua irm 
mais velha, em Trieste, que (segundo me contou, respondendo a uma indagao)  muito feliz no casamento.  possvel que a criada, habituada a espanar o seu quarto 
enquanto ele ainda est dormindo, tenha tocado nas moedas, fazendo assim um barulho que penetrou em seu sono.
         (III) Ele se lembrou, com muita satisfao, desse terceiro sonho, como se fosse seu mais precioso tesouro.
         Dez-jan. de 1907. Eu estava num bosque, em grande melancolia. A dama veio encontrar-se comigo, e parecia muito plida. `Paul, venha comigo antes que seja 
tarde demais. Sei que ns dois somos pessoas que sofrem.' Colocou seu brao no meu e me arrastou para longe, com forte mpeto. Lutei com ela, mas sua fora era enorme. 
Chegamos junto a um largo rio e ela l ficou, parada. Eu estava vestido com uns miserveis trapos que caram na corrente, sendo levados para longe. Tentei nadar 
atrs deles, ela porm me deteve: `Deixe os seus trapos para l!' L fiquei, em trajes deslumbrantes.
         Ele sabia que os trapos significavam a sua doena e que o sonho inteiro lhe prometia sade atravs da dama. Ele estava muito feliz, naquela ocasio... at 
que vieram outros sonhos que o tornaram uma pessoa extremamente desgraada.
         Ele no podia abster-se de acreditar no poder premonitrio dos sonhos, de vez que tivera, para prov-lo, inmeras experincias notveis. Conscientemente 
ele, com efeito, no acredita nesse poder. (Os dois pontos de vista correm paralelos, mas o ponto de vista crtico  estril.)
         (IV) No vero de 1901, escrevera a um de seus colegas para que lhe enviasse 3 kronen de fumo para cachimbo. Passaram-se trs semanas sem qualquer resposta 
e sem o fumo. Certa manh, despertou e disse que havia sonhado com fumo. No ter o carteiro, por acaso, trazido um embrulho para ele? No. - Dez minutos depois, 
soou a campainha da porta: o carteiro trouxera o fumo para ele.
         (V) Durante o vero de 1903, quando estudava para a terceira prova do concurso pblico.
         Sonhou que, na prova, lhe pediram para explicar a diferena entre um `Bevollmchtigter' e um `Staatsorgan'. Alguns meses depois, nas provas finais, essa 
pergunta lhe foi feita, de fato. Ele tem muita certeza com relao a esse sonho; contudo, no existe prova de ele haver falado sobre o sonho nesse intervalo [entre 
o sonho e a sua realizao].
         Tentou explicar o sonho anterior atravs do fato de que seu amigo no tinha dinheiro, e que ele prprio talvez possa ter sabido a data na qual ele ia dispor 
de algum. No foi possvel fixar datas precisas.
         (VI) Sua irm mais velha possui dentes muito bonitos. Mas h trs anos, eles comearam a doer, e foi preciso extra-los. O dentista do lugar onde ela mora 
(um amigo) disse: `Voc vai perder todos os seus dentes.' Certo dia, ele [o paciente] subitamente pensou: `Que ser que est acontecendo com os dentes de Hilde?' 
 provvel que ele mesmo possa ter estado sofrendo de dor de dente. Naquele dia, masturbara-se novamente, e ao ir dormir viu, numa apario do entre-sono, sua irm 
incomodada com os dentes. Trs dias depois, dizia-lhe numa carta que um outro dente dela comeava a afligir; e, a seguir, ela o perdeu.
         Ele ficou espantado quando lhe expliquei que sua masturbao era responsvel por isto.
         (VII) Um sonho, quando ele estava com Marie Steiner. J o havia contado, mas agora acrescentou alguns detalhes. Ela  uma espcie de sua namoradinha da 
infncia. Aos 14 ou 15 anos de idade, teve uma paixo sentimental por ela. Ele insiste em referir a imaginao estreita que tinha ela. Em setembro de 1903, ele a 
visitou e viu seu irmo de sete anos, que era idiota, e lhe causou uma terrvel impresso. Em dezembro, teve um sonho no qual ia ao enterro dele. Pela mesma poca, 
a criana morreu. No foi possvel fixar as ocasies com mais preciso. No sonho ele estava parado ao lado de Marie Steiner e a encorajava a no desanimar. (`Abutre' 
[ver em [1]], como sua irm mais velha o chamava. Ele constantemente estava matando as pessoas, de maneira a poder, depois, conseguir cair nas boas graas de algum.) 
O contraste entre o amor idlatra da me pelo filho idiota e seu comportamento antes de seu nascimento. Parece que ela foi responsvel pela enfermidade da criana, 
mantendo-a presa demais a si, porque se envergonhava de ganhar um beb to tarde assim em sua vida.
         Durante sua estada em Salzburg, era ele constantemente perseguido por premonies, que admiravelmente se concretizavam. Por exemplo, havia um homem a quem 
ouviu conversar com a copeira, no hotel, a respeito de roubos - isto ele interpretou como um augrio de que iria, em seguida, ver o homem como um criminoso. E, com 
efeito, tal aconteceu, poucos meses depois, ao ser transferido para o Departamento Criminal. - Em Salzburg, do mesmo modo, costumava encontrar-se, na ponte, com 
pessoas em quem um instante antes estivera pensando. (Sua irm j o havia explicado como um fato elucidvel mediante uma viso indireta [perifrica].) - Alis, ocorreu-lhe 
pensar numa cena em Trieste, quando estava na Biblioteca Pblica, com sua irm. Um homem passou a conversar com eles, falando de maneira imbecil, e lhe disse: `Voc 
est ainda na fase dos Flegeljahre [`Anos de Adolescncia'], de Jean Paul. Uma hora depois [aps pensar nesse episdio], ele estava na biblioteca de Salzburg, que 
emprestava livros, e o Flegeljahre foi um dos primeiros livros que apanhou. (Contudo, no o primeiro. Uma hora antes criara o propsito de ir at a biblioteca, e 
foi isto que o recordou da cena em Trieste.)
         Em Salzburg, ele se via como um vidente. As coincidncias, todavia, jamais tinham importncia e nunca se referiam a coisas que ele esperava, mas sim a trivialidades 
apenas.
         (A histria sobre Marie Steiner interpolava-se entre duas histrias sobre suas irms. A falta de clareza de suas idias obsessivas  digna de nota; em seus 
sonhos elas so mais claras.)
         18 de out. - Dois sonhos, ligados apenas a crises [ver em [1]]. Em outra ocasio, tivera a idia de no mais se lavar. Adveio-lhe na forma costumeira, com 
as suas proibies: `Que sacrifcio estou preparado para fazer, a fim de...?' Imediatamente, porm rejeitou-a. Respondendo a minhas perguntas, contou-me que at 
a sua puberdade ele fora sempre um porquinho. Depois, tornou-se propenso  idia de uma superlimpeza e, ao desencadear-se sua doena, passou a ser uma pessoa fanaticamente 
asseada etc. (isto em conexo com suas ordens). Mais recentemente, certo dia saiu a passear com a dama - estava sob a impresso de que aquilo que me contava carecia 
de qualquer importncia. A dama cumprimentou um homem (um mdico), ela foi muito amvel com ele, amvel demais - o paciente admitiu que ficara com cime e, de fato, 
falou a esse respeito. Em casa da dama, jogaram baralho; ficou melanclico,  noite; na manh seguinte, teve o seguinte sonho:
         (VIII) Estava com a dama. Ela se mostrava muito afetuosa com ele, e ele lhe contou a sua idia e proibio compulsivas com relao s espadas japonesas 
- cujo significado consistia em no poder casar com ele nem ter com ela relaes sexuais. Mas isto  um disparate, disse ele, da mesma forma eu poderia ter uma proibio 
no sentido de nunca mais me lavar. Ela sorriu e assentiu com a cabea. No sonho, ele achou que isto significava que ela concordava com ele em que as duas coisas 
eram absurdas. Contudo, ao despertar, ocorreu-lhe a idia de que ela queria dizer no haver para ele mais necessidade de se lavar. Ele ficou num violento estado 
de emoo e bateu com a cabea na cabeceira da cama. Sentiu como que uma massa informe de sangue em sua cabea. Em semelhantes ocasies ele j tivera a idia de 
fazer um buraco afunilado em sua cabea, para deixar sair aquilo que estava doente em seu crebro; a perda seria compensada de algum modo. Ele no compreende o seu 
estado. Expliquei: O funil de Nuremberg - sobre o qual seu pai, de fato, costumava falar com freqncia. E [prosseguiu o paciente] seu pai costumava quase sempre 
dizer `algum dia voc vai meter coisas dentro de sua cabea'. Interpretei isto como: raiva, vingana contra a dama, oriunda do cime, a conexo com a causa provocadora 
[do sonho], o incidente durante o passeio - a qual ele considerava algo to banal. Confirmou a raiva que sentiu pelo mdico. Ele no compreendia o conflito de saber 
se deveria, ou no, casar-se com ela. No sonho, ele possua um sentimento de liberao - liberao a partir dela, completei.
         Protelou a ordem de no mais se lavar e no a cumpriu. A idia foi substituda por inmeras outras idias, sobretudo a de cortar sua garganta.
         27 de out. - Assentamentos incompletos. Enquanto ele colocar dificuldades em fornecer-me o nome da dama, seu relato ser incoerente. Incidentes  parte: 
         
         Certa noite, em junho de 1907, ele visitava seu amigo Braun, cuja irm, Adela, jogava com os dois. Ela lhe mostrou muitssima ateno. Ele se sentira muito 
oprimido e pensara bastante a respeito do sonho das espadas japonesas - o pensamento de casar com a dama, caso no fosse com outra jovem.
         Sonho, de noite: - Sua irm Gerda estava muito doente. Ele foi at a cama onde ela estava. Braun veio em direo dele. `Voc s poder salvar sua irm se 
renunciar a todos os prazeres sexuais', ao que ele respondeu, cheio de assombro (para vergonha sua), `todos os prazeres'.
         Braun est interessado em sua irm. H alguns meses, ele a trouxe uma vez para casa quando ela no estava se sentindo bem. A idia s pode ter significado 
que, se ele casasse com Adela, o casamento de Gerda com Braun tambm seria provvel. Assim, ele se estava sacrificando por ela. No sonho, colocava-se em uma situao 
compulsiva de modo a ser obrigado a casar. Sua oposio  sua dama e sua inclinao  infidelidade so evidentes. Aos 14 anos, ele teve relaes homossexuais com 
Braun - cada qual olhando o pnis do outro.
         Em Salzburg, em 1906, teve a seguinte idia, durante o dia todo: Supondo que a dama lhe dissesse `voc no deve ter nenhum prazer sexual at estar casado 
comigo', ser que ele faria um juramento nesse sentido? Uma voz dentro dele disse `sim'. (Voto de abstinncia em seu Ics.) Naquela noite sonhou que estava noivo 
da dama, e, enquanto passeava de brao dado com ela, ele disse, em regozijo: `Eu jamais teria imaginado que isto pudesse se realizar to cedo.' (Referia-se isto 
 sua abstinncia compulsiva. Isto era realmente digno de nota, e correto; e confirmava o meu ponto de vista acima.) Naquele momento viu a dama fazendo uma cara 
como se no estivesse interessada no noivado. A felicidade dele ficou, com isto, bastante prejudicada. Disse para si: `Voc est comprometido e, contudo, no est 
feliz. Voc finge estar um pouquinho feliz, de modo a convencer-se de que voc  feliz.'
         Aps persuadi-lo a revelar o nome de Gisa Hertz e todos os detalhes a respeito dela, seu relato tornou-se claro e sistemtico. A predecessora dela foi Lise 
O., uma outra Lise. (Ele sempre tinha simultaneamente vrios interesses, do mesmo modo como mantinha diversas modalidades de ligaes sexuais, derivados de suas 
vrias irms.)
         Vero de 1898. (Idade: 20.) Sonho: - Ele discutia com Lise II um assunto abstrato. De repente, o quadro onrico desapareceu e ele olhava para uma grande 
mquina, com um impressionante nmero de rodas, ficando assim espantado com a sua complexidade. - Isto tem algo a ver com o fato de que essa Lise sempre lhe parecia 
uma pessoa muito complexa, comparada com Julie, de quem ele, naquele tempo, era tambm admirador, e que morreu faz pouco tempo.
         Prosseguiu, fazendo-me um relato prolixo de suas relaes com sua dama. Na noite depois de ela o haver recusado, teve ele o sonho seguinte (dez. de 1900): 
- `Eu estava andando pela rua. Havia uma prola no cho da rua. Abaixei-me a fim de apanh-la, mas sempre que me abaixava ela desaparecia. Depois de uns dois ou 
trs passos, ela reaparecia. Eu disse para mim, "voc no pode".' Explicou essa proibio, para si mesmo, como significando que seu orgulho no o iria permitir, 
porque ela o havia recusado uma vez. Na realidade, esta foi provavelmente a questo de uma proibio feita por seu pai, que se originou em sua infncia e se estendeu 
at o casamento. Ento evocou em sua memria uma das observaes reais de seu pai, de efeito semelhante: `No v l tantas vezes assim.' `Voc se tornar ridculo' 
era uma outra de suas observaes ofensivas. Mais coisas desse sonho: - Pouco antes, ele vira um colar de prolas numa loja e imaginou que, se tivesse dinheiro, 
o compraria para ela. Chamava-a, muitas vezes, de uma prola entre as jovens. Era uma frase que usavam com freqncia. `Prola' parecia-lhe, tambm, adequado para 
ela porque a prola  um tesouro escondido que precisa ser buscado dentro da sua concha.
         Uma suspeita de que foi atravs de suas irms que ele foi levado  sexualidade, talvez no por sua prpria iniciativa - de que ele fora seduzido.
         Os dilogos em seus sonhos no precisam ser relacionados a dilogos reais. Suas idias do Ics. - como se fossem vozes internas - tm o valor de falas reais 
que ele s ouve em seus sonhos. [Ver em [1].]
         27 de out. - A doena da av de sua dama [ver em [2]] era uma enfermidade do reto.
         O desencadeamento da doena do paciente acompanhou uma queixa feita por seu tio vivo: `Vivi apenas para essa mulher, ao passo que outros homens se divertem 
por a.' Pensava que seu tio se referia ao pai dele, embora essa idia no lhe tivesse ocorrido de imediato, mas apenas uns poucos dias depois. Quando falou com 
a dama a esse respeito, ela se riu dele; e noutra ocasio, estando presentes ele e seu tio, ela deu um jeito de levar a conversa para o assunto de seu pai, a quem 
o tio punha nas nuvens. Isto, entretanto, no bastou para ele. Pouco tempo depois, sentiu-se obrigado a interrogar diretamente o seu tio, se ele se havia referido 
a seu pai; seu tio negou, com indignao. O paciente ficou particularmente surpreso com esse episdio, de vez que ele prprio no reprovaria seu pai, sequer se ele 
tivesse cometido um deslize eventual.
         Nesse contexto, mencionou uma observao meio jocosa que sua me fez a respeito do perodo em que seu pai fora obrigado a viver em Pressburg, vindo a Viena 
apenas uma vez por semana. (Ao contar-me isto pela primeira vez, omitiu essa conexo caracterstica.)
         Coincidncia notvel, enquanto estudava para a sua segunda prova do concurso pblico. Ele deixou de ler duas passagens apenas, de quatro pginas cada uma, 
e precisamente essas  que constituram assunto de seu exame. Depois, estudando para a terceira prova, teve um sonho proftico [ver adiante]. Esse perodo viu o 
incio propriamente dito de sua piedade e de suas fantasias de que seu pai ainda mantinha contato com ele. Costumava deixar aberta a porta do corredor,  noite, 
convencido de que seu pai estaria parado do lado de fora. Suas fantasias, nessa poca, ligavam-se diretamente a esse hiato ao conhecimento atingvel. Finalmente 
ele se recomps e tentou agir da melhor maneira possvel mediante um sensvel argumento - o que seu pai iria pensar de seu comportamento, caso ainda fosse vivo? 
Contudo, isto no lhe causou nenhuma impresso, ele fora apenas levado a fazer uma pausa atravs da forma delrica da fantasia - de que seu pai poderia sofrer em 
virtude de suas fantasias, at mesmo na vida aps a morte.
         As compulses que emergiram enquanto estudava para a terceira prova e que apontavam a necessidade de ele realiz-la positivamente em julho, parecem haver-se 
relacionado com a chegada, de Nova Iorque, de um dos tios da dama, X., de quem o paciente estava terrivelmente enciumado; porventura, tambm relacionado at mesmo 
com a sua suspeita (posteriormente confirmada) de que a dama viajaria para a Amrica.
         29 de out. - Falei-lhe que desconfiava de que a sua curiosidade sexual se havia excitado relativamente s suas irms. Isto provocou uma conseqncia imediata. 
Ele tinha recordao de que notou, pela primeira vez, a diferena entre os sexos ao ver a falecida irm Katherine (cinco anos mais velha do que ele) sentada no urinol, 
ou algo parecido com isso.
         Contou-me o sonho que tivera quando estudava para a terceira prova [ver acima]. Grnhut tinha por hbito, de trs ou de quatro em quatro vezes, durante 
o exame, fazer uma pergunta particular com respeito a saques pagveis em um lugar especfico; e ao ser respondido, prosseguia perguntando `e qual  a razo dessa 
lei?' A resposta correta era `servir de proteo contra as Schicamen das partes oponentes'. O sonho do paciente versou exatamente sobre isso; ele, contudo, em lugar 
disso respondeu `como proteo contra as Schgsenen' etc. Um chiste que ele, do mesmo modo, poderia ter feito quando estava desperto.
         O nome de seu pai no era David, mas sim Friedrich. Adela no era irm de Braun; a idia sobre o duplo casamento deve ser deixada de lado.
         8 de nov. - Quando era criana, ele sofria muito de vermes [ver em [1]].  provvel que costumava pr os dedos no traseiro, e era um tremendo porco, tal 
qual seu irmo, conforme disse. Agora exagera a limpeza.
         Fantasia antes do sono: - Estava casado com sua prima [a dama]. Ele a beijava nos ps; porm, estes no estavam limpos. Havia marcas negras sobre eles, 
que o escandalizaram. Durante o dia ele no fora capaz de se lavar com muito esmero e observara a mesma coisa em seus prprios ps. Deslocava esse aspecto para a 
sua alma. De noite, sonhou que estava lambendo os ps dela, os quais, todavia, estavam limpos. Esse ltimo elemento  um desejo onrico. Aqui a perverso  exatamente 
a mesma com que estamos familiarizados em sua configurao indeformada.
         Ser-lhe o traseiro algo particularmente excitante revela-se pelo fato de, ao perguntar-lhe sua irm sobre o que  que ele gostava em sua prima, ele respondeu 
jocosamente: `Do traseiro dela.' A costureira a quem beijou hoje excitou pela primeira vez a sua libido quando ela se curvou para baixo e mostrou as curvas de suas 
ndegas de uma maneira muito clara.
         Ps-escrito  aventura dos ratos. O Capito Novak disse que a tortura deveria ser infligida a alguns membros do Parlamento. Surgiu-lhe, ento, a idia de 
que ele [N.] no deve mencionar Gisa, e, com pavor, imediatamente aps ele de fato mencionou o Dr. Hertz, o que mais uma vez lhe pareceu ser uma ocorrncia fatalista. 
Sua prima realmente se chama Hertz e ele logo achou que o nome Hertz o faria pensar em sua prima; e ver o exemplo desse fato. Procura isolar sua prima de tudo que 
 sujo.
         
         Ele sofre de compulses sacrlegas, como as freiras. Um sonho seu tem algo a ver com termos jocosos de desrespeito usados por seu amigo V. - `filho de uma 
prostituta', `filho de uma macaca caolha' (Arabian Nights/Noites rabes).
         Aos onze anos de idade, foi iniciado nos segredos da vida sexual por seu primo, a quem ele detesta, e que lhe deu a entender que todas as mulheres eram 
prostitutas, inclusive sua me e suas irms. Ele rebateu essa assertiva com a pergunta `voc pensa o mesmo de sua me?'
         11 de nov. - Durante uma doena de sua prima (complicao da garganta e perturbaes no sono), na poca em que sua afeio e simpatia estavam no auge, ela 
estava deitada num div e ele, de sbito, pensou: `que ela fique deitada assim para sempre'. Interpretou essa idia como um desejo de que ela estivesse permanentemente 
doente, para alvio dele prprio, de modo que se pudesse livrar de seu terror de que ela ficasse doente. Um equvoco supersagaz! O que ele j me disse revela que 
isso se relacionava com um desejo de v-la sem defesas, por causa de ela haver resistido a ele, rejeitando seu amor; e isso corresponde, cruelmente, a uma fantasia 
necroflica que, certa vez, ele teve conscientemente, mas que no arriscou a levar avante alm do ponto de olhar para seu corpo inteiro.
         Est ele constitudo de trs personalidades: uma plena de humor e normal, outra asctica e religiosa, e a terceira, imoral e perversa.
         Equvoco inevitvel do Ics. mediante o Cs., ou melhor, distoro da forma do desejo Ics.
         Os pensamentos hbridos resultam desses dois.
         17 de nov. - At ento ele tem passado uma fase de animada disposio.  alegre, solto e ativo, e est-se comportando agressivamente com relao a uma jovem 
costureira. Uma boa idia que tem  de que sua inferioridade moral de fato merecia ser punida com a sua doena. Seguiram-se confisses acerca de suas relaes com 
as irms. Conforme ele disse, fez repetidas investidas sobre a irm mais nova, logo abaixo dele, Julie, depois que seu pai faleceu; estas - certa vez chegou a atac-la 
- devem constituir a explicao de suas mudanas patolgicas.
         Uma vez teve um sonho de estar copulando com Julie. Foi tomado do remorso e medo de haver quebrado o juramento de se manter afastado dela. Despertou e regozijou-se 
com ver que era apenas um sonho. Foi ento at o quarto dela e deu um beijo no traseiro dela, por baixo do lenol. Ele no era capaz de compreender isso, e s podia 
compar-lo com a masturbao praticada quando lia a passagem de Dichtung und Wahrheit [ver em [1]]. Da conclumos que o fato de ser castigado por seu pai [ver em 
[2]] se relacionava com sua investida sobre suas irms. Mas como? De forma puramente sdica, ou j de um modo claramente sexual? Suas irms mais velhas, ou mais 
novas? Julie  trs anos mais nova do que ele, e como as cenas, pelas quais estamos buscando, devem ter-se passado quando ele tinha trs ou quatro anos,  quase 
improvvel que ela tenha sido a prpria. Katheriene, a irm que morreu?
         Sua sano que encerrava a idia de que alguma coisa iria acontecer a seu pai no outro mundo deve ser compreendida puramente como uma elipse. O que significava 
era o seguinte: `Se meu pai ainda estivesse vivo e soubesse disso, ele me castigaria de novo e eu mais uma vez me tomaria de raiva contra ele, o que lhe causaria 
a morte, de vez que os meus afetos so onipotentes.' Por conseguinte, esse aspecto  da seguinte categoria: `Se Kraus ler isso, ele vai levar bofetes no ouvido.'
         Inclusive nos anos mais recentes, estando sua irm caula dormindo no quarto dele, retirou, de manh, os lenis que a cobriam, a fim de poder v-la inteirinha. 
Ento, sua me entrou em cena como obstculo para sua atividade sexual, assumindo esse papel desde a morte de seu pai. Ela o protegia contra as bem-intencionadas 
tentativas de seduo dele por parte de uma criada chamada Lise. Certa vez ele se exibiu a essa ltima, com muita originalidade, durante seu sono. Ele adormecera, 
exausto, aps uma crise de doena, e dormiu descoberto. De manh, quando a jovem falou com ele, ela lhe perguntou, desconfiada, se ele havia rido durante seu sono. 
Ele havia rido - em virtude de um sonho extremamente adorvel no qual sua prima tinha aparecido. Admitiu que se tratava de um estratagema. Em anos mais remotos ele 
se havia exibido abertamente. Aos treze anos, ele ainda se exibia para [Fralein] Lina, que voltara para ficar por pouco tempo. Deu a desculpa exata, de que ela 
sabia como ele era exatido, desde a sua tenra infncia. (Ela estivera com eles quando ele tinha entre seis e dez anos.)
         18 de nov. - Entrava na neurose de sua prima, a qual se lhe estava tornando clara, e na qual desempenha um papel o padrasto dela, surgido  cena quando 
ela tinha doze anos de idade. Era um oficial, um homem bonito, hoje separado de sua me. Gisa trata-o muito mal quando ele, vez e outra, vem visit-los, e ele sempre 
procura faz-la suave com relao a ele. Os detalhes, conforme me foram narrados, deixam muito poucas dvidas de que ele tenha feito uma investida sexual sobre a 
jovem, e de que alguma coisa nela, da qual ela no tinha conscincia, favoreceu, em parte, que ela se encontrasse com ele - o amor transferido de seu pai verdadeiro, 
de quem ela sentia falta desde os seis anos de idade. Por conseguinte, imagina-se que a situao entre eles seja glida e tensa. Parece como se o prprio paciente 
o soubesse. Isso porque esteve muito aborrecido durante as manobras, ao mencionar o Capito N. o nome de Gisela Fluss (!!!), malgrado quisesse ele evitar qualquer 
contato entre Gisa e um oficial. Um ano atrs ele teve um curioso sonho sobre um tenente bvaro a quem Gisa rejeitou por pretendente. Esse fato aludia a Munique 
e ao caso que ele teve com a garonete; contudo, no havia associao alguma com o tenente, sendo que um adendo ao sonho sobre os adjuntos do oficial apenas se referia 
ao tenente padrasto.
         21 de nov - Admite ser plausvel que ele tenha tido semelhantes suspeitas a respeito de sua prima. Estava muito alegre e tivera uma recada para a masturbao, 
a qual, ademais, o perturbou seriamente (perodo de latncia interpolado). Quando se masturbou pela primeira vez teve a idia de que ela resultaria em uma ofensa 
contra algum de quem ele gostava (sua prima). Por conseguinte, proferiu uma frmula protetora construda, como j conhecemos [ver em [1]], a partir de extratos 
de diversas preces pequenas e providas com um `amm' isolado. Ns a examinamos, tratava-se de Gleijsamen: - 
         
         g1  = glckliche [feliz], isto , que L [Lorenz] seja feliz; tambm [que] tudo [seja feliz].
         e    = (significado esquecido).
         j      = jetzt und immer [agora e sempre].
         I      = (agora indistintamente ao lado do j).
         s    = (significado esquecido).
         
                            G-I-S-E-L-A
                                     S        AMEN
         e que ele uniu o seu `Samen' [`smen'] ao corpo de sua amada, ou seja, colocando-o abruptamente; que se masturbara com a imagem dela. Naturalmente ele estava 
convicto, e acrescentou que s vezes a frmula assumia, em plano secundrio, a forma de Giselamen, mas que ele a considerou apenas como sendo uma assimilao ao 
nome de sua dama (um equvoco invertido).
         No dia seguinte caiu em um estado de depresso profunda, e desejava conversar sobre assuntos aleatrios; contudo, logo admitiu que se encontrava em crise. 
A coisa mais assustadora veio-lhe  mente quando, ontem, estava no bonde. Era realmente impossvel dizer. A sua cura no mereceria semelhante sacrifcio. Eu, de 
preferncia, iria afast-lo, pois a transferncia ficava prejudicada. Por que iria eu aturar uma coisa dessas? Nenhuma das explicaes que lhe dei a respeito da 
transferncia (que para ele no pareceu de todo estranha) teve algum efeito. Somente depois de lutar uns quarenta minutos, como me pareceu durar, e aps eu revelar 
o elemento vingana contra mim e mostrar-lhe que, recusando contar-me e abandonando o tratamento, ele estaria se vingando mais completamente de mim do que me contando 
- somente depois disso  que me deu a entender que a coisa dizia respeito a minha filha. Com isso, a consulta chegou ao fim.
         Era ainda bastante difcil a situao. Aps lutas e asseres, de sua parte, de que meu esforo para mostrar que todo o material referente apenas a ele 
mesmo parecia com uma ansiedade de minha parte, ele capitulou apresentando a primeira das suas idias.
         (a) Um traseiro de mulher, nu, com nits (larva de piolho) no cabelo.
         Fonte. Uma cena com sua irm Julie, que ele esquecera na confisso que me fez. Aps a travessura deles, ela se voltou de costas, na cama, de um modo que 
ele viu de frente aquelas partes de seu contorno - sem piolhos, naturalmente. No referente a piolhos, confirmou minha sugesto de que a palavra `nits' designava 
que algo semelhante havia, certa vez, ocorrido h muito tempo atrs, quando ele era beb.
         Os temas so claros. Punio,  vista, pelo prazer que ele sentiu; ascetismo utilizando as tcnicas da repulsa; raiva de mim por for-lo a [ficar ciente 
de] isso. Da, o pensamento transferencial: `No h dvida de que a mesma coisa acontece entre os seus filhos.' (Ouviu falar de uma de minhas filhas e sabe que tenho 
um filho. Muitas fantasias de ser infiel a Gisa, com sua filha, e punio por isso.)
         Aps acalmar-se, debatendo-se um pouco, deu incio - com ainda mais dificuldade - a toda uma srie de idias que, contudo, o impressionaram de modo diferente. 
Ele compreendeu que no tinha necessidade alguma de usar da transferncia, no caso deles; porm, a influncia do primeiro caso fez todos os outros incidirem na transferncia.
         [? (b)] O corpo nu de minha me. Duas espadas cravando-se nos seios dela, do lado (como uma decorao, disse ele mais tarde - segundo o motif de Lucrcia). 
A parte inferior do corpo dela, sobretudo os seus genitais, foi completamente devorada por mim e pelos filhos.
         Fonte, acessvel. A av de sua prima (ele mal se recorda de sua prpria av). Certa vez, entrou no quarto quando ela se despia, e ela deu um grito. Eu disse 
que sem dvida ele deve ter tido alguma curiosidade com respeito ao corpo dela. Em resposta, contou-me um sonho. Teve-o na poca em que pensou que sua prima era 
velha demais para ele. No sonho, sua prima levou-o at o leito da av dele, cujo corpo e cujos genitais estavam  mostra, e lhe mostrou como ela ainda era bonita, 
aos noventa anos (realizao de desejo).
         As duas espadas eram as espadas japonesas dos seus sonhos: casamento e cpula.  claro o significado. Ele se permitiu ser desorientado por uma metfora. 
No era seu contedo a idia asctica de que a beleza de uma mulher se consumia - era devorada - pela relao sexual e pelo nascimento de crianas? Dessa vez ele 
prprio riu.
         Ele tinha um quadro de um dos juzes representantes, um sujeito sujo. Imaginou-o despido, e uma mulher praticava `minette' [felao] com ele. De novo minha 
filha! O sujeito sujo era ele prprio - ele espera ser em breve um juiz representante, de modo a poder casar-se. Ele ouvira, com horror, falarem de minette; mas 
certa vez, quando estava com a jovem em Trieste, ele se atirou mais para cima, sobre ela,  guisa de um convite para que ela fizesse isso com ele, o que, porm, 
no ocorreu. Repeti minha conferncia de sbado sobre as perverses.
         22 de nov. - Alegre, mas tornando-se depressivo quando o reconduzi ao tema. Uma transferncia recente: - Minha me morreu, ele estava ansioso por oferecer 
as suas condolncias, porm tinha receio de que, fazendo-o, poderia irromper em um riso inoportuno como repetidas vezes correu anteriormente, na ocasio de algum 
falecimento. Portanto preferiu deixar um carto para mim com um `p.c.' nele escrito; e que se transformou em um `p.f.' [ver em [1]].
         `Jamais lhe ocorreu que, se sua me morresse, voc ficaria livre de todos os conflitos, de vez que voc ficaria apto para se casar?' `O senhor, est se 
vingando de mim', ele disse. `Est me forando a faz-lo, porque, por seu lado, deseja vingar-se de mim.'
         Admitiu que seu passeio em redor da sala, enquanto fazia essas confisses, devia-se ao fato de ele estar com medo de ser espancado por mim. A razo que 
alegou foi delicadeza de sentimento - que ele no podia ficar deitado confortavelmente ali, enquanto me dizia essas coisas terrveis. Alm disso, ficou batendo em 
si prprio enquanto fazia essas aquiescncias que ele ainda julgava to difceis.
         `Agora o senhor ir me afastar.' Tratava-se de uma imagem minha e de minha mulher, na cama, e entre ns dois uma criana deitada, morta. Ele conhecia a 
origem dessa cena. Quando pequeno (idade incerta, talvez 5 ou 6 anos), ele estava deitado entre seu pai e sua me, e urinou na cama, e seu pai lhe bateu e o mandou 
sair. A criana morta s podia ter sido sua irm Katherine, ele deve ter ganhado com sua morte. Essa cena, como confirmou, ocorreu aps a morte dela.
         Sua conduta nesse momento era a de um homem em desespero e de algum que estivesse procurando salvar-se de pancadas terrivelmente violentas: enterrou a 
cabea nas mos, correu para longe, cobriu o rosto com o brao etc. Disse-me que seu pai tinha um temperamento passional, ento no sabia o que ele estava fazendo.
         Outra idia horrvel - a de ordenar-me que trouxesse minha filha at a sala, para que ele pudesse lamb-la, dizendo `traga aqui a "Miessnick''', Associou 
a isso a histria a respeito de um amigo que queria apontar armas no bar que ele costumava freqentar, mas antes desejava salvar o excelente e fessimo garom com 
as palavras `Miessnick, sai'. Ele era um Miessnick, comparando com seu irmo mais novo. [ver em [1].]
         Tambm brincando com meu nome: `Freundenhaus-Mdchen' [`raparigas que pertencem a uma casa de prazeres' - isto , prostitutas].
         23 de nov. - A consulta seguinte ficou repleta das mais assustadoras transferncias, para cujo relato ele encontrou a mais enorme dificuldade. Minha me 
estava em desespero enquanto todos os seus filhos eram enforcados. Ele me lembrou da profecia de seu pai, de que ele seria um grande criminoso [ver em [1]]. Eu no 
era capaz de adivinhar a explicao que ele elaborou, para possuir essa fantasia. Ele disse saber que, certa ocasio, uma grande desgraa se abateu sobre minha famlia: 
um meu irmo, que era garom, cometera um assassinato em Budapest e fora executado por isso. Perguntei a ele, rindo, como  que sabia disso, aps o que todo o seu 
afeto ruiu. Explicou que seu cunhado, que conhece meu irmo, lhe havia contado o fato, como prova de que a educao se frustrava e que a hereditariedade era tudo. 
Seu cunhado, acrescentou, tinha o hbito de inventar coisas, e havia encontrado o pargrafo do relato num exemplar antigo da Presse [o conhecido jornal de Viena]. 
Sei que ele se referia a um certo Leopold Freud, o assassino do trem, cujo crime data da poca em que eu tinha trs ou quatro anos. Garanti a ele que jamais tivemos 
parentes em Budapest. Ficou muito aliviado e confessou que havia comeado a anlise com uma boa dose de desconfiana, em virtude disso.
         25 de nov. - Ele tinha achado que, se houvesse impulsos assassinos em minha famlia, eu cairia sobre ele como um animal de rapina, procurando o que havia 
nele de maligno. Hoje estava bastante animado e alegre, e contou-me que seu cunhado estava constantemente inventando coisas como essa. Ele, de sbito, passou a querer 
descobrir a explicao - seu cunhado no esquecera o estigma ligado  sua prpria famlia, pois seu pai havia fugido para a Amrica em virtude de dvidas fraudulentas. 
O paciente achava que tal se deveu ao fato de ele no ter sido nomeado lente em botnica, na Universidade. Passado um momento, encontrou a explicao de toda a hostilidade 
contra minha famlia. Sua irm Julie observou uma vez que Alex [irmo de Freud] seria o marido ideal para Gisa. Da a sua fria. (Foi o mesmo com os oficiais.)
         Segue-se um sonho. Estava parado, sobre uma colina, com uma arma, com a qual ensaiava atirar sobre uma cidade que se poderia ver desde onde ele estava, 
cercada de alguns muros horizontais. Seu pai estava ao seu lado, e eles discutiam sobre a poca em que a cidade foi construda - o Antigo Oriente da Idade Mdia 
alem. (Era certo que isso no foi de todo verdadeiro.) Os muros horizontais tornaram-se ento verticais e se ergueram no ar como cordas. Ele tentou demonstrar alguma 
coisa sobre elas, mas as cordas no estavam suficientemente esticadas e se mantinham como se estivessem caindo. Adendo; anlise.
         26 de nov. - Ele interrompeu a anlise do sonho para contar-me algumas transferncias. Algumas crianas estavam deitadas no cho, ele se aproximou de cada 
uma delas e fez alguma coisa com as suas bocas. Uma delas, meu filho (o irmo dele, que, quando tinha dois anos, havia comido excremento), tinha ainda em volta da 
boca marcas marrons e lambia os lbios, como se fosse algo muito gostoso. Seguiu-se uma mudana: era eu, e eu o estava fazendo com minha me.
         Isso o fez recordar de uma fantasia na qual ele pensava que uma sua prima mal comportada no era sequer digna de que Gisa fizesse o negcio em sua boca; 
e ento o quadro se invertera. Por trs disso havia orgulho e elevado respeito. Uma outra recordao de que seu pai era muito vulgar e gostava de usar palavras como 
`cu' e `merda', com o que sua me sempre mostrava sinais de ficar horrorizada. Certa vez ele tentou imitar seu pai, e isso o envolveu em um crime que passou impune. 
Ele era um porco sujo, como numa ocasio, quando tinha onze anos, sua me decidiu dar-lhe uma boa limpeza. Ele chorou de vergonha e disse `Onde  que voc agora 
vai me esfregar? No cu?' Isso deveria ter desencadeado sobre ele um tremendo castigo por parte de seu pai, caso no o tivesse salvo sua me.
         Seu orgulho familial, que ele admitiu com um riso, provavelmente se emparelhava com sua auto-estima. `Afinal de contas, os Lorenz so as nicas pessoas 
boas', disse uma de suas irms. Seu cunhado mais velho se acostumava com o fato e fazia piada com a situao. Lamentaria muito se tivesse de desdenhar seus cunhados 
simplesmente, em virtude das suas famlias. (Contraste entre seu prprio pai e os de seus cunhados. Seu pai era primo em primeiro grau de sua me, ambos de condies 
bem humildes, e ele costumava fazer, jocosamente, uma imagem exagerada das condies em que viviam quando jovens. Seu dio por mim, portanto, constitua um caso 
especial do dio que sentia pelos seus cunhados.)
         Ontem, aps haver acudido em auxlio de um epilptico, teve medo de ser acometido de um ataque de raiva. Estava furioso com sua prima e feriu seus sentimentos 
com algumas indiretas. Por que estava raivoso? Depois disso, teve uma crise de choro diante dela e de sua irm.
         Outro sonho correlacionado com isso.
         (Idade: 29) Uma impressionante fantasia anal. Estava deitado de costas sobre uma jovem (minha filha) e copulava com ela pelas fezes que se desprendiam de 
seu nus. Isso indicou imediatamente Julie, a quem dissera `nada com relao a voc seria repulsivo a mim'. Durante a noite empenhou-se em uma sria luta. Ele no 
sabia do que se tratava. Resultou que se tratava de saber se ele se casaria com sua prima ou com minha filha. Essa hesitao pode ser reportada a uma de suas duas 
irms.
         Uma fantasia de que, se ele ganhasse o primeiro prmio da loteria, se casaria com a prima e cuspiria no meu rosto, revelou sua idia de que eu desejava 
t-lo por genro. - Ele foi, provavelmente, um desses bebs que prendem as suas fezes.
         
         Ele tinha, para hoje, um convite para um encontro. O pensamento sobre `ratos' logo se apossou dele. Nessa correlao ele me contou que, ao encontr-lo pela 
primeira vez, o Tenente D., o padrasto, referiu como, quando menino, se empenhava com abrir fogo com uma pistola Flaubert sobre toda coisa viva, e atirou em si prprio, 
ou em seu irmo, na perna. Lembrou-se disso numa visita posterior, quando viu um grande rato, coisa que porm o tenente no lembrou. Sempre dizia `Vou atirar em 
voc'. O Capito Novak deve ter-lhe lembrado o Tenente D., sobretudo quando ele estava no mesmo regimento ao qual D. pertencia, e este dissera `Era para eu agora 
ser capito'. - Foi um outro oficial quem mencionou o nome de Gisela; Novak havia mencionado o nome Hertz [ver em [1]]. - D.  sifiltico, e foi em virtude disso 
que o casamento ruiu. A tia do paciente ainda tem medo de ter sido contagiada. Os ratos significam medo da siflis.
         29 de nov. - Ele teve muito aborrecimento com assuntos de dinheiro com seus amigos (dar garantia etc.). Ficava bastante desgostoso se a situao se voltava 
em direo de dinheiro. Os ratos tm uma conexo particular com dinheiro. Ontem, quando pediu emprestado dois florins a sua irm, pensou: `cada florim, um rato'. 
Em nossa primeira entrevista, ao dizer-lhe quais eram meus honorrios, disse consigo mesmo: `Para cada krone um rato para os filhos'. Agora `Ratten' [`ratos'] realmente, 
para ele, significava `Raten' [`prestaes']. Pronunciou as palavras da mesma forma, e o justificou dizendo que o `a' em `ratum' (de `reor')  breve; certa vez foi 
corrigido por um advogado, que assinalou que `Ratten' e `Raten' no eram a mesma coisa. Um ano antes, ofereceu garantia a um amigo que devia pagar uma importncia 
em dinheiro, em vinte prestaes, e conseguiu do credor a promessa de faz-lo saber quando vencia cada prestao, de modo que no se responsabilizasse, sob as condies 
do acordo, a pagar a importncia total de uma s vez. Assim, esse dinheiro e sfilis convergem para `ratos'. Ele agora paga em ratos. - Moeda `rato'.
         Ainda sobre a sfilis.  evidente que a idia de sfilis, que ri e come, o tenha lembrado de ratos. Ele, com efeito, forneceu vrias fontes para essa idia, 
em especial a partir do seu tempo de servio militar, quando se discutiu o assunto. (A analogia com as transferncias sobre os genitais tendo sido devorados [ver 
em [1]].) Sempre ouvira falar que todos os soldados eram sifilticos, da provindo o terror de o oficial mencionar o nome de Gisela.
         A vida militar no o lembrou apenas de D., mas tambm de seu pai, que esteve muito tempo no exrcito. A idia de que seu pai era sifiltico no lhe era 
de todo estranha. Muitas vezes pensara nela. Contou-me algumas histrias da vida de divertimentos de seu pai, enquanto estava servindo. Com freqncia pensara que 
os distrbios nervosos, dentre todos, talvez pudessem dever-se ao fato de seu pai ter sfilis.
         A idia do rato, no concernente a sua prima, era a seguinte: - Medo que ela tivesse sido contagiada por seu padrasto; por trs disso, de que a doena tivesse 
sido transmitida por seu prprio pai, e, mais atrs, o medo lgico e racional de que, sendo filha de um paraltico do corpo inteiro, ela prpria fosse doente (ele 
conhecera essa correlao por muitos anos. A irrupo de sua doena aps a queixa feita por seu tio [ver em [1]] pode ser, agora, compreendida de um modo diferente. 
O significado disso deve ter sido a realizao de um desejo de que seu prprio pai tambm pudesse ser sifiltico, de modo que nada haveria com que reprovar sua prima, 
podendo, em ltima anlise, casar-se com ela.
         30 de nov. - Mais histrias sobre ratos; contudo, conforme admitiu no final, ele as havia coligido a fim de escapar a fantasias de transferncia que afluram 
nesse meio tempo, as quais, segundo encarava, expressavam remorso com relao ao encontro marcado para hoje.
         Ps-escrito. Sua prima e seu tio X., de Nova Iorque, enquanto viajavam de trem, encontraram um rabo de rato numa salsicha, e ambos tiveram vmitos, horas 
e horas. (Estaria ele regozijando-se com malcia por esse fato?)
         Novo material. Repulsivas histrias sobre ratos. Ele sabe que os ratos agem como portadores de muitas doenas contagiosas. Na Fugbachgasse tinha-se uma 
vista sobre um ptio que dava para a casa de mquinas das termas romanas. Viu que estavam apanhando ratos e ouviu dizer que os atiravam nas caldeiras de vapor. L 
tambm havia gatos em quantidade, fazendo um barulho tremendo com guinchos e miados; ele, certa vez, viu um operrio que batia com um saco contra o cho, com alguma 
coisa dentro. A uma pergunta sua, disseram-lhe que era um gato, o qual, em seguida, foi atirado dentro da caldeira.
         Seguiram-se outras histrias sobre crueldades, as quais finalmente se centraram em seu pai. A viso que teve do gato deu-lhe a idia de que seu pai estava 
dentro do caso. Quando seu pai servia no exrcito, o castigo corporal ainda vigorava. Descreveu como ele, certa vez, uma nica vez, em crise de mau humor, bateu 
num recruta com a coronha do seu mosqueto, e cara prostrado. Seu pai gostava bastante de loteria. Um de seus camaradas do exrcito tinha o hbito de gastar nisso 
todo o seu dinheiro; certa ocasio, seu pai achou um pedao de papel que esse homem havia jogado fora, no qual dois nmeros estavam escritos. Ele apostou seu dinheiro 
nesses nmeros e ganhou com ambos. Retirou os seus ganhos durante a marcha e correu para alcanar a coluna, com os florins tilintando dentro da sua cartucheira. 
Ironia cruel que o outro homem jamais ganhara coisa alguma! Numa ocasio seu pai dispunha de dez florins da caixa militar, para cobrir determinadas despesas. Perdeu 
parte deles num jogo de cartas com outros homens, deixou-se tentar para continuar jogando e os perdeu totalmente. Lamentou com um de seus companheiros que ele teria 
de se suicidar com um tiro. `Sem dvida, ento se mate', disse o outro, `um homem que faz uma coisa dessas deveria dar um tiro na cabea'; contudo, acabou emprestando-lhe 
o dinheiro. Terminado o servio militar, seu pai procurou encontrar o homem, mas no conseguiu. (Ser que ele lhe reembolsou o dinheiro?)
         Sua me foi educada pelos Rubenskys como filha adotiva, mas era muito maltratada. Ele contou como um dos filhos era to sensvel, que cortava fora a cabea 
de frangos a fim de se tornar um homem rijo.  bvio que isso era apenas uma desculpa, e o irritou muitssimo. - Uma imagem onrica de um rato enorme e gordo que 
tinha nome e se comportava como um animal domstico. Isso, de imediato, recordou-lhe um dos dois ratos (foi essa a primeira vez que disse existirem somente dois) 
que, segundo a histria do Capito Novak, foram colocados no urinol. Ademais, os ratos foram os responsveis por sua ida a Salzburg. Sua me referiu-se ao mesmo 
Rubensky sobre o modo como ele, certa vez, `preparou  moda judaica' um gato, pondo-o no forno e, depois, esfolando-o. Isso o fez sentir-se to mau, que seu cunhado 
o aconselhou amigavelmente a fazer alguma coisa pela sua sade. Sua ateno fixa-se tanto nos ratos, que em toda parte ele os est encontrando. Na ocasio em que 
regressou das manobras, deparou como Dr. Springer acompanhado de um colega a quem apresentou como o Dr. Ratzenstein. A primeira representao a que assistiu foi 
o Meitersinger, quando ouviu o nome de `David' ser repetidas vezes evocado. Havia, entre os de sua famlia, usado o motif de David como uma exclamao. Ao repetir 
a sua frmula mgica `Gleijsamen', ele agora acrescenta `sem ratos', embora a imagine pronunciada sem um `t' [ver em [1]]. Produziu esse material, alm de outros 
mais, com fluncia. As conexes so superficiais e outras mais profundas esto ocultas; evidentemente ele o preparara como uma confisso, a fim de encobrir mais 
alguma coisa. Parece que esse material contm a conexo entre dinheiro e crueldade, de um lado, com ratos, do outro, com seu pai; e deve apontar em direo do casamento 
de seu pai. Contou-me uma outra anedota. No havia muitos anos, quando seu pai voltava de Gleichenberg, disse  sua me, depois de trinta e trs anos de casados, 
que ele tinha visto uma quantidade to incrvel de vivas, que teve de implorar-lhe que lhe garantisse que ela jamais tinha sido infiel a ele. Quando ela objetou, 
disse que s acreditaria nela caso ela jurasse pelas vidas de seus filhos; e depois de jurar, ele se tranqilizou. Ele pensa muito em seu pai, em razo disso, como 
um sinal de sua sinceridade, tal como em sua confisso de haver maltratado o soldado, ou em seu deslize num jogo de baralhos. - Por trs disso existe um importante 
material. A histria dos ratos vai-se tornando cada vez mais um ponto crtico.
         8 de dez. - Muita mudana no decorrer de uma semana. Seus nimos elevaram-se em virtude de seu encontro com a costureira, embora tenha terminado com uma 
ejaculao precoce. Logo aps, ficou melanclico, e isso resultou em transferncias no tratamento. Durante o seu encontro com a jovem, havia apenas leves indcios 
da sano sobre ratos. Sentiu-se inclinado a se abster de usar os dedos que haviam tocado a jovem, ao tirar um cigarro da cigarreira que lhe dera sua prima; resistiu, 
contudo, a essa inclinao. Mais detalhes a respeito de seu pai, de sua rudeza. Sua me chamava-o de um `sujeito ordinrio' porque ele tinha o hbito de soltar gases 
abertamente.
         Nosso objetivo da transferncia em tratamento percorria muitos desvios. Descreveu uma tentao, de cuja significao parecia no estar ciente. Um parente 
de Rubensky oferecera instalar para ele um escritrio nas vizinhanas do Mercado do Gado, logo aps ele receber o grau de doutor - para o que, na poca, faltavam 
apenas poucos meses - e conseguir, l, clientes para ele. Tal se enquadrava no velho esquema de sua me, de ele se casar com uma das filhas de R., uma jovem encantadora, 
hoje com dezessete anos. Ele no tinha noo de que era para escapar a esse conflito que se refugiou na doena - uma fuga facilitada pelo problema infantil de sua 
escolha entre uma irm mais velha e uma mais moa, e por sua regresso  histria do casamento de seu pai. Era costume de seu pai fazer um relato pleno de humor 
do seu namoro, e sua me eventualmente fazia troa dele, contando que ele, tempos antes, fora pretendente da filha de um aougueiro. Parecia-lhe ser uma idia intolervel 
que seu pai pudesse haver abandonado o seu amor a fim de assegurar o seu futuro mediante uma aliana com R. Cresceu nele uma grande irritao com relao a mim, 
expressa em insultos, que lhe era extremamente penoso proferir. Acusou-me de eu pr os dedos no nariz, recusou-se a apertar minhas mos, pensou que um porco asqueroso 
como eu precisava aprender boas maneiras, e considerou que o carto-postal que eu lhe mandara, e que eu assinara `cordialmente', era ntimo demais.
         Ele lutava claramente contra as fantasias de ser tentado a casar com minha filha em vez de casar com sua prima, e contra insultos  minha mulher e minha 
filha. Uma de suas transferncias era, francamente, que Frau Prof. F. lhe lamberia o cu / que ele mandasse Frau Prof. F. tomar no cu / - revolta contra uma famlia 
de maior trato. Em outra ocasio, viu minha filha com dois pedaos de esterco no lugar dos olhos. Isso significa que ele no se tinha apaixonado pelos olhos dela, 
mas sim pelo seu dinheiro. Emmy [a jovem com quem sua me desejava que ele se casasse] tinha uns olhos particularmente bonitos. Nesses ltimos dias, enfrentou virilmente 
a lamentao de sua me, de ele haver gasto 30 florins para suas pequenas despesas, no ms passado, em vez de 16 florins.
         O tema sobre os ratos careceu de algum elemento dirigido a sua me, evidentemente porque existe uma muito forte resistncia com relao a ela. Igualando 
`Ratten' e `Raten', ele estava, entre outras coisas, zombando de seu pai. Seu pai certa vez, disse a seu amigo `Eu sou apenas um Laue', em lugar de dizer `Laie'. 
Como qualquer outro sinal da falta de educao de seu pai, este a seguir o desconcertou enormemente. Seu pai fazia tentativas ocasionais para economizar, juntamente 
com os esforos para instituir um rgime espartano; contudo, sempre os abandonava, passado um curto tempo. Sua me  que  a pessoa econmica, porm ela d muito 
valor ao conforto em casa. A maneira como o paciente mantm secretamente a sua amiga  uma identificao com seu pai, que se comportava exatamente da mesma forma 
com relao ao primeiro inquilino deles, cujo aluguel ele costumava pagar, e com relao a outras pessoas tambm. Na verdade, ele era um homem bemautntico, positivo, 
amvel, com senso de humor; e o paciente normalmente apreciava plenamente essas qualidades. No obstante, com a sua super-refinada atitude, sentia manifesta vergonha 
da natureza simples e soldadesca de seu pai.
         9 de dez. - Alegre, apaixona-se pela jovem - loquaz - um sonho com um neologismo, plano do estado-maior do W L K (palavra polonesa). Devemos entrar nesse 
aspecto amanh. Vielka [em polons] = `velho', L = Lorenz, G1 = abreviao de Gleijsamen [ver em [1]] = Gisela Lorenz.
         10 de dez. - Ele me contou o sonho inteiro, mas no compreende nada do que sonhou; por outro lado, fez-me algumas associaes com W L K. No confirmada 
minha idia de que significasse um W.C.; porm com W [`vay'] ele associou uma cano cantada por sua irm `In meinem Hezen sitzt ein grosses Weh' (tambm pronuncia-se 
`vay'). Isso se lhe deparou, freqentemente, como algo muito engraado, e ele no podia deixar de imaginar um grande W.
         Sua frmula defensiva contra compulses , conta-me ele, um enftico `aber' [`mas']. Recentemente (apenas desde o tratamento?) ele enfatizava a pronncia 
`abr' [a tnica normal dessa palavra  `ber']. Disse haver-se explicado essa acentuao incorreta com o fato de ela servir para fortalecer o `e' mudo, que no 
constitua uma proteo suficiente contra intruses. Acabou de ocorrer-lhe que o `abr' talvez substitusse `Abwehr' [`defesa'] onde o W omitido se podia encontrar 
em W L K.
         A sua frmula `Gleijsamen', na qual numa hora feliz, ele, como uma palavra mgica, fixou aquilo que doravante tinha de continuar imutvel, permanecera, 
disse ele, vlida durante bastante tempo. Ela, no obstante, ficou exposta ao inimigo, isto , houve inverso ocorrendo o seu contrrio; por essa razo  que ele 
se empenhou para abrevi-la mais ainda, e assim a substitura - desconhecem-se os motivos - por um curto `Wie' [`como', pronunciado como o ingls `vee'].
         
         O K corresponde a `vielka' [pronuncia-se como o ingls `vee - ell -ka'] = `velho'. Tambm o recordou de sua ansiedade quando, na escola, a letra K [isto 
, os meninos cujos nomes comeavam com K] estava sendo examinada, por significar isso que o seu L estava ficando bem prximo. Corresponderia, por conseguinte, a 
um desejo de que o K seguisse ao L, de modo que o L j tivesse passado.
         Grande reduo nas transferncias em tratamento, do paciente. Ele receia muito encontrar minha filha. De modo um tanto inesperado, contou-me que um de seus 
testculos era atrofiado, embora seu potencial seja muito bom. Em um sonho, ele se encontrou com um capito que usava a insgnia de sua patente apenas do lado direito 
e uma das trs estrelas estava dependurada. Ele apontou a analogia com a operao de sua prima [ver em [1]].
         12 de dez. - Suas transferncias `de coisas sujas' continuaram, anunciando-se mais outras coisas. Acontece ele ser um renifleur. Em sua juventude, era capaz 
de reconhecer as pessoas pelo cheiro de suas roupas; podia distinguir odores familiares, e obtinha um positivo prazer a partir do cheiro do cabelo das mulheres. 
Posteriormente, parece que ele fez uma transferncia da luta inconsciente que o fez cair doente, deslocando o seu amor pela prima para a costureira; e agora est 
fazendo essa ltima competir com minha filha, que figura como o partido rico e respeitvel. Sua potncia com a costureira  excelente. Hoje arriscou-se a atacar 
o assunto sobre sua me. Tinha uma recordao antiga dela, deitada no sof; ela se ergueu, tirou alguma coisa amarela de debaixo do vestido e a colocou numa cadeira. 
No momento ele quis toc-la; mas, tanto quanto o recordava, tratava-se de algo horrvel. Depois, a coisa se transformou numa secreo, e isso acarretou uma transferncia 
de todos os membros femininos de minha famlia asfixiando-se num mar de repulsiva secreo de todo tipo. Ele supunha que todas as mulheres tinham secrees repelentes 
e, depois, estava assombrado por saber que elas no existiam nas suas duas liaisons. Sua me sofria de uma infeco abdominal, e agora os seus genitais cheiram mal, 
o que o faz ficar muito irritado. Ela prpria diz que ela cheira mal, a no ser que se banhe com freqncia; diz, porm, que ela no pode controlar a situao e 
isso muito o intimida.
         Narrou-me duas fascinantes histrias de crianas. Uma tratava-se de uma menina de cinco ou seis anos, que tinha muita curiosidade sobre Papai Noel. Ela 
fingiu estar dormindo e viu seu pai e sua me enchendo os sapatos e meias de mas e pras. De manh cedo, ela disse a sua bab `No existe Papai Noel.  o papai 
e a mame que trazem presentes. Agora no acredito em mais nada, nem mesmo na cegonha.  o papai e a mame que resolvem a coisa, tambm.' A outra histria versava 
sobre o seu sobrinho de sete anos.  um menino muito medroso e fica assustado com cachorros. Seu pai lhe disse: `O que voc faria se dois cachorros passassem por 
voc?' `Eu no tenho medo de dois. Eles iam cheirar o traseiro um do outro por tanto tempo, que eu teria tempo de correr para longe.'
         14 de dez. - Ele continua bem com a jovem, porque a sua naturalidade lhe agrada e ele tem muita potncia com ela; entretanto, a partir de exemplos de uma 
compulso pouco sria que ele trouxe  baila, ficou claro que existe uma cadeia hostil de sentimento contra sua me, ao qual ele reage com uma exagerada considerao 
por ela, e que deriva dos rigores da educao que ela recebeu, sobretudo com respeito  sujeira dele. Anedota sobre os arrotos de sua me; e ele tinha dito, aos 
doze anos de idade, que no podia comer por causa de seus pais. 
         16 de dez. - Enquanto estava com a costureira, pensou: `Para cada cpula, um rato para minha prima'. Isso mostra que os ratos so alguma coisa pela qual 
se pode pagar. A frase  produto de uma conciliao entre correntes de sentimentos amigveis e hostis; porque (a) toda cpula desse tipo prepara o caminho para algum 
com sua prima, e (b) toda cpula  feita em desafio a ela e para enfurec-la.
         A imagem  forjada de claras idias conscientes, fantasias, delrios [ver em [1]], associaes compulsivas e transferncias.
         Contou-me a respeito de uma `aterradora' experincia relacionada com a histria dos ratos. Numa poca, antes de cair doente, estando visitando o tmulo 
de seu pai, viu um bicho parecido com um rato passando pelo tmulo. (Sem dvida uma doninha, das tantas que vivem por l.) Ele sups - podia parecer bem provvel 
que sim - que a criatura acabava de fazer um repasto de seu pai. Suas idias em seu Ics. a respeito de sobrevivncia aps a morte so to consistentemente materialistas 
como as dos antigos egpcios. Esse aspecto est vinculado  sua iluso, aps a conversa do Capito N. a respeito dos ratos, de que via o cho se levantar  sua frente, 
como se houvesse um rato debaixo dele, o que ele tomou por um agouro. Ele no tinha suspeita alguma dessa conexo.
         19 de dez. - Agora se explica a sua avareza. Ele, a partir de uma observao que sua me deixou escapar com respeito ao fato de que a relao dela com Rubensky 
era digna de alguma coisa a mais alm de um dote, estava convencido de que seu pai se tinha casado com ela e abandonara o seu amor em favor de sua vantagem material. 
Isso, juntamente com sua recordao das dificuldades financeiras de seu pai durante o seu servio militar, f-lo detestar a pobreza que induz as pessoas a tais crimes. 
Desse modo, sua baixa opinio a respeito de sua me foi satisfeita. Por conseguinte, ele economizou a fim de no trair o seu amor. Por esse motivo, tambm,  que 
ele entrega todo o seu dinheiro a sua me, porque no quer ter nada que venha dela; pertence a ela e no h evocao de qualquer benefcio a respeito dele.
         Diz que tudo que  ruim, na sua natureza, ele o recebe de sua me. Seu av materno era um bruto, que maltratava a esposa. Todos os seus irmos e irms passaram, 
como ele, por um vasto processo de transformao, desde crianas maldosas at pessoas muito dignas. J isso  pouco procedente com relao ao seu irmo, que parecia 
um parvenu.
         21 de dez. - Tem-se identificado com sua me em seu comportamento e nas transferncias em tratamento. Comportamento: - Tolas observaes durante todo o 
dia, esforando-se para dizer coisas desagradveis a todas as suas irms, comentrios crticos a respeito de sua tia e de sua prima. Transferncias: - Teve a idia 
de dizer que no me entendia, e teve o pensamento de que `20 kronen so suficientes para o Parch'. Confirmou minha construo dizendo que usava, de modo idntico 
a sua me, as mesmas palavras a respeito da famlia de sua prima. Parece provvel que ele tambm se est identificando com sua me nas crticas que ele faz a respeito 
de seu pai e, portanto, prossegue com as diferenas entre os seus pais, que tem dentro de si. Em um (antigo) sonho que me contou, fez um paralelo direto entre as 
suas razes de odiar o seu pai e as razes de sua me: - Seu pai tinha regressado. Ele no ficou surpreso com isso. (Fora de seu desejo.) Ficou grandemente satisfeito. 
Sua me disse em tom de censura: `Friedrich, porque se passou tanto tempo depois que soubemos de voc a ltima vez?' Ele pensou que teriam, em ltima anlise, de 
reduzir as despesas, de vez que ento estaria morando na casa mais uma pessoa. Esse pensamento constitua vingana contra seu pai que, conforme lhe haviam contado, 
se desesperara com o seu nascimento, como sempre ficava com a vinda de um novo beb. Havia algo mais por trs disso, ou seja, que seu pai gostava que lhe pedissem 
permisso, como se quisesse abusar de seu poder, embora talvez estivesse, de fato, apenas desfrutando o sentimento de que tudo provinha dele. A queixa de sua me 
remontou a uma de suas histrias, a de que, certa vez, encontrando-se ela no campo, ele escrevia to poucas vezes, que ela voltou a Viena para ver o que se passava. 
Com outras palavras, uma queixa de no ser bem tratada.
         23 de dez. - Muitssimo aborrecido porque o Dr. Pr. caiu enfermo novamente. O carter do Dr. Pr.  semelhante ao de seu pai - um homem distinto, malgrado 
sua rudeza. O paciente est passando pela mesma situao por que passou quando seu pai estava doente. Incidentalmente, a doena  a mesma - enfisema. Ademais, os 
seus remorsos esto em parte mesclados com sentimentos de vingana. Ele pode ver que isso se confirma, a partir de fantasias de que Pr. j est morto. A razo desses 
sentimentos pode estar no fato de ele ter sido censurado, no seio da famlia, por to longo tempo, por no haver insistido com fora suficiente em que seu pai se 
aposentasse do trabalho. A punio com ratos tambm se estende a Pr. Ocorreu-lhe que, poucos dias antes da morte de seu pai, Pr. disse que ele prprio estava doente 
e pretendia passar o caso para as mos do Dr. Schmidt. Evidentemente porque era um caso irremedivel, que o afetava fundamentalmente em virtude de sua amizade ntima. 
Naquela ocasio o paciente pensara `Os ratos esto abandonando o navio que naufraga'. Tinha a noo de que seu desejo era matar Pr. e de que podia conserv-lo vivo 
- uma idia da sua onipotncia. Pensou que um de seus desejos realmente havia mantido viva a sua prima, em duas ocasies. Uma dessas foi no ano passado, quando ela 
sofria de insnia e ele no se deitou a noite inteira; e ela, naquela noite, realmente dormiu melhor pela primeira vez. A outra ocasio foi quando ela sofria de 
seus ataques; sempre que estava prestes a cair num estado de insensibilidade, ele era capaz de mant-la acordada, dizendo alguma coisa que fosse do interesse dela. 
Ela reagiu, tambm, s suas observaes mesmo encontrando-se nesse estado.
         Qual a origem da sua idia de uma sua onipotncia? Acredito que a data dessa origem remonta  primeira morte ocorrida em sua famlia, a de Katherine - da 
qual ele tivera trs lembranas [ver em [1]]. Ele corrigiu e ampliou a primeira delas. Ele a via sendo levada para a cama, no por seu pai, e antes que se soubesse 
que ela estava doente. Pois seu pai estava ralhando e ela era levada para longe da cama de seus pais. Por muito tempo ela esteve se queixando de sentir-se cansada, 
fato a que no se deu ateno. Contudo, certa vez quando o Dr. Pr. a examinava, ele empalideceu. Diagnosticou um carcinoma (?), do qual ela faleceu posteriormente. 
Enquanto eu discutia as razes possveis de ele se sentir culpado pela morte da irm, ele adotou um outro ponto de vista, tambm importante, porque aqui, alis, 
ele no se tinha lembrado previamente de sua idia de onipotncia. Quando tinha vinte anos de idade, eles empregaram uma costureira, a quem ele fez, vrias vezes, 
propostas amorosas, mas com quem realmente no se importava, pois ela fazia exigncias e tinha excessivo desejo de ser amada. Ela se queixou de que as pessoas no 
gostavam dela; pediu que ele lhe garantisse que gostava dela, e desesperou-se quando ele a recusou cabalmente. Poucas semanas depois, ela se atirou da janela. Ele 
disse que ela no o teria feito se ele tivesse aderido  liaison. Por conseguinte, a onipotncia de uma pessoa manifesta-se quando ela d ou nega o amor de algum, 
na medida em que a pessoa tem o poder de tornar algum feliz.
         No dia seguinte, ele ficou surpreso por no ter tido remorso aps fazer essa descoberta; mas refletiu que este, de fato, j estava ali instalado. (Excelente!)
         Props, a seguir, fazer um relato histrico de suas idias obsessivas. A primeira idia, teve-a em dezembro de 1902, quando de repente pensou que precisava 
prestar os seus exames em uma determinada poca, janeiro de 1903, e que ele cumpriu. (Depois da morte da sua tia e de suas autocensuras em virtude das severas crticas 
de seu pai.) Ele entende perfeitamente esse fato como sendo uma tarefa adiada. Seu pai estivera sempre aborrecido com ele no ser laborioso. Conseqentemente, era 
sua idia que, estivesse vivo seu pai, ele estaria magoado com sua ociosidade; a mesma coisa ocorre agora como fato procedente. Indiquei-lhe que essa tentativa de 
negar a realidade da morte de seu pai  a base de toda a sua neurose. Em fevereiro de 1903, depois da morte de um tio para com quem ele era indiferente, houve um 
novo desencadeamento de autocensuras por haver dormido pela noite afora [a da morte de seu pai]. Desespero extremo, idias de suicdio, horror com o pensamento de 
sua prpria morte. O que significava morrer?, ele queria saber. Era como se o som da palavra devesse dizer-lhe o qu. Deve ser assustador no ver ou ouvir ou sentir 
mais nada! Deixou totalmente de observar essa sua concluso equivocada e evadiu-se a esses pensamentos admitindo que  preciso existir um outro mundo, o prximo, 
e uma imortalidade. No vero do mesmo ano, 1903, quando atravessava de barco o Mondsee, teve a sbita idia de pular dentro d'gua. Voltava, com Julie, de uma visita 
paga ao Dr. E., por quem ela estava apaixonada. Enquanto pensava sobre o que ele faria por seu pai, comeou com essa idia hipottica, que lhe adveio: `se voc tivesse 
de se atirar na gua a fim de que nenhum dano sobreviesse a ele...'; esta imediatamente se acompanhou de uma ordem positiva [para a mesma finalidade]. Era, mesmo 
nas frases reais que continha, uma idia anloga s suas reflexes, antes da morte de seu pai, quanto a saber se ele abdicaria de tudo para salv-lo. Da algum paralelo 
com sua prima, que pela segunda vez o tratara mal, naquele vero. Sua fria contra ela fora impressionante; ele lembra, de repente, haver pensado que, estando ele 
sentado no div, `ela  uma prostituta', fato que lhe causou profundo horror. J no mais duvida de que tinha de se penitenciar por tais sentimentos de raiva contra 
seu pai. Naquela ocasio seus receios j oscilavam entre seu pai e sua prima (`prostituta' parece implicar uma comparao com sua me). A ordem de saltar para dentro 
d'gua, portanto, s pode ter partido de sua prima - ele era seu amante frustrado.
         27 de dez. - Comeou fazendo uma correo. Foi em dezembro de 1902 quando contou a sua amiga as suas autocensuras. Prestou os exames em janeiro e, na ocasio, 
no deu uma data fixa, como havia pensado equivocadamente; isso no se passou antes de 1903, sendo julho o ms exato.
         Na primavera [?1903] sentiu violentas autocensuras (por qu?). Um pormenor trouxe a resposta. De repente caiu de joelhos, evocou sentimentos piedosos e 
teve a resoluo de acreditar no outro mundo e na imortalidade. Isso envolvia cristianismo e freqncia  igreja em Unterach [cf. em [1]], aps haver chamado sua 
prima de prostituta. Seu pai jamais consentira ser batizado, contudo lamentava muito o fato de seus ancestrais no o haverem poupado desse desagradvel negcio. 
Muitas vezes ele dissera ao paciente que no fazia nenhuma objeo se ele quisesse tornar-se cristo. Ser, perguntei, que, talvez, uma jovem crist houvesse aparecido 
precisamente como uma rival de sua prima? `No.' `Os Rubensky so judeus, no?' `Sim, e professam o seu judasmo.' De fato, se ele se tornasse cristo significaria 
o fim de todo o esquema R. Repliquei: Assim, haver-se ajoelhado deve ter sido um ato dirigido contra o esquema R., e ele, portanto, deve ter sabido desse plano antes 
da cena da genuflexo. No pensou seno em admitir que havia alguma coisa da qual no tinha uma explicao. Aquilo de que concludentemente se lembrava era da iniciao 
do esquema - ir com seu primo (e futuro cunhado) Bob St. visitar os R., mencionando-se o plano de que eles estavam estabelecidos nas proximidades do Mercado do Gado, 
St. como advogado e ele como seu escrevente. St. xingou-o por causa disso. No decorrer da conversa ela havia dito `Cuide bem de estar pronto para a ocasio'.  bem 
possvel que sua me lhe tivesse contado a respeito do esquema, alguns meses antes.
         Disse-me que na primavera de 1903 tinha sido relaxado nos estudos. Fez um horrio, mas estudava apenas de noite, at meia-noite ou uma hora. Lia, ento, 
horas a fio, mas no compreendia nada. A essa altura interpolou a recordao de que, em 1900, fizera o juramento de jamais se masturbar novamente - o nico de que 
se recorda. Nessa ocasio, porm, costumava, aps a leitura, iluminar bastante o hall e o banheiro, tirar a roupa e mirar-se diante do espelho. Tinha alguma preocupao 
com relao a saber se seu pnis era muito pequeno, e realizando esses atos conseguia a ereo a um certo grau, que lhe devolvia a segurana. s vezes tambm colocava 
um espelho entre as pernas. Alm disso, costumava ento tambm ter a iluso de que algum batia  porta da rua. Achava que era seu pai tentando entrar no apartamento, 
e que, no estando aberta, ele veria que no era desejvel e se retiraria. Pensava que ele vinha quase sempre e batia  porta. Continuou com esse ato, at que afinal 
ficou assustado com a natureza patolgica dessa idia, libertando-se dela mediante o pensamento: `se eu fizer isso, vai magoar meu pai'.
         Tudo isso era algo desconexo e inintelgivel.  oportuno supormos que ele, por razes de superstio, aguardava uma visita de seu pai entre meia-noite e 
uma hora, e que, assim, procurou estudar  noite de modo que seu pai viesse a ter com ele enquanto estudava; mas tambm que, ento - aps um destacado intervalo 
de tempo e um   [ ] de incerteza sobre o tempo -, ele realizava aquilo que ele prprio encarava como um substituto para a masturbao, desafiando assim o seu pai. 
Confirmou o primeiro desses pontos e, no que concerne ao segundo, disse que sentia como que este estivesse relacionado com alguma obscura lembrana da infncia, 
a qual, contudo, no emergiu.
         Na noite anterior em que ele partiu para o campo, no incio ou em meados de junho, ocorreu a cena de despedida com sua prima que viera para casa com X., 
na qual sentiu que fora repelido por ela. Nas primeiras semanas de sua estada em Unterach ele esquadrinhou as rachaduras na parede da cabina de banho, vendo atravs 
delas uma menina despida. Suportou as mais aflitivas autocensuras, curioso por saber como ela se sentiria se soubesse que estava sendo espiada.
         Esse consecutivo relato de eventos acabou com qualquer referncia a acontecimentos correntes.
         28 de dez. - Ele estava com fome e foi alimentado.
         Continuao de sua histria. Compulso em Unterach. De repente ocorreu-lhe que precisa ficar mais magro. Comeou a levantar-se da mesa - naturalmente deixava 
a sobremesa - e correr para l e para c, no sol, at ficar pingando de suor. Fazia ento uma pausa e, a seguir, voltava de novo a correr. Subia montanhas correndo 
tambm desse mesmo modo.  beira de um ngreme precipcio teve a idia de saltar por cima dele.  natural que isso poderia significar a sua morte. Passou para uma 
lembrana de seu servio militar. Durante aquele tempo, ele no havia achado fcil escalar montanhas. Durante as manobras de inverno no Exelberg ele se atrasou, 
e tentou acelerar, imaginando que sua prima estava no alto da montanha esperando por ele. Isso, contudo, teve um resultado frustrado e ele continuou atrasando-se, 
at que se achou entre os homens que se haviam prostrado. Pensou que durante o seu servio militar - no ano em que morreu seu pai - as suas primeiras obsesses eram 
todas hipotticas: `Se voc tivesse de cometer alguma insubordinao.' Imaginou situaes, como mensurar o amor que sentia por seu pai. Se estivesse marchando nas 
fileiras e visse seu pai cair diante de seus olhos, ser que lhe sucederia subir correndo at ele, a fim de ajud-lo? (Recordao de seu pai embolsando seus ganhos 
e correndo para alcanar) [ver em [1]]. A origem de sua fantasia estava em passar por sua casa, em marcha, vindo da caserna. Durante as primeiras semanas difceis 
aps a morte de seu pai, fora incapaz de ver o seu pessoal, pois, naquela ocasio, estava confinado  caserna por 3 semanas. No se deu bem no exrcito. Era aptico 
e ineficiente, e tinha um tenente que era um valento e que lhes batia com a lmina deitada da espada se eles deixavam de executar determinados movimentos. Recordao 
de que certa vez St. ficou to nervoso a ponto de dizer `Podemos nos arranjar sem a espada, senhor'. O homem contraiu-se, mas logo veio ter com ele e disse: `Da 
prxima vez vou trazer um chicote de cocheiro'. O paciente teve de reprimir boa parte da raiva que sentiu com esse fato; teve algumas fantasias de desafi-lo para 
um duelo, contudo abandonou a idia. De uma outra forma estava contente porque seu pai no era mais vivo. Como um velho soldado, ele teria ficado muitssimo aborrecido. 
Seu pai lhe havia fornecido uma apresentao. Quando o paciente lhe mostrou uma lista dos oficiais a quem estava subordinado, seu pai reconheceu um dos nomes - o 
filho de um oficial sob cujo comando ele prprio havia servido - e escreveu para ele. Seguiu-se uma histria sobre o pai desse oficial. Certa ocasio, em Pressburg, 
no podendo o trem entrar na estao em virtude de uma forte nevasca, o pai do paciente armou de ps os judeus, embora lhes fosse, via de regra, proibido o acesso 
ao mercado. O oficial encarregado da intendncia, na ocasio, chegou at ele, dizendo `Muito bem, meu velho camarada, foi um bom trabalho', ao que seu pai retrucou 
`Seu vagabundo! Voc est me chamando de "velho camarada" porque eu ajudei voc, mas no passado voc me tratou de modo muito diferente.'
         (Existe, evidentemente, um esforo de agradar a seu pai com o ato de correr.)
         Uma outra compulso em Unterach, sob a influncia do fato de ser repudiado por sua prima: compulso de conversar. Via de regra, ele no conversa muito com 
sua me, porm acaba de forar-se a conversar incessantemente com ela, enquanto passeavam juntos. Passava de um assunto para outro e falou uma poro de bobagens. 
Falava disso ou daquilo como se fosse algo de interesse geral; contudo, o exemplo que ele deu mostrou que a coisa partiu de sua me. - Uma obsesso vulgar de contar, 
isto , contar at 40 ou 50 entre o trovo e o relmpago [ver em [1]]. - Uma espcie de obsesso por proteger. Quando estava com ela num barco, sob um forte vento, 
ele precisou de cobrir a cabea dela com o seu casquete. Era como se ele tivesse uma ordem de que nada deveria acontecer a ela. - Obsesso por compreender. Forou-se 
a compreender cada slaba que lhe diziam, como se estivesse a perder algum precioso tesouro. Conseqentemente, ficava perguntando: `Que foi que voc disse!'; e quando 
era repetido, parecia-lhe que a comunicao soava diferente na primeira vez que fora dita, e ele achara muita graa.
         Esse material carece de ser relacionado com sua prima. Ela lhe havia explicado que aquilo que ele tinha encarado como um desencorajamento imposto a ele, 
fora, na realidade, uma tentativa, da parte dela, de proteg-lo do ato de ele parecer ridculo s vistas de X. Essa explicao deve ter alterado fundamentalmente 
a situao. A obsesso de proteger evidentemente expressava remorso e penitncia. A obsesso por compreender tambm regrediu  mesma situao; por que foram essas 
palavras dela que tinham sido to preciosas para ele. Realmente, ele no tivera essa ltima obsesso antes da chegada de sua prima.  fcil compreender o modo como 
ela se tornou generalizada. As outras formas de obsesso tinham estado presentes antes do claircissement com sua prima, conforme ele se recorda. Sua ansiedade de 
contar durante as tempestades com trovoadas tinha a natureza de um orculo e aponta em direo a um medo da morte - o nmero de anos que ele iria viver. Alis, correr 
no sol encerrava algo de suicida, em virtude de seu infeliz amor. Ele confirmou tudo isso.
         Antes de deixar Unterach, contou a seu amigo Y. que tinha ento, uma sensao estranhamente definida de que ele no regressaria a Viena. Desde a sua infncia 
fizera-se ntimo de claras idias de suicdio. Por exemplo, quando vinha para casa com notas baixas em seu boletim escolar, que ele sabia que iria desgostar seu 
pai. Entretanto, certa vez, aos dezoito anos de idade, a irm de sua me os visitava. O filho dela havia-se suicidado com um tiro, dezoito meses antes, em virtude 
de um infeliz caso amoroso, conforme se dizia; e o paciente achou que era ainda por causa de Hilde, por quem o jovem estivera muito apaixonado em certa poca, que 
ele se suicidara. Essa tia parecia to infeliz e desanimada, que ele jurou a si prprio que, por bem de sua me, ele jamais se mataria, no importa o que lhe acontecesse, 
mesmo se estivesse desiludido de amor. Sua irm Constanze disse-lhe, depois de ele haver regressado da corrida: `Paul, voc vai ver, um dia desses voc vai ter um 
ataque.'
         Se  que ele tinha impulsos suicidas antes do claircissement, estes s podem ter sido autopunies por haver desejado, em sua raiva, que sua prima morresse. 
Dei-lhe para ler Joie de vivre, de Zola. 
         Ele continuou e me disse que no dia em que sua prima partiu de U. ele encontrou uma pedra na estrada e teve a fantasia de que a carruagem dela poderia bater 
na pedra, e ela, com isso, poderia sofrer alguma conseqncia sria. Portanto, ele a retirou do caminho, mas vinte minutos depois imaginou que isso era absurdo e 
voltou, a fim de recolocar a pedra em sua posio anterior. Assim temos aqui novamente um impulso hostil voltado contra sua prima, paralelamente a um impulso protetor.
         2 de dez. [? jan.]. - Interrupo devida  doena e morte do Dr. Pr. Ele o tratou como se fosse seu pai, chegando a ter relaes pessoais com ele, nas quais 
todas as espcies de elementos hostis vieram  tona. Desenhos com relao a ratos, derivados do fato de que ele era o mdico da famlia deles e recebia dinheiro 
pago por eles. `Tantos kreuzers, tantos ratos', dizia para si, enquanto punha dinheiro no prato de coleta no funeral. Identificando-se com sua me, ele at mesmo 
achava razes para um dio pessoal contra ele; pois ela o havia censurado por no haver persuadido seu pai a aposentar-se dos negcios. No caminho para o cemitrio, 
ele mais uma vez se viu sorrindo de um modo estranho, que sempre o perturbava quando participava de enterros. Mencionou tambm uma fantasia que consistia em o Dr. 
Pr. investir sexualmente sobre sua irm Julie. (Isso provavelmente era inveja pelos exames mdicos.) Passou para uma lembrana, de que seu pai deve ter cometido 
algum ato com relao a ela, quando ela tinha dez anos de idade, o qual ela no deveria ter praticado. Ouviu gritos que provinham da sala, ento seu pai saiu e disse: 
`Essa menina tem uma bunda que nem pedra.' Fato bastante estranho, sua crena de que ele realmente nutria sentimentos de raiva contra seu pai no fez progresso algum, 
apesar de ele verificar que existia uma razo lgica qualquer para supor que possua esses sentimentos.
         Em conexo com esse fato, embora no se saiba em que ponto no esteja claro, existia uma fantasia de transferncia. Entre duas mulheres - minha esposa e 
minha me - foi estirado um arenque, desde o nus de uma at o nus da outra. Uma menina cortava-o em dois, e depois de cortado os dois pedaos caram (como se tivessem 
sido descascados). Tudo quando foi capaz e dizer, a princpio, foi que detestava grandemente arenques; h pouco [cf. em [1]], quando se alimentou, haviam-lhe dado 
um arenque e ele o deixou intocado. A menina tratava-se de algum que ele vira nas escadas e que ele tomava por minha filha de doze anos.
         2 de jan. [1908]. - (Expresso indisfarada.) Ele estava surpreso por ter ficado to zangado hoje de manh, quando Constanze o convidara para ir ao jogo 
com ela. Ele logo desejou os ratos para ela e ento comeou a ter dvidas com respeito a saber se ele iria ou no, e qual das duas decises iria dar motivo para 
uma compulso. O convite dela impediria um encontro com a costureira e uma visita a fazer a sua prima que est doente (essas foram suas prprias palavras). Sua depresso, 
hoje, sem dvida se deve  doena de sua prima.
         Alm disso, aparentemente tinha ele apenas banalidades para relatar, e eu era capaz de lhe dizer bastante coisas, hoje. Enquanto desejava os ratos para 
Constanze, sentiu que um rato lhe roa o nus e teve uma imagem visual do fato. Estabeleci uma conexo que lana nova luz a respeito dos ratos. Em ltima anlise, 
ele tivera vermes. Que foi que lhe deram a fim de combat-los? `Comprimidos.' Enemas, tambm no? Achou que se lembrava de haver, com certeza, recebido enemas tambm. 
Assim sendo, sem dvida ele deve ter-se oposto energicamente contra eles, de vez que por trs deles existe um prazer reprimido. Tambm concordou com isso. Antes 
disso ele deve ter sentido, por algum tempo, comiches em seu nus. Eu lhe disse que a histria acerca do arenque me lembrava muito dos enemas. (Um pouquinho antes 
ele havia usado a frase `wchst ihm zum Hals heraus'. [`Ele estava chateado com isso.' Literalmente: `a coisa foi crescendo pela sua garganta'.]) Ele no tivera 
outros vermes alm desses - solitrias - pelos quais as pessoas lhe do arenques, ou no tinha ouvido falar disso, pelo menos? Ele no pensava assim, mas continuou 
com a idia dos vermes. (Quando estava em Munique, encontrou uma grande lombriga /round-worm/ em suas fezes, depois de ter tido um sonho em que estava de p num 
trampolim que girava com ele em crculo. Isso correspondia aos movimentos do verme. Tinha um apelo irresistvel para defecar imediatamente aps despertar.) Certa 
vez, aos dez anos, viu seu primo, ainda menino, defecar, e este lhe mostrou um verme grande que estava em suas fezes; ele ficou muitssimo enojado. A isso associou 
aquilo que descreveu como o maior susto de sua vida. Tinha ele um pouco menos de seis anos de idade, sua me tinha um passarinho empalhado que fazia parte de um 
chapu, que ele pediu emprestado para brincar. Quando corria com ele nas mos, as asas mexeram-se. Ficou horrorizado, com o passarinho haver revivido, e o atirou 
no cho. Imaginei a conexo com a morte de sua irm - certamente essa cena ocorreu mais tarde - e mostrei como o fato de ele haver pensado nisso (acerca do passarinho) 
facilitou sua crena, mais tarde, na ressurreio de seu pai.
         Como no reagiu a isso, dei-lhe uma outra interpretao, ou seja, a de uma ereo causada pela ao de suas mos. Tracei uma correlao com a morte deduzindo-a 
do fato de ele haver sido ameaado com a morte num perodo pr-histrico, caso ele se tocasse e provocasse uma ereo de seu pnis; e sugeri que ele atribua a morte 
de sua irm  masturbao que ele praticava. Penetrou no assunto at o ponto de se admirar com jamais haver conseguido masturbar-se na puberdade, malgrado ter ele 
sido incomodado com erees to constantes como essas, mesmo quando criana. Descreveu uma cena na qual realmente mostrou uma ereo  sua me. Recapitulou sua sexualidade, 
ela consistia no fato de ele haver-se contentado com simplesmente olhar para [Frulein] Peter e para outras mulheres. Sempre que pensava numa mulher atraente, sem 
roupas, ele tinha uma ereo. Uma ntida recordao de estar na piscina de mulheres e de ver duas meninas de doze e treze anos, cujas coxas lhe agradavam tanto, 
que ele teve um desejo definido de ter uma irm com umas coxas to bonitas como essas. Seguiu-se, ento, um perodo homossexual com amigos masculinos; contudo, nunca 
houve contato mtuo, apenas olhar e um prazer enorme que extraa disso. O olhar substituiu, nele, o tocar. Lembrei-lhe as cenas em frente do espelho, depois de ele 
haver estudado  noite [ver em [1]], nas quais, conforme a interpretao, ele se masturbara em desafio a seu pai, aps estudar a fim de agrad-lo - exatamente da 
mesma forma que o seu `Deus o proteja' se acompanhava de um `no'. Deixamos a coisa nesse ponto. 
         
         Continuando, contou-me o sonho com o verme, que tivera em Munique, e ento me deu algumas informaes a respeito de sua rpida defecao pela manh, relacionada 
com sua fantasia de transferncia sobre o arenque. Como associao  menina que realizou a difcil tarefa [de cortar em dois o arenque] com `suave virtuosidade', 
ele pensou em Mizzi Q., uma encantadora menina que tinha oito anos quando ele conheceu boa parte de sua famlia, e antes que ele prprio obtivesse seu grau de doutor. 
Ele tomava o trem das 6 da manh para Salzburg. Estava muito irritadio porque sabia que logo iria querer defecar; e quando, com efeito, sentiu muita vontade, pediu 
desculpas e, na estao, saiu. Perdeu o trem, e Frau Q. apanhou-o no momento em que ele ajustava as suas roupas. Todo o resto do dia ele se sentiu envergonhado diante 
dela. Nesse ponto, pensou num touro, e ento interrompeu. Passou a fazer uma associao ostensivamente irrelevante. Numa conferncia proferida por Schweninger e 
Harden, ele encontrou o Professor Jodl, a quem muito admirava naquele tempo, e de fato trocou com ele algumas palavras. Mas Jodl representa touro, como ele sabe 
muito bem. Schnthan escrevera um artigo por aquela poca, descrevendo um sonho no qual ele era Schweninger e Harden agrupados num s, sendo pois capaz de responder 
a todas as perguntas que se lhe faziam, at que algum lhe perguntou por que os peixes no tm cabelo. Ele suou de medo, at que lhe acudiu uma resposta, e disse 
que naturalmente se sabia bem com que grande intensidade as escamas interferem no crescimento de cabelos, sendo essa a razo por que os peixes no podiam t-los. 
Foi isso que determinou o aparecimento do arenque na fantasia de transferncia. Certa vez, quando me contara que sua jovem se havia deitado de bruos e os cabelos 
do seu genital estavam visveis por detrs, eu lhe disse que era uma pena que hoje em dia as mulheres no tenham cuidado com eles e falavam deles como algo sem graa: 
por esse motivo ele cuidou de que as duas mulheres [na fantasia] estivessem sem cabelo.
         Minha me parece ter representado a av dele, que ele mesmo jamais conhecera; ele, contudo, pensava era na av de sua prima. Uma casa administrada por duas 
mulheres. Quando eu lhe trouxe alguma coisa para comer, imediatamente pensou que fora preparada por duas mulheres [ver em [1]].
         
         3 de jan. - O rato, sendo um verme,  tambm um pnis. Resolvi contar-lhe isto. Assim sendo, a sua frmula  simplesmente manifestao de um mpeto libidinal 
em direo  relao sexual - um mpeto caracterizado tanto pela raiva como pelo desejo, e expresso em termos arcaicos (retornando  teoria sexual da infncia sobre 
a relao atravs do nus). Esse mpeto libidinal  to bilateral como a maldio dos eslavos meridionais sobre foder pelo cu [ver em [1]]. Antes disso ele me disse, 
bastante animado, a soluo da ltima fantasia. Era a minha cincia a criana que resolveu o problema com a alegre superioridade de uma `virtuosidade sorridente' 
e retirou os disfarces de suas idias, liberando as duas mulheres dos desejos de arenque.
         Aps contar-lhe que o rato era um pnis, por intermdio de vermes (ponto em que ele logo interpolou `um pequeno pnis') - rabo de rato - rato, ele apresentou 
um fluxo inteiro de associaes, nem todas fazendo parte do contexto, sendo que a maioria delas provinha do lado da estrutura pleno de desejo. Produziu alguma coisa 
com referncia  pr-histria da idia acerca de ratos, a qual ele sempre havia considerado como relacionada com esta. Alguns meses antes de se formar a idia sobre 
ratos, ele encontrou uma mulher, na rua, a quem logo reconheceu como uma prostituta ou, de qualquer modo, como algum que teve relaes sexuais com o homem que estava 
com ela. Ela sorriu de uma maneira peculiar e ele teve a estranha idia de que sua prima estava dentro do corpo dela e de que os genitais dela estavam colocados 
atrs dos genitais da mulher, de tal forma que, da, ela extraa algum proveito, um pouco, sempre que a mulher copulava. Sua prima, dentro da mulher, foi-se enchendo, 
crescendo, at que ela a explodiu. Naturalmente isso apenas pode significar que a mulher era a me dela, a tia Laura do paciente. Desses pensamentos, que faziam 
dela uma pessoa no muito melhor do que uma prostituta, ele, afinal, passou para o irmo dela, seu tio Alfred, que a insultou abertamente dizendo `Voc empoa o rosto 
como uma chonte'. Esse tio morreu em terrvel sofrimento. Segundo a sua inibio ele se assustava com a ameaa de que seria punido da mesma maneira por causa desses 
seus pensamentos. Seguiram-se diversas idias de haver realmente desejado que sua prima tivesse relaes sexuais; isto fora antes da teoria dos ratos com a sua forma 
ocasional de ter de atac-la com ratos. Ademais, tambm determinado nmero de conexes com dinheiro, e a idia de que sempre fora seu ideal estar em situao de 
uma disposio sexual mesmo imediatamente aps haver copulado. Porventura no estava ele pensando numa transposio para o prximo mundo? Dois anos aps a morte 
de seu pai, sua me lhe contou que ela jurara, junto ao tmulo de seu pai, que ela, em futuro imediato, iria recolocar, economizando, o capital que fora gasto. Ele 
no acreditava que ela tivesse feito o juramento contudo era esse o motivo principal de ele prprio economizar. Portanto, jurara (em sua maneira habitual) que no 
gastaria mais de 50 florins por ms, em Salzburg. Mais tarde, tornou insegura a incluso das palavras `em Salzburg', de modo que jamais viesse a ser capaz de gastar 
mais, e jamais ser capaz de se casar com sua prima. (Como a fantasia do arenque, isto poderia reportar-se, por via de tia Laura,  corrente hostil de sentimentos 
voltada para sua prima.) Teve, contudo, uma outra associao, segundo a qual ele no precisava casar com sua prima caso ela apenas se oferecesse a ele sem casamento, 
e em troca, opondo-se a isto, a objeo de que, assim sendo, ele teria de pagar com florins por toda cpula, como fazia com a prostituta. Voltou, pois, ao seu delrio 
de `tantos florins, tantos ratos', ou seja: `tantos florins, tantos rabos (cpulas').
         Naturalmente toda a fantasia sobre prostituta retrocede at sua me - as sugestes feitas, quando ele tinha doze anos, por seu primo que, com malcia, lhe 
disse que a me dele era uma prostituta, e fazia sinais como se fosse uma [ver em [1]]. Os cabelos de sua me so agora muito finos, e enquanto ela os penteia ele 
costuma pux-los e cham-los de rabos de rato. - Quando era criana, ocorreu sua me, estando certa vez na cama, mexer-se descuidada e lhe mostrar o traseiro; e 
ele imaginou que o casamento consistia em as pessoas mostrarem umas s outras as suas ndegas. Durante as brincadeiras homossexuais com seu irmo, ficou certa vez 
horrorizado quando, pulando juntos na cama, o pnis de seu irmo ficou em contato com seu nus.
         4 de jan. - Animado. Numerosas outras associaes, transferncias etc., as quais no interpretamos logo. Em relao com a criana (minha cincia) que esclareceu 
a difamao com o arenque, ele teve uma fantasia de beij-lo, e, depois, de seu pai despedaar uma vidraa. Mantendo-se nessa idia, contou-me uma histria que forneceu 
uma razo para o seu ressentimento contra seu pai. Quando matou a sua primeira aula de Escritura, na escola secundria, e desajeitadamente negou esse fato, seu pai 
ficou muito irritado, e quando o paciente se queixou de Hans haver batido nele, disse seu pai `Est muito bem; d um chute nele'. Outro caso de chutes, a respeito 
do Dr. Pr. O cunhado do paciente, Bob St., hesitou por muito tempo entre Julie e a filha do Dr. Pr., cujo nome de casada , hoje, Z. Quando foi preciso tomar uma 
deciso, ele foi chamado a uma reunio em famlia e ele aconselhou que a jovem, que o amava, iria fazer-lhe a pergunta direta, quanto a saber se era sim ou no. 
O Dr. Pr. disse [a ela]: `Muito bem, se voc o ama, est tudo bem. Mas se hoje  noite' (depois do encontro com ele) `voc puder me mostrar a marca do traseiro dele 
na sola do seu sapato, eu lhe darei um abrao bem apertado.' Ele no gostava do outro, contudo. De repente ocorreu ao paciente que essa histria de casamento estava 
intimamente ligada com a sua prpria tentao de Rub. A esposa de Pr. era uma Rubensky de nascimento, e se Bob se tivesse casado com sua filha ele teria sido o nico 
candidato ao sustento da famlia Rubensky. Dando posseguimento ao assunto sobre o seu cunhado Bob, ele [o paciente] disse que [Bob] tinha muito cime dele. Ontem 
aconteceram cenas com sua irm, nas quais ele dissera isso abertamente. Os prprios criados disseram que ela o amava e beijava-o [o paciente] como a um amante, no 
como um irmo. Ele prprio, aps ter estado por um momento no quarto contguo com a sua irm, disse ao seu cunhado: `Se Julie tiver uma criana dentro de 9 meses, 
voc no precisa achar que sou o pai dela; sou inocente.' Ele j tinha pensado na necessidade de se comportar realmente mal, de modo que sua irm no teria motivo 
para preferir a ele, fazendo uma escolha entre marido e irmo.
         Antes disso, eu lhe havia contado, de feio a esclarecer uma transferncia, que ele desempenhava o papel de um homem mau com relao a mim - quer dizer, 
o papel de seu cunhado. Eu lhe disse que isso significava ele lamentar no ter Julie por sua esposa. Essa transferncia foi seu derradeiro delrio com respeito a 
se comportar mal, e ele o revelou de maneira muito confusa. Nessa transferncia pensou que eu tirara algum proveito da refeio que lhe dera [ver em [1]]; isso porque 
ele tinha gasto tempo comendo e o tratamento assim iria durar mais tempo. Ao me entregar o pagamento pelas consultas, ocorreu-lhe a idia de que tambm teria de 
me pagar pela refeio, ou seja umas 70 kronen. Isso derivava de uma farsa num music-hall de Budapest, na qual um frgil noivo oferecia a um garom 70 kronen para 
ele realizar, em seu lugar, a primeira cpula com a noiva. 
         
         Havia sinais de que ele receava que os comentrios feitos por seu amigo Springer a respeito do tratamento pudessem torn-lo antagnico com relao a este. 
Ele disse que toda vez que eu louvava alguma de suas idias ele sempre ficava muito contente; mas que uma outra voz passava a dizer `Eu no ligo a mnima pelo elogio', 
ou ento, mais indisfaradamente: `Estou cagando para isso'.
         O significado sexual de ratos no veio  baila, hoje. Sua hostilidade era, de longe, mais evidente, como se ele tivesse uma m conscincia a meu respeito. 
Os plos pbicos de sua jovem mulher recordavam-no da pele de um camundongo, e esse camundongo lhe parecia ter algo a ver com ratos. No entendia que esta  a significao 
do nome carinhoso `Mausi', que ele prprio emprega. Aos quatorze anos, um primo depravado mostrou seu pnis a ele e a seu irmo, e dissera `O meu mora num bosque' 
[``Meiner hauset in einen Vorwald'], mas achou que ele estava dizendo `camundoguinho'*[Mausel].
         6 e 7 de jan. - Sorria travesso, divertido, como se estivesse ocultando alguma coisa.
         Um sonho e algumas miudezas. Sonhou que foi ao dentista para extrair um dente cariado. Extraiu um, mas no era o dente certo, e sim um outro, prximo, que 
s estava um pouquinho ruim. Quando o dente saiu, ele ficou admirado com seu tamanho. (Dois adendos depois.)
         Tinha um dente cariado; no doa, contudo, s vezes ficava apenas um pouco sensvel. Foi ao dentista, certa vez, para que o obturasse. Mas o dentista disse 
no haver outra coisa a fazer seno extra-lo. De hbito ele no era medroso, mas se recolhia diante da idia de que, de um modo ou outro, a sua dor iria prejudicar 
sua prima; ento rejeitou que o extrassem. Sem dvida, acrescentou, tivera leves sensaes no dente, que acarretaram o sonho.
         Todavia, disse eu, os sonhos podem desprezar sensaes mais intensas do que estas, e at mesmo uma dor real. Conhecia ele o significado dos sonhos com dente? 
Lembrava-se vagamente de que tinha algo a ver com morte de parentes. `Sim, em certo sentido. Os sonhos com dente encerram uma transposio de uma parte inferior 
a uma parte superior do corpo.' `Como ?' `O uso lingstico iguala o rosto aos genitais.' `Contudo ali embaixo no existem dentes.' Eu o fiz ver que era precisamente 
a razo por que (e isso eu lhe disse tambm) arrancar um galho de uma rvore tem o mesmo significado. Ele disse que conhecia a expresso `humilhar algum'*. Porm, 
objetou, ele prprio no extraiu o dente, mas foi outro algum que o fizera. Admitiu que com a costureira sentiu a tentao de faz-la segurar seu pnis e soube 
como lev-lo a cabo. Quando lhe perguntei se ele j se sentia aborrecido com ela, retrucou `Sim', com espanto. Confessou que sentia o receio de ela o arruinar financeiramente 
e que lhe estava dando aquilo que de direito era devido  dama de seu amor. Revelou-se que ele se comportara com pouqussima cautela em matria de seu dinheiro. 
No vinha fazendo contas, de modo que no sabia quanto por ms ela estava custando a ele; tambm emprestara 100 florins ao seu amigo. Admitiu que eu o detivera no 
meio do caminho, para faz-lo desgostar-se de sua liaison e retomar a abstinncia. Eu disse que achava ser isto suscetvel de outras interpretaes, mas no lhe 
diria quais. Qual podia ser o significado de no ter sido o dente certo?
         7 de jan. - Ele prprio tinha a sensao de que sua doena dissimulada ocultava algo por trs de si. Novamente, tinha sido amvel com a costureira. Sua 
segunda cpula no logrou produzir ejaculaes; foi dominado pelo terror de que iria urinar em lugar de ejacular. Quando criana, no quinto ano da escola primria, 
um de seus colegas lhe contou que a reproduo entre os homens se efetuava `mijando' dentro da mulher. Ele havia esquecido o seu preventivo para a cpula. Busca 
claramente meios de estragar o seu caso (ter sentimentos desconfortantes?), ou seja, mediante coitus interruptus - impotncia.
         Ontem apresentou um adendo ao sonho. O dente no se parecia, em absoluto, com um dente, mas sim com um bulbo de tulipa [`Zwiebel'], ao qual forneceu a associao 
de rodelas de cebola [tambm `Zwiebel']. No aceitou as novas associaes de `orqudeas' - o seu criptorquismo [testculos no afundados, cf. em [1]] - operao 
de sua prima [cf. em [2]]. Em relao com a operao, contou-me que, naquela poca, estava fora de si, movido por cime. Quando estava com ela no sanatrio (em 1899), 
um jovem doutor a visitou, durante a sua ronda, e colocou sua mo na paciente, por debaixo do lenol. Ele no sabia se esse ato era algo correto, que se fazia. Quando 
soube como ela fora corajosa durante a operao, ele teve a tola idia de que fora assim porque ela adorava mostrar a beleza de seu corpo aos mdicos. Ele estava 
espantado por eu ter considerado essa idia to tola.
         Ouvira falar dessa beleza, ao apaixonar-se por ela em 1898, atravs de sua irm Hilde. Esse fato causava-lhe ainda mais impresso, de vez que a prpria 
Hilde tinha um corpo muito bonito. Essa pode ter sido a origem de seu amor. Sua prima compreendeu perfeitamente bem sobre o que eles conversavam e ficou ruborizada. 
A costureira T., que se suicidou, depois, disse saber que ele considerava sua prima, oficialmente, como a mais linda das mulheres, embora na realidade ele soubesse 
muito bem que havia outras, mais bonitas.
         Sim, o dente era um pnis, ele compreendeu. Ento havia mais outro adendo: o dente tinha pingado. - Est bem, mas qual era o significado de o dentista haver 
extrado o seu `dente'? S com dificuldade  que ele poderia ser levado a verificar ter sido uma operao para extrair a sua cauda. Foi a mesma coisa que ocorreu 
com o outro fato bvio - de que o pnis realmente grande s podia ser o de seu pai; afinal aceitou esse fato como um tu quoque e como uma vingana contra seu pai. 
Os sonhos tm grande dificuldade de revelar tais lembranas desagradveis.
         20 de jan. - Longa interrupo. tima disposio. Boa quantidade de material. Progressos. Nenhuma soluo. Uma explicao casual mostrou que correr pelo 
recinto de modo a evitar que fique gordo [`dick'] relacionava-se com o nome de seu primo americano Dick (apelido de Richard) - Passwort - a quem ele odiava [ver 
em [1]]. Contudo essa idia partiu de mim e ele no a aceitou. Cinco sonhos, hoje, quatro dos quais se referiam ao exrcito. O primeiro destes revelou uma raiva 
contida contra oficiais e seu autocontrole de no desafiar um deles por bater no traseiro do imundo garom Adolph. (Esse Adolph era ele prprio.) Isso levou at 
a cena com os ratos por via do pince-nez (pinas [`Kneifer']). Esse fato abordou uma experincia em seu primeiro ano na universidade. Um amigo desconfiou dele, de 
ele `morrer de medo' [`Kneifen'], porque havia deixado que um colega de escola o golpeasse no ouvido, desafiando este a um duelo, a um conselho jocoso de Springer, 
e nada ento fizera a seguir. Havia uma zanga suprimida contra seu amigo Springer, cuja autoridade se origina pois, desse fato, e contra um outro homem que o traiu 
e a quem, em troca, ele ajudara posteriormente  custa de sacrifcios. Assim encontramos uma supresso sempre crescente do instinto de raiva acompanhada por um retorno 
do instinto ergeno pela sujeira.
         [Aqui se interrompe o manuscrito.]
         
         
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       APNDICE: ALGUNS ESCRITOS DE FREUD QUE TRATAM DA ANSIEDADE E DAS FOBIAS EM CRIANAS E DA NEUROSE OBSESSIVA
         
         
         Os dois tpicos principais dos Casos Clnicos neste volume foram, naturalmente, abordados repetidamente por Freud. As relaes que se seguem, contudo, incluem 
algumas das principais passagens nas quais eles foram discutidos mais especificamente. A data do incio de cada item  a mesma do ano durante o qual o trabalho em 
questo provavelmente foi escrito. A data no final  a da publicao; e, sob essa data, encontram-se dados particulares mais completos sobre o trabalho na bibliografia 
que se segue.
         (A) ANSIEDADE E FOBIAS EM CRIANAS
         1909   `Anlise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos.' (1909b.)
         1913   Totem e Tabu (Ensaio IV, Seo 3). (1912-13.)
         1914   `Sobre o Caso de uma Neurose Infantil.' (1918b.)
         1917   Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise (Conferncias XXV). (1916-17.)
         1926   Inibies, Sintomas e Ansiedade (Captulos IV, VII e VIII). (1926d.)
         (B) NEUROSE OBSESSIVA
         1894   `As Neuropsicoses de Defesa' (Seo II). (1894a.)
         1895   `Obsesses e Fobias.' (1895c.)
         1895   Rascunho `K' (Correspondncia com Fliess). (1950a.)
         1896   `Novas Observaes sobre as Neuropsicoses de Defesa' (Seo II). (1896b.)
         1907   `Atos Obsessivos e Prticas Religiosas.' (1907b.)
         1908   `Carter e Erotismo Anal.' (1908b.)
         1909   `Observaes sobre um Caso de Neurose Obsessiva.' (1909d.)
         1912   Totem e Tabu (Ensaio II, Sees 2 e 3 (c), e Ensaio III, Sees 3 e 4). (1912-13.)
         1913   `Predisposio  Neurose Obsessiva.' (1913i.)
         1914   `Sobre o Caso de uma Neurose Infantil' (Seo VI). (1918b.)
         1916   `Um Paralelo Mitolgico com uma Obsesso Visual.' (1916b.)
         1917   Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise (Conferncia XVII) (1916-17.)
         1917   `Transformaes do Instinto conforme Exemplificado no Erotismo Anal.' (1917c.)
         1926   Inibies, Sintomas e Ansiedade (Captulos V e VI). (1926d.)



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 Duas histrias clnicas (O "Pequeno Hans" e o "Homem dos ratos") -  Sigmund Freud
